“Liliana Segre, judia. Eu te odeio”. Esses insultos cotidianos on-line

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28 Outubro 2019

Lemos em um post uma enxurrada de insultos irrepetíveis (e tudo temperado por erros de ortografia): "Esta (...) judia de m. se chama Liliana Segre, perguntem-se que diabos fez para se tornar senadora vitalícia mantida pela gente e a favor da invasão? Hitler não fizeste bem o teu trabalho”.

O comentário é de Piero Colaprico, publicado por la Repubblica. 26-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Como definir essa mensagem? Mas está escrita, é lida, circula, permanece onde está. "Eu me pergunto por que não morreu junto com todos os seus parentes": essa frase também é dedicada à senadora. Em 19 de janeiro de 2018, foi nomeada pelo presidente da República, Sergio Mattarella, e três dias depois um blogueiro perguntou: "Sabe-se lá o quanto isso nos custará". Ataque clássico contra os vitalícios, até que se chegar ao ponto. Ou seja, à senadora: "ela teria gostado - escreve o blogueiro – de ganhar logo alguma grana, já que a paixão dos narigões é o dinheiro".

Uma questão menor, essa dos insultos, pode-se argumentar, porque agora a Internet está lotada dessa linguagem grosseira, vulgar e feroz, geralmente fascista. Daqueles que fazem votos de um câncer à ex-ministra, que se recuperou, até a procuradoria que pede para não proceder contra as ofensas ao casal Fedez-Ferragni com a motivação de que "nas redes sociais pode ser feito". Portanto, devemos nos resignar, ouvimos repetir. Mas existe um “mas”. Mensagens como aquelas relatadas aqui contra Liliana Segre, sobrevivente do Holocausto, testemunha do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, são disparadas umas duzentos todos os dias. Todos os dias ocorrem ataques políticos e religiosos, insultos, calúnias contra uma mulher de 89 anos, sempre moderada na linguagem, testemunha do horror, ainda agora incapaz de "suportar" as imagens de alguns documentários sobre a guerra.

Quem a tomou de mira, tornando-a um alvo, são antissemitas protegidos pelo anonimato, outros que lançam mensagens de blogs e sites de extrema direita e até ativistas que acreditam nas teorias mais delirantes. O observatório sobre o antissemitismo foi obrigado a produzir um relatório sobre os ataques e o jornal La Repubblica teve acesso. Declaramos uma sensação de desconforto ao relatar as frases retiradas da Internet, mas acreditamos que, hoje mais do que nunca, precisamos traçar uma espécie de "onde estamos" e "como chegamos aqui" nesse catálogo de delírios, maldades, mesquinhez, onde não faltam professores.

Dois foram assinalados. Um deles, Sebastiano Sartori, trabalha no famoso instituto albergueiro "Barbarigo" em Veneza: "A senadora vitalícia Segre ficaria bem em um simpático incinerador". Ele é ex-membro de Forza Nuova, e também diz que "a Constituição é um livro de merda bom para limpar a bunda".

No mesmo comprimento de onda, Marco Gervasoni. Ele é professor de história contemporânea da Universidade de Molise e, após a intervenção da senadora em apoio ao governo Conte, consta no relatório do observatório antissionista, "twittou uma série de post malévolos a que se seguiram dezenas de insultos contra Liliana Segre. Alguns exemplos: judia de profissão, vadia, velha enrugada, sionista a favor dos palestinos, senadora sem mérito que lucra com o Holocausto, velha ignorante e de má fé, personagem esquálida, velha demente, Alzheimer”. Não são poucos os antissemitas digitais que também enfurecem contra outros judeus que vieram à luz na mídia, como o jornalista Gad Lerner, o político do PD Lele Fiano, o empresário George Soros, o fundador do Facebook Mark Zuckerberg e, ultimamente, também sobre o presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli, chovem insultos. Mas é a senadora a recordista em registro negativo: "Liliana Segre morrerá, mas a vitimização judaica ainda durará séculos". Quem afirma isso é Roberto Duria, um animalista convicto de que os quatropatas são tratadas muito mal por causa de tradições judaicas não melhor especificadas. Segundo o site, "rastejando como serpentes, os judeus tiveram sua revanche sobre os antigos perseguidores". Alguém que assina Paolo Sizzi Lombardista e já foi condenado em 2013 por instigar o ódio racial e insultar o chefe do Estado, quando Liliana Segre proferiu seu discurso no Senado, declarou que “os campos de extermínio são uma invencionice como o 11 de setembro”. Outro acrescenta: "Atualmente, ninguém é mais racista do que as baratas israelonazissionistas. Viver à sombra do Holocausto e esperar ser perdoado por tudo o que fazem, por causa de seus sofrimento passado, parece-me um excesso de pretensões”.

Essa tempestade de ódio traz duas questões. Uma, se seria democracia permitir insultos e expressões semelhantes, por serem protegidos pelo direito fundamental da liberdade de pensamento. Ou, vice-versa, se seria democracia tornar mais difícil, por meio de identificações, buscas, pedidos de indiciamento, a disseminação do racismo e antissemitismo. Segunda questão: se os jornais ousassem publicar artigos contendo tais horrores e insultos, sofreriam denúncias e condenações. Por que não acontece o mesmo com os antissemitas da web?

Uma explicação, que se relaciona à lógica do direito penal, é que a gestão das plataformas está a cargo de empresas estadunidenses, portanto aplica-se o direito daquele país. Mas essas "cusparadas" virtuais respingam para a Itália, sobre os italianos. Também houve um ex-senador que contava como os judeus praticam o homicídio ritual. A pergunta, "Mas isso é possível?" não é mais uma coisa de bar, torna-se de administração da justiça.

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