Quem está por trás da manobra contra Francisco. Artigo de Alberto Melloni

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30 Agosto 2018

“Atacar o Papa Francisco no fim da sua viagem irlandesa, seis dias após a carta ao povo de Deus, a um mês da retirada do barrete cardinalício de McCarrick, antes da chegada do novo substituto e do retorno do secretário de Estado, esconde um desígnio: que não tem nada a ver com a pedofilia, mas sim com a tentativa de soldar o integrismo antibergogliano com o fundamentalismo político católico.”

A opinião é do historiador italiano Alberto Melloni, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha. O artigo foi publicado por La Repubblica, 27-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O fato de que um velho prelado, furioso por não ter feito carreira, alimente ressentimento em relação ao papa é o “ABC” do catolicismo romano. O fato de ele usar os jornais para se vingar é um déjà vu, desde os tempos em que o cardeal Ottaviani confidenciou documentos a Indro Montanelli para difamar o Papa João XXIII. Portanto, o fato de que um núncio – Dom Carlo Maria Viganò – decida informar de modo pouco diplomático que o Papa Francisco teria ignorado as suas denúncias e lhe peça que renuncie não deveria surpreender.

De fato, é a confirmação de um dado preocupante. Na seleção dos candidatos ao episcopado, foram escolhidos homens desprovidos dos dotes espirituais e da estabilidade psicológica requeridos. Assim, entre aqueles que governaram as dioceses com os padres pedófilos, muitos se tornaram cúmplices de luvas brancas dos crimes. Entre aqueles que serviram à Santa Sé, alguns se revelaram homúnculos disponíveis a “joguinhos” como esse de Viganò, que, pela sua pontualidade sórdida e mafiosa, é impossível crer que não tenha sido planejado, orquestrado e temporizado. Não por ele, mas por alguém que escolheu fazer dele um Corvo de batina.

Escolha não casual. Em 1º de outubro de 2011, quando Bento XVI nomeou o cardeal Giuseppe Bertello como governador da Cidade do Vaticano, não lhe fez um favor: diplomata de imensa experiência, dotado de um tato político único na infinita crise italiana, Bertello tinha a estatura para fazer bem diferente.

Mas o papa – que preferia um amigo “confidente” a um secretário de Estado – conservou a lealdade do cardeal Bertone e “usou” Bertello para curar aquele último e comentado resíduo de poder temporal. Escolha inteligente: mas que cortava o caminho de Viganò, que, após um período na Nigéria e 10 anos na Secretaria de Estado em Roma, tinha passado justamente pela secretaria-geral do Governatorato, convencido de poder escalar a sua cúpula e se tornar cardeal.

Ainda na primavera de 2011, Viganò tinha farejado um ar de rebelião ao seu redor e escreveu aos superiores explicando que eles eram os culpados de uma má gestão, que queriam bloquear a carreira a que ele se sentia chamado e enviá-lo novamente a ser núncio, em uma sede de prestígio, mas longe da sua cobertura.

E, com efeito, em 19 de outubro de 2011, Bento XVI nomeou Viganò como núncio nos Estados Unidos. Cem dias depois, com a publicação daquelas suas cartas de acusação, começava a compra e venda de documentos do apartamento papal que recebeu o nome de Vatileaks.

Em Washington, no entanto, Viganò deve ter se consolado, pensando que Francisco o premiaria por aqueles seus passos. E dobrou a aposta, trazendo novas denúncias. Mas não: Francisco esperou que ele tivesse a idade para a aposentadoria, despediu-o do serviço e, em vez de lhe deixar o apartamento que o monsenhor tinha resguardado no Vaticano, informou-o que ele podia voltar para a diocese.

Haveria o suficiente para explicar um gesto vingativo, mas autodestrutivo (se Viganò sabia mais do que todos, mais do que todos se calou).

Mas o que está claro é que alguém fez de um frango um Corvo. Atacar o Papa Francisco no fim da sua viagem irlandesa, a seis dias após da carta ao povo de Deus, a um mês da retirada do barrete cardinalício de McCarrick, antes da chegada do novo substituto e do retorno do secretário de Estado, esconde um desígnio: que não tem nada a ver com a pedofilia, mas sim com a tentativa de soldar o integrismo antibergogliano com o fundamentalismo político católico. Isto é, o mundo dos tradicionalistas ligados ao cardeal Burke, que decidiu passar das dubia às calumniae, apostando na possibilidade de agir como bloqueio em um futuro conclave. E o mundo da “direita religiosa” estadunidense e europeia, que, a partir daquela grande mancha negra entre Munique e Budapeste, entre Gdańsk e Roma, sonha em desmantelar a Europa da paz para fazer com que ela retorne para a terra dos Deuses da Guerra.

Quem conferiu ao frango o papel de Corvo queria medir o efeito de uma tempestade midiática não contra Francisco, mas contra o Colégio Cardinalício, o episcopado, os teólogos. Depois, veremos...

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