Papa: a internet é um recurso, não ao ciberbullying e aos discursos de ódio nas mídias sociais

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25 Janeiro 2019

O primeiro perigo é o ciberbullying, que, segundo as estatísticas, envolve um em cada quatro jovens como vítima ou perseguidor. Depois, há a manipulação dos dados pessoais, a oportunidade de dar vazão a todo tipo de preconceito étnico, sexual, religioso, o narcisismo, o autoisolamento e o estranhamento. Não há dúvida de que a internet é um grande “recurso” do nosso tempo, mas o fato também é que as ameaças que estão à espreita dos usuários não são poucas, nem insignificantes.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada em Vatican Insider, 24-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O Papa Francisco lista um por um os “riscos” da web na sua mensagem para o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se celebrará no dia 2 de junho, e é dedicada este ano ao tema  "Somos membros uns dos outros. Das comunidades de redes sociais à comunidade humana".

Pensando especialmente nas novas gerações, maiores fruidores das novas tecnologias, Francisco exorta a um uso correto deste instrumento fundamental que é a web, que “desde quando se tornou possível dispor [dele], a Igreja tem sempre procurado que o seu uso sirva o encontro das pessoas e a solidariedade entre todos”.

Ao mesmo tempo, o pontífice alerta sobre o fato de que “o ambiente medial é tão invasivo que já não se consegue separar do círculo da vida cotidiana”. E que, sim, “a rede é um recurso do nosso tempo”, uma “fonte de conhecimentos e de relações outrora impensáveis”, mas também que ela corre o risco de representar “a busca e a partilha de uma informação autêntica à escala global”.

“Se é verdade que a internet constitui uma possibilidade extraordinária de acesso ao saber, também é verdade que ela se revelou como um dos lugares mais expostos à desinformação e à distorção consciente e pilotada dos fatos e das relações interpessoais, que muitas vezes assumem a forma do descrédito”, diz Bergoglio com uma clara referência às "fake news, veneno da nossa época, às quais ele havia dedicado a mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2018.

A denúncia do bispo de Roma não deixa margem para interpretação: “É necessário reconhecer que se, por um lado, as redes sociais servem para nos conectarmos mais, fazendo-nos encontrar e ajudar uns aos outros, por outro, prestam-se também a um uso manipulador dos dados pessoais, visando obter vantagens no plano político ou econômico, sem o devido respeito pela pessoa e seus direitos. As estatísticas relativas aos mais jovens revelam que um em cada quatro adolescentes está envolvido em episódios de ciberbullying”.

Na complexidade desse cenário, pode ser útil voltar a refletir sobre a própria metáfora da “rede” – multiplicidade de percursos e de nós que, na ausência de um centro, asseguram a consistência de uma “estrutura de tipo hierárquico” – para poder redescobrir suas potencialidades positivas.

A rede, de fato, funciona “graças à coparticipação de todos os elementos” e, portanto, remete à dimensão antropológica da “comunidade”, que “é tanto mais forte quanto mais for coesa e solidária, animada por sentimentos de confiança e empenhada em objetivos compartilháveis”.

“Como rede solidária, a comunidade requer a escuta recíproca e o diálogo, baseado no uso responsável da linguagem”, enfatiza o papa. Mas isso nem sempre se verifica nas comunidades em redes, que, na maioria das vezes, “permanecem apenas como agregados de indivíduos que se reconhecem em torno de interesses ou argumentos caraterizados por laços fracos”.

Não se deve esquecer, além disso, que, “na social web, muitas vezes a identidade funda-se na contraposição ao outro, ao estranho ao grupo: define-se mais a partir daquilo que divide do que daquilo que une, dando espaço à suspeita e à explosão de todo o tipo de preconceito (étnico, sexual, religioso, e outros)”.

É uma tendência, observa o Papa Francisco, que “alimenta grupos que excluem a heterogeneidade, alimentam no próprio ambiente digital um individualismo desenfreado, acabando às vezes por fomentar espirais de ódio”. Desse modo, “aquela que deveria ser uma janela aberta para o mundo torna-se uma vitrine onde se exibe o próprio narcisismo”.

Não só: podendo ser uma plataforma para promover o encontro com os outros, a web “pode também agravar o nosso autoisolamento, como uma teia de aranha capaz de capturar”. “Os adolescentes é que estão mais expostos à ilusão de que a social web pode satisfazê-los completamente a nível relacional, até se chegar ao perigoso fenômeno dos jovens ‘eremitas sociais’, que correm o risco de se alhear totalmente da sociedade”, como demonstra o fenômeno dos hikikomori, tipicamente japonês, mas que está se espalhando por todo o mundo, incluindo a Itália.

“Essa realidade multiforme e insidiosa coloca várias questões de caráter ético, social, jurídico, político, econômico, e interpela também a Igreja”, escreve o papa. “Enquanto cabe aos governos buscar as vias de regulamentação legal para salvar a visão originária de uma rede livre, aberta e segura, todos temos a possibilidade e a responsabilidade de favorecer um uso positivo dela.”

É claro que “não basta multiplicar as conexões para ver crescer a compreensão recíproca”. O que fazer, então, para encontrar a verdadeira identidade comunitária, também online?

Francisco propõe uma imagem, a do corpo e dos membros, que nos ajuda a “não ver as pessoas como potenciais concorrentes, mas considerando os próprios inimigos como pessoas”.

No caso específico das mídias sociais, a imagem do corpo e dos membros lembra que o seu uso “complementar ao encontro em carne e osso, vivido através do corpo, do coração, dos olhos, da contemplação, da respiração do outro”.

“Se a rede for usada como prolongamento ou como expectativa de tal encontro, então ela não trai a si mesma e continua sendo um recurso para a comunhão”, destaca Bergoglio. “Se uma família usa a rede para estar mais conectada, para depois se encontrar à mesa e olhar-se nos olhos, então é um recurso. Se uma comunidade eclesial coordena a sua atividade através da rede, para depois celebrar juntos a Eucaristia, então é um recurso. Se a rede é uma oportunidade para me aproximar de histórias e experiências de beleza ou de sofrimento fisicamente distantes de mim, para rezar juntos e, juntos, buscar o bem na redescoberta daquilo que nos une, então é um recurso.”

Assim, passa-se “do diagnóstico à terapia”, e abre-se “o caminho ao diálogo, ao encontro, ao sorriso, ao carinho...”. “Essa é a rede que queremos – afirma o papa –, uma rede feita não para capturar, mas para libertar, para conservar uma comunhão de pessoas livres”.

E a própria Igreja, conclui, “é uma rede tecida pela comunhão eucarística, em que a união não se baseia nas ‘curtidas’ [‘likes’], mas na verdade, no ‘amém’ com que cada um adere ao Corpo de Cristo, acolhendo os outros”.

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