A crise compromete o sentimento de esperança e aumentará a consciência de injustiça e frustração. Entrevista especial com José de Souza Martins

A pandemia de Covid-19 no Brasil indica que a sociedade não está dividida; “está abúlica, sem referências”, diz o sociólogo

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Por: Patricia Fachin | 01 Abril 2020

O comportamento do presidente Jair Bolsonaro no tratamento da pandemia de Covid-19 no Brasil lança um “grande desafio” para os cientistas sociais: “decifrar a mentalidade, as ações e o projeto de Jair Bolsonaro e dos bolsonaristas, para identificar e compreender suas contradições” e “explicar cientificamente o que vem ocorrendo”, em vez de “produzir conhecimento em perspectiva de esquerda ou de direita sobre a nova situação”, diz o sociólogo José de Souza Martins.

Para ele, a postura do presidente diante da crise atual demonstra que “sua concepção antidemocrática de poder o impede de ver-se no perigo que representa para a sociedade inteira” e “sua dependência em relação aos filhos e em relação aos generais pode ser uma indicação de que ele não tem condições de governar com o equilíbrio que se espera do governante”. Particularmente no discurso da noite de terça-feira, 24-03-2020, em que defendeu o fim do isolamento social horizontal, “ele aprofundou o abismo entre o presidente e a sociedade”, avalia.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o sociólogo também reflete sobre como a sociedade brasileira vai reagir às consequências da crise. “Não há nenhum sinal de que os diferentes grupos sociais tenham consciência de sua responsabilidade na superação das contradições, insuficiências e demolições sociais do período da pandemia. A sociedade brasileira sairá dela mutilada economicamente e mais pobre de espírito do que tem sido”. A recessão econômica anunciada, vislumbra, “terá sobre a classe média efeitos dramáticos” e “a crise afetará sobretudo os jovens, pois está comprometendo o sentimento de esperança, tão essencial às novas gerações”. E adverte: “O discurso do pobre já perdeu a eficácia. O que terá sentido, especialmente nas novas gerações, será a consciência da injustiça, a frustração da esquerda e da direita”.

Politicamente, diz, “os partidos de esquerda não têm uma visão crítica do bolsonarismo e do que representa. Não conseguem polarizar e problematizar a anomalia de uma facção que governa em nome do ódio, que transformou o ser contra a esquerda num programa de Estado”. A falta de imaginação política irá se refletir nas próximas duas eleições. “O bolsonarismo chegará a elas em crise e as esquerdas chegarão vazias e sem causa. A alternativa de centro tampouco dá indícios de existir”, lamenta. E aconselha: “O Brasil precisa com urgência de um teórico brasileiro que retome as preocupações com a historicidade e as condições da história do futuro”.

José de Souza Martins durante a Aula Magna (Foto: Frame do Youtube)

José de Souza Martins é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo - USP. Foi professor visitante da Universidade da Flórida e da Universidade de Lisboa e membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, de 1998 a 2007. Foi professor da Cátedra Simón Bolívar, da Universidade de Cambridge (1993-1994) e atualmente é professor titular aposentado da USP. Entre suas obras, destacamos Exclusão social e a nova desigualdade (São Paulo: Paulos Editora, 1997), A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala (São Paulo: Contexto, 2000), Linchamentos: a justiça popular no Brasil (São Paulo: Editora Contexto, 2015) e Do PT das lutas sociais ao PT do poder (São Paulo: Editora Contexto, 2016).

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como o Brasil está lidando com a crise global gerada pela pandemia de Covid-19?

José de Souza Martins - Segundo os especialistas, ainda estamos no começo. Só dentro de alguns dias teremos alguma ideia do tamanho do perigo. Cada país vem reagindo a seu modo, muito em função da cultura local, dos recursos e do adianto médico e científico disponíveis. Portanto, fica difícil tratar o já sabido como se fosse um modelo aplicável às diferentes sociedades.

O Brasil tem tido, nos últimos anos, boas e competentes reações científicas, médicas e sanitárias, nos casos de dengue, zika e chikungunya. A ciência brasileira está bem avançada em pesquisas e técnicas de prevenção e diagnóstico. No caso da Covid-19, a reação foi rápida e objetiva. Nossa reação nessas áreas, porém, encontrou um surpreendente obstáculo no governo propriamente dito, originado de um senso comum autoritário, pobre e incompetente, que pode ampliar o tamanho do problema.

IHU On-Line - As diferenças culturais do país se manifestam neste momento no enfrentamento da crise?

José de Souza Martins - Se estamos falando do vírus, o impacto é muito desigual nas diferentes regiões. Muito mais intenso em São Paulo e no Rio de Janeiro, em várias regiões ainda não chegou a constituir um problema coletivo. Constituirá quando afetar a vida cotidiana das pessoas e atingir valores e orientações de conduta. Isso ainda está muito no começo. A subversão da vida cotidiana e a ineficácia dos costumes no dia a dia indicarão que o drama chegou à vida de cada um e de todos, em todos os lugares.

A insuficiência de estudos sobre os regionalismos em face de anomalias sociais, como as anomias e pandemias, torna difícil fazer previsões quanto ao modo como o problema será enfrentado. Certamente, deverá prevalecer a orientação geral das autoridades médicas e sanitárias. A questão é saber como essa orientação será recebida e interpretada na perspectiva do senso comum. Mesmo em São Paulo, até mais do que no Rio de Janeiro, há uma ampla diversidade de interpretações da Covid-19. 

A alta classe média parece ter seu próprio “regionalismo” ao se considerar imune às tragédias que supostamente estão destinadas apenas aos pobres, aos que supostamente têm dificuldade para comprar sabonete. Esquecem-se de que não há casa de pobre que não tenha sabão, cujo efeito no combate ao vírus não depende de perfume.

Em Brasília, há diferenças do mesmo tipo entre o gabinete presidencial e os ministérios, o Congresso e o STF. 

IHU On-Line - Na última entrevista que nos concedeu, o senhor ressaltou a invasão ideológica que tomou conta das Ciências Sociais e do país durante os últimos 20 anos e, em especial, durante os governos de esquerda. Continuamos sob uma invasão ideológica, mas agora do outro lado do espectro político? Se sim, como e de que forma essa invasão ideológica se manifesta neste momento?

José de Souza Martins - Eu me referi à disseminação de pressupostos ideológicos, político-partidários, na definição de temas de pesquisa, de procedimentos investigativos e interpretativos. Claro que houve muitas exceções. Não se trata de dizer, nem eu disse, que as Ciências Sociais estão polarizadas entre esquerda e direita. Os pesquisadores que se limitavam a um ponto de vista de esquerda continuam a adotá-lo. Isso parece refletir um empobrecimento na formação das novas gerações de pesquisadores, que têm dificuldades para uma revisão crítica da relação entre situação social e política, de um lado, e a produção do conhecimento científico dela decorrente, de outro. Mesmo nas Ciências Humanas. O momento histórico é outro e dramático, o que representa um desafio para os cientistas sociais.

A questão não é produzir conhecimento em perspectiva de esquerda ou de direita sobre a nova situação. A questão é explicar cientificamente o que vem ocorrendo. Ser contra não é explicativo. O grande desafio é decifrar a mentalidade, as ações e o projeto de Jair Bolsonaro e dos bolsonaristas, para identificar e compreender suas contradições. Essa é a opção democrática na ciência.

Já ficou evidente que o novo governo, que parece ser um novo regime, não tem uma concepção de direita para as ciências sociais. O que ele tem é um ponto de vista contra essas ciências e contra os cientistas sociais. O direitismo está na recusa do reconhecimento da legitimidade e da necessidade do conhecimento crítico e explicativo dessas ciências. O governo cortou ou minimizou bolsas e verbas nessa área, sataniza a pesquisa e sataniza as interpretações dos cientistas sociais. 

IHU On-Line - Vários políticos, especialmente os governadores, justificam suas ações neste período de crise com base nas informações científicas. Do ponto de vista científico, como a pandemia de Covid-19 está sendo tratada no país?

José de Souza Martins - Vários políticos, mas não todos. A começar do presidente da República, que à ciência opõe o seu senso comum e o opõe até mesmo em relação àqueles que no seu governo representam a ciência. A pandemia está sendo tratada corretamente pelo Ministério da Saúde, apesar dos antagonismos óbvios.

Os cientistas têm sido firmes na resistência às objeções do poder e às tentativas de reorientação das medidas sanitárias e preventivas adotadas. Resta saber até onde a resistência irá. Não basta resistir. É preciso, também, produzir conhecimento crítico e isso diz respeito, especialmente, às Ciências Sociais, embora não só a elas. Epidemias e pandemias não são apenas problemas médicos e de saúde pública. São gravíssimos problemas sociais porque são socialmente desconstrutivas, instauram estados de anomia, desorganizam a sociedade, destroem as referências de conduta socialmente orientadas. Desencadeiam comportamentos perturbados e desorientados que, no caso de pessoas que têm poder, é gravíssimo porque põem toda a sociedade em perigo. São fortes os indícios de que estamos vivendo isso agora.

Conhecimento crítico é ir aos fundamentos sociais e políticos da mentalidade do governante, sua concepção de poder e de povo, para que se possa identificar aí e descrever cientificamente os elementos patológicos do que parece manifestação de insanidade e de falta de respeito pela simbologia do poder e de falta de respeito pela sociedade inteira, até mesmo por filhos e mães dos poderosos.

IHU On-Line - Uma das críticas que fazem à modernidade é que ela sacralizou a ciência. Como analisa o papel da ciência nesta crise global?

José de Souza Martins - A sociedade moderna não sacralizou a ciência. O que fez foi colocar a ciência num campo de concepções alternativas às das religiões. A sociedade libertou a ciência da tutela religiosa. 

Prudentemente, a ciência não declarou guerra às religiões, embora várias religiões tenham declarado guerra à ciência em vários momentos. Algumas, como a Católica, têm valorizado a ciência. O Vaticano tem uma Academia Científica importante. Já estamos longe dos tempos de Galileu. Sou sociólogo e meu campo de pesquisa e interpretação é muito específico. Para mim, o que mais preocupa é a dinâmica da alienação moderna, o poder da falsa consciência. Nesse campo, também a Igreja Católica tem manifestado preocupação, desde o Concílio Vaticano II e da ascensão do Papa Roncalli ao trono de Pedro. Desde então, os papas têm sido exemplares no trato da ciência. O mesmo se pode dizer de outras religiões, embora haja exceções dolorosas.

Quando eu era catedrático da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, ouvi um interessantíssimo e erudito sermão sobre a ciência numa celebração na capela do St. John’s College: “A importância do calvinismo no desenvolvimento da ciência em Cambridge”. Ou seja, a libertação do cientista e da ciência em relação aos constrangimentos da religião nem sempre significou uma oposição ou um veto. 

A Reforma protestante abriu perspectivas para a ciência. E, provavelmente, a Contrarreforma católica também. Os jesuítas portugueses e espanhóis foram recrutados em universidades. Manoel da Nóbrega e José de Anchieta eram padres e eram também cientistas. Seus escritos na área científica relatam descobertas de alto rigor, no direito e na linguística, até hoje não superadas. É o caso do estudo crítico de Nóbrega sobre a escravidão e é o caso do estudo de Anchieta sobre a língua geral.

IHU On-Line - Recentemente o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han publicou artigo em que analisa as diferenças no modo como orientais e ocidentais estão enfrentando a pandemia de Covid-19. Segundo ele, orientais, por seu modo de vida, uso de tecnologias, relação com o Estado e visão de mundo, estão lidando melhor com a pandemia. Quais são os pontos fracos e fortes dessa análise, que compara como diferentes culturas lidam com esta situação?

José de Souza Martins - Não há pontos fracos e fortes nessa questão. A diferença cultural profunda entre as sociedades orientais e ocidentais é conhecida e pode ser observada no comportamento dos imigrantes que aqui vivem e procedem dessas regiões. Nós nunca passamos por situações sociais dramáticas, anuladoras de nossos valores e de nossas orientações de conduta. A não ser em episódios muito excepcionais e localizados, como a Gripe Espanhola, as revoltas de Canudos e do Contestado, as Revoluções de 1924 e de 1932.

Esta, provavelmente, será nossa primeira experiência socialmente traumática generalizada. Os orientais aprenderam ao longo de sua diversificada história formas de comportamento de emergência, disciplina e paciência. Aqui, a visão carnavalesca e indisciplinada da vida não vai nos ajudar. Estamos vendo isso no comportamento do próprio presidente da República. Mas o dado positivo é que, em poucas semana, o comportamento carnavalesco vem dando lugar a uma ressocialização que nos adapta para viver na situação adversa.

Além disso, o desenvolvimento científico e técnico daqueles países está muito adiante do que acontece aqui. Lá a ciência e as artes são valorizadas na formação da personalidade e do caráter das pessoas, desde pequenas. Os cientistas e professores são respeitados e até venerados. O Imperador Akihito, do Japão, que abdicou em favor do filho, um homem culto, é um cientista respeitado e premiado, um ictiologista, responsável pela classificação de várias espécies de peixes. Montou um laboratório no próprio parque do Palácio Imperial, local de seu trabalho cotidiano de cientista. Abria cada ano do reinado, com um congresso científico, do qual participava com comunicações. Também participava a Imperatriz, poeta e musicista. A primeira sessão era com os cientistas sociais, com a presença e participação do Imperador e da Imperatriz. Aqui, a maioria dos governantes não tem tido essa estatura, como estamos vendo agora.

Há outros fatores que explicam diferenças de mentalidade especificamente entre japoneses e brasileiros. O professor Raul Marino, neurologista brasileiro, professor na Faculdade de Medicina da USP, tem estudado as peculiaridades do cérebro em função de certas características culturais de determinada sociedade. Publicou um livro interessantíssimo, “O Cérebro do Japonês”. Ele fala fluentemente a língua japonesa e escreve nos caracteres próprios dessa língua. 

Sua tese é a de que sendo a escrita japonesa uma forma de arte, um trabalho artístico, as informações por meio dela registradas vão para a área do cérebro destinada à arte. Assim como há nele uma área para o amor, outra para a religião, etc. O cérebro não é uma “mistura”. Divide-se em áreas especializadas. Portanto, no cérebro do japonês o conhecimento, mesmo científico e das exatas, é filtrado por um código artístico que o torna mais elaborado. Há nele uma sensibilidade para certos aspectos da realidade que nós não temos nem nos esforçamos para ter. 

IHU On-Line - Como o senhor analisa o posicionamento do presidente Bolsonaro diante da pandemia de Covid-19, especialmente a partir do pronunciamento do dia 24-03-20 e, de outro lado, as críticas feitas a ele?

José de Souza Martins - Embora haja exceções, o presidente da República chegou ao poder cercado de auxiliares retrógrados, desinformados e até ignorantes, que não hesitam em fazer declarações completamente absurdas a respeito de assuntos especializados de suas próprias pastas. O presidente já demonstrou que acha que ao ser eleito, recebeu um atestado de sabedoria e que, por isso, tudo que diz é sábio. Lula supunha isso, também, ainda que com menos atrevimento. 

A crise do vírus expõe as limitações e a falsa consciência social de Jair Messias. Sua concepção antidemocrática de poder, porém, o impede de ver-se no perigo que representa para a sociedade inteira. Pessoas que receberam uma socialização integrativa e orientada por valores sociais, como o da prudência e da solidariedade, não agem temerariamente, não são motivadas pelo desafio à sociedade para mostrar que estão acima de todos. As pessoas comuns consideram-se membros da sociedade, na situação de perigo, orientam-se pelo privilegiamento do bem comum. 

Naquela noite ele aprofundou o abismo entre o presidente e a sociedade. Ele age como se houvesse uma grande conspiração contra ele. 

IHU On-Line - O que os panelaços indicam? Poderemos caminhar para um impeachment, como vários sugerem? Que relações é possível estabelecer entre esses panelaços e os que ocorreram contra a ex-presidente Dilma?

José de Souza Martins - Os panelaços têm sido contra Bolsonaro e não contra o bolsonarismo. No caso de Dilma, foram contra ela, mas principalmente contra o petismo. Essa é uma diferença decisiva a ser considerada. No caso de agora, há um crescente descontentamento com a personalidade e o comportamento do presidente da República, mas não necessariamente com sua pessoa e sua problemática família, não necessariamente com as ideias que perfilha. 

Nos últimos dias, especialistas críticos de Bolsonaro e do bolsonarismo têm examinado o caso e não encontram nele fundamentos para o impeachment. Mas têm falado na possibilidade da interdição, o que o afastaria do governo pelo perigo que ele representa para as instituições. Já tivemos o caso de Café Filho, vice-presidente e sucessor de Getúlio Vargas. Um exame médico fundamentou a interdição. O general Costa e Silva também foi afastado desse modo. Mas ele tivera um AVC que o inabilitava para o exercício da Presidência da República.

O próprio Jair Bolsonaro tem dado reiteradas demonstrações de que tem dificuldades óbvias para compreender as regras próprias da Presidência. Sua dependência em relação aos filhos e em relação aos generais pode ser uma indicação de que ele não tem condições de governar com a tranquilidade que se espera de um governante. No meu modo de ver, ele já deu indicações de renúncia tácita ao mandato, o que pode ser interpretado como vacância da Presidência. Não obstante a carta de renúncia, destinada a chantagear o Congresso Nacional, foi o caso de Jânio Quadros. 

IHU On-Line - Apesar de uma parte da sociedade ter aderido ao isolamento social, outra parte segue compartilhando vídeos e mensagens nas redes sociais que corroboram os discursos do presidente. A crise atual evidencia uma sociedade dividida? Quais são as visões de mundo ou ideologias presentes na sociedade neste momento?

José de Souza Martins - A população ativa nas redes sociais continua bolsonarista, mesmo achando que Bolsonaro é um mau e confuso gestor da monstruosidade que criou. A sociedade não está dividida. A sociedade que não se manifesta está abúlica, sem referências. 

Os partidos de esquerda não têm uma visão crítica do bolsonarismo e do que representa. Têm apenas uma visão antagônica. Não conseguem polarizar e problematizar a anomalia e o perigo de uma facção que governa em nome do ódio, que transformou o ser contra a esquerda e, portanto, contra a política, num programa de Estado. 

O problema é o da falta de visões de mundo em confronto, que mobilizassem a população politicamente. As esquerdas revelaram-se desprovidas de imaginação política e de competência antropológica e sociológica para interpretar o momento, identificar suas contradições e localizar as brechas e fragilidades dos novos donos do poder. Mas há civilizados políticos de esquerda e de centro-esquerda com grande clareza sobre a situação, como Flávio Dino, Cristóvão Buarque e Fernando Henrique Cardoso, dentre vários outros.

IHU On-Line - Desde a semana do dia 16-03-20, o governador do seu estado, João Doria, e o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, fazem pronunciamentos diários às 12h30 para anunciar medidas de enfrentamento à pandemia de Covid-19. Qual seu balanço sobre a postura deles e as medidas que têm anunciado para São Paulo? Que repercussões tem visto sobre os pronunciamentos?

José de Souza Martins - Doria é mais esperto do que parece. Mas não tão esperto quanto pensa. Conseguiu reunir os governadores e prefeitos contra Bolsonaro. Menos por grande competência política e muito mais em decorrência da grande incompetência do presidente da República.

Ele e o prefeito Bruno Covas conseguiram assumir um programa de enfrentamento da crise. Em boa parte, porque as Universidades e os Institutos de Pesquisa do Estado dispõem de um conhecimento consolidado sobre epidemias recentes e seus pesquisadores já estão razoavelmente educados nos valores profissionais da prontidão. A diferença significativa, em São Paulo, estado e cidade, é que os governantes não peitaram a ciência, diferente do que está a acontecer em Brasília.

Doria conseguiu decisão do STF sobre a suspensão do pagamento da dívida do Estado de São Paulo com a União para usar os recursos no combate à pandemia e arrastou outros governadores para sua tese. Doria enfrentou Bolsonaro face a face. Nos pronunciamentos das 12h30, ele e Covas conseguem falar com clareza e anunciar providências de urgência, como a da criação e instalação dos dois hospitais de campanha na capital, praticamente em quinze dias. Enquanto isso, o governo Bolsonaro anunciou tardiamente medidas sem dúvida necessárias, contrárias às orientações e decisões inspiradas na economia de proteção e favorecimento do grande capital e dos patrões. Mas isso porque foi muito pressionado pelos governadores e pelo Congresso. Na prática nada ainda está funcionando, como o pagamento de emergência aos que estão sem trabalho. Lembrando que a proposta do governo era de R$ 200,00 por mês, que o Congresso e as pressões do Congresso elevaram para R$ 600,00.

A população ativa nas redes sociais continua bolsonarista, mesmo achando que Bolsonaro é um mau e confuso gestor da monstruosidade que criou - José de Souza Martins

IHU On-Line - Já é possível especular como a postura do presidente, dos governadores e prefeitos em meio a esta crise irá repercutir nas próximas eleições deste ano (se houver) e em 2022?

José de Souza Martins - Não consigo ver nenhuma tendência nas duas eleições. O bolsonarismo chegará a elas em crise e as esquerdas chegarão vazias e sem causa. A alternativa de centro tampouco dá indícios de existir.

Se houver a eleição municipal, provavelmente terá características de plebiscito. Na falta de uma campanha política, nos casos possíveis, o eleitorado tenderá a confirmar prefeitos que tiveram bom desempenho na questão da epidemia e que foram críticos em relação a Bolsonaro pela lentidão e inabilidade no trato da questão.

Mas há grande possibilidade de Bolsonaro e o bolsonarismo conseguirem reeleição em face da divisão e das incertezas do eleitorado. As oposições não conseguem demonstrar que são uma alternativa à barbárie do momento.

IHU On-Line - Alguns especialistas estão prevendo uma tragédia inimaginável entre os mais pobres, especialmente entre aqueles que vivem em favelas e ocupações. Considerando a desigualdade social que existe no país, como vê particularmente a situação dos mais pobres neste momento?

José de Souza Martins - Os pobres e os mais pobres continuarão pobres. Talvez a epidemia seja benéfica a eles. As elites brasileiras, desde o tempo da escravidão, sempre tiveram pavor dos pobres, especialmente no caso de doenças, dos quais são dependentes. Lembro-me de uma senhora de alta classe média, na epidemia de meningite, na fila de vacinação, argumentando: “Tem que vacinar. Agora a doença está dando em gente como nós.” Ou seja, doenças contagiosas não são doenças só de pobres. 

Provavelmente, o impacto maior será mais sobre a classe média e os ricos do que sobre os pobres, que são mais disciplinados. A Folha de S. Paulo fez o rastreamento da chegada do vírus ao Brasil. Os focos de difusão foram duas festas de milionários em lugares badalados, aqui realizadas, gente que esteve no circuito europeu dos muito ricos, justamente nos lugares em que a intensidade e a difusão do vírus foram maiores e mais letais. 

A recessão econômica terá sobre a classe média efeitos dramáticos. Tanto entre os pobres quanto na classe média a crise afetará sobretudo os jovens, pois está comprometendo o sentimento de esperança, tão essencial às novas gerações. O discurso sobre o pobre já perdeu a eficácia. O que terá sentido, especialmente nas novas gerações, será a consciência da injustiça, a frustração da esquerda e da direita. 

IHU On-Line - O senhor estudou bastante a realidade das populações rurais brasileiras e da Amazônia. Como a pandemia de Covid-19 poderá afetar tanto as comunidades rurais em todo o país, quanto os que vivem na Amazônia? O que seria mais urgente para atendê-las neste momento?

José de Souza Martins - Nestes dias vi manifestações regionais de grande preocupação com as populações indígenas, tão ou mais desassistidas do que as populações rurais. Tudo vai depender da infraestrutura de assistência médica e hospitalar dos municípios. A questão, porém, é a da imensa região amazônica e suas grandes distâncias.

Como está se vendo na distribuição da doença por diferentes estados e localidades, os lugares mais afastados estão mais protegidos. A menos que apareça por lá alguém procedente de regiões de risco. O isolamento natural de muitos lugares poderá ser a proteção dessas populações. Mas se a doença chegar a um deles, o modo de habitar e conviver poderá aumentar exponencialmente a expansão da enfermidade.

Amazônia

A Amazônia é antes de tudo um estereótipo equivocado. Nos últimos 50 anos houve lá grande expansão urbana, com o surgimento de municípios com infraestrutura de educação e de saúde. Algumas áreas são atravessadas por ferrovias modernas e possibilidade de comunicação rápida com centros urbanos desenvolvidos.

Diversas medidas de proteção também poderão ser disseminadas pelo rádio, como em relação à questão da distância entre as pessoas e do isolamento. A população amazônica é tradicionalmente grande ouvinte de rádio. Há meios para prevenir e amenizar as consequências da epidemia. Mas epidemia é epidemia.

Gostaria de lembrar o que o povo chamava de Serviço da Malária, da Superintendência das Campanhas Especiais - Sucam, do Ministério da Saúde, que cobria o Brasil inteiro, mas especialmente a Amazônia. Numa época em que eram escassas as cidades. Os agentes treinavam moradores para colher sangue dos doentes, preparar as lâminas e fazê-las chegar ao posto mais próximo para determinação de qual dos dois tipos de malária havia infectado o doente. E levar-lhe de volta o remédio apropriado. Acompanhei de perto esse trabalho, especialmente em Rondônia. Era um serviço público heroico e excepcional. E dava muito certo.

IHU On-Line - A partir das suas pesquisas sobre a vida cotidiana e o homem simples, como diria que o brasileiro está lidando com a crise atual?

José de Souza Martins - O homem comum reagiu mais depressa e mais organizadamente do que o governo, que se embaralha no desconhecimento da realidade social brasileira. O grande herói popular deste momento é a comunidade. Os valores e regras da vida comunitária no Brasil, mas também em outros países, foram combatidos pela sociedade moderna e mesmo pelas ciências sociais. Convém lembrar as posições depreciativas de Marx, no Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, e do comunismo soviético em relação aos camponeses, depositários e agentes da sociedade tradicional e de seu modo de vida comunitário.

A comunidade, em consequência, refugiou-se nos subterrâneos da sociedade urbana e moderna e de algum modo também sobreviveu no mundo rural. É de lá que essa força tem emergido à superfície nos momentos socialmente críticos, como este. Pode ser que estejamos em face de uma revolução, como já sugeriu Henri Lefebvre a propósito desse assunto. 

A superfície está ocupada pelos poderios e pela alienação. O governo Bolsonaro é o governo dos poderios da superfície, cujas fragilidades o vírus já expôs. É a comunidade que emerge do subterrâneo, a que foi confinada pelo preconceito e pelo desdém em relação ao grande legado de nossa rica cultura popular. A do que Gramsci definia como bom senso, quando dizia que todo homem é filósofo. Não é casual que os toscos do governo atual tenham declarado guerra a Antonio Gramsci e ao gramsciano Paulo Freire, sem nunca tê-los lido.

IHU On-Line - Quais as perspectivas para o pós-crise? Algo tende a mudar no país, especialmente em relação à situação dos mais pobres? Há espaço para transformações sociais pós-crise?

José de Souza Martins - Não há nenhum sinal de que os diferentes grupos sociais tenham consciência de sua responsabilidade na superação das contradições, insuficiências e demolições sociais do período da pandemia. A sociedade brasileira sairá dela mutilada economicamente e mais pobre de espírito do que tem sido.

Os grupos inspirados em valores democráticos e identificados com os valores humanistas relativos ao primado da condição humana, que foram marginalizados, precisam fazer urgente autocrítica, urgente revisão e crítica de sua ignorância teórica, ouvir as ponderações dos cientistas sociais de orientação crítica e revisora para reavaliar sua práxis.

O Brasil precisa com urgência de teóricos brasileiros que retomem as preocupações com a historicidade e as condições da história do futuro. Gente capaz de ver e decifrar o historicamente possível, que nos ajude a pensar e definir uma nova orientação da práxis, da ação coletiva em favor da responsabilidade social, da liberdade, dos direitos sociais e da corresponsabilidade política de todas as pessoas de bem, contra a ignorância política, a pobreza de espírito, a alienação, o autoritarismo, a corrupção, o capitalismo dinheirista, em favor de um capitalismo social responsável. Uma sociedade aberta à participação responsável de todos. Temos que banir satanás da realidade brasileira. 

É preciso repensar o sistema político, para que trabalhadores e empresários se tornem agentes do bem comum, da partilha justa. Para que assumam a grave responsabilidade que tem com o destino das novas gerações. É preciso superar o confronto tolo e sem projeto histórico para todos, com suas diferenças e na diferença o protagonismo necessário da rica diversidade do que é ser brasileiro e ser gente num país como o nosso.

 

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