Jerusalém no tempo de Jesus

Foto: Pixabay

09 Janeiro 2021

Publicado pela primeira vez em 1969 pelo grande exegeta (1900-1974) que havia vivido muitos anos em Jerusalém antes de lecionar em várias universidades alemãs, esse clássico foi editado pelos EDBs em 2000 e agora reproduzido na série Reprint que reúne obras cujos valor supera o tempo de sua primeira aparição por ter vindo a fornecer pontos imprescindíveis de referência nas pesquisas teológicas.

 

Apesar dos anos transcorridos, que comportaram novas metodologias de pesquisa, novos dados mais atualizados ou mais especificados, a obra de Jeremias continua a ter uma importância destinada a perdurar no tempo.

 

Suas duas pesquisas de história econômica e social constituem as duas grandes partes do estudo. Na primeira parte (p. 15-142), ele examina a situação econômica de Jerusalém no tempo de Jesus, enquanto, na segunda parte (p. 143-563), ele enfoca a situação social.

 

O comentário é de Roberto Mela, professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 19-12-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

A situação econômica

 

Jeremias parte do estudo dos ofícios presentes em Jerusalém e sua organização. Em seguida, examina o tema do comércio e da movimentação dos estrangeiros. Em cada tema, ele acrescenta algumas notas sobre a influência de Jerusalém em virtude de sua peculiaridade.

 

Ele examina os ofícios de interesse geral que dizem respeito a artigos para a casa (tapetes, mantas, tecidos, unguentos, resinas perfumadas ...) que previam a atividade de tecelagem, a feltragem e a indústria do couro.

 

A alimentação exigia, entre os produtos alimentares, em primeiro lugar o azeite, a produção de pão e a atividade do açougue. Artigos de luxo (unguentos e resinas) eram produzidos e vendidos em Jerusalém. Os Evangelhos também dão testemunho disso. A corte de Herodes consumia muitos itens de luxo, além de obras devido ao artesanato de obras de arte.

 

Jerusalém no Tempo de Jesus: pesquisas de história econômico-social no período neotestamentário - Joachim Jeremias. ed. Paulus, R$ 53,99, 520 págs. (Foto: Divulgação/Tenda Gospel)

 

Outras ocupações eram a confecção de sinetes e o trabalho dos copistas. Importante foi a atividade de edificação, muito alimentada por Herodes, o Grande, com suas numerosas empresas de construção, primeira entre todas a construção do novo templo. O autor passa em resenha os prédios, os operários para a construção ordinária (pedreiros), as construções artísticas e a manutenção dos edifícios. Outras funções artesanais eram aquelas dos médicos, barbeiros, lavadeiros, cambistas.

 

Depois de descrever o traçado da cidade e sua infeliz posição geográfico-econômica, ele ilustra a organização interna das profissões individuais, localizadas nos pontos mais adequados das ruas e praças (as lojas de artesanato nas ruas, os alfaiates nos portões, os ofícios de arte na parte alta da cidade, onde também se localizavam os feltradores pagãos). “Por isso o cuspe de um morador da cidade alta era considerado impuro” (p. 43).

 

A organização dos ofícios era caracterizada por um agrupamento local e uma natureza corporativa. As entidades de ofícios destinadas à construção do templo eram os operários (estima-se que fossem 18.000, desempregados no final da obra ...): pedreiros, carpinteiros, ourives, artesão da prata e bronze. Para o culto eram necessários aqueles que preparassem os pães da proposição e os perfumes para queimar, aqueles que cuidavam das cortinas do templo, os ourives, o especialista em fornecimento de água, o médico do templo, os barbeiros... Jeremias descreve a organização em corporações das maestrias do templo, privilégio de algumas famílias.

 

O estudioso, portanto, analisa a influência de Jerusalém nos ofícios em consideração com sua peculiaridade. Além da pedra, havia pouco a disposição: argilas de baixa qualidade, pouca água. Tudo isso não favorecia o desenvolvimento dos ofícios ou a presença de algum produto típico da cidade.

 

 

O comércio

 

A cidade tinha importância política e religiosa. Tinha 25-30.000 habitantes na época de Jesus. O comércio era necessário para a importação de mercadorias. Para financiar o comércio havia as imensas receitas do templo, os negócios ocasionados pela presença de estrangeiros, as receitas de impostos para os períodos dos soberanos independentes.

 

Jerusalém atraía os donos de grandes capitais: grandes comerciantes, cobradores de impostos, judeus da diáspora enriquecidos, que às vezes se estabeleceram ali para sempre por convicção religiosa. “De tudo isso emerge uma imagem singular: é verdade, a situação da cidade era totalmente desfavorável ao desenvolvimento dos ofícios; no entanto, certas profissões prosperavam em virtude de sua importância econômica, política e religiosa” (p. 57).

 

A exemplificação dada para este parágrafo sugere a riqueza da pesquisa de Jeremias, apoiada em fontes bíblicas, rabínicas e outras.

 

 

Os estrangeiros

 

O terceiro capítulo da primeira parte (p. 101-142) enfoca os movimentos dos estrangeiros em Jerusalém e a influência que a cidade exercia sobre isso devido à sua peculiaridade. O estudioso fornece dados sobre como poderia ser a viagem a Jerusalém (geralmente a pé para os viajantes), os preparativos, as estradas em péssimo estado, onde se poderia encontrar alojamento. Ele também lembra os movimentos dos estrangeiros vindos de países distantes (cf. Atos 2,9-11!): Gália e Alemanha, Roma, Grécia, Chipre, Ásia Menor, Mesopotâmia e regiões a leste dela, Síria, Arábia (Reino nabateu, Egito, Cirene, Etiópia. No entanto, era a circulação interna da Palestina que constituía a maior parte do tráfego para Jerusalém, especialmente a Judeia (peregrinações, comércio com caravanas ...). A situação geográfica da cidade no que diz respeito ao comércio também vale para o movimento dos estrangeiros.

 

Jerusalém tinha grande importância religiosa e política. Era a antiga capital, a sede da assembleia suprema, o templo atraía peregrinos, era o centro político que se tornou cidade romana após 6 d.C. Era um centro notável para a formação dos judeus e importante para as correntes religiosas. Acima de tudo, albergava o templo e, portanto, era "a pátria do culto judaico, o lugar da presença divina na terra" (p. 127). As pessoas os frequentavam para rezar, em peregrinação nos três festas mais importantes, ali se levavam as primícias, as mães se purificavam, de todo o mundo chegavam impostos para o santuário, as várias seções de sacerdotes se dirigiam ali em turnos, levitas e israelitas; “aqui, três vezes por ano, afluía o judaísmo de todo o mundo” (p. 129). Para as festas chegavam também os peregrinos da diáspora.

 

Na Páscoa, os judeus se dividiram em três grupos para entrar no templo para imolar os sacrifícios. Calculando o espaço disponível do templo, Jeremias supõe 18.000 oferendas pascoais. Uma mesa comum podia ter em média 10 comensais. Depois de subtrair os 55.000 habitantes de Jerusalém (Jeremias depois modifica o número), é possível supor a presença de 125.000 peregrinos, número que, segundo o autor, pode ser reduzido à metade ou duplicado. Nas p. 141-142 Jeremias faz um epílogo datado de 1966 e reconsidera as contas propondo reduzir os números pela metade. Jerusalém tinha 20.000 habitantes dentro dos muros, 5-10.000 fora. O limite máximo de habitantes de Jerusalém parece ser 25.000. Talvez demasiado alto o número de 6.400 pessoas para cada um dos três grupos de ofertantes (o que eleva o número de peregrinos para 180.000). “No entanto, um fato é certo: durante a Páscoa era imponente o influxo de peregrinos vindos de todo o mundo; seu número excedia várias vezes o da população de Jerusalém.

 

 

A situação social

 

A segunda parte do volume, muito mais ampla que a primeira, é dedicada à situação social de Jerusalém. A discussão é dividida em duas grandes seções: A) Ricos e pobres (p. 145-234); B) No topo e na base da escala social (p. 235-563).

 

As informações que Jeremias fornece impressionam pelo número e interesse, sempre documentadas pelas fontes. Vamos apresentar algumas.

 

Na primeira secção da segunda parte, Jeremias examina em quatro capítulos do grupo dos ricos, o da classe média, o grupo dos pobres e, por fim, os fatores determinantes para o desenvolvimento das condições econômicas dos habitantes de Jerusalém no tempo de Jesus.

 

Os ricos e a classe média

 

Os primeiros pertencem à corte ou à classe rica, abastada. Os serviçais da corte somavam 500 pessoas. Existem os oficiais do rei, o secretário do rei, o tesoureiro, os tutores dos príncipes reais. Existe a comitiva dos reis: amigos íntimos, "primos e amigos", existe o harém. Basicamente, a corte manteve conotações orientais. A poligamia é vigente. Jeremias lembra que a Lei o permitia, a Mishná concede até 18 esposas, o Talmud fala de 24 ou 48...

 

Havia também cortes menores, aquelas dos príncipes reais. Até mesmo com 1.000 talentos de renda, Herodes não conseguia atender todos os compromissos e saqueou o patrimônio de vários ricos depois de executá-los. A classe rica vivia no luxo, em meio a banquetes que ditavam a lei. É feita referência aos círculos afluentes dos funcionários ou ao problema do casamento levirato. Os dotes para as filhas eram grandes somas e não faltavam as grandes damas em Jerusalém (por exemplo, Martha, viúva do sumo sacerdote R. Yoshua).

 

Entre os representantes da classe rica estão os detentores do capital nacional: os grandes comerciantes, os grandes proprietários fundiários, os cobradores de impostos e os que viviam de rendas públicas. A nobreza sacerdotal fazia parte da classe rica (Ananias, Ana, Caifás...) que habitava na cidade alta. Um grande luxo reinava nas famílias dos sumos sacerdotes, que obtinham uma renda regular do tesouro do templo (bem como possuíam algumas das propriedades de terra). Os sacerdotes comuns estavam em uma "situação miserável" (p. 164). O nepotismo era irrestrito nas nomeações para os cargos mais lucrativos dos funcionários mais influentes do templo, como os tesoureiros e os supervisores.

 

Museu da Terra Santa com objetos do tempo de Jesus (Foto: Vatican News)

 

A classe média era composta de pequenos comerciantes, os artesãos, na medida em que eram proprietários de oficinas e não trabalhavam para terceiros como assalariados. Não existem fábricas. “Dados precisos sobre a situação financeira dessas categorias são muito raros. A certos exageros não se deve dar crédito” (p. 167). “Essas categorias se encontravam em uma situação econômica propícia, quando tinham negócios com o templo e os peregrinos”. Quase exclusivamente os peregrinos impulsionavam a atividade albergueira. Nas festas com peregrinação e na chegada das primícias, era obrigatório dormir em Jerusalém. Assim se formou a “Grande Jerusalém”, incorporada ao distrito de Betfagé. Uma prescrição proibia o aluguel de casas na cidade porque eram propriedade comum de todo Israel.

 

Parece que todos os peregrinos consumissem a refeição da Páscoa na própria Jerusalém. Os peregrinos enriqueciam os comerciantes de mercadorias e os encarregados dos suprimentos (basta pensar no quanto necessário para oferecer um sacrifício no templo e para a refeição da Páscoa). Era obrigatório gastar o dinheiro do segundo dízimo em Jerusalém. Na Páscoa, presentes eram oferecidos às esposas e se adquiriam lembranças.

 

Os sacerdotes faziam parte da classe média. O clero, espalhado por todo o país, era organizado em 24 classes. Os que residiam na cidade eram pessoas cultas e ricas (cf. Flávio Josefo). Em relação aos rendimentos dos sacerdotes, uma distinção clara deve ser feita entre prescrição e práxis. Temos certeza do pagamento apenas de alguns proventos, embora não saibamos em que medida eram pagos: porções das oferendas, primícias dos produtos colhidos, o dízimo dos produtos da terra (disso, porém, não se faz menção nos compêndios da época). Na verdade, eles eram baseados exclusivamente na legislação mosaica e não na práxis. O dízimo dos sacerdotes é atestado, mas não se sabe por quanto tempo foi pago (talvez o sumo sacerdote João Hircano o tenha abolido). Grande parte da população não pagava ou não pagava de modo insuficiente os impostos aos sacerdotes, e a indiferença da população os impelia à pobreza.

 

 

Os pobres

 

Os pobres eram constituídos pelos escravos e trabalhadores diários. Encontra-se escravos especialmente na cidade e são escravos domésticos. Os libertos devem ser considerados pelo menos como prosélitos. Os trabalhadores diários eram muito mais numerosos que os escravos. Eles ganhavam um denário por dia, mais alimentação. Alguns pobres viviam caçando pombos, ganhando quatro rolas. Eles ofereciam duas por dia ao templo, ficando com um lucro de 1/4 de denário, que era notoriamente pouco.

 

Havia partes da população que viviam de ajudas. Era proibido aos escribas serem pagos por seus ofícios. Parece que nos tempos de Jesus alguns exercessem um ofício, uma atividade profana (Hillel era um trabalhador diário, Paulo trabalhou durante sua missão). Os "escribas viviam sobretudo de ajudas" (p. 187), principalmente aquelas de seus alunos. Pessoas abastadas poderiam prover as necessidades do mestre (cf. as mulheres que seguem Jesus). Antes de 70 d.C., a existência de cobranças para médicos não é constatada.

 

“É duvidoso que na época de Jesus houvesse muitos escribas ricos em Jerusalém” (p. 189). Alguns dos escribas eram sacerdotes e desfrutavam de uma renda fixa. No entanto, "os escribas pertenciam principalmente à classe pobre" (p. 190). O rabino Aquiba e sua esposa dormiam na palha e o famoso mestre não tinha dinheiro suficiente para oferecer joias para sua esposa.

 

Já "no tempo de Jesus a cidade havia se tornado um centro de mendicância" e "era sobretudo a distribuição de esmolas, consideradas particularmente meritórias se feitas na cidade santa, que alimentava a mendicância" (p. 192). Havia quem se fingisse de cego, surdo, com hidropisia, aleijado. A mendicância concentrou-se nos lugares sagrados. Havia "pessoas preguiçosas" que se dedicavam apenas à participação do culto. Pessoas como essas formaram bandos que aterrorizaram Jerusalém e geraram uma guerra civil.

 

Jeremias finalmente analisa os fatores determinantes para o desenvolvimento das condições econômicas dos habitantes de Jerusalém no tempo de Jesus. Ele leva em consideração a situação econômico-geográfica, a situação política e o papel da religião e do culto (p. 197-234).

 

O custo de vida em tempos normais e em tempos de calamidade são estudados. Tudo custava muito mais que no campo (frutas, três a seis vezes mais) e nos períodos de calamidade (secas, furacões, terremotos, epidemias), os preços disparavam por falta de alimentos. Era determinante a desfavorável situação econômico-geográfica de Jerusalém. Em 64 a.C., um furacão devastou as safras e o preço do trigo aumentou dezesseis vezes. Durante a carestia no governo e Cláudio, Flávio Josefo relata como os preços acabaram multiplicados por treze.

 

Mapa de Jerusalém no tempo de Jesus (Foto: Wikimedia Commons)

 

A situação política é caracterizada pelo domínio romano. Jeremias estuda o tema dos impostos e sua arrecadação, bem como o fenômeno das lutas e saques.

 

Um dos temas à importantes relacionados religião e ao culto é a caridade. Meritórias eram as esmolas e a caridade oferecidas na cidade santa. Intermediária entre a caridade privada e pública era a das comunidades religiosas (cf. Essênios). Na comunidade cristã atuava uma comunhão dos bens, voluntária, que também se estendia à propriedade fundiária. Duas instituições judaicas correspondentes eram o tamḥûy ("tigela dos pobres"), com distribuição diária de pão, favas e frutas para os pobres de passagem, e a qûppah ("cesta dos pobres"), uma distribuição semanal de alimentos e roupas para os pobres da cidade. Os cristãos ajudaram os pobres de várias maneiras, inclusive com coletas.

 

A caridade pública previa o ano sabático, o dízimo dos pobres, os direitos normais dos pobres durante as colheitas, outras prescrições sociais sinalizadas no Talmud e reconduzíveis, afirma-se, a Josué (cortar a lenha e pastoreio nos campos alheios ...). Em casos específicos, o culto no templo proporcionava instalações para os pobres.

 

A mobilidade dos peregrinos era uma fonte importante de renda. O peregrino tinha que gastar em Jerusalém o segundo dízimo, o dízimo dos animais e os produtos das árvores e vinhas de quatro anos. “O culto constituía a principal fonte de renda da cidade” (p. 224).

 

Resumindo, a situação financeira dos habitantes de Jerusalém era caracterizada pela importância das camadas da população que viviam da caridade, pela tensão determinada pela convivência das camadas pobres, da corte e da nobreza sacerdotal e, finalmente, pelo fato de a cidade ser devedora de sua prosperidade à sua importância religiosa.

 

 

No topo e na base da classe social

 

Na primeira seção dessa parte (p. 235-410) Jeremias estuda as classes altas. Estas são o clero, a nobreza laica e os escribas. Em um apêndice, ele fala sobre os fariseus.

 

O clero. O autor analisa as várias categorias: o sumo sacerdote, os chefes dos sacerdotes e os chefes dos levitas; a aristocracia sacerdotal; os sacerdotes "comuns"; os levitas ("clerus minor"). Por fim, ele se detém no caráter hereditário do sacerdócio.

 

Uma segunda classe alta é formada pela nobreza laica. O grupo de anciãos presentes no Sinédrio são os chefes das famílias laicas mais influentes, chamados por vários nomes nos Evangelhos e por Flávio Josefo: "os primeiros da cidade", "os notáveis", "os poderosos", "os líderes do povo", "os poderosos e os notáveis do povo". O tratado Ta'an IV, 5 lista nove famílias privilegiadas, autorizadas a carregar a lenha para o altar do templo. Essas famílias privilegiadas eram originalmente famílias de proprietários de terras. No tempo de Jesus, a nobreza laica incluía principalmente famílias ricas. O promotor seguia os funcionários dos impostos entre os anciãos.

 

Flávio Josefo informa sobre a posição intelectual e religiosa da nobreza laica: em sua maioria são saduceus, "os primeiros em dignidade". Os chefes dos sacerdotes também faziam parte dos saduceus. “A ‘teologia dos saduceus é instrutiva para compreender a posição conservadora da nobreza laica. Ela se atinha estritamente ao texto da Torá, em particular aos preceitos sobre o culto e o sacerdócio; estava, portanto, em clara oposição com os fariseus e com sua halakah oral, que declarava obrigatórias, mesmo para grupos de laicos devotos, as prescrições de pureza relativas aos sacerdotes” (p. 357-358).

 

Influente na vida nacional, no final da guerra de 66-70, a "nova e poderosa classe alta, a dos escribas, havia superado em todos os campos a antiga classe da nobreza sacerdotal e laica fundada no privilégio do nascimento" (p. 359).

 

Uma terceira classe alta era constituída pelos escribas, organizados em corporações. Incluía sacerdotes de alto escalão, sacerdotes simples e pessoas de todas as camadas sociais, que constituíam a maioria. O poder dos escribas derivava do saber, aprendido com um mestre. O escriba se tornava "doutor não ordenado" (talmid ḥakam) e aos 40, com a ordenação (semikah), ele poderia se tornar "doutor ordenado" e entrar na corporação com o direito de ser chamado de Rabino. Eles transmitiam e elaboravam a tradição derivada da Torá que, "de acordo com o ensino farisaico transmitido à massa do povo, era posto em pé de igualdade com a Torá, se não acima dela" (p. 366).

 

Além dos chefes dos sacerdotes e membros de famílias patrícias, “o escriba era a única pessoa que podia entrar na assembleia suprema, o Sinédrio; o partido farisaico do Sinédrio era composto inteiramente de escribas" (ibid). A influência dominante dos escribas sobre o povo devia-se tanto ao conhecimento das tradições quanto ao fato de deter posições chave na sociedade, mas também "ao fato de serem detentores de uma ciência secreta, isto é, da tradição esotérica" (pp. 367- 368), fato pouco enfatizado pelos estudiosos, segundo Jeremias.

 

Jovens judeus de todo o mundo afluíam para Jerusalém para se tornarem alunos de mestres famosos. Diz-se que só Hillel tivesse 80 alunos. O povo reverenciava os escribas como detentores da sagrada ciência esotérica. Os fariseus, que formavam a maioria dessa classe, eram os que principalmente obedeciam aos escribas. Jeremias cita várias provas que atestam o prestígio dos escribas sobre a grande massa do povo: saudação na rua - muitas vezes evidencias por ficar em pé -, títulos como "Rabino", "Padre", "Mestre", primeiros lugares nas sinagogas, posição com as costas voltadas para a arca da Torá, de frente para a assembleia, visíveis a todos.

 

 

Fariseus e saduceus

 

Sociologicamente falando, os fariseus ("separados" - isto é, os santos -, a verdadeira comunidade de Israel) pertenciam à classe alta. Em sua maioria, eram gente do povo e não possuíam formação de escribas, com os quais mantinham laços estreitos, tanto que, segundo Jeremias, era difícil uma separação clara entre os dois grupos. Eles formaram comunidades farisaicas (ḥabûrôt) em Jerusalém. A "comunidade sagrada de Jerusalém" era importante.

 

Os fariseus estavam muito atentos ao cumprimento das obras supererrogatórias e às obras de bem. Eles praticavam a caridade e as comunidades farisaicas de Jerusalém tinham regras precisas para a admissão de membros. Eram comunidades fechadas. Flávio Josefo fala de 6.000 fariseus durante o reinado de Herodes. Jeremias fala de 25-30.000 habitantes de Jerusalém, dos quais cerca de 18.000 são sacerdotes e levitas e 4.000 essênios. É difícil distinguir com precisão escribas e fariseus, muitas vezes citados juntos. As censuras de Jesus aos escribas (Lc 11,46-52; 20,46) e aquelas dirigidas aos fariseus (Lc 11,39-42,44) podem esclarecer algumas características próprias de cada grupo.

 

Os fariseus não eram em si escribas. Para Jeremias, é uma ideia totalmente falsa. Em vez disso, certamente o eram os líderes influentes e os membros das comunidades farisaicas (cf. p. 391). Apenas uma parte dos escribas conformavam suas vidas às prescrições farisaicas (por exemplo, talvez Hillel; Nicodemos). Também "um grande número de sacerdotes eram fariseus" (p. 394). Aqueles que faziam parte da comunidade farisaica “eram sobretudo mercadores, artesãos e camponeses” [...], pequenos plebeus, gente de um povo desprovidos da preparação dos escribas, sérios e prontos à dedicação. Só que muitas vezes eles se mostravam duros e orgulhosos para com a grande massa [...] que não observava como eles as prescrições das leis religiosas dos escribas fariseus e em relação aos quais os fariseus se consideravam o verdadeiro Israel"(p. 397-398).

 

Modelo de Jerusalém no final do período do Segundo Templo (Foto: Wikimedia Commons)

 

As regras de pureza exigidas pelos fariseus também para os laicos levaram a um confronto com o partido dos saduceus, que defendia que o direito sacerdotal fosse limitado apenas aos sacerdotes e ao culto. Em todo caso, “religiosa e socialmente, os fariseus constituíam o partido do povo; eles representavam a massa diante da aristocracia, tanto do ponto de vista religioso quanto social” (p. 408). “A maneira incondicional como a população seguia os fariseus tem algo de surpreendente” (ibid).

 

Os fariseus se opunham aos saduceus e se distinguiam da grande massa como o verdadeiro Israel, com certo desprezo porque ela não cumpria as obrigações do dízimo. “Em geral, porém, o povo continuou a considerar os fariseus, que se obrigavam a praticar voluntariamente as obras supererrogatórias, como modelos de piedade e realizadores do ideal de vida concebido pelos escribas, os homens da ciência divina e da ciência esotérica. Da parte de Jesus, foi uma audácia ímpar, derivada da omnipotência que lhe vinha da consciência da sua soberania, dirigir, publicamente e sem temor, também a essas pessoas o apelo à penitência. Tal audácia o levaria à cruz” (p. 409).

 

 

A pureza do povo

 

Na Segunda seção dessa parte (p. 411-563) Jeremias trata da pureza do povo como um valor a ser preservado.

 

Em seguida, trata dos grupos da comunidade do povo, os israelitas de origem pura, os ofícios desprezados e os "escravos" judeus; israelitas ilegítimos (marcados por uma mancha leve ou por uma mancha grave); os escravos pagãos; os samaritanos. No Apêndice, ele descreve a situação social das mulheres (p. 539-563).

 

Segundo Jeremias (cf. p. 412), a divisão de todo o judaísmo no tempo de Jesus era guiada pela ideia fundamental da pureza do sangue nas pessoas. Os sacerdotes zelavam pela legitimidade das famílias sacerdotais, mas a comunidade do povo também se dividia de acordo com a pureza de sua origem. “Somente os israelitas de origem legítima formavam o Israel puro” (ivi). “Eram excluídas famílias em cuja origem era possível identificar alguma contaminação. Como para aos sacerdotes, o motivo era de ordem religiosa: a nação era considerada um dom de Deus e sua pureza como vontade d'Ele; as promessas do fim dos tempos eram válidas para o núcleo puro do povo” (ibid).

 

Um problema notável era constituído pelos pagãos que se convertiam ao judaísmo. “Sem dúvida, eles não faziam parte do núcleo puro do povo israelita, mas certamente eram acolhidos em sua comunidade mais ampla e tinham o direito de se casar com israelitas de origem pura, não sacerdotes. Também nesse caso a razão era de ordem religiosa: pertencer à comunidade religiosa vale mais do que a origem” (ibid).

 

Uma única referência aos ofícios desprezados. Na pág. 460 o autor relata quatro listas retiradas dos tratados da Mishná e do Talmude Babilônico. Eles são (com repetições): condutor de burro, condutor de camelo, marinheiro, carregador, pastor, lojista, médico, açougueiro, coletor de excrementos de cachorro, fundidor de cobre, curtidor, ourives, penteador de linho, cortador de pedra para moinhos, vendedor ambulante, tecelão ( e alfaiate), barbeiro, descascador de arroz, chefe dos banhos, curtidor, jogador de dados, usurário, organizador de competições de pombos, mercador de produtos no alqueive, pastor, coletor de impostos, publicano.

 

Jeremias também trata dos "escravos" judeus.

 

 

A mulher

 

A mulher não participava da vida pública, pelo menos em famílias judias fiéis à Lei. A garota tinha que ficar dentro de casa. A situação da mulher em casa correspondia à exclusão da vida pública. O autor fala sobre os deveres das meninas, a relação com o patria potestas (até doze anos e meio o pai tinha todo poder), o noivado e a casamento que normalmente se celebrava um ano após o noivado.

 

Com ele a mulher passava para o poder do marido e ia morar na casa do marido, ao qual obedecia como se fosse um patrão. Fala-se da vida conjugal e dos deveres da esposa (que se resumiam no cuidado da casa). A poligamia era permitida, o divórcio era prerrogativa exclusiva do homem.

 

As mulheres estavam isentas de muitas prescrições religiosas (por exemplo, peregrinações, estudo da Torá). Seus direitos religiosos eram limitados. Jeremias cita uma fórmula corrente como síntese da situação das mulheres na legislação religiosa: “Mulheres, escravos [pagãos] e crianças [menores]; como o escravo não judeu e o menor de idade, a mulher tem sobre si um homem como senhor, e isso limita sua liberdade até no serviço divino. Portanto, ela é inferior ao homem do ponto de vista religioso” (p. 561).

 

Frequentemente, a mulher era desprezada e o nascimento de uma menina era acompanhado praticamente por indiferença e não por alegria. Jeremias assinala que em tal contexto a novidade libertadora assumida por Jesus para com as mulheres pode ser plenamente avaliada. Ele se deixa acompanhar por mulheres e se posiciona sobre as regras do casamento: lembra a monogamia e proíbe o divórcio.

 

 

Para uma abordagem frutuosa dos textos bíblicos

 

Os Índices fecham o volume: Os escribas de Jerusalém (em particular aqueles que exerceram sua atividade em Jerusalém nos anos imediatamente anteriores a 70 d.C. ou que estudaram lá por volta de 70 d.C.) (p. 567-568); os sumos sacerdotes de 200 a.C. a 70 d.C. (p. 569-570); índice bíblico (p. 571-586), apócrifos (p. 587-588); escritos de Qumran (p. 589), a Mishná (p.. 590-597), a Tosefta (p. 598-601), o Talmude Babilônico (p. 602-608), o Talmude de Jerusalém (p. 609-611) ), tratados extra-canônicos (p. 612); Midrash Rabbah (p. 613-615), José (p. 616-625), Fílon (p. 626), índice dos nomes e assuntos (p. 627-642).

 

O volume de Jeremias é um clássico da pesquisa socioeconômica aplicada a um importante teste, sempre útil a ser consultado para uma abordagem proveitosa dos textos bíblicos e da sociedade e religiosidade judaica do I século d.C., o tempo de Jesus, na perspectiva privilegiada de Jerusalém, com sua posição geográfico-econômica particular e desfavorecida, mas caracterizada por uma importância religiosa fundamental.

 

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