Viganò sobre McCarrick, anos atrás: ''O senhor é muito amado por todos nós''

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30 Agosto 2018

Como núncio apostólico nos Estados Unidos, Carlo Maria Viganò não só concelebrava publicamente sem qualquer problema com o cardeal abusador Theodore McCarrick, mas também participava de jantares de gala em sua honra, apesar das supostas e duras sanções que Bento XVI teria imposto ao purpurado.

A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada em Vatican Insider, 29-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Com o passar das horas, não apenas a interpretação dos fatos, mas também alguns dos (supostos) fatos relatados por Viganò no seu surpreendente dossiê, com o pedido anexado de renúncia de Francisco, revelam-se pouco correspondentes com a realidade.

O ex-núncio, no seu dossiê, escreve: “O Papa Bento tinha imposto ao cardeal McCarrick sanções semelhantes às que agora lhe foram infligidas pelo Papa Francisco: o cardeal devia deixar o seminário onde habitava, ficava proibido de celebrar em público, de participar em reuniões públicas, de dar conferências, de viajar, com a obrigação de se dedicar a uma vida de oração e penitência”.

“O que é certo é que o Papa Bento infligiu a McCarrick tais sanções canônicas e que elas lhe foram comunicadas pelo núncio apostólico nos Estados Unidos, Pietro Sambi (...) As mesmas disposições do Papa Bento XVI foram depois comunicadas também para mim pelo novo prefeito da Congregação para os Bispos, o cardeal Marc Ouellet, em novembro de 2011, em uma conversa antes de minha partida para Washington, entre as instruções da mesma Congregação ao novo núncio. Por minha vez, eu as reiterei ao cardeal McCarrick no meu primeiro encontro com ele na nunciatura. O cardeal, resmungando de modo pouco compreensível, admitiu talvez ter cometido o erro de ter dormido na mesma cama com alguns seminaristas na sua casa de praia, mas me disse isso como se não tivesse nenhuma importância.”

Como se concilia tudo isso com o fato de que McCarrick não só não mudou de vida, continuou viajando, celebrando e dando conferências, mas também fez nada menos do que três viagens ao Vaticano, podendo cumprimentar um sorridente Papa Bento?

Como se concilia tudo isso com o fato de que o próprio Viganò que hoje conta ter reiterado essas severas instruções papais ao purpurado abusador, depois, não teve problema algum em aparecer publicamente ao lado dele, em celebrar a missa e ser fotografado com ele e até mesmo em fazer um discurso em um jantar de gala durante o qual McCarrick recebeu um prêmio?

Isso aconteceu em 2 de maio de 2012, ainda em pleno pontificado ratzingeriano, no World Mission Dinner das Pontifical Mission Societies nos Estados Unidos, que ocorreu em um hotel de Manhattan. Haviam passado apenas seis meses desde que Viganò recebera do cardeal Ouellet a reiteração da ordem sancionatória contra o cardeal molestador.

Eis o início do discurso do núncio, publicado pelo Catholic News Service: “Distintos convidados, bispos aqui presentes, e convidados que são homenageados esta noite como ‘Embaixadores Pontifícios para a Missão’, que é um bom título. Em primeiro lugar, Sua Eminência o cardeal Theodore McCarrick, que é ‘embaixador’ há já algum tempo, como padre, como bispo, como arcebispo e cardeal, e muito amado por todos nós...”

Portanto, o núncio não tem nenhum problema em ser visto ao lado do cardeal molestador e não se preocupa com a flagrante violação da ordem de Bento que ele mesmo nos assegura ter logo imposto a McCarrick. Ele fala sem problemas e com afeto sobre o cardeal “desobediente”, “muito amado por todos nós”.

Pode-se dizer: essas ordens eram secretas, em público é preciso sorrir diplomaticamente. Mas, se Bento XVI sabia das acusações, e o seu cardeal prefeito dos bispos comunicava ao núncio a sanção reiterada, porque o seu núncio não fez nada?

Não parece – pelo menos por aquilo que nos é dado saber neste momento – que o próprio Viganò, indignado, tenha escrito ao Vaticano irritado e estupefato pela indiferença com que o idoso purpurado ignorava as suas ordens. E, se o fez, evidentemente não recebeu resposta.

Afinal, se fosse o papa que tivesse sido filmado publicamente e com o sorriso nos lábios ao lado de McCarrick, por que motivo o núncio teria que se preocupar? O qual, aliás, como atento diplomata de longa data, poderia ter inventado a desculpa de um compromisso repentino ou de um resfriado igualmente imprevisto, evitando viajar de Washington para Nova York para homenagear o purpurado abusador.

Nada disso. Das duas, uma: as (supostas) ordens de Bento XVI não eram tão peremptórias, e se tratava apenas de recomendações verbais, mas então não se entende por que razão Viganò está indignado com o Papa Francisco por ter recebido McCarrick e por não ter lhe imposto as sanções nunca aplicadas pelo antecessor.

Ou Viganò foi negligente – ou pelo menos pouco diligente – em aplicá-las quando era o representante do pontífice nos Estados Unidos, sem se preocupar que aquelas ordens fossem sistemática e explicitamente ignoradas.

Há outro vídeo eloquente, desta vez proveniente dos arquivos das mídias vaticanas, que põe em questão o relato de Viganò e especialmente a interpretação que o ex-núncio oferece. Ele retrata o breve primeiro encontro entre o próprio Viganò e o Papa Francisco, durante o “beija-mão” ao término do encontro dos núncios.

Primeiro, leiamos a versão de Viganò, que talvez mereceria uma edição melhor também nesse caso: “Quando foi a minha vez, eu apenas tive o tempo de lhe dizer: ‘Sou o núncio nos Estados Unidos’, que, sem qualquer preâmbulo, investiu contra mim com tom de repreensão com estas palavras: ‘Os bispos nos Estados Unidos não devem ser ideologizados! Devem ser pastores!’. Naturalmente, eu não estava em condição de pedir explicações sobre o significado das suas palavras e sobre o modo agressivo como havia se dirigido a mim”.

Passemos agora àquilo que realmente aconteceu, graças à sequência capturada pelo cinegrafista do então Centro Televisivo Vaticano (o encontro ocorre no minuto 1'10'').

Como está bem documentado e é inegável, a realidade é diferente de como Viganò a contou. Em primeiro lugar, o papa o acolhe sorrindo, com gentileza e, assim que soube que ele era o núncio nos Estados Unidos, não investe contra ele “sem qualquer preâmbulo com tom de repreensão”, mas agradeceu-lhe amavelmente pelo seu trabalho. Logo depois, o rosto do pontífice fica um pouco mais sério – como sempre acontece nessas circunstâncias quando ele deseja comunicar uma mensagem que considera importante, como muito bem sabem aqueles que, por trabalho, acompanham os vídeos desse tipo de audiências – e logo começa a dizer, tranquilamente e com voz pacata, sem tons agressivos: “Nos Estados Unidos...”. Imediatamente depois, o vídeo se interrompe: a TV vaticana não divulga as palavras privadas trocadas em ocasiões como essas.

Também fica evidente que Francisco não é agressivo, não ataca Viganò, não o repreende de forma alguma. É simplesmente o novo papa que informa seu embaixador nos Estados Unidos sobre uma preocupação pessoal.

Pode-se dizer que se trata de ninharias, detalhes. Muito verdadeiro. Mas são detalhes que talvez documentem uma memória imperfeita sobre alguns episódios ou um certo rancor pessoal do ex-núncio em relação ao atual pontífice.

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