Cosmovisões antigas podem lançar luz sobre guerras culturais contemporâneas

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26 Setembro 2019

"A compreensão do paganismo e de suas várias iterações, por Smith, é bastante abrangente. E, embora não completa, a ideia de que estas cosmovisões antigas possam lançar luz sobre a situação contemporânea era mais do que interessante", escreve Michael Sean Winters, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 23-09-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Essa é a primeira parte de uma análise do mais recente livro de Steven Smith.

Pagans & Christians in the City: Culture Wars
from the Tiber to the Potomac
Autor: Steven D. Smith
Editora: Wm. B. Eerdmans Publishing Company
Ano: 2018, 408 páginas, US$ 48,00

Eis o texto.

Quando vi o título do mais recente livro do professor de direito da Universidade de San Diego Steven Smith, soube que teria de lê-lo: “Pagans & Christians in the City: Culture Wars from the Tiber to the Potomac” (Pagãos e cristãos na cidade: guerras culturais desde o Tibre ao Potomac, em tradução livre). [1]

E essa minha vontade aumentou na medida em que lia a obra. Smith se pergunta, e convida o leitor a se perguntar, se não poderemos aprender algo sobre as guerras culturais de hoje ao analisar a série de palestras que T.S. Eliot proferiu na Universidade de Cambridge em 1939 intitulada “The Idea of a Christian Society” (A ideia de uma sociedade cristã). [2] Muitas vezes acontece que um avanço ocorre em um debate contemporâneo apenas olhando-se para a tradição, buscando encontrar algo que esclareça as questões de uma maneira nova e decisiva. Em meus momentos mais conservadores, eu diria que o progresso intelectual não acontece muitas vezes de avançar assim, e sim que sempre avança somente desse modo.

Certa vez, Eliot afirmou que achava que o futuro seria uma escolha entre uma sociedade cristã ou uma sociedade caracterizada por aquilo que nomeou “paganismo moderno”. Ele admitia que a maioria dos contemporâneos, incluindo a maior parte dos cristãos, mal tinha consciência de viverem em uma sociedade cristã, mas insistiu que assim era e que assim permaneceria até a sociedade escolher algo mais. Insistiu que uma sociedade cristã era preferível a uma sociedade pagã. Smith observa: “Pouco há nesta postura que pareça calculado para fazer surgir um assentimento ou mesmo simpatia nos leitores instruídos de hoje”, para dizer que “o diagnóstico de Eliot pode ajudar em um esclarecimento bastante necessário”. É estranho que Smith não mencione, nem ao comentar as palestras de Eliot nem nos parágrafos que se seguem, que, em 1939, a perspectiva de um paganismo moderno era muito real, na medida em que Adolf Hitler se voltava a rituais e símbolos pagãos em sua propaganda política nazista.

Uma breve pesquisa sobre alguns debates contemporâneos a respeito da identidade do homem como uma pessoa religiosa versus uma pessoa que só persegue interesses incluiu citações de uma variedade de pensadores como Jonathan Sacks, Abraham Heschel e Mircea Eliade e foi como ver um antigo e querido álbum fotográfico dos anos de escola. E, conclui o autor a sessão de seu livro, escrevendo: “A religião tendia e tende a culminar em comunidade. Em, podemos dizer, uma cidade”.

A seguir, Smith traça uma relação com o venerável Edward Gibbon. Ainda é válido ler Gibbon, por sua prosa, não por sua historiografia. Esta última nos diz mais sobre o século XVIII do que fazem o primeiro ou o segundo. Smith consulta outros historiadores para se certificar. Ele nota que Gibbon dizia dos rituais de paganismo que “os vários modos de culto, que prevaleceram no mundo romano, eram todos considerados pelo povo como igualmente verdadeiros; pelo filósofo, como igualmente falsos; e pela “ideia de que todo o colégio dos pontífices e todo o senado romano estiveram engajados em uma charada religiosa realizada para o benefício das massas supersticiosas parece tão improvável quanto qualquer hipótese possa ser”. Smith, seguindo Robert Wilken, observa que, na Roma antiga, não se falava em “crer nos deuses”. Os antigos romanos “tinham deuses”, e cada agregado familiar tinha o seu próprio, assim como a própria cidade e todas as cidades que Roma conquistou.

Marcus Varro, pesquisador do século I, não tinha gosto pela religião “mítica” de seu tempo. Como escreve Smith, esta religião mítica retratava “os deuses como lascivos, violentos, ciumentos e extravagantes”. Varro desdenhava o que chamava de “fábulas ignóbeis”, mas defendeu as formas cívicas e filosóficas de sua religião pagã. O personagem Balbo, de Cícero, também celebrava os significados filosóficos encontrados nas fábulas pagãs, e a coesão cívica que a religião produzia. O parceiro ficcional de Balbo no diálogo, Cota, cético, desmascara a filosofia de Balbo e preocupa-se com o fato de que ela, na verdade, enfraquece a fé nos deuses. Ele acolhe aquilo que Smith chama de “fideísmo cívico”, a ideia de que “os deuses deveriam ser reafirmados na esfera cívica com base em critérios epistêmicos aprovados para esta esfera, e que não deveriam ser defendidos ou julgados pelo tipo de raciocínio adequado para outros domínios”.

A compreensão do paganismo e de suas várias iterações, por Smith, é bastante abrangente. E, embora não completa, a ideia de que estas cosmovisões antigas possam lançar luz sobre a situação contemporânea era mais do que interessante. Tendo pesquisado o paganismo, Smith então apresenta a sua proposta de como e por que o cristianismo, diferentemente de outras religiões dentro do Império Romano, poderia chegar a uma acomodação mutualmente satisfatória. E é aí onde as dificuldades começam, e é sobre isso que comentaremos em nossa próxima resenha.

Notas:

[1] Potomac, rio que banha a capital federal americana, Washington, DC.

[2] Thomas Stearns Eliot, poeta modernista, dramaturgo e crítico literário inglês nascido nos Estados Unidos. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1948.

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