“Estamos em uma crise em que o horizonte civilizatório está em disputa”. Entrevista com Maristella Svampa

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08 Abril 2020

O surgimento do coronavírus deixou em evidência o alcance das desigualdades sociais, a tendência de concentração da riqueza e os monstruosos danos ambientais que o neoliberalismo trouxe, disse Maristella Svampa, em uma conversa com Télam.

Pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (CONICET, sigla em espanhol), socióloga e autora de livros como “As fronteiras do neoextrativismo na América Latina” e “Maldesarrollo”, entre muitos de uma intensa atividade intelectual, Svampa destaca que “estamos em uma situação de crise sistêmica, na qual o horizonte civilizatório não está fechado e permanece em disputa”.

A entrevista é publicada por El Ciudadano, 05-04-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Na sua opinião, quais são os elementos que estão se manifestando com o surgimento do coronavírus, em relação ao mundo em que vivemos?

Um elemento central é que a pandemia revela a extensão das desigualdades sociais e a enorme tendência de concentração da riqueza que existe no planeta. Isso não é uma novidade, mas nos leva a refletir sobre as saídas que outras crises globais tiveram. Outro elemento central é o discurso de guerra instalado, a ideia de que há uma guerra contra o vírus, como se fosse algo externo à humanidade. Isso confunde e oculta as raízes do problema, pois ataca o sintoma, mas não as causas profundas, que são socioambientais. A circulação desses vírus está associada ao modelo de sociedade instaurado pelo capitalismo neoliberal e predatório, através da expansão das fronteiras da exploração e, nesse contexto, pela intensificação dos circuitos de troca com animais silvestres, que provém de ecossistemas devastados.

Como avaliar a resposta dos aparatos político-estatais?

Estamos diante de um Leviatã sanitário transitório que tem uma dupla face. Por um lado, há um retorno de um Estado social, como pode ser visto nas medidas que estão sendo aplicadas no mundo, que inclui governos com Estados fortes - Alemanha e França – até governos com uma marcada vocação liberal, como os Estados Unidos. A médio e longo prazo, a pergunta sempre é quais setores serão beneficiados por essas políticas sociais e econômicas. Por outro lado, o Leviatã sanitário vem acompanhado também pelo Estado de exceção. Os maiores controles sociais se tornam visíveis em diferentes países sob a forma de violação de direitos, militarização de territórios e repressão dos setores mais vulneráveis.

Como pensar o estado de uma civilização que ao mesmo tempo em que investe em geoengenharia para sustentar a inviabilidade de um sistema de produção ao limite da autodestruição, desinveste em aspectos básicos como a saúde?

O estado da saúde pública deve nos fazer refletir sobre as falsas soluções adotadas em contextos de crise. A crise global que aparece como o antecedente mais recente, ainda que teve características diferentes, é a de 2008. Causada pela bolha imobiliária nos Estados Unidos, esta foi de ordem financeira e se transferiu para outras partes do mundo para se tornar uma convulsão econômica de proporções globais. Salvo exceções, os governos organizaram resgates de grandes corporações financeiras.

Em termos sociais e globais, a reconfiguração foi regressiva e a brecha da desigualdade aumentou. Em termos políticos globais, produziu enormes movimentos tectônicos, ilustrados pelo surgimento de novos partidos e lideranças autoritárias em todo o mundo: uma direita reacionária e autoritária, que inclui desde o Tea Party a Donald Trump, de Jair Bolsonaro a Scott Morrison, de Matteo Salvini a Boris Johnson, entre outros. Sendo assim, essas saídas que acentuaram a concentração da riqueza e o neoliberalismo predatório devem funcionar, hoje, como um contraexemplo eficaz e convincente, para apelar a propostas inovadoras e democráticas que apontem para a igualdade e a solidariedade.

Na crise, existe espaço para nos repensarmos sociopoliticamente?

As crises também geram processos de “libertação cognitiva”, que tornam possível a transformação da consciência dos potenciais afetados, retirando-os do fatalismo ou da inação e viabilizando o que até há pouco era inimaginável. A sorte não está lançada, existem oportunidades para uma ação transformadora em meio a um desastre. O pior que poderia acontecer é ficarmos em casa convencidos de que as cartas estão marcadas e que isso nos leve à paralisia, pensando que nada adianta buscar influenciar os processos sociais e políticos que estão se abrindo, bem como as agendas públicas que estão se instalando. É preciso partir da ideia de que estamos em uma situação extraordinária, de crise sistêmica, e que o horizonte civilizatório não está fechado e ainda está em disputa.

Essa crise deve muito bem ser a oportunidade para discutir soluções mais globais, em termos de políticas públicas. É necessário pensar em um grande pacto ecosocial e econômico, ou seja, um New Deal, não apenas do ponto de vista econômico e social, mas também ecológico.

Como construir uma linguagem que nos permita pensar em um mundo posterior à devastação?

Na América Latina, existem linguagens ligadas às lutas ecoterritoriais que propõem outra visão das relações sociais, que questionam a atual destruição da natureza e dos ecossistemas, dos direitos da natureza à ética do cuidado. Mais do que nunca, é preciso valorizar o cuidado, como temos insistido pelo ecofeminismo e os feminismos populares, a consciência de que a sobrevivência é um problema que nos compete como humanidade.

 

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