Na mais recente crise financeira do Vaticano, pode até haver escândalo, mas sem pecado

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01 Novembro 2019

Há quase uma década, sob o comando do Papa Emérito Bento XVI, Crescenzio Sepe, cardeal-arcebispo de Nápoles, foi citado pelas autoridades italianas por seu envolvimento em um suposto caso de corrupção envolvendo contratos de trabalho enquanto era prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, de 2001 e 2006.

A reportagem é de John L. Allen Jr, publicada por Crux, 31-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em resumo, procuradores alegaram que Sepe realizou acordos com funcionários públicos italianos referentes a apartamentos e outras residências romanas de propriedade do Propaganda Fidei, ao mesmo tempo que altas quantias de dinheiro de fundos estatais eram alocadas para projetos de remodelagem de propriedades da citada congregação, incluindo a sua famosa sede na Piazza di Spagna, em Roma. A suspeita era a de que havia um quid pro quo [troca de favores] não declarado: “Eu consigo um apartamento para você, e você vota a favor do meu financiamento”.

Embora Sepe nunca fora acusado e embora tenha negado qualquer irregularidade, tecnicamente a investigação continua aberta aguardando novos desdobramentos.

Na época, lembro de ter conversado com um amigo meu em Roma sobre o caso Sepe. O amigo se perguntou: sendo verdadeiras as acusações, elas se enquadrariam na definição católica clássica de pecado? Concluiu que não se enquadrariam, pois na cabeça de Sepe, mesmo sendo culpado, provavelmente não houve a intenção de cometer um erro, porque assim era a forma como as coisas sempre foram feitas.

Esse breve resgate histórico é feito à luz de reportagens publicadas na imprensa italiana esta semana sobre o mais recente escândalo financeiro no Vaticano.

O foco das reportagens recai sobre um acordo financeiro em Londres em que a Secretaria de Estado do Vaticano gastou, inicialmente, 200 milhões de dólares com a aquisição de partes de um antigo armazém de Harrod, que seria convertido em apartamentos de luxo e, depois, quando a relação com o financista italiano azedou, quis outros 150 milhões em empréstimo do Banco Vaticano para comprar a propriedade.

O conselho supervisor do banco vetou o empréstimo e relatou o caso à Promotoria de Justiça do Vaticano, que lançou uma investigação que, até o momento, resultou na suspensão de cinco funcionários. O que é incompreensível para muitos a respeito deste caso é que o dinheiro para a compra inicial teria vindo do Óbulo de São Pedro, coleta anual em nível mundial feita entre os católicos para apoiar, principalmente, as obras de caridade do papa.

Na imprensa italiana, aparentemente a autoridade vaticana que estava sendo apresentada como o principal envolvido na operação é o cardeal italiano Angelo Becciu, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos atualmente. Becciu era a segunda autoridade dentro da Secretaria de Estado quando a transação começou. Era ele também quem supervisionou grande parte do que, desde então, ocorreu.

Na terça-feira, em entrevista à agência noticiosa italiana ANSA, Becciu falou sobre o assunto: “Estão jogando lama contra mim na forma de acusações que rejeito com firmeza”, disse. “Minha consciência está tranquila. Sempre agi pelo interesse da Santa , e nunca em meu próprio”.

Becciu insistiu que, embora uma das finalidades do Óbulo de São Pedro é a de apoiar as obras de caridade papais, esta não é a única: “O óbulo serve também para a manutenção de seu ministério pastoral”, falou.

Eis o trecho em que ele fala a respeito do dinheiro:

“É uma prática padrão que a Santa invista em propriedades como edifícios, e sempre o fez em Roma, em Paris, e também em Londres”, explicou o religioso. “O Papa Pio XII foi o primeiro a adquirir imóveis em Londres”.

Também na imprensa italiana, o ex-chefe de Becciu, o cardeal italiano Pietro Parolin, secretário de Estado, considerou a transação em Londres como “uma operação opaca sobre a qual agora tudo será esclarecido”. Becciu discordou dessa caracterização.

“Uma proposta relativa ao edifício histórico e artístico foi apresentada, e quando ela foi realizada não houve nada de opaco”, disse ele. “Foi um investimento regular registrado de acordo com as normas da lei”.

Em outras palavras, Becciu deu a mesma resposta básica que Sepe: “Por que, de repente, estou sendo culpado por fazer algo que sempre foi feito assim?”

Na medida em que a transação de Londres for investigada mais a fundo, poderemos vir a saber que houve, sim, violações para com os novos requisitos vaticanos na questão da transparência financeira e de contabilidade, como decretado pelos papas Bento e Francisco.

É possível também que, independentemente da dimensão jurídica que o caso venha a ter, há uma pequena incongruência no Vaticano, com um papa representante de uma “Igreja pobre para os pobres”, que gasta centenas de milhões para comprar uma propriedade em uma rica região londrina, para lucrar com o seu aluguel, cobrado de famílias ricas.

Dito isso, é também possível que, independentemente do que se venha a pensar, Becciu não acreditava, e não acredita, que estava fazendo algo de errado – porque, honestamente, é difícil discordar de que essa é a forma como as coisas sempre foram feitas.

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