Prisão de financiador italiano não é o fim do mais recente escândalo do Vaticano

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10 Junho 2020

Na sexta-feira passada, a última reviravolta na versão vaticana do “Grande Incêndio de Londres” – neste caso, referente a um acordo imobiliário de 225 milhões de dólares em Londres, que deu espetacularmente errado e terminou em um escândalo – veio com a prisão de um sombrio financiador italiano leigo, chamado Gianluigi Torzi.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 09-06-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Para aqueles que não acompanharam o caso, a Secretaria de Estado do Vaticano havia inicialmente direcionado 225 milhões de dólares para comprar parte de um antigo armazém da loja Harrods no elegante bairro londrino de Chelsea, que, na época, estava fadado a se converter em apartamentos de luxo. O que indignou de modo especial alguns observadores é que a Secretaria de Estado financiou o acordo, em parte, usando fundos da coleta anual do Óbolo de São Pedro, que é anunciada aos católicos comuns de todo o mundo como uma forma de apoiar as instituições de caridade papais.

Quando o relacionamento da Secretaria de Estado azedou com Raffaele Mincione, o financiador italiano original que intermediou o acordo, Torzi aparentemente foi chamado para tentar ajeitar as coisas, mas agora ele também é acusado, entre outros delitos, de tentativa de extorsão reivindicando taxas exorbitantes.

No momento, praticamente todo mundo conectado com o escândalo está oferecendo sua versão dos eventos a vários meios de comunicação italianos.

Mincione conversou recentemente com a agência Adnkronos, alegando, entre outras coisas, que o imóvel que ele ajudou o Vaticano a comprar poderia ter sido revendido recentemente com um bom lucro de 30 milhões de dólares, sugerindo que ele cumpriu o seu dever.

O monsenhor Alberto Perlasca, autoridade da Secretaria de Estado do Vaticano, que também foi identificado como suspeito no caso de Londres, conversou com o jornal Il Giornale, afirmando que não tinha poder para movimentar nenhum dinheiro e que representava apenas uma pequena parte de uma operação aprovada por pessoas acima dele.

Perlasca também afirmou que, quando Torzi solicitou uma taxa de mais de 20 milhões de dólares, ele quis denunciar o financiador por fraude, mas as altos autoridades da Secretaria de Estado preferiram negociar (Torzi supostamente teria recebido cerca de 15 milhões de dólares).

Embora o Vaticano não tenha anunciado uma data para os julgamentos dos acusados, ele poderia ocorrer em qualquer momento. As audiências do tribunal vaticano foram suspensas no dia 19 de março devido ao confinamento do coronavírus, mas as autoridades dizem que a suspensão expirou, portanto, teoricamente, as audiências preliminares contra Torzi e outros poderiam começar quando os promotores acharem que estão prontos para avançar.

Além disso, as autoridades dizem que o processo contra Torzi será diferente da última vez que o Vaticano tentou acusar leigos italianos que não eram empregados nem cidadãos vaticanos – os jornalistas Gianluigi Nuzzi e Emiliano Fittipaldi, que foram indiciados como parte do escândalo “Vatileaks 2.0”, logo após a eleição do Papa Francisco.

Naquele caso, as acusações contra Nuzzi e Fittipaldi foram finalmente julgadas como improcedentes devido à falta de jurisdição do tribunal vaticano. No que diz respeito a Torzi, os supostos crimes ocorreram em território vaticano, por isso ele estão sob a autoridade do sistema legal do Vaticano.

Por mais interessantes que sejam, histórias como essa também são semelhantes a uma areia movediça jornalística, pois é fácil ser sugado pelos detalhes.

Torzi, por exemplo, é um personagem fascinante, cujo nome já estava associado a outra manobra financeira duvidosa com um toque católico, envolvendo o hospital romano de Fatebenefratelli (“Façam bem, irmãos”) na ilha de Tibre, pertencente a uma ordem religiosa fundada por São João de Deus no século XVI.

Ainda em janeiro, foi noticiado que duas empresas londrinas pertencentes a Torzi estavam sob investigação por sobrecarregar o hospital com empréstimos relacionados a dívidas com o governo da região do Lácio, na qual Roma está localizada.

Sem dúvida, o papel de Torzi no caso de Londres e o que ele esperava obter após a etapa final da transação proposta serão elementos importantes a serem apurados no julgamento. No entanto, há também o risco de perder de foco o que está em jogo, concentrando-se intensamente nesses personagens esquisitos – que, talvez convenientemente, nunca parecem estar em dívida quando o Vaticano se encontra em apuros.

Nesse caso, o que sabemos com certeza é que, independentemente de quem estiver envolvido, o acordo de Londres foi aprovado por altas autoridades da Secretaria de Estado do Vaticano – primeiro, o então arcebispo, agora cardeal, Angelo Becciu e, depois, o arcebispo Edgar Peña Parra, tanto em seus respectivos papéis de sostituto, ou “substituto” da Secretaria de Estado, mais ou menos o chefe de gabinete do papa. Por fim, o acordo também teve que ser aprovado pelo cardeal italiano Pietro Parolin, o secretário de Estado.

No entanto, até hoje, Becciu, Peña Parra e Parolin não foram acusados ou, até onde sabemos, citados como testemunhas no processo legal em andamento.

Talvez, como alguns sugeriram, essas altas autoridades vaticanas tenham sido enganadas por operadores italianos inescrupulosos e, na realidade, eles sejam as vítimas aqui. Supondo que seja isso, ainda pode haver questionamentos sobre a negligência na adequada verificação de figuras como Mincione e Torzi.

De todos os modos, a verdade só pode ser estabelecida por uma investigação transparente e, neste momento, não está claro se é isso que está sendo realizado. Os precedentes não são promissores, já que, quando outro escândalo financeiro em torno do hospital pediátrico Bambino Gesù, em Roma, foi submetido a julgamento no Vaticano em 2017, uma figura central, o cardeal Tarcisio Bertone, ex-secretário de Estado do Papa Bento XVI, não apenas não foi acusado, mas também nunca foi chamado como testemunha.

Em outras palavras, se o Vaticano realmente quer chegar ao fundo das coisas, eles poderiam colocar figuras importantes como Becciu e Peña Parra em uma cadeira de testemunha e fazer perguntas para o registro público. Caso contrário, simplesmente servir vilões italianos leigos sem posição na estrutura de poder eclesiástica como Torzi pode ser um bom teatro, mas é difícil argumentar que esse é o fim da história.

 

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