Boff, o ''inimigo'' de Ratzinger

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07 Abril 2014

“O poder doutrinal é cruel e sem piedade. Não esquece nada, não perdoa nada, exige tudo. E, para alcançar o seu fim – o enquadramento da inteligência teológica –, toma o tempo necessário e escolhe os meios oportunos.”

Publicamos aqui um trecho do livro-entrevista Tra eresia e verità, de Luigi Zoja e Leonardo Boff (Ed. Chiarelettere, 160 páginas).

Psicanalista e escritor italiano, Zoja estudou no Carl Gustav Jung Institute, de Zurique, e foi presidente da Associação Internacional de Psicologia Analítica.

O trecho foi publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 04-04-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Luigi Zoja – Em 1981, depois da publicação do seu livro Igreja: carisma e poder, começaram os problemas com o Vaticano. Ratzinger, que se tornou prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé nesse meio tempo, convocou você a Roma no dia 7 de setembro de 1984, para uma conversa esclarecedora sobre "alguns problemas que surgiram a partir da leitura do livro". Os pontos polêmicos diziam respeito essencialmente à estrutura da Igreja, à concepção do dogma e ao exercício do poder sagrado. Em março de 1985, a Congregação fez saber que as ideias expressadas no livro "são de tal natureza que põem em perigo a sã doutrina da fé" (...). Um endurecimento que se deveu à ascensão ao sólio pontifício de Karol Wojtyla?

Leonardo Boff – Ratzinger era muito amigo de Wojtyla (…). Quando Wojtyla se tornou papa, logo o criou cardeal e, no fim de 1981, chamou-o a Roma para assumir a presidência da Congregação para a Doutrina da Fé. Naquela ocasião, eu tinha lhe escrito uma carta para lhe expressar a minha alegria, porque, anos antes, na Alemanha, eu o tinha elogiado pelas suas ideias progressistas (…). Algum tempo depois, ele me escreveu para dizer que havia um processo pendente contra o livro Igreja: carisma e poder. Então eu pensei: "Ele mudou totalmente".

A carta tinha um tom imperioso: Ratzinger queria que eu fosse a Roma para defender o meu livro, que havia sido traduzido para várias línguas. Eu lhe perguntei se era um encontro informal ou oficial, e ele disse: "Não, é um processo doutrinal", e me enviou o texto da convocação. Eu tinha que responder ponto por ponto, por escrito, e depois preparar uma defesa oral. O encontro em Roma foi fixado para o dia 5 de setembro de 1984, mas naquele dia eu já tinha um compromisso com a associação das prostitutas, que tinham recebido o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil como vítimas de exploração. Eu escrevi a Ratzinger que não podia, ele me enviou um telegrama para me dizer que a Igreja devia vir acima de tudo, e eu respondi que, segundo as palavras de Jesus, as prostitutas têm a precedência no Reino dos céus. Então, mudamos a data do encontro para o dia 7 de setembro.

A convocação não era casual: uma semana antes do "diálogo" (eles o chamam assim, mas é um processo), Ratzinger tinha publicado o documento Libertatis nuntius contra a teologia da libertação. A condenação do meu livro era um pretexto para atacar a Conferência episcopal brasileira (...) os bispos faziam frente comum contra a ditadura militar e colaboravam com os teólogos. Eu assisti a uma discussão duríssima entre dois cardeais brasileiros e Ratzinger, que estava contrariado ao vê-los ao lado de um teólogo suspeito de relativismo doutrinal. Ele os chamou de Castor e Pólux, os dois gêmeos da mitologia grega, e eles responderam: "Mas nós somos cristãos, como Cosme e Damião, os gêmeos mártires venerados pela Igreja. Estamos aqui para testemunhar que a teologia da libertação é um bem para a comunidade na América Latina. Se houver erros, os corrigiremos, mas queremos estar com o nosso teólogo, porque não se trata só de Boff, mas de um movimento que inclui muitíssimas comunidades de base" (…).

Ratzinger disse que uma das suas funções como prefeito da Congregação era a de interrogar e não queria que os dois cardeais estivessem presentes, porque assumiriam a minha defesa (…). Em certo ponto, éramos três contra um, o pobre Ratzinger tremia, porque Arns lhe disse francamente: "Senhor cardeal, esse documento não representa a teologia da libertação que nós conhecemos. Vocês ouviram apenas a versão da burguesia conservadora e dos militares da América Latina, que nos acusam de marxismo". Ratzinger respondeu: "Consultamos muitos bispos que eram contrários, somos obrigados a lhes dar uma resposta", e Arns replicou: "São bispos que não têm nenhuma relação com as comunidades e nenhum senso de justiça social. Para nós é importante estar do lado dos pobres contra a pobreza e em favor da justiça".

Luigi Zoja – Vocês foram acusados de ser marxistas...

Leonardo Boff – Fomos acusados de utilizar a teologia da libertação como um cavalo de Troia para difundir o marxismo entre o povo e minar a fé. João Paulo II sempre dizia: "Eu conheço o marxismo". Como polonês, ele era profundamente anticomunista. (...) Para reforçar a sua virada conservadora, Wojtyla favoreceu também na América Latina a ascensão do Opus Dei, transformada em prelazia pessoal em 1982 (…), um projeto alinhado com as aspirações dos Estados Unidos, que apoiavam os regimes de direita em função anticomunista.

Luigi Zoja – Depois da condenação do seu livro, em 1985, você foi obrigado a observar um ano de "silêncio obsequioso". Você aceitou (…). Apesar disso, eu nunca ouvi nas suas palavras qualquer aversão por Ratzinger...

Leonardo Boff – É verdade, porque ele é uma pessoa finíssima, elegante, muito gentil. Nunca levanta a voz.

Luigi Zoja – É difícil conciliar essa imagem de cordialidade pessoal com a dureza disciplinar de Ratzinger e de Wojtyla.

Leonardo Boff – A minha experiência me levou a concluir que o poder doutrinal é cruel e sem piedade. Não esquece nada, não perdoa nada, exige tudo. E, para alcançar o seu fim – o enquadramento da inteligência teológica –, toma o tempo necessário e escolhe os meios oportunos. O aspecto divertido é que, no período em que eu fui obrigado a respeitar o "silêncio obsequioso", Fidel Castro me convidou para passar 15 dias com ele (…).

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