Memória do Holocausto - Dia Internacional. "Eu, de Auschwitz a senadora vitalícia, mas não esqueço e não perdoo"

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23 Janeiro 2018

"Você lembra daqueles velhos quebra-cabeça aos quais fica apegado? Quando ouvi o presidente Mattarella, o quebra-cabeça da minha vida ficou resolvido. Não acontece sempre. Nem sempre as peças de uma vida cheia de dor, mas também de amor, conseguem se encaixar. Hoje de manhã isso aconteceu comigo".

Liliana Segre (Foto: Reprodução Facebook)

Liliana Segre (Nota de IHU On-Line: Liliana Segre, 87 anos, sobrevivente do Holocausto, foi nomeada senadora vitalícia pelo presidente da Itália, Sergio Matarella, por ocasião do próximo Dia da Memória, 27-01-2018) está transtornada. O dia começou com o telefonema do presidente da República que a nomeou senadora vitalícia e prosseguiu entre chamadas, visitas, buques de flores e, principalmente, muitas lembranças: casas, lugares, rostos que marcaram sua história de menina caçada, perseguida, sobrevivida por acaso. "Eu não esperava por isso. Nos últimos dias, o cerimonial tinha mencionado genericamente uma condecoração, mas um cargo tão prestigioso estava fora de minha imaginação. Eu fiquei sem palavras".

A entrevista é Simonetta Fiori, publicada por La Repubblica, 20-01- 2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

O pai perdido em Auschwitz, o mesmo destino dos primos e dos adorados avôs paternos.

Todos voltaram à minha memória. E ressurgiram também todas as pessoas ofendidas, ridicularizadas, desrespeitadas, deportadas que não puderam falar. Homens e mulheres que amaram sua pátria e pela pátria foram degradados, aviltados a cidadãos de segunda classe, entregues à Solução Final. Aquele Estado hoje não existe mais. Mas o gesto do Presidente da República assume o significado de uma compensação.

E junto comigo leva no coração das instituições republicanas também as vozes menos afortunadas, as vozes daqueles que não voltaram. Daqueles que não têm uma sepultura e se foram com o vento.

Um gesto de significado claro, em uma Itália percorrida por regurgitações neofascistas: o ícone desfigurado de Anne Frank talvez seja a imagem mais forte dessa atmosfera.

Esta foi uma vergonha que me deixou espantada. Mas quem poderia pensar em um gesto tão miserável? Sinto uma grande pena. Sim, percebem-se humores violentos, com símbolos que evocam períodos terríveis. Sinto-me ferida, entristecida. A sensação é que foi tudo em vão. Os jovens saberão distinguir a verdade da mentira? Espero que sim. Por que, caso contrário, isso significaria que nós, testemunhas, fomos derrotados.

Como muitos sobreviventes de Auschwitz, a senhora permaneceu em silêncio durante décadas.

Logo que sai do campo de concentração, entendi de imediato que ninguém tinha a capacidade de nos ouvir, de entender o que tinha acontecido. Por quarenta e cinco anos só falei a respeito com os amigos próximos, com meu marido. Com os outros, não. E apenas aos 60 anos esse meu emaranhado interior se desatou. O mundo não entendia e não queria nos entender. Sabe o que significa indiferença? Sim, a palavra que hoje está esculpida na plataforma 21 da estação central de Milão, aquela de onde partimos para Auschwitz. A indiferença é mais culpada do que a própria violência. É a apatia moral de quem vira o rosto para o outro lado: hoje também acontece com o racismo e outros horrores do mundo. A memória vale como uma vacina contra a indiferença.

Em 2018 também se comemora o octogésimo aniversário das leis raciais.

Eu frequentava em Milão a quarta série da escola Fratelli Ruffini. De repente, fui expulsa. Tornei-me uma vítima. Eu tinha apenas oito anos de idade. A minha era uma família milanesa de patriotas, perfeitamente inserida no contexto da cidade. O que eu vivi com tanta humilhação foi apenas o começo. O princípio de uma história de perseguidos, caçados, deportados e alguns até mortos.

O que lhe deu a força para resistir?

Eu não sei dizer. Eu estou viva por acaso. Cada um de nós tem um destino, evidentemente eu não devia morrer. Em 1944, quando fomos deportados para Birkenau, eu era uma garota de 14 anos, atordoada pelo horror e pela maldade. Afundada na solidão, no frio e na fome. Eu não sabia sequer onde tinham me levado: ninguém, então tinha ouvido falar de Auschwitz.

A senhora é a única sobrevivente de sua família. O que isso significou?

Eu tive uma vida difícil, mesmo depois da guerra. Minha sorte foi encontrar meu marido, um oficial do exército real que tinha conhecido a dor dos campos por dizer não à República de Salò (do governo fascista, em 1943, ndt). Foi o grande amor da minha vida. Ele morreu há dez anos. Hoje senti muito a sua falta.

Com quem vai comemorar hoje à noite?

Assim que eu desligar o telefone depois desta entrevista, eu vou para a cama. Estou muito cansada, emocionada. Naturalmente também estou feliz pelos meus filhos e meus netos.

Logo após a nomeação, a senhora disse: "Não esqueço e não perdoo".

Sim, é isso mesmo. Minha missão é não esquecer. Minha missão é contar o que realmente aconteceu. E não perdoo: quem sou eu para perdoar? Eu poderia perdoar os atos cometidos contra mim. Mas eu vi o que foi feito a outros que não podem mais contá-lo. Bem, a partir de hoje tenho a responsabilidade de levar para o Senado da República aquelas vozes que correm o risco de se dispersar. Enquanto eu tiver forças, vou continuar a contar aos jovens a loucura do racismo. Sem ódio, sem espírito de vingança. Eu sou uma mulher livre. E a primeira liberdade é aquela do ódio.

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