Internet, um lugar de experiência. Artigo de Antonio Spadaro

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16 Outubro 2012

Quando se olha para a internet, é preciso não só ver as perspectivas de futuro que ela oferece, mas também os desejos e as expectativas que o ser humano sempre teve e aos quais tenta responder, a saber: relação, comunicação e conhecimento. Por isso, é necessária uma análise da experiência religiosa na internet: para entender melhor não só qual é a experiência religiosa que é vivida hoje, mas também para entender melhor quem é hoje o homo religiosus e de que modo ele expressa a sua própria humanidade e o seu desejo de transcendência.

Publicamos um trecho do prefácio escrito pelo jesuíta italiano Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica e ex-professor da Universidade Gregoriana, em Roma, ao livro E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet (Ed. Santuário, 2012), de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A Rede hoje é um lugar a ser frequentado para estar em contato com os amigos que moram longe, para ler notícias, para comprar um livro ou reservar uma viagem, para compartilhar interesses e ideias. É um espaço de experiência que está se tornando cada vez mais parte integrante, de maneira fluida, da vida cotidiana: um novo contexto existencial.

Portanto, absolutamente não é um “instrumento” de comunicação que pode ser usado ou não; é um “ambiente” cultural, que determina um estilo de pensamento e cria novos territórios e novas formas de educação, contribuindo para definir também um novo modo de estimular as inteligências e de estreitar as relações, até mesmo um modo de habitar o mundo e de organizá-la. Portanto, não um ambiente separado, mas sim cada vez mais conectado com o da vida quotidiana. Não um “lugar” específico dentro do qual se pode entrar em alguns momentos para viver online, e do qual se pode sair para entrar novamente na vida offline.

Esse é o ponto de partida da pesquisa de Moisés Sbardelotto: a internet é um lugar de experiência. Com efeito, um dos maiores desafios, especialmente para aqueles que não são “nativos digitais”, é o de não ver na Rede uma realidade paralela, isto é, separada da vida de todos os dias, mas sim um espaço antropológico interconectado em raiz com os outros da nossa vida. Em vez de nos fazer sair do nosso mundo para sulcar o mundo “virtual”, a tecnologia acabou fazendo o mundo digital entrar dentro do nosso mundo comum. As mídias digitais não são portas de saída da realidade, mas sim “próteses”, extensões capazes de enriquecer a nossa capacidade de viver as relações e trocar informações.

A Rede tende cada vez mais a se tornar transparente e invisível, tende exponencialmente a não ser mais “outro” com respeito à nossa vida cotidiana. Além disso, sabemo-lo bem: por estarmos wired, isto é, “conectados”, não há mais necessidade de nos sentarmos no computador, mas basta ter um smartphone no bolso, talvez com o serviço de notificação push ativado. A Rede é um plano de existência cada vez mais integrado com os outros planos.

A “novidade”, portanto, não significa “alienação”, mas certamente exige-se inteligência para compreender que a experiência humana é complexa, mas que os desejos, as tensões e as expectativas que ela expressa nunca são “novidade”: acompanham o ser humano desde sempre. A Rede replica antigas formas de transmissão do saber e do viver comum, ostenta nostalgias, dá forma a desejos e valores tão antigos quanto o ser humano.

Quando se olha para a internet, é preciso não só ver as perspectivas de futuro que ela oferece, mas também os desejos e as expectativas que o ser humano sempre teve e aos quais tenta responder, a saber: relação, comunicação e conhecimento. É verdade que a tecnologia sempre traz consigo uma aura que provoca estupor e também inquietação. Mas quais são os motivos pelos quais esses sentimentos se geram? Provavelmente porque o que a tecnologia é capaz de realizar corresponde a desejos antigos e medos profundos. Se não fosse assim, as suas inovações não nos tocariam realmente, maravilhando-nos ou intimidando-nos.

Sbardelotto está consciente dessa realidade radical e se pergunta como a “novidade” da rede se tornou o lugar da experiência mais “antiga” e radical do ser humano que é a experiência religiosa. O autor sabe que o ser humano não permanece inalterado pelo modo com o qual manipula a realidade: o que se transforma não são apenas os meios com os quais comunica, mas sim o próprio ser humano e a sua cultura.

Os vários instrumentos que o ser humano “inventou” na história e teve à disposição em larga escala incidiram sobre o seu modo de viver e de ser ele mesmo. Assim, a humanidade do ser humano se desdobra através da arquitetura que o abriga e o acolhe; através da roda e da navegação que lhe abrem novos horizontes; através da escrita, do telefone e do cinema, que o permeiam de sinais. Pensamos na invenção do alfabeto que teve uma importância determinante em tantos níveis, incluindo o da convivência política: é possível ser cidadãos em sociedades complexas porque as leis são escritas (e lidas). O ser humano não seria o que é sem o fogo, a roda, o alfabeto... A “tecnologia”, portanto, não é um conjunto de objetos modernos e de vanguarda. Ela faz parte do agir com o qual o ser humano exerce a sua própria capacidade de conhecimento, de liberdade e de responsabilidade.

A Rede, portanto, é necessariamente uma realidade que cada vez mais interessa à existência de um fiel religioso e incide sobre a sua capacidade de compreensão da realidade e, por isso, também da sua fé e do seu modo de vivê-la. (...)

Certamente, uma parte da nossa capacidade de ver e de ouvir já está evidentemente “dentro” da Rede, razão pela qual a conectividade já está em fase de definição como um direito cuja violação incide profundamente sobre as capacidades relacionais e sociais das pessoas. A nossa própria identidade é cada vez mais vista como um valor a ser pensado como disseminada em vários espaços, e não simplesmente ligada à nossa presença física, à nossa realidade biológica. Por isso, portanto, é necessária uma análise da experiência religiosa na internet: para entender melhor não só qual é a experiência religiosa que é vivida hoje, mas também para entender melhor quem é hoje o homo religiosus e de que modo ele expressa a sua própria humanidade e o seu desejo de transcendência. Por outro lado, se “o Verbo se fez carne e veio habitar entre nós” (Jo 1, 14), podemos legitimamente nos interrogar sobre o que significa hoje “entre nós” no momento em que o ambiente digital é uma parte importante do nosso contexto existencial.

A Rede e a cultura do ciberespaço, portanto, colocam novos desafios à nossa capacidade de formular e de escutar uma linguagem simbólica que fale da possibilidade e dos sinais da transcendência na nossa vida. Talvez, chegou o momento de considerar a possibilidade daquela que, nos meus estudos, eu defino como “ciberteologia”, entendida como a inteligência da fé no tempo da Rede. Esta seria o fruto da fé que desprende de si mesma um impulso cognoscitivo em um tempo em que a lógica da Rede marca o modo de pensar, de conhecer, de comunicar, de viver. Essa reflexão é mais do que nunca importante, porque é fácil constatar que, cada vez mais, a internet contribui para construir a identidade religiosa das pessoas. E, se isso é verdade em geral, será cada vez mais para os chamados “nativos digitais”. A pesquisa de Moisés Sbardelotto representa uma contribuição séria, documentada e estimulante para o desenvolvimento dessa reflexão.

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