A internet é um dom de Deus, se promove a solidariedade, defende o Papa Francisco

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Por: André | 24 Janeiro 2014

“A internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é algo bom, é um dom de Deus”. O Papa Francisco confirmou e ampliou a atitude positiva da Igreja católica em relação à internet externada por Bento XVI. Na mensagem para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais (que será no dia 1º de junho), intitulado “A comunicação a serviço de uma autêntica cultura do encontro” e apresentado na manhã desta quinta-feira no Vaticano, Jorge Mario Bergoglio não deixou de identificar os riscos e os desafios que as redes sociais e as novas tecnologias da comunicação abrigam, mas também insistiu nos aspectos positivos e na possibilidade de chegar através da internet, e com “ternura”, às “periferias existenciais”.

 
Fonte: http://bit.ly/1asr2so  

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi e publicada no sítio Vatican Insider, 23-01-2014. A tradução é de André Langer.

“Hoje vivemos num mundo que está para se tornar cada vez menor, parecendo, por isso mesmo, que deveria ser mais fácil fazer-se próximos uns dos outros”, escreveu o Papa argentino em sua primeira mensagem para o já tradicional Dia das Comunicações Sociais. Todavia, dentro da humanidade, permanecem divisões, “escandalosa” distância que existe entre o luxo dos mais ricos “e a miséria dos mais pobres. Frequentemente, basta passar pelas estradas de uma cidade para ver o contraste entre os que vivem nos passeios e nas luzes brilhantes das lojas. Estamos já tão habituados a tudo isso que nem nos impressiona mais. O mundo sofre de múltiplas formas de exclusão, marginalização e pobreza, como também de conflitos para os quais convergem causas econômicas, políticas, ideológicas e até mesmo, infelizmente, religiosas”. Por isto, os meios de comunicação, diante desta realidade, “podem ajudar a sentir-nos mais próximos uns dos outros; a fazer-nos perceber um renovado sentido de unidade da família humana, que impele à solidariedade e a um compromisso sério para uma vida mais digna”. Particularmente, destacou o Papa, “a internet pode oferecer maiores possibilidades de encontro e de solidariedade entre todos; e isto é algo bom, é um dom de Deus”.

O Papa reconheceu que há “aspectos problemáticos”, como a velocidade da informação, “que supera a nossa capacidade de reflexão e discernimento, e não permite uma expressão equilibrada e correta de si mesmo”, ou pelo fato de que “o desejo de conexão digital pode acabar por nos isolar do nosso próximo, de quem está mais perto de nós. Sem esquecer que a pessoa que, pelas mais diversas razões, não tem acesso aos meios de comunicação social corre o risco de ser excluída”. Apesar disso, estes limites reais, insistiu Bergoglio, “não justificam uma rejeição dos meios de comunicação; antes, recordam-nos que, em última análise, a comunicação é uma conquista mais humana que tecnológica”. Por isto o convite do Papa para “recuperar um certo sentido de pausa e calma. Isto requer tempo e capacidade de fazer silêncio para escutar”, para “compreender aqueles que são diferentes de nós” e “escutar os outros”. O testemunho cristão, escreveu o Papa, “não se oferece com o bombardeio de mensagens religiosas, mas com a vontade de se doar aos outros ‘através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana’ (Bento XVI, Mensagem para o 47º Dia Mundial das Comunicações Sociais, 2013)”.

O Papa argentino indicou como exemplo a figura do bom samaritano: “Que a nossa comunicação seja azeite perfumado pela dor e vinho bom pela alegria. Que a nossa luminosidade não derive de truques ou efeitos especiais, mas de nos fazermos próximos, com amor, com ternura, de quem encontramos ferido pelo caminho”. Esta imagem permitiu ao Papa advertir também sobre os riscos da comunicação, sobretudo quando esta “tem como objetivo preponderante induzir ao consumo ou à manipulação das pessoas”; neste caso, escreveu Bergoglio, “encontramo-nos diante de uma agressão violenta como a que sofreu o homem espancado pelos assaltantes e abandonado na estrada, como lemos na parábola”. Por isso, “não basta circular pelas ‘estradas’ digitais, isto é, simplesmente estar conectados: é necessário que a conexão seja acompanhada pelo encontro verdadeiro. Não podemos viver sozinhos, fechados em nós mesmos. Precisamos amar e ser amados. Precisamos de ternura. Não são as estratégias comunicativas que garantem a beleza, a bondade e a verdade da comunicação. O próprio mundo dos meios de comunicação não pode alhear-se da solicitude pela humanidade, chamado como é a exprimir ternura”. “É por isso mesmo, explicou o Papa em sua mensagem, que o testemunho cristão pode, graças à rede, alcançar as periferias existenciais”.

Durante a coletiva de imprensa de apresentação do documento, mons. Claudio Maria Celli, presidente do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, respondeu a algumas perguntas dos jornalistas, sobretudo em relação ao perigo de que uma passagem da mensagem do Papa pudesse ser interpretada como uma afirmação do relativismo: o desafio da comunicação, escreveu Bergoglio, “requer profundidade, atenção à vida, sensibilidade espiritual. Dialogar significa estar convencido de que o outro tem algo de bom para dizer, dar espaço ao seu ponto de vista, às suas propostas. Dialogar não significa renunciar às próprias ideias e tradições, mas à pretensão de que sejam únicas e absolutas”. Mons. Celli, que recordou como algumas vezes as mensagens papais são interpretadas mediante “clichês”, destacou que esta passagem da mensagem está “em sintonia com todo o ensinamento da Igreja”, inclusive com um discurso pronunciado em Lisboa por Bento XVI, a quem se acusava de ser muito dogmático, ao passo que na realidade escreveu que “a Igreja deve aprender a dialogar com a verdade dos outros”. A mensagem do Papa Francisco, explicou mons. Celli falando em geral sobre o documento, “é profundamente franciscana”. E o porta-voz da Santa Sé, o padre Federico Lombardi, confirmou esta ideia quando destacou o vínculo entre o “estilo de comunicação” e a forma de conceber o Pontificado do Papa Francisco.

O também jesuíta Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, por sua vez, indicou em seu blog Cyberteologia os principais pontos desta mensagem do Papa: a internet expressa a “profecia” de um mundo novo; a internet: uma rede de pessoas, não de fios; quem é meu próximo no ambiente digital? As redes de “proximidade”; uma Igreja “acidentada”, mas com as portas abertas inclusive para a rede; uma comunicação não “de massa”, mas “popular”; diálogo e relação entre “Ecclesia” e “Ágora”.

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