Papa Francisco precisa dar uma resposta melhor às duvidosas acusações de Viganò

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29 Agosto 2018

É difícil saber o que pensar sobre a bomba lançada pelo arcebispo Carlo Maria Viganò, a carta de domingo (26 de agosto) pedindo que o papa Francisco renunciasse. Viganò, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos, afirma na carta que o papa Francisco sabia que o cardeal Theodore McCarrick havia abusado seminaristas quando este último era bispo em Nova Jersey, mas não puniu o cardeal.

O documento de 7.000 palavras também acusa mais uma dúzia de cardeais do Vaticano que serviram nos papados de João Paulo II, Bento XVI e Francisco de fazerem parte do encobrimento.

O comentário é de Thomas Reese, jornalista, ex-editor chefe da revista dos jesuítas americanos, America, em artigo publicado por Religion News Service, 28-08-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Pode ser fácil escrever Viganò como um empregado descontente. Foi negado a ele o cargo que buscava durante o papado de Bento XVI - governador da Cidade do Vaticano - e foi enviado aos Estados Unidos como núncio papal, ou representante para o governo dos EUA e para a Igreja americana. Em um memorando de 2012 para o papa Bento XVI que vazou para a mídia, Viganò reclamou que estava sendo exilado porque fez inimigos tentando reformar as finanças do Vaticano.

Ser Núncio Apostólico nos Estados Unidos não é um trabalho qualquer, mas o chefe do governo do Vaticano normalmente se torna cardeal.

Viganò ficou ainda mais infeliz com seu trabalho como núncio após a eleição do Papa Francisco, que ignorou suas recomendações na nomeação de bispos. E embora a maioria dos núncios dos EUA mais tarde se tornam cardeais, ficou claro que ele nunca receberia um chapéu vermelho.

Vale a pena notar que muitas das pessoas que Viganò acusa são as mesmas pessoas com quem ele teve conflitos no Vaticano.

E não é a primeira vez que Viganò critica o papa. Ele se juntou ao cardeal Raymond Burke e outros ao criticar o documento do papa sobre a família, "Amoris Laetitia", porque achavam que isso divergia da ortodoxia.

Empregado descontente? Sim. Mas muitos denunciantes são funcionários descontentes.

O que é mais condenável são as perguntas sobre o registro do próprio Viganò a respeito do escândalo de abuso sexual americano. Durante os procedimentos legais contra a Arquidiocese de St. Paul e Minneapolis, uma carta de 2014 de Viganò foi descoberta, na qual ele disse a um bispo auxiliar que limitasse uma investigação contra o arcebispo local e destruísse provas.

Viganò certamente não era conhecido pela transparência e responsabilidade enquanto era núncio de 2011 a 2016, mas agora se apresenta como um renascido defensor dos abusados.

Na carta, Viganò ataca muitos funcionários antigos e atuais no Vaticano, incluindo os três mais recentes secretários de Estado: os cardeais Angelo Sodano, Tarcisio Bertone e Pietro Parolin. Outros cardeais do Vaticano que ele alega saber sobre os abusos de McCarrick incluem William Levada, Giovanni Battista Re, Marc Ouellet, Leonardo Sandri, Fernando Filoni, Angelo Becciu, Giovanni Lajolo e Dominique Mamberti.

Dado como os crimes de pe. Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, foram ignorados durante o papado do Papa João Paulo II, alguns dos quais Viganò diz serem possíveis. Mas nenhuma evidência foi apresentada.

Curiosamente, João Paulo II escapa da crítica de Viganò. O arcebispo insinua que a nomeação de McCarrick para Washington e também como cardeal foi o trabalho de Sodano "quando João Paulo II já estava muito doente". No entanto, McCarrick foi nomeado arcebispo de Washington em 2000, cinco anos antes da morte de João Paulo II. João Paulo II era um fantoche durante seus últimos cinco anos no cargo? E se o abuso de seminaristas por McCarrick fosse tão amplamente conhecido na cúria do papa polonês, é difícil acreditar que o cardeal Joseph Ratzinger não soubesse. Ele contou a João Paulo II?

Viganò afirma que Re lhe disse que, em algum momento entre 2009 e 2010, o Papa Bento XVI disse à McCarrick que deixasse de viver num seminário, de celebrar a missa em público, de viajar e de dar palestras.

Mas não há evidências que sustentem a afirmação de que McCarrick foi sancionado pelo papa Bento XVI. McCarrick continuou a celebrar a missa, viajar e dar palestras em todo o papado de Bento XVI. E em suas muitas visitas a Roma, ficou no North American College, residência dos seminaristas norte-americanos. Qualquer um que ache que Bento XVI toleraria tal desobediência não conhece bem o papa emérito.

Viganò alega ter dito ao papa Francisco em 23 de junho de 2013: "Santo Padre, não sei se conhece o cardeal McCarrick, mas se você perguntar à Congregação dos Bispos há um dossiê muito espantoso sobre ele. Ele corrompeu gerações de seminaristas e sacerdotes, e o papa Bento XVI ordenou que ele se retirasse para uma vida de oração e penitência". Como o Papa Francisco supostamente não o ouviu, Viganò acha que ele deveria renunciar.

Viganò divulgou sua carta quando o papa Francisco estava encerrando sua visita à Irlanda. Jornalistas perguntaram ao papa sobre isso durante a coletiva de imprensa dentro avião na volta para Roma.

"Não vou dizer uma palavra sobre isso", disse o papa, segundo um vídeo do New York Times. "Eu acho que esta acusação fala por si, e vocês tem capacidade jornalística suficiente para chegar às suas próprias conclusões."

"Quando vocês tirarem suas próprias conclusões, talvez eu fale", disse Francisco. "Mas eu gostaria que vocês fizessem esse trabalho de maneira profissional."

Naturalmente, muitas manchetes diziam: "Papa se recusa a responder a acusações de encobrimento".

O papa estava certo em incentivar os jornalistas a examinar o documento de Viganò para ver o que é verdadeiro e o que não é. A conferência de imprensa não foi o lugar para fazer uma crítica linha a linha do documento. Muitos repórteres de fato examinaram o documento e encontraram alegações carentes.

Mas e quanto à afirmação de Viganò de que ele contou ao papa sobre McCarrick?

Como o papa é a única outra testemunha deste encontro, só ele pode verificar ou negar o que Viganò disse, e recusar-se a responder a essa pergunta não aumenta sua credibilidade. Os assessores de imprensa do papa deveriam tê-lo informado imediatamente após a conferência de imprensa e respondido aos repórteres com um esclarecimento antes de arquivarem suas histórias.

A resposta poderia ter sido: "Não, ele não disse isso ao papa". Ou poderia ter sido: "Sim, ele disse isso ao papa, mas não há registro das supostas sanções por parte de Bento XVI. O papa desconsiderou as acusações porque Viganò tinha uma história de acusações infundadas. E lembre-se, foi Francisco que disse a McCarrick para passar o resto de sua vida em oração e penitência e que tirou seu chapéu vermelho".

Os repórteres, como a maioria das pessoas, gostam do papa, mas também têm um trabalho a fazer. O Vaticano não deve dificultar isso.

Assim como toda diocese nos Estados Unidos precisa fazer um relato completo e transparente do abuso sexual clerical e da resposta dada por cada diocese aos mesmos, o Vaticano também deve revelar o que sabia, quando sabia e o que fez ou não fez. Apenas isso começará a restaurar a credibilidade da Igreja Católica.

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