Teologia e instituição: Francisco e o Vatileaks 2.0. Artigo de Massimo Faggioli

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05 Novembro 2015

Com todo o respeito por aqueles que acusam Bergoglio de ter trazido uma "guerra civil" na Igreja, foi Bento XVI e não o Papa Francisco que submeteram a Igreja a uma terapia de choque (e os católicos nunca deixarão de ser gratos a ele por isso).

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo e diretor do Institute for Catholicism and Citizenship, na University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio L'HuffingtonPost.it, 18-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Que a Cúria Romana é sinônimo de escândalos não é um fato novo. Em si mesma, a Cúria Romana é quase um gênero literário, mesmo antes de Lutero. O que é novo é a relação entre o papa e a Cúria Romana – e isso não depende dos detalhes sobre esta ou aquela revelação contida nos documentos furtados.

Há questões sobre as quais Bergoglio age por mandato quase explícito do conclave que o elegeu: a reforma da Cúria Romana, a transformação da IOR, a limpeza daqueles que, na Igreja, em todos os níveis, manuseiam grandes quantidades de dinheiro.

Sobre essas questões, o Papa Francisco não tem dificuldade de invocar e mencionar explicitamente o consenso que emergiu entre os cardeais antes da sua eleição. O problema, até mesmo para alguns daqueles que o elegeram, é a profundidade e a radicalidade com que Francisco está interpretando esse mandato.

Bergoglio age e fala com inescrupulosidade, mas sobretudo governa a Igreja "etsi Curia non daretur" [como se a Cúria não existisse], com um substancial apoio externo que lhe vem da autoridade e popularidade adquiridas nesses dois primeiros anos de pontificado.

Mas há outras questões sobre as quais o Papa Francisco atua para além ou sem um mandato explícito proveniente do conclave: viu-se isso no Sínodo, se verá isso no Jubileu (um jubileu que se anuncia muito mais austero do que os anteriores).

Nesse sentido, é evidente que o Papa Francisco age por força de dois mandatos diferentes, o mandato do conclave: o de uma limpeza e uma reforma, mas sem exagerar ("Adelante, Pedro, con juicio", como dizia o chanceler Ferrer em Os noivos) e um mandato que impropriamente poderia ser chamado de "popular" (divorciados recasados, homossexualidade, desideologização da Igreja).

Os dois mandatos não coincidem na mente de alguns eleitores do papa, e aqui estão, provavelmente, as raízes dos tremores secundários dirigidos à pessoa do papa (a carta dos cardeais no início do Sínodo, a falsa notícia sobre a sua saúde etc.).

Do ponto de vista da história da instituição da Cúria Romana, é muito interessante ver como Francisco está procedendo para separar não só a si mesmo de certos personagens, mas também para separar o primado do papa da Cúria Romana – uma Cúria que, por um longo tempo, fez-se escudo do primado do papa para fazer de tudo e até mais (inclusive teologicamente e não só para estranhos manejos financeiros e políticos).

Francisco vê as duas questões – moralização da Igreja no uso dos recursos e nos estilos de vida dos seus pastores, e reorientação da Igreja em um sentido mais evangélico e menos institucional – como intimamente ligadas entre si. É uma das coisas mais óbvias e, ao mesmo tempo, mais difíceis.

É um desafio do qual foram poupados (por muitos motivos: uma relação diferente entre Igreja e política italiana e internacional, um sistema de informação diferente, uma era anterior ao escândalo dos abusos sexuais etc.) os pontificados até o Vaticano II (João XXIII e Paulo VI).

Os dois pontificados do pós-Vaticano II (João Paulo II e Bento XVI), porém, geriram de modo separado a questão institucional (interna) e a moral (a mensagem). Hoje, Francisco paga a conta por essa gestão, e isso joga uma luz sobre a crise que o pontificado tem desencadeado em alguns católicos ultraortodoxos (especialmente nos EUA, onde eu vivo e leciono).

Na Igreja de Francisco, o problema teológico parece ser (para aqueles que são contrários às reformas à luz da pastoralidade de Bergoglio) a relação entre "doutrina" e "pastoral": são contrários porque veem a pastoralidade como enfraquecimento da doutrina, como se a doutrina possa ser independente do cuidado das almas.

Mas, para muitos, escapa que há outra dimensão típica desse pontificado: com Francisco, estamos diante de uma nova relação entre teologia e instituição. Como eu escrevi em um artigo (muito longo), publicado em uma revista norte-americana no mês passado, ao longo dos últimos 50 anos, as mudanças na teologia da Igreja tiveram muito pouco impacto na estrutura da instituição, especialmente na Cúria Romana.

Francisco foi eleito no momento de crise mais evidente que surgiu daquela insalubre independência da instituição de uma sã teologia da Igreja. Foi isso que intuiu, ao renunciar, Bento XVI, preenchendo com essa decisão um atraso de 50 anos de duração.

Com todo o respeito por aqueles que acusam Bergoglio de ter trazido uma "guerra civil" na Igreja, foi Bento XVI e não o Papa Francisco que submeteram a Igreja a uma terapia de choque (e os católicos nunca deixarão de ser gratos a ele por isso).

A se julgar por tudo o que Francisco diz e faz hoje, é evidente que, para o primeiro plenamente pós-conciliar como Bergoglio, esse problema de separação entre teologia e instituição é muito claro. Uma reforma da Igreja em sentido "conciliar" (do Concílio Vaticano II) também significa coisas muito concretas e tangíveis, como por exemplo a gestão do dinheiro e da relação entre Igreja e política.

Basta ler o "Pacto das Catacumbas", que permeou a Igreja latino-americana. Ele foi assinado por um grupo de bispos, nas catacumbas de Domitila, no dia 16 de novembro de 1965, às margens do Concílio Vaticano II.

O chamado "Vatileaks 2.0", a seu modo, é celebração e lembrança do Pacto das Catacumbas e da Igreja que virá.

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