A Igreja e o dossiê dos venenos. Assim o Papa deixa que os fatos falem na longa batalha dos abusos

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30 Agosto 2018

O olhar, em primeiro lugar. No voo de regresso de Dublin, enquanto sobre a carta de Carlo Maria Viganò  respondia aos jornalistas “não vou dizer uma palavra sobre isso, leiam vocês atentamente e façam o seu próprio juízo", o Papa Francisco tinha um olhar perfeitamente sereno, apenas um flash de ironia. Aqueles que estão perto de Bergoglio conhecem bem essa serenidade. Ele já ouviu coisa muito pior, bem mais que dossiê da Cúria. Mesmo na Argentina, muitas coisas foram ditas. O defensor oculto de Videla, o provincial da Companhia de Jesus que nada fez e, aliás, foi conivente na época da ditadura militar. Padre "Pepe" di Paola, anos de serviço nas favelas das "vilas misérias" de Buenos Aires, não se conformava: "Por que não responde, por que não conta a todos a verdade, assim eles param com essas mentiras?". Todas vieram à tona novamente no momento da eleição, as mentiras, e depois acabaram em nada. Um bom livro do jornalista de Avvenire, Nello Scavo, "La lista di Bergoglio", demonstrou com dezenas de testemunhos que o jovem provincial tinha ao contrário salvos pelo menos uma centena de potenciais desaparecidos perseguidos pelo regime militar, e ele nunca disse nada.

A reportagem é de Gian Guido Vecchi, publicada por Corriere della Sera, 29-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Francisco nunca se defendeu das acusações. Ele sabe que, mais cedo ou mais tarde, a verdade virá à tona", comentou ontem no Twitter o padre Antonio Spadaro, diretor da Civiltà Cattolica.

Mas isso não importa. Para Bergoglio, veja-se bem, falam e falarão os fatos. Começando pelo agora ex-cardeal Theodore McCarrick, 88 anos, a quem o próprio Francisco impôs de renunciar ao cardinalato. Um gesto sem precedentes, o do Papa. O único caso semelhante remonta a 13 de setembro, 1927 e não era sobre abusos sexuais: o cardeal Louis Billot apoiou o movimento pró-fascista e antissemita Action Française, condenado por Pio XI, e saiu do gabinete do o Papa sem o solidéu e o anel cardinalícios, "renunciando" à púrpura.

Mas há muitas primeiras vezes, em termos de luta contra a pedofilia, no pontificado de Francisco. Bergoglio continua a linha de "tolerância zero" adotada por Bento XVI, com regras mais severas e centenas de sacerdotes destituídos pelo ex-Santo Ofício, justamente a escolha de transparência que acabou, paradoxalmente, para escurecer o pontificado de Ratzinger. Logo após a eleição de Francisco, com a lei número VIII de 13 de julho de 2013, ocorreu outro endurecimento e no ordenamento do Vaticano foi introduzido o crime específico de "pornografia infantil". O papa também ordenou que "o pessoal de função diplomática da Santa Sé" ficasse sob a jurisdição do Vaticano para ser processado.

Em 23 de setembro de 2014, o ex-núncio da República Dominicana foi preso no Vaticano, o polonês Jozef Wesolowski. É a primeira vez que um arcebispo é preso por pedofilia no Vaticano. Wesolowski, reduzido ao estado laico pelo antigo Santo Ofício, morreu antes do julgamento.

Mas é apenas o começo. Finalmente, em 23 de junho deste ano, o tribunal do Vaticano condenado a cinco anos de prisão por divulgação, transmissão, distribuição e posse de material de pornografia infantil, monsenhor Carlo Alberto Capella, não uma pessoa qualquer: ele era conselheiro da nunciatura, em Washington, o número três da diplomacia vaticana nos EUA.

Afinal, Francisco já dissera: "Não haverá ‘filhos de papai’ sobre este problema". Com uma nota assinada 22 de marco de 2014, que institui a Comissão Pontifícia para a proteção dos menores, nomeia para a mesma até algumas vítimas de padres pedófilos: o comitê tem a tarefa de propor ao Papa "as iniciativas mais adequadas para proteger os menores e adultos vulnerável, de forma a fazer todo o possível para garantir que crimes como os que aconteceram não voltem a acontecer na Igreja".

Presidida pelo Cardeal Sean O'Malley, no caso incentiva a participação das conferências episcopais demasiado tímidas (como a italiana) sobre as diretrizes de antipedofilia impostas pela Santa Sé para todas as Igrejas locais: em 14 de fevereiro de 2016, por exemplo, deixa claro que existe a "responsabilidade moral e ética de denunciar os supostos abusos às autoridades civis" porque "como o Papa Francisco afirmou tão claramente, não se devem nunca mais guardar segredos". Entre as recomendações está a "accountability", a responsabilidade dos bispos. Em 4 de junho, 2016, com o motu proprio "Como uma mãe amorosa", Francisco ordenou que entre as "causas graves" para a remoção de um bispo, está também a "negligência": deve ser expulso não só o agressor, mas também quem o encobre. E as remoções começaram. É claro que "devemos sempre respeitar a presunção de inocência". Se acontecer de estar errado, Francisco admite, pede desculpas e se corrige, como no caso dos bispos chilenos. A viagem para o Chile em janeiro foi marcada pelas polêmicas sobre Juan Barros, um bispo acusado de ter acobertado o padre pedófilo Karadima, homem poderoso e protegido desde os anos Pinochet. No início, o Papa tinha defendido Barrossão calúnias, não há nenhuma evidência", mas, em seguida, ordenou uma investigação em fevereiro confiada ao arcebispo Charles Scicluna: 64 testemunhas ouvidas em Santiago, no Chile, 2.300 páginas, a evidência de uma rede de encobrimentos. Não lhe disseram a verdade. Assim, em 18 de maio, Francisco convocou no Vaticano os 34 bispos do país e impôs a todos de colocar em suas mãos o seu mandato – isso também nunca tinha acontecido antes: toda uma conferência episcopal – reservando-se o direito de avaliação: ele já afastou cinco. Francisco, por outro lado, sabe que repressão e procedimentos não são suficientes.

Em sua "Carta ao Povo de Deus" sobre as "atrocidades" e os padres pedófilos escreveu que é preciso mudar a mentalidade fechada, aquele "clericalismo", que está na raiz do abuso de poder e do silêncio. É por isso que ele escolheu se dirigir aos fiéis de todo o mundo. "Quando for vista alguma coisa, falar imediatamente", ele repetiu no domingo. O problema é a resistência interna. "A raiva não termina porque o cão morre", dizia ele aos chilenos. "O problema é o sistema".

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