A festa religiosa do Carnaval: a resistência alegre dos povos periféricos contra o conservadorismo elitista. Entrevista especial com Aydano André Motta

Apesar do preconceito de parte da população, Festa de Momo continua sendo ferramenta política de combate à injustiça social

Jesus negro no desfile da Mangueira | Foto: Gabriel Nascimento - RioTur

Por: Ricardo Machado | 02 Março 2020

Em 1982 o samba-enredo da União da Ilha do Governador, regravado por dezenas de intérpretes, dizia logo na primeira estrofe “A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela”. Assim se faz a história do carnaval há décadas, que a despeito de uma visão preconceituosa de parte da sociedade segue sendo uma das mais originais formas de resistência das populações periféricas e ao mesmo tempo um rito de memória dos povos africanos escravizados no Brasil. “Quando a Viradouro ganha o carnaval [carioca] contando a história das Ganhadeiras de Itapuã, na Bahia, ou quando a Grande Rio, vice-campeã, retrata Joãozinho da Gomeia, pai de santo baiano que viveu em Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense, ou a Mangueira que traz a imagem do Cristo negro crucificado e crivado de balas e embaixo outras imagens de LGBTs, mulheres e outras minorias que são oprimidas no Brasil, o carnaval está prestando um serviço fundamental à sociedade brasileira”, pondera Aydano André Motta, jornalista, escritor e pesquisador do carnaval carioca, em entrevista por telefone à IHU On-Line.

É justamente a representação de imagens ligadas ao cristianismo nos desfiles das escolas de samba um dos alvos de discussão e disputa entre carnavalescos e setores conservadores. “O carnaval é visto e traçado pelo poder como uma festa pagã, mas é uma visão equivocada. O carnaval é uma festa completamente religiosa. Essas coisas incomodam, porque as imagens cristãs foram ‘privatizadas’ por sacerdotes de manifestações neopentecostais e esses pastores se comportam como se Jesus fosse propriedade deles”, critica o jornalista. “Fugir desta imagem que é conveniente para a manutenção de poder e chegar à imagem mais impressionante do Carnaval de 2020, que é o Cristo negro crivado de balas e crucificado, faz com que as forças conservadoras que se alimentam da exploração da fé e da religião se insurjam e tentem combater. As mesmas forças opressoras que tentam sufocar a manifestação do samba estão ligadas ao conservadorismo em torno de Jesus”, complementa.

Enquanto o poder público tenta sabotar o carnaval no Rio de Janeiro, o resultado da festa reforça ainda mais sua relevância social e seu papel de intérprete da realidade brasileira. “É uma vitória que um carnaval de tão alto nível tenha sido realizado contra todas as atitudes do bispo neopentecostal que governa o Rio de Janeiro; essa é a primeira vitória. A segunda, é que o carnaval está cada vez mais tratando de assuntos conectados à realidade, especialmente do povo pobre, preto e periférico”, analisa.

Aydano Motta (Foto: Reprodução | YouTube)

Aydano André Motta é jornalista com 30 anos de profissão, passou toda sua carreira em veículos cariocas. Cobre os desfiles da Marquês de Sapucaí desde 1988. É roteirista do documentário Mulatas! Um tufão nos quadris (2011). É coordenador da coleção “Cadernos de Samba” (Verso Brasil Editora) e autor dos livros Troféus da Mangueira (Rio de Janeiro: BookLook Editora, 2006), Blocos de Rua do Rio de Janeiro, volumes 1 e 2 (Rio de Janeiro: Editora Réptil, 2011 e 2012), Maravilhosa e Soberana – Histórias da Beija-Flor (Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2012) e Onze mulheres incríveis do Carnaval carioca (Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2013).

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que significa o carnaval para o Brasil? Qual a importância desta festa popular para a cultura nacional e por que tem sido vilipendiada por certos setores sociais?

Aydano André Motta – O carnaval das escolas de samba, sobretudo, tem um significado cultural e social muito grande. É uma festa longeva que em 2021 completará 90 anos e tem como alicerces, em primeiro lugar, a diáspora africana, porque ela nasce do samba que, por sua vez, é um gênero musical criado pelos negros escravizados trazidos à força da África. Todo esse processo de criação e crescimento do carnaval está baseado em questões sociais e luta, durante toda sua história, contra a criminalização por parte das elites, que teimam em criminalizar todas as manifestações populares.

Não foi diferente com o carnaval. Temos vários relatos de situações contra as manifestações carnavalescas em que os sambistas eram tratados, no fim do século XIX e início do XX, como os funkeiros são tratados hoje, acusados de fazerem apologia ao crime. Os órgãos de repressão que funcionam, desde sempre, a serviço das elites, trataram (e tratam) de reprimir as manifestações que vêm do povo.

Outro ponto fundamental na sobrevivência do samba foi Tia CiataHilária Batista de Almeida –, uma baiana e mãe de santo que abrigava na sua casa sambistas e promovia as primeiras rodas de samba na região da Praça XI no Rio de Janeiro. Ela foi fundamental porque impedia que os sambistas fossem presos pela polícia. Na verdade, não mudou muito de lá para cá, porque o carnaval continua sendo uma festa vista com muito preconceito por parte da população brasileira. As escolas de samba sobrevivem, e a Portela (a mais antiga em atividade) completará seu centenário daqui a três anos, pela insistência e tenacidade do povo negro do Rio de Janeiro e do Brasil. A importância delas, portanto, é contar um pedaço de nossa história que não faz parte dos livros oficiais. Ao seu significado cultural, somam-se a celebração e a exaltação de culturas e rituais do povo pobre e periférico do Brasil.


Praça XI (Foto: Reprodução | Google Maps)

Para citar um exemplo de 2020, quando a Viradouro ganha o carnaval contando a história das Ganhadeiras de Itapuã, na Bahia, ou quando a Grande Rio, vice-campeã, retrata Joãozinho da Gomeia, pai de santo baiano que viveu em Duque de Caxias, cidade da Baixada Fluminense, ou a Mangueira que traz a imagem do Cristo negro crucificado e crivado de balas e embaixo outras imagens de LGBTs, mulheres e outras minorias que são oprimidas no Brasil, o carnaval está prestando um serviço fundamental à sociedade brasileira.

IHU On-Line – Em que sentido o carnaval no Brasil se traduz em uma de nossas mais originais formas políticas? Por que tantos políticos são avessos à festa de Momo?

Aydano André Motta – Quem manda no Brasil hoje, por decisão da maioria do eleitorado que participou das eleições em 2018, são forças políticas ligadas a setores conservadores e opressores da nossa sociedade. Estas forças políticas contam com o apoio de igrejas neopentecostais empenhadas em uma disputa de território e de público. É importante sublinhar que são neopentecostais e não evangélicas, uma vez que estas englobam outro tipo de igrejas que são muito mais tolerantes com a diferença. Para as igrejas neopentecostais é fundamental sufocar os religiosos de matriz africana e converter seus seguidores.

Há políticos que defendem um país em que os corpos sejam domesticados, onde não haja manifestações contrárias ou diferentes de suas convicções, mas sobretudo de seus interesses. Por isso muitas autoridades são contra, combatem e sabotam as escolas de samba. O Rio de Janeiro elegeu, em 2016, um bispo neopentecostal como prefeito que passou os últimos quatro carnavais atuando, primeiro, para que a festa diminuísse de tamanho, e depois, tentando que ela não acontecesse, cortando recursos e se movimentando no sentido de inviabilizar a sobrevivência das escolas.

Tem um samba do Nelson Sargento, sambista e presidente de honra da Mangueira, que diz “o samba agoniza, mas não morre”. A passagem, muito citada, serve de emblema para o que está acontecendo. As escolas vivem uma situação dramática devido a dificuldades financeiras, mas conseguiram, nos últimos anos, botar seu carnaval na rua e cada vez mais conectadas a agendas sociais.

Em 2020, das 13 escolas que cruzaram a passarela do samba no carnaval, pelo menos oito traziam temas ligados às muitas urgências sociais do Brasil. É claro que esse tipo de assunto incomoda os poderosos, certamente o presidente Jair Bolsonaro não gostou de ver um humorista importante e conhecido como Marcelo Adnet satirizando alguns de seus trejeitos em uma imagem transmitida para o mundo inteiro.

IHU On-Line – Por que sambas-enredo que trabalham com a dimensão religiosa cristã causam, ainda hoje, ou sobretudo hoje, tanto debate na esfera pública?

Aydano André Motta – O carnaval é visto e traçado pelo poder como uma festa pagã, mas é uma visão equivocada. O carnaval é uma festa completamente religiosa. Na fundação de todas as escolas de samba sempre houve presente um pai de santo, uma mãe de santo, havia ao menos um sacerdote. Várias escolas de samba estão assentadas, nas suas quadras e sedes, em antigos terreiros de candomblé e umbanda, então é uma festa que se move a partir da religião, não existiria sem os preceitos religiosos. As baterias das escolas e suas formas de execução estão ligadas a orixás, são batidas escolhidas para reverenciar orixás. É uma festa extremamente religiosa e que no Brasil tem manifestações do sincretismo. A umbanda conecta santos católicos a orixás, então no Rio de Janeiro, Oxóssi é São Sebastião, Oxum se junta a Nossa Senhora da Conceição, São Jorge a Ogum. Quando a Paraíso do Tuiuti leva para a avenida a imagem de São Sebastião, que é padroeiro do Rio, haverá uma óbvia conexão com Oxóssi, porque a maioria dos participantes da escola são ligados à umbanda, que está presente na vida da escola. A Beija-Flor teve um enredo sobre a rua, os caminhos, e evidentemente citou Exu, que é um orixá ligado a isso.

Todas essas coisas incomodam, porque as imagens cristãs foram “privatizadas” por sacerdotes de manifestações neopentecostais e esses pastores se comportam como se Jesus fosse propriedade deles. Aí chegamos ao desfile da Mangueira em que o Leandro Vieira, um dos mais importantes artistas da festa na atualidade pelos temas que propõe, leva para a avenida a imagem que ele tem de Jesus. Na realidade, a premissa do desfile dele é de que não existe uma imagem “real” de Jesus, pois a imagem que temos dele é uma versão renascentista, daí seu aspecto loiro, caucasiano, olhos claros, celebrada mais tarde por Hollywood. Fugir desta imagem que é conveniente para a manutenção de poder e chegar à imagem mais impressionante do Carnaval de 2020, que é o Cristo negro crivado de balas e crucificado, faz com que as forças conservadoras que se alimentam da exploração da fé e da religião se insurjam e tentem combater. As mesmas forças opressoras que tentam sufocar a manifestação do samba estão ligadas ao conservadorismo em torno de Jesus.

IHU On-Line – Como o Jesus negro salpicado a tiros da Mangueira retraduz a imagem de Jesus Cristo para o contexto brasileiro? O que ele revela do próprio Cristo e, ao mesmo tempo, da sociedade brasileira?

Aydano André Motta – A história de Jesus que está na Bíblia mostra que se ele nascesse hoje provavelmente voltaria, se estivesse no Brasil, em uma favela ou comunidade popular e seria perseguido pelas forças de repressão, os agentes da lei. Como Jesus foi oprimido e morto pelos poderes de sua época, podemos pensar que a leitura que a Mangueira propõe é absolutamente coerente em relação ao Evangelho, afinal ele não era rico e poderoso, mas, ao contrário, vivia com os degradados.

O Leandro Vieira, com quem conversei longamente, entende que a arte precisa provocar reflexão e não pode ser uma coisa contemplativa que a pessoa possa esquecer cinco minutos depois de passar por ela. O carnavalesco quis fazer algo para provocar reflexão e atacar esse setor da sociedade brasileira, que, na visão dele, prejudica tremendamente o povo pobre do Brasil.

Trata-se de um enredo que teve radicalismos carnavalescos como o da rainha de bateria, Evelyn Bastos, uma jovem que nasceu e vive na favela, que foi o de passar na avenida sem dançar. Veja, a rainha de bateria é a principal dançarina da escola, que normalmente desfila de forma exuberante, mas este ano ela passou sem dançar porque representou o Cristo mulher. Além do Cristo negro que ficou famoso porque sua imagem é muito impressionante, a escola trouxe outras representações, como Cristo mendigo representado por um pastor evangélico, o Henrique Vieira. Retomando a Evelyn, representando o Cristo mulher, ela abriu mão até mesmo da própria festa, em nome de um protesto contra o feminicídio, a objetificação da mulher, a exagerada sexualização das sambistas. Foi um manifesto o que a Mangueira fez. Quando vemos o noticiário, percebemos que há questões que precisam ser discutidas no cenário brasileiro e essas forças conservadoras agem próximas ao poder e influenciam decisivamente na vida de todos os brasileiros.

IHU On-Line – O que significa a carta enviada pela Arquidiocese do Rio de Janeiro à Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro - Liesa, sugerindo que fosse consultada no caso de enredos de temáticas religiosas? Há algum precedente histórico nesse sentido?

Aydano André Motta – Essa carta é um avanço na relação da arquidiocese com o carnaval. Em 1989, Joãozinho Trinta, naquele que foi o maior trabalho de sua carreira, fez o desfile Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia, no qual ele transformava o lixo em luxo. Uma das coisas que ele tentou levar como carro abre-alas era o Cristo Redentor mendigo, que era uma reprodução da icônica imagem de cristo com os braços abertos e com roupas em farrapos. O cardeal da época, Dom Eugênio Sales, era uma figura contraditória e paradoxal, porque era um conservador politicamente, mas na época da ditadura ajudou muitos presos a fugirem do Brasil e escondeu muita gente, e foi à justiça para censurar a imagem do Cristo. O país havia recém voltado à democracia, não tinha tido ainda a primeira eleição direta para presidente pós-ditadura militar e a justiça concedeu uma liminar proibindo que o Cristo passasse na avenida. A solução encontrada pela Beija-Flor foi cobrir o Cristo com uma lona preta e passar na avenida assim mesmo, o que se tornou a imagem mais conhecida na história do carnaval.

Com a mudança dos tempos e consolidação da democracia, que hoje está sob risco, a Arquidiocese do Rio, mesmo sendo uma instituição muito poderosa, tem uma outra postura em relação às escolas de samba, que é a de negociar seus interesses com as agremiações em torno do carnaval. É isso que faz o bispo Dom Orani Tempesta, ele negocia com as escolas e o que aconteceu com a Mangueira foi que a igreja Católica pediu para ver o que eles fariam com as imagens ligadas ao catolicismo, o que não gerou grandes problemas ou qualquer tipo de animosidade. Atualmente no carnaval há muito mais imagens cristãs e católicas, por isso tem Nossa Senhora Aparecida no desfile, São Sebastião e o próprio Cristo.

IHU On-Line – Qual o limite que separa a homenagem da blasfêmia? Que critérios definiriam uma e outra coisa?

Aydano André Motta – A blasfêmia é um conceito conservador, de quem quer reprimir novas leituras para um fato que está contado na Bíblia. Quem define o que é blasfêmia? As escolas de samba não têm interesse em desmoralizar as imagens cristãs, o que se está falando aqui é de fé e não de negação da fé. Nunca houve um desfile que celebrasse, por exemplo, o satanismo ou que colocasse Jesus, Maria ou José em uma situação constrangedora, é tudo celebração. A discussão colocada em torno desse tema da religiosidade não se trata de celebração ou blasfêmia, mas de poder e propriedade. Quando a Mangueira leva o Cristo negro, está chamando atenção para outras leituras da história de Jesus e algumas delas desagradam setores conservadores. Esse é o ponto.

Aceitamos de maneira naturalizada que Cristo tenha cabelos lisos, seja branco e de olhos azuis, isto é, o cristo da Capela Sistina, pintado por Michelangelo. Contudo, pelo local geográfico onde se passam os fatos narrados pela Bíblia é biologicamente impossível que o Cristo seja branco, caucasiano e de olhos claros. Ele era negro africano. Se ele existiu, era negro. Estamos falando aqui de ciência, não de religião, porque é cientificamente impossível que ele se pareça com um alemão ou escandinavo, como propõe o poder conservador cristão. Quando uma potência, como a Mangueira, em um palco planetário como a Sapucaí, propõe a imagem de um Cristo negro, cabelos coloridos, crivado de balas e crucificado, na posição consagrada nas imagens da narrativa cristã, ela está chamando atenção para uma nova leitura. Inclusive essa nova leitura pode ser a mais correta, porque faz mais sentido um Cristo negro, tanto politicamente como cientificamente, que um Cristo europeu. Isso desestabiliza um determinado poder, porque pode ter tido um fiel que tenha olhado o desfile e pensado, “Gente, é mesmo. Como pode tudo o que me falaram? Esse pastor deve estar errado”. É possível ouvir pastores conservadores falarem blasfêmia, mas é um conceito estabelecido de forma não consensual.

IHU On-Line – O que, simbolicamente, representam as vitórias da Águia de Ouro, em São Paulo, e da Viradouro, no Rio de Janeiro, com temas relacionados a Paulo Freire e Ganhadeiras de Itapuã, respectivamente?

Aydano André Motta – Representam o fato de que uma parcela da sociedade está crescentemente interessada em ver contada e celebrada a história de personagens que são omitidos na narrativa oficial. Isso é crescente pelo público dessas manifestações. Nós podemos discutir qual o tamanho desse público, se é majoritário ou minoritário, mas aí dependeremos de outras ferramentas para chegar a essa conclusão. Isso mostra que tem um interesse grande e crescente nessas agendas.

Paulo Freire, um dos maiores brasileiros que já viveu, foi atacado do jeito que foi por integrantes do atual governo, de maneira constrangedora — um brasileiro que é celebrado internacionalmente –, deveria ser exaltado por qualquer governante qual seja seu viés ideológico. O atual governo, contudo, insiste em desmoralizar o Brasil para o mundo. Então quando a Águia de Ouro traz Paulo Freire e faz sucesso é porque tem um interesse de uma parcela da população na obra deste gigante do Brasil, possivelmente um dos três maiores brasileiros que já viveram.

No caso das Ganhadeiras de Itapuã, pelo segundo ano consecutivo, o carnaval se interessa em celebrar a história não contada, a história de personagens omitidos dos relatos oficiais — no ano passado o enredo da Mangueira [campeã do Carnaval 2019] era sobre esses personagens, pois falou de Luísa Mahin, Luís Gama, que foi perseguido pelas ditaduras do Brasil, de Marielle Franco, do Dragão do Mar, enfim, figuras que só agora chegam às narrativas que se ensinam nas escolas. Eu, por exemplo, tenho 55 anos e jamais vi, na minha vida escolar, esses personagens, fui conhecê-los há pouquíssimo tempo.

O fato de a Mangueira ter ganho o Carnaval de 2019 de maneira tão contundente e apoteótica, mostra um interesse e uma demanda pelo conhecimento desses personagens, como Dandara — mulher do Zumbi dos Palmares —, do próprio Zumbi, todas essas personagens e passagens da nossa história que estão omitidas dos relatos oficiais e que hoje forças políticas poderosas querem esconder mais ainda. É uma reação a esse tipo de prática e essa reação prosseguiu em 2020, contaminou o carnaval de São Paulo com Águia de Ouro.

Esses personagens que não estão nos livros de história, as Ganhadeiras de Itapuã, da Viradouro, que são as escravas e lavavam roupa para ganhar dinheiro e comprar as próprias alforrias e as de outros escravizados. O próprio Joãozinho da Gomeia, recordado pela Grande Rio, um Pai de Santo revolucionário gay nos anos 1970, que virou artista de televisão e fez muito pelo Candomblé e pela Umbanda, não está contado em lugar nenhum, muita gente nunca ouviu falar de Joãozinho da Gomeia, embora ele seja um personagem histórico muito recente.

A vitória destas agremiações é uma consequência da competência no desfilar, mas de onde vem a competência no desfilar? O primeiro ponto é o assunto escolhido pela escola, que se chama enredo. Quando a escola escolhe um enredo como esses, ela está sinalizando para os seus componentes que vem alguma coisa que vai mobilizá-los para que cantem na avenida e façam o espetáculo da escola, é uma obra coletiva; cada escola é uma obra de três mil artistas.

Para mobilizar essas três mil pessoas, fazer cantá-las, dançar, evoluir e tudo mais no desfile, é necessário que o tema seja bem escolhido para que se chegue à vitória. Aí, a Viradouro e a Grande Rio, que são as duas escolas que escolheram esses temas, tiveram a sensibilidade de escolhê-los com uma ligação com o povo que iria desfilar e cantar esses temas e com o público que estaria assistindo; ali estão todos nessa mesma viagem.

IHU On-Line – Qual avaliação o senhor faz do carnaval carioca em 2020? Qual o recado da passarela do samba?

Aydano André Motta – Foi um carnaval construído sob terríveis dificuldades econômicas, que conseguiu vencer a sabotagem do prefeito do Rio de Janeiro [Marcelo Crivella]. O Rio deveria tratar o carnaval não como uma questão de governo que está sujeita à alternância de poder, mas sim como uma questão de Estado, assim como saúde, educação e segurança. O carnaval deveria estar neste balaio das questões de Estado porque ele faz muito bem ao Rio de Janeiro, que tem uma identidade única conhecida em escala planetária por causa do seu carnaval, portanto, isso deveria ser muito mais valorizado, e não tratado com essa leviandade com que é tratado pelo atual governo da cidade.

É uma vitória que um carnaval de tão alto nível tenha sido realizado contra todas as atitudes do bispo neopentecostal que governa o Rio de Janeiro; essa é a primeira vitória. A segunda, é que o carnaval está cada vez mais tratando de assuntos conectados à realidade, especialmente do povo pobre, preto e periférico.

O carnaval falou do feminismo negro, do empoderamento feminino, lutou contra o racismo e o feminicídio, celebrou uma artista que é engajada nestas causas – Elza Soares no enredo da Mocidade –, lembrou do povo de rua no enredo da Beija-Flor, trouxe o Cristo negro com a Mangueira. Além disso, alertou sobre a destruição do meio ambiente no enredo da Portela, zombou dos políticos conservadores no enredo da São Clemente, que atacava explicitamente o processo eleitoral de 2018, e celebrou o primeiro palhaço negro do Brasil no Salgueiro. A União da Ilha trouxe uma aguda crítica social tratando do tema da violência que assola especialmente os mais pobres. Das 13 escolas que passaram, dez dessas escolas – se incluirmos as referências e não apenas os temas centrais – traziam discussões que falavam ao público, que estava na Sapucaí ou assistia pela televisão, sobre o cotidiano.

Esse é o recado que o carnaval de 2020 passou: tem gente interessada em um outro Brasil, em um jeito diferente de ver e lutar no Brasil, um recado que já tinha começado no carnaval de 2018, se acentuou em 2019 e aumentou mais ainda em 2020. Esses sinais mostram o caminho do carnaval das escolas de samba, a potência que é o carnaval das escolas de samba, e os temas que serão centrais a partir de agora.

 

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