Jesus e o Judaísmo. Artigo de Henry Sobel

Estrela de David, símbolo do judaísmo | Foto: Blog Cultura Hebraica

29 Novembro 2019

"A figura de Jesus tem sido, infelizmente, um empecilho no relacionamento entre cristãos e judeus, uma justificativa para exclusão mútua, uma fonte de atrito e ressentimento. É de fundamental importância que Jesus seja reconhecido como um elo essencial entre os dois credos. Jesus é a ponte através da qual toda a cristandade passa a ser incluída como descendente de Abraão e, portanto, co-herdeira, juntamente com os judeus, do seu grandioso legado espiritual", escreve Henry Sobel, rabino e ex-presidente da Congregação Israelita Paulista (CIP), recentemente falecido.

O texto foi publicado originalmente em: Aquino, M. F. (Org) Jesus de Nazaré. Profeta da liberdade e da esperança. São Leopoldo: Editora Unisinos, 1999, pp. 89-104.

Eis o artigo.

Confesso que hesitei antes de aceitar o convite da Editora Unisinos para escrever este artigo. Afinal, Jesus é a figura máxima da cristandade e tive receio de penetrar em seara alheia. Mas, pensando bem, a seara não é de todo alheia, como veremos em seguida. Mesmo assim, traço estas linhas com profunda humildade, pisando em ovos, ciente de que a relação entre Jesus e o Judaísmo é das mais delicadas.

Jesus era judeu, nascido de mãe judia. Foi circuncidado no oitavo dia, de acordo com a lei judaica (Lucas 2,21), e se considerava um judeu fiel às suas origens. Seus ensinamentos derivam das leis e das tradições judaicas com as quais Jesus se criou e que jamais negou. Ele era chamado de "rabino" (João 1,49; 9,2) e frequentava o Templo de Jerusalém, junto com seus discípulos. É uma pena que as divergências posteriores entre Igreja e Sinagoga tenham resultado num processo de obliteração das origens judaicas do cristianismo.

Jesus participava em debates acerca da interpretação dos preceitos judaicos, como o faziam outros judeus de sua época, e pregava a obediência às leis da Torá, a Bíblia hebraica.

Ensinava nas sinagogas e sua mensagem era uma mensagem judaica, dirigida por um judeu aos seus correligionários judeus.

Provas da "judaicidade" de Jesus não faltam no Novo Testamento. Por exemplo, em Marcos 12,28-31, quando lhe perguntam qual é o principal mandamento, Jesus responde com as palavras da Bíblia hebraica (Deuteronômio 6,4-5): "Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu pensamento e com toda a tua força." Essa afirmação de fé, conhecida como Shenzá, era na época — e é até hoje — repetida duas vezes por dia por todo judeu observante. Ao Shemá, Jesus acrescenta um segundo mandamento, que ele considera "igualmente importante", também extraído da Torá: "Amarás o próximo como a ti mesmo" (Levítico 19,18).

Um segundo exemplo das origens judaicas dos ensinamentos de Jesus encontra-se no "Pai-Nosso" (Mateus 6,9-13). Novamente, as semelhanças com as Escrituras e liturgia judaicas são patentes: "Avinu She'Ba'Sbamayiin", "Pai nosso que estás no céu", era uma invocação tradicional nas preces e bênçãos judaicas; "Itkadasb sbinei raba", "Seja santificado Teu nome", faz parte do Kadish, a principal oração judaica de louvor a Deus; "V'al tevieinu lo lidei nissaion", "Protege-nos contra a tentação" consta das rezas matutinas.

A Torá diz que Deus é nosso Pai (Isaías 63,16) e os antigos rabinos já nos ensinavam a dirigirmo-nos a Ele como "Pai" em nossas preces. Há muitos comentários em torno do termo aramaico Aba, "Pai", usado por Jesus durante seus momentos de angústia no jardim Getsêmani. A maneira como Jesus abre o coração ao Pai nessa hora mostra sua confiança em Deus como figura paterna, mas não significa necessariamente — conforme alegam alguns estudiosos cristãos — que essa forma de tratamento fosse um novo conceito introduzido por Jesus.

Um terceiro exemplo digno de menção é o Sermão da Montanha. Além de serem encontrados sugestivos paralelos entre as bem-aventuranças e alguns versículos dos Salmos (por exemplo, "Mas os mansos possuirão a terra", Si 37,11), Jesus afirma nesse sermão seu amor à Torá em termos inequívocos: "Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas: não vim abolir, mas cumprir. (...) Aquele que transgredir um só desses mandamentos, por menor que seja, e ensinar os homens a fazer o mesmo será declarado o menor no Reino dos céus. Mas aquele que os observar e os ensinar, será declarado grande no Reino dos céus" (Mateus 5,17-19). E não podemos deixar de perceber que o imperativo moral de imitar a perfeição do Criador ("Sereis perfeitos, como é perfeito vosso Pai celeste", Mateus 5:48) é muito semelhante ao mandamento em Levítico 11,45 e 19,2 ("Sereis santos, pois Eu sou santo").

Um ponto frequentemente citado como prova de que Jesus se opunha aos ensinamentos judaicos é "Ouvistes o que foi dito: (...) Odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mateus 5:43). Os estudiosos da Bíblia ainda não conseguiram determinar ao certo a fonte em que se baseou essa afirmação de Jesus, já que em nenhum lugar do Antigo Testamento se encontra uma injunção de "odiar o inimigo". Pelo contrário, a Torá ordena: "Se teu inimigo tem fome, dá-lhe de comer; se está com sede, dá-lhe de beber. Com isso (...) o Senhor te recompensará" (Provérbios 25,21-22).

Ao ressaltar o que há de comum entre os ensinamentos de Jesus e os preceitos judaicos, não se pretende negar a singularidade e o caráter inovador da pregação desse grande mestre. Pretende-se apenas mostrar quão falsa é a tão propalada tese de que Jesus e os judeus de sua época eram adversários ideológicos. Não o eram e nem podiam ser, pois seguiam a mesma Bíblia. Como bem o explicou o Papa João Paulo II, em um encontro com os membros da Pontifícia Comissão Bíblica em 11 de abril de 1997: "Não se pode exprimir de maneira plena o mistério de Cristo sem recorrer ao Antigo Testamento. A identidade humana de Jesus define-se a partir do seu vínculo com o povo de Israel."

Dito isto, devemos reconhecer as importantes e numerosas diferenças entre as ideias propagadas por Jesus e as doutrinas judaicas. Alguns dos pronunciamentos de Jesus negam o ensinamento judaico de que nenhum homem pode ser um intermediário entre o Criador e os outros homens. Jesus dizia: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim" (João 14,6). A ideia de que o relacionamento especial de Jesus com Deus permitiria a salvação somente daqueles que acreditassem nele, Jesus, é alheia ao judaísmo.

Os profetas hebreus castigavam os pecadores, mas não perdoavam os pecados. Sob a perspectiva judaica, o perdão cabe somente a Deus — ou à pessoa contra quem o pecado foi cometido. Jesus, entretanto, acreditava ter o poder de perdoar qualquer pecado. Ele dizia: "Saibam que o Filho do Homem tem autoridade na terra para perdoar os pecados" (Mateus 9,6).

Mais ainda, Jesus alegava ter o poder de ressuscitar os mortos: "Assim como o Pai reergue os mortos e os faz viver, o Filho também faz viver quem ele quer" (João 5,21). Os profetas hebreus também operavam milagres, mas frisavam que o faziam como meros instrumentos de Deus. Quando Elias ressuscitou o filho da viúva (I Reis 17,17-24), ele não atribuiu o milagre a si próprio, mas sim "invocou o Senhor, dizendo: 'Senhor, meu Deus, faze com que a respiração deste menino volte a ele!". Da mesma forma, quando Eliseu quis ressuscitar o filho da sunamita, ele "orou ao Senhor" e a criança reviveu em resposta às suas preces (II Reis 4,33).

No que tange à lei de talião, "olho por olho, dente por dente", criticada por Jesus no Sermão da Montanha (Mateus 5,38-39), não se tratava de uma cruel represália física, mas sim de um princípio jurídico segundo o qual a pena deveria ser proporcional à ofensa. Foi um progresso na jurisprudência da época, pois antes eram comuns os excessos na prescrição de penas. Não há indícios de que a lei de talião tenha sido aplicada literalmente nos tempos bíblicos e sabe-se que foi mais tarde substituída por um sistema de compensação monetária. Mesmo assim, a atitude preconizada por Jesus, "Se alguém te esbofeteia na face direita, oferece-lhe também a outra face", é totalmente contrária à doutrina judaica. Sob a perspectiva do judaísmo, oferecer a outra face é um incentivo ao agressor para que continue agindo com violência.

O judaísmo exalta a família, inserida no contexto maior da comunidade. Jesus advogava o celibato e desprezava os laços familiares, considerando-os uma barreira à devoção religiosa. Quando um de seus discípulos suplicou: "Eu vou te seguir, Senhor, mas primeiro permite que eu me despeça dos que estão em minha casa", Jesus o repreendeu: "Aquele que põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus" (Lucas 9,61-62). Ele afirmava categoricamente: "Se alguém vem a mim, e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo" (Lucas 14,26).

O judaísmo ressalta a importância da oração coletiva. Exige-se um minyan (o quorum de dez homens) para as preces principais e, especialmente, para a leitura da Torá. Isto não significa que o judaísmo desvalorize a oração individual, mas sim, que o indivíduo é visto como um elo na corrente do seu povo e da humanidade. Jesus, por outro lado, criticava esta postura e louvava a oração solitária: "E quando rezardes, não sejais como os hipócritas que gostam de fazer suas orações de pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos homens (...) Quando quiseres orar, entra no teu quarto, fecha a porta, e ora ao teu Pai em segredo" (Mateus 6,5-6).

Uma das principais divergências entre cristãos e judeus é a questão de Jesus ser ou não o Redentor ou Messias. Expectativas messiânicas já existiam antes do nascimento de Jesus e os judeus aguardavam fervorosamente a chegada do Messias à Terra, em cumprimento da profecia bíblica. Os primeiros discípulos de Jesus, acreditando que ele fosse o Messias prometido pelos profetas, acrescentaram a palavra Cristo ao seu nome (Christos, em grego, é a tradução do termo hebraico Mashiach, Messias, "o ungido") e essa crença tornou-se o dogma do cristianismo. Assim sendo, sob a perspectiva cristã, já estamos vivendo na era messiânica há 2 mil anos.

Os judeus, por outro lado, não reconhecem Jesus como Messias, simplesmente porque as profecias messiânicas nas quais depositamos nossas esperanças não se concretizaram. A opressão não terminou, a guerra não acabou, o ódio não cessou, a miséria não findou. E, acima de tudo, a tão esperada regeneração espiritual da humanidade certamente não ocorreu.

Além dessa séria discordância entre judaísmo e cristianismo acerca do status messiânico de Jesus, tampouco a natureza divina de Jesus é aceita pelos judeus. A doutrina cristã de que Deus tornou-Se homem é incompatível com os princípios judaicos. O judaísmo não aceita nenhuma distinção entre os homens, nem admite que um homem seja superior a outro. Os rabinos explicam que toda a raça humana proveio de Adão. E por que só de Adão? Para que ninguém possa dizer que seu pai é melhor do que qualquer outro. E como Deus nos fez todos iguais, o judaísmo não reconhece um "Filho de Deus" que se destaca e se eleva acima dos outros seres humanos. A convicção judaica é de que somos todos "filhos de Deus", criados à Sua imagem, e nenhum ser humano pode ser considerado mais divino do que os outros. De acordo com o judaísmo, Deus é Deus, o homem é homem, e entre eles existe uma distância intransponível. Tal crença não reflete um desrespeito ou preconceito contra Jesus. Nenhum dos nossos próprios patriarcas ou profetas — nem Abraão, Isaac ou Jacó, nem Moisés, Aarão ou David — é considerado divino. Na teoria judaica, com sua ênfase rigorosa no monoteísmo, Deus não pode Se materializar em nenhuma forma. A crença num Messias divino que é a encarnação de Deus contraria a convicção judaica da absoluta soberania e unicidade de Deus.

O fato de existirem diferenças entre judeus e cristãos não deve e não pode impedir-nos de sermos irmãos e lutarmos juntos pelos grandes e nobres objetivos universais. Irmãos são diferentes, têm opiniões diferentes, ideias diferentes, convicções diferentes. As diferenças em si não constituem um problema. O que constitui um grave problema no relacionamento entre os adeptos do judaísmo e do cristianismo é a acusação de que os judeus mataram Jesus.

O antissemitismo já existia bem antes da época de Jesus. Por volta do ano 450 antes da Era Comum, quando o primeiro-ministro da Pérsia, Haman, quis justificar seu plano de matar todos os judeus do império, ele alegou o seguinte: "Há em todas as províncias do reino um povo disperso e separado dos outros; suas leis são diferentes das dos demais povos" (Ester 3,8). Este, e apenas este, foi o "crime" que os judeus cometeram: eles eram diferentes.

Era isto também que os cristãos costumavam dizer sobre os judeus. Desde o declínio do Império Romano, a Igreja Católica se tornara a força dominante na civilização ocidental. À medida que o cristianismo se difundia por toda a Europa, os judeus acabaram sobrando como os únicos dissidentes. Com impaciência cada vez maior, a Igreja e seus fiéis procuravam enquadrar aquela minoria obstinada. Consideravam a permanência do judaísmo não só ofensiva como inexplicável. Era inconcebível para eles que qualquer pessoa, em sã consciência, pudesse preferir outra fé senão o catolicismo. Por que os judeus ainda se apegavam ao seu "falso" credo? Por que Deus ainda o permitia? A única explicação, concluíram muitos cristãos, era que os judeus serviam de advertência, que Deus havia condenado aqueles "assassinos de Cristo" a viverem eternamente — rejeitados, proscritos, vagando de terra em terra como exemplo do que acontece aos que renegam Jesus.

O sentimento antijudaico era reforçado por tudo que diferenciava os judeus dos demais: suas leis alimentares, suas normas de abate de animais, seu ritual de circuncisão. Surgiram boatos de que os judeus exalavam um odor peculiar, que desaparecia no instante em que aceitavam o batismo cristão. Isso, por sua vez, gerou rumores de que os judeus compactuavam com o demônio em cerimônias secretas e perversas, nas quais praticavam "assassinatos rituais". A acusação era, na verdade, uma combinação de várias calúnias diferentes, porém inter-relacionadas. Dependendo da época ou do agente propagador, uma delas vinha à tona com maior ímpeto. De acordo com a mais frequente, os judeus crucificavam crianças cristãs com o objetivo de reencenar a crucificação de Jesus. Esta versão explica por que o libelo era difundido mais amiúde às vésperas da Páscoa.

A acusação de deicídio, que pesou durante séculos sobre o povo judeu e foi uma das principais causas do antissemitismo, é totalmente infundada. Não há evidências históricas que sustentem tal teoria. Acusar os judeus da morte de Jesus foi uma forma mais convincente da verdadeira acusação: a de que nem todos os judeus se tornaram cristãos.

No que tange ao martírio e morte de Jesus, é importante lembrar o caráter opressivo do governo romano na Judeia. Pôncio Pilatos, o procurador romano na época de Jesus, foi especialmente cruel no exercício de suas funções. A ele cabia, como aos seus antecessores, nomear o Sumo Sacerdote e depô-lo a seu bel-prazer. Assim sendo, Pilatos estava em pleno controle da situação durante o período da prisão e crucificação de Jesus. Tampouco podemos esquecer que, antes de Jesus, centenas de outros judeus já haviam sido crucificados, a maioria por se recusar a colaborar com as forças de ocupação pagãs. Jesus foi crucificado por soldados romanos como criminoso político, "Rei dos Judeus". Cabe acrescentar que a atuação de Pôncio Pilatos foi considerada exageradamente brutal até mesmo pelos seus superiores, tanto assim que ele foi chamado de volta a Roma para se justificar, e nunca mais reassumiu a procuradoria.

O suposto "julgamento" de Jesus pelo Sanhedrin, o tribunal rabínico, não é relatado pelo evangelista João, tampouco por Lucas, o que torna dúbia a historicidade desse episódio. No evangelho de Mateus (27,25), depois que Pilatos lava as mãos e diz "A responsabilidade é vossa", o povo responde: "O seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos". A frase é a mais terrível dos evangelhos, no que se refere ao anti-judaísmo. O teólogo grego Orígenes, no século III, deu o tom de como o versículo ecoaria séculos afora: "Portanto, o sangue de Jesus derramou-se não só sobre os que existiam naquele tempo, mas também sobre todas as gerações de judeus que se seguiriam, até o fim dos tempos". Curiosamente, somente Mateus registra essa suposta reação em massa, enquanto Marcos e Lucas fazem uma distinção entre um pequeno grupo de judeus convocados por Pilatos e "uma grande multidão de povo", que seguia Jesus e "se lamentava por causa dele" (Lucas 23,27). O Evangelho de João, por sua vez, usa o termo genérico "os judeus" na narrativa da Paixão, que contribuiu fortemente para a crença na culpa coletiva e para as hostilidades antijudaicas através dos séculos.

É importante ressaltar que os evangelhos não foram escritos como relatos históricos, no sentido moderno (isto é, como uma transcrição factual de eventos), e sim como narrativas de caráter religioso. Sendo quatro os evangelhos, os eventos foram vistos sob quatro óticas teológicas diferentes. Além disso, os evangelistas não trabalharam com informações de primeira mão. Há um consenso entre os eruditos, hoje, de que os evangelhos datam de no mínimo 40 anos depois da morte de Jesus. O padre americano Raymond Brown, autor de The Death of the Messiah (A Morte do Messias), um estudo de 1.600 páginas, frisa que a intenção dos evangelistas era evangelizar e, portanto, não está excluída a hipótese de que tenham para isso se utilizado de variados recursos, inclusive a ficção.

Na época em que foi escrito o Evangelho de Mateus, a Igreja e os rabinos travavam uma disputa religiosa acerca da interpretação "correta" da Bíblia judaica que ambos compartilhavam como Sagrada Escritura. Ainda uma minoria entre a minoria judaica cercada da hostilidade do mundo romano, a comunidade de Mateus sentia-se na necessidade de um discurso apologético para defender sua própria interpretação e desvalorizar a dos rabinos. O Evangelho de Mateus não hesita em se valer de todos os recursos retóricos disponíveis para atingir seus propósitos.

Um desses era desacreditar os rivais. Somente assim explicam-se as pesadas invectivas contra "os fariseus" (Mateus 23, por exemplo). Comparando o relato da mesma cena por Marcos (12,28-34) com o de Mateus, percebe-se a intenção deste último. Enquanto Marcos descreve um diálogo respeitoso entre Jesus e um escriba, Mateus registra uma crítica injuriosa dirigida por Jesus aos fariseus como um todo. Obviamente, o Evangelho de Mateus projeta sobre o passado (a época de Jesus) o clima de discórdia entre cristãos e rabinos testemunhado pelo próprio evangelista. Embora tal expediente de marketing possa ter sido justificável na ocasião, gerações posteriores de cristãos, esquecendo o contexto histórico em que foi escrito o Evangelho de Mateus, entenderam o texto como algo que o próprio autor não pretendia: uma absoluta e categórica condenação do judaísmo rabínico. E essa condenação foi usada — ou, melhor, abusada — na Idade Média para racionalizar a perseguição contra os judeus.

Outro recurso utilizado pelos evangelistas foi negar a profunda identificação de Jesus com os ensinamentos dos fariseus, visando a transformar a mensagem de Jesus em uma nova religião mundial e, para este fim, distanciá-la do judaísmo oficial dos fariseus. Não era a intenção de Jesus distanciar-se do judaísmo, tanto assim que ele declarou: "Pois eu vos digo: enquanto não passar o céu e a terra, não passará um i ou um pontinho da Lei, sem que tudo se cumpra" (Mateus 5,18).

A imagem negativa dos fariseus, encontrada em muitos textos cristãos, produziu entre os católicos uma visão gravemente distorcida do judaísmo. O debate de Jesus com os fariseus é um sinal de que ele os levava a sério. A eles Jesus dirigiu suas críticas sobre o establishment religioso (os saduceus, a aristocracia judaica); foi com os fariseus que Jesus aprendeu a "regra de ouro" ("Tudo aquilo que quereis que os homens façam a vós, fazei-o vós mesmos a eles. Esta é a Lei e os Profetas", Mateus 7,12) e deles vem a crença na ressurreição. Portanto, os conflitos e controvérsias relatados no Novo Testamento devem ser vistos como discussões entre irmãos e não como disputas entre inimigos. Ao serem mal interpretadas, as críticas de Jesus aos fariseus tornaram-se armas nas polêmicas antijudaicas e sua intenção original foi deturpada.

O próprio Vaticano reconheceu que os evangelhos, embora baseados em fatos históricos, "são o fruto de um trabalho redacional longo e complicado". A afirmação encontra-se nas "Notas para uma correta apresentação dos judeus e do judaísmo na pregação e na catequese da Igreja Católica", documento publicado em maio de 1985 pela Comissão da Santa Sé para Relações Religiosas com os Judeus. As "Notas" ressaltam também que "Jesus partilha doutrinas farisaicas com a maioria dos judeus palestinos de então, por exemplo (...) as formas de piedade — esmola, oração, jejum; o hábito litúrgico de se dirigir a Deus como Pai; a prioridade do mandamento do amor a Deus e ao próximo" (Notas 17).

O Talmud registra o fato de que, na época de Jesus e nas décadas seguintes, o farisaísmo estava dividido entre duas principais escolas de pensamento, as "casas" de Hillel e Shammai. Em muitos casos, Jesus seguia as interpretações mais flexíveis da Casa de Hillel, cujas opiniões acabariam prevalecendo no Talmud, e posicionava-se contra os pontos de vista mais rígidos e legalistas da Casa de Shammai, que estava então em ascensão. É possível, portanto, que muitos dos conflitos entre Jesus e "os fariseus" descritos no Novo Testamento tenham sido, na verdade, disputas entre os próprios fariseus, com Jesus tornando o partido de uma facção contra a outra.

Seja como for, o retrato dos fariseus como implacáveis opositores a Jesus não corresponde à realidade. As "Notas" do Vaticano nos lembram que foram fariseus que preveniram Jesus contra o perigo que ele corria (Lucas 13,31). Um documento anterior do Vaticano, Nostra Aetate, emitido em 1965 pelo Concílio Vaticano II, já havia repudiado a acusação de deicídio contra os judeus e condenado formalmente o antissemitismo. O documento afirma que a morte de Jesus "não pode ser indistintamente imputada a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus de hoje". "A Igreja (...) deplora os ódios, as perseguições, as manifestações antissemitas dirigidas contra os judeus em qualquer época e por qualquer pessoa." Foi um passo e tanto na história das relações católico-judaicas.

Embora tenham frisado a "judaicidade" de Jesus e as raízes judaicas do cristianismo, os documentos do Vaticano mantiveram muitos dos ensinamentos da Igreja que se mostraram altamente prejudiciais aos judeus pelos séculos afora. As "Notas", por exemplo, ao mesmo tempo em que citam com aprovação a declaração do Papa João Paulo II designando os judeus como "o Povo de Deus da Antiga Aliança que jamais foi revogada", afirmam que o judaísmo não pode ser considerado um caminho para a salvação (salvação esta que somente pode ser alcançada através de Jesus). Afirma também que os judeus "foram escolhidos por Deus para preparar a vinda de Cristo" e que os eventos e personagens da Bíblia hebraica devem ser interpretados à luz do Novo Testamento ("O Êxodo, por exemplo, representa uma experiência de salvação e de libertação que não termina nela mesma, mas que se desenvolve ulteriormente, cumprindo-se em Cristo"). Esta negação da validade do judaísmo per se constitui um obstáculo ao diálogo teológico. Os judeus não podem aceitar a premissa, explícita ou implícita, de que sua redenção depende de Jesus Cristo.

Apesar disso, o progresso alcançado nas relações católico-judaicas nas últimas décadas é inquestionável. Desde o Segundo Concílio Vaticano, as barreiras de desconfiança mútua foram gradativamente se dissolvendo. De 1965 até hoje, estabeleceram-se mais contatos positivos do que em todos os 1900 anos anteriores. Estereótipos negativos estão sendo apagados. Referências antijudaicas estão sendo retiradas dos livros didáticos católicos e trechos com implicações antissemitas estão sendo removidos da liturgia. Currículos de seminários estão sendo expurgados dos preconceitos do passado. Toda uma geração de jovens está crescendo sem ter sido exposta ao ódio que anteriormente envenenava as relações judaico-cristãs. Existe hoje, pelo menos entre as alas moderadas das duas comunidades, a busca de compreensão mútua e a disposição de dialogar.

Mesmo assim, o preconceito ainda persiste e o antissemitismo continua vivo e forte. Na Europa, uma onda de nacionalismo xenófobo tem provocado em muitos países agressões contra os imigrantes e contra diversas minorias, incluindo os judeus. Na Argentina, os ataques terroristas que destruíram a Embaixada de Israel em 1992 e a sede da comunidade judaica de Buenos Aires em 1994 ainda não foram elucidados. No Brasil, os atos antissemitas são esporádicos, mas o antissemitismo se manifesta com certa frequência por meio de agressões verbais e mensagens difamatórias veiculadas pela Internet. Citando apenas um caso: em junho de 1997, uma professora da Universidade Federal Fluminense, em plena sala de aula, chamou de "judeus safados" o presidente do IBGE e o presidente do Conselho de Administração da recém-privatizada Companhia Vale do Rio Doce. Disse também a referida professora que "o Holocausto foi pouco, não deveriam ser 6 milhões de mortos, mas 20 milhões".

No fundo, a acusação de deicídio pesa sobre o povo judeu até hoje, alimentando o sentimento de ódio contra os judeus, principalmente entre as camadas menos esclarecidas da população. Em nosso país, por exemplo, muita gente não sabe que os recentes documentos da Igreja não consideram mais os judeus culpados da morte de Cristo. É por isso que estamos investindo tanto tempo e energia na consolidação de nossas relações com pessoas de outros credos e, particularmente, com os católicos. Quanto mais oportunidades tivermos de dialogar e conscientizar e esclarecer, maiores nossas chances de apagar o preconceito. E quanto mais conseguirmos apagar o preconceito, menor será o número de pessoas que se deixarão envenenar por calúnias antijudaicas.

A figura de Jesus tem sido, infelizmente, um empecilho no relacionamento entre cristãos e judeus, uma justificativa para exclusão mútua, uma fonte de atrito e ressentimento. É de fundamental importância que Jesus seja reconhecido como um elo essencial entre os dois credos. Jesus é a ponte através da qual toda a cristandade passa a ser incluída como descendente de Abraão e, portanto, co-herdeira, juntamente com os judeus, do seu grandioso legado espiritual.

Muitos pensadores judeus, entre os quais o filósofo medieval Maimônides, consideraram Jesus como um instrumento divino para a conversão universal da humanidade. Segundo Maimônides: "Todos os ensinamentos de Jesus abriram o caminho para a vinda do Rei-Messias e prepararam os homens para se unirem e juntos servirem ao Deus único" (Mishneh Torah, Hilkhot Melakhim 9,4).

Creio que é assim que Jesus gostaria de ser lembrado: não como um pomo de discórdia, e sim como um semeador da paz entre cristãos e judeus.

 

Referências:

CARROLL, Mons. Michael et al. "Within Context". Washington, D.C.: Unites States Catholic Conference, 1987.

FEITELSON, Rose e SALOMON, George. The Many Faces of Anti-Semitism. New York; The American Jewish Committee, 1978

FISHER, Eugene J. "Early Christianity", Pace, 1987.

FLUSSER, David. "Christianity", Contemporary Jewish Religious Thought. New York: Charles Scribner's Sons, 1987.

JACOB, Louis. The Book of fewish Beijei New York: Behrman House, Inc., 1984. TOLEDO, Roberto Pompeu de. "A morte de Jesus", Veja, 12 de abril, 1995. WEISS-ROSMARIN, Trude. Judaism and Christianity: The Differences. Jonathan

David Publishers, 1997.

WIGODER, Geoffrey. "Ecumenism", Contemporary Jewish Religious Thought. New York: Charles Scribner's Sons, 1987.

ZEITLIN, Irving M. Jesus and the Judaism of his Time. Oxford University Press, 1988.

 

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