O filantrocapitalismo, ou como os ricos herdarão a Terra

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Por: André | 04 Maio 2015

“Esta fortuna tem três marcos fundamentais que o próprio Soros reconhece em sua obra A crise do capitalismo global, que são: a quebra do Banco da Inglaterra em 1992, a crise financeira no mercado asiático em 1997 e a crise do rublo na Rússia em 1998. Todas elas provocadas intencionalmente pelo próprio Soros, como ele mesmo reconhece, com métodos provavelmente imorais, e como também afirmam analistas financeiros tanto privados como públicos”. A análise é de Guillermo Hernández Banderas e publicada por Política Crítica, 29-04-2015. A tradução é de André Langer.

Eis o artigo.

O filantrocapitalismo, categoria na qual se encaixa a figura de George Soros (foto), foi aceito na sociedade atual como substituto da redistribuição da riqueza por parte do Estado. Assim, vê-se numa perspectiva mais que positiva a atuação deste tipo de figura, independentemente das consequências econômicas que tenham provocado.

Atualmente, é comum ver nos meios de comunicação figuras econômicas como Bill Gates, Warren Buffet ou George Soros sendo apresentados como grandes filantropos. Este tratamento, tão somente com estas três figuras, nos concede uma miríade de exemplos suficientes para realizar estudos de grande envergadura, embora este não seja um deles. Trata-se de três das 10 pessoas mais ricas do mundo e, por conseguinte, três dos maiores produtores de desigualdade mundial neste momento de crise sistêmica. Mas há uma figura que pode ser destacada acima das demais: a de George Soros. A razão principal é que Soros foi discípulo direto de um dos mais importantes filósofos e cientistas do século XX, Karl Popper. Soros, por sua vez, também produziu bibliografia acadêmica, embora, evidentemente, não no mesmo nível do seu mestre.

Confere-se a George Soros, de origem húngaro-judaica e de nacionalidade estadunidense – uma série de ocupações, de financista a filósofo, de magnata a escritor. É, atualmente e segundo a Forbes, o 10º indivíduo mais rico do mundo com mais de 24 bilhões de dólares em um contexto no qual as 80 pessoas mais ricas do mundo possuem o equivalente às 3,5 bilhões de pessoas mais pobres, ou seja, a metade da população mundial. O que dá um resultado de cerca de 200 milhões de pobres por cada um desses 80 indivíduos mais ricos do mundo.

Esta fortuna tem três marcos fundamentais que o próprio Soros reconhece em sua obra A crise do capitalismo global, que são: a quebra do Banco da Inglaterra em 1992, a crise financeira no mercado asiático em 1997 e a crise do rublo na Rússia em 1998. Todas elas provocadas intencionalmente pelo próprio Soros, como ele mesmo reconhece, com métodos provavelmente imorais, e como também afirmam analistas financeiros tanto privados como públicos.

Por outro lado, a Real Academia Espanhola define filantropo como a “pessoa que se distingue pelo amor aos seus semelhantes e por suas obras pelo bem da comunidade”. Se este conceito for cotejado com os três acontecimentos previamente enumerados, não há a necessidade de uma análise profunda para ver que se está incorrendo em um paradoxo. Mas esta atitude por parte dos meios de comunicação tem um objetivo muito claro: legitimar ações, provavelmente imorais, dos mais ricos do mundo e, além disso, gerar um marco cognitivo e discursivo que leve o consumidor destes meios de comunicação a vincular as grandes fortunas ao trabalho caritativo em grande escala. Em suma, criar a concepção de que estes personagens produzem igualdade no longo prazo, e não desigualdade. Mas, se estudarmos as três crises provocadas por Soros e suas consequências, esta concepção não se sustenta.

As três crises de Soros

  • Quebra do Banco da Inglaterra, em 1992

Em uma época em que os hedge funds não eram conhecidos, Soros, em 24 horas – a quarta-feira negra –, foi capaz de ganhar um bilhão de dólares mediante a especulação financeira de divisas. A Inglaterra encontrava-se em um momento de fragilidade econômica, motivo pelo qual Soros decidiu agir em benefício próprio, e a ordem que ele deu em sua fundação foi a de ir à jugular. As consequências diretas foram a perda de mais de 3,3 bilhões de libras dos contribuintes na Inglaterra. As consequências indiretas para a sociedade, muito mais complexas de se analisar, repercutiram nas posteriores privatizações de serviços públicos e cortes em políticas sociais. Assim, Soros diz textualmente sobre a sua atuação na falência: “Se tivesse que me ver confrontado com indivíduos e não mercados, não teria podido esquivar o problema moral de escolher entre duas alternativas. Bendigo o céu por ter me guiado para os mercados financeiros nos quais nunca tive que manchar as mãos” (Toussaint, 2002, p. 144).

  • Crise asiática de 1997

Nesta crise Soros agiu com uma técnica similar àquela empregada na Inglaterra cinco anos antes, mas desta vez na Malásia. Aquele que fora o primeiro ministro malaio em 1997, Mahathir Bin Mohamad, apontou Soros como responsável pela crise monetária de seu país e pela posterior queda das economias do sudeste asiático. Posteriormente, a crise se estenderia a países como a Tailândia, Coreia do Sul, Indonésia ou Filipinas. Assim, Maricela Reyes López afirma em seu livro Impacto social da crise financeira e econômica na Ásia que o impacto social que esta crise teve foi fundamentalmente sobre as camadas mais vulneráveis da sociedade. Ela indica como nestes países se produz um aumento generalizado do desemprego – somente em 1998, assinalou a Organização Internacional do Trabalho, o total de desempregados aumentou em 10 milhões de trabalhadores –, ao mesmo tempo que o da taxa de pobreza, que atingiu níveis anteriores a 20 anos, como assinalou o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Diante desta situação e as acusações de Mahathir, Soros, em uma entrevista concedida a Jennifer Hewett, em novembro de 1997, respondeu: “Se houve alguma vez um homem que se encaixasse no estereótipo do conspirador judeuplutocrático do mundo sionista bolchevique, este homem sou eu”.

  • Crise do rublo de 1998

Após os dois precedentes previamente explicados, a figura de Soros já era das mais reconhecidas e influentes no mundo das finanças. Este decidiu afirmar que os mercados financeiros russos se encontravam na fase terminal e que era necessário desvalorizar o rublo entre 15% e 25%. Apenas alguns poucos dias depois, o rublo caiu 31%, o que levou o vice-diretor do Fundo Monetário Internacional, Stanley Fisher, a culpar o mesmo Soros por esta desvalorização monetária. A especulação levada a cabo pelos mercados financeiros e patrocinada por Soros fez com que a bolsa caísse 20% e a Rússia teve que pedir um empréstimo de 22,6 bilhões de dólares. Mas, afora o aumento de preços – a inflação era de 300% – ou a quebra de bancos, a importância fundamental residiu na drástica redução do nível de vida da população russa. Assim, uma das conclusões que o próprio Soros tirou desta crise foi que não importa absolutamente se tens razão ou não: o que importa é quanto dinheiro ganhas quando tens razão e quanto dinheiro perdes quando estás equivocado.

O filantrocapitalismo

Está claro que se alguém estuda a figura de George Soros e depois ouve o tratamento dado pela mídia, como o El País, El Mundo, ABC, La Razón, La Vanguardia ou mesmo o jornal Público, ou publicações econômicas como El Econónimo ou Expansión, não pode, ao menos, colocar-se a possibilidade de que existem interesses além do direito à informação. A postura nos meios de comunicação do estado espanhol é simplesmente unânime diante deste tipo de figura. A capacidade crítica, fundamental para o exercício da atividade jornalística, é nula, não existe. Mas isso deve ter uma explicação.

A explicação baseia-se na aceitação do filantrocapitalismo como substituição da redistribuição da riqueza por parte do Estado, inclusive como substituto da partilha em base à discriminação positiva nos países anglo-saxões. O termo filantrocapitalismo foi cunhado por Matthew Bishop, editor do The Economist, em seu livro Filantrocapitalismo: como os ricos podem salvar o mundo. A estratégia consiste no investimento conjunto das pessoas mais ricas do mundo para maximizar os lucros destas inversões sociais. A esta estratégia já se uniram relevantes multimilionários como, além do próprio Soros, Bill e Melinda Gates, Mark Zuckerberg, George Lucas e Mellody Hobson, Dave Goldberg e Sheryl Sandberg, Paul E. Singer, Jeff Skoll, Paul Allen, Richard e Joan Branson, Steve Bing e John Caudwell, entre outros. Em princípio, de onde venha o dinheiro que posteriormente será investido não parece representar nenhum problema de coerência teórica nem ética. Esta forma de agir também lhes proporciona uma melhora na sua imagem pessoal e investimentos em responsabilidade social corporativa para suas empresas, holdings, fundações...

Soros investe na Espanha

Para finalizar, é necessário informar que, desde o começo de 2014, George Soros começou a se interessar pelo investimento especulativo na Espanha. A entrada de Soros deu-se logo no mais alto nível das finanças na Espanha, e em menos de dois anos já investiu 500 milhões de euros no Banco Santander, 400 milhões de euros na recente privatização (OPV) da AENA, no negócio das energias renováveis da ACS, uma parceria com Florentino Pérez, 200 milhões de euros na Endesa e 175 milhões no Bankia. Mas a Espanha sofre uma crise econômica, social e cultural sem comparação desde a Guerra Civil espanhola, devida, em sua maior parte, à bolha imobiliária no mercado espanhol e que explodiu em 2008. Agora, com os preços da habitação em patamares mínimos, começam a receber investimentos especulativos. Assim, Soros já possui 3% da FCC, das irmãs Koplowitz, e um investimento de ao menos 700 milhões de euros.

Por outro lado, foi criado um fundo imobiliário, a Azora, uma empresa de investimentos na qual investiu outros 500 milhões de euros e cuja equipe também assessora, que é composta, entre outros, por representantes do Goldman Sachs, assessores esses, por sua vez, responsáveis pela atual crise mundial.

Diante da ausência de mudanças estruturais nesta crise sistemática, a solução parece ser deixar entrar capital de referências da especulação mundial com um longo passado na produção de falências em outras zonas geopolíticas. Assim, uma futura quebra devida à especulação com as mesmas bases que produziram a atual crise, não seria, em nenhum caso, uma hipótese absurda. Figuras como a de Soros, que exemplifica perfeitamente a elite extrativa, são consideradas como necessárias para uma saída “coerente” e “suave” da crise e não como as principais causadoras da mesma. Caso esta lógica reinar, a próxima crise terá características similares à atual. Mas, neste caso, se partirá de um nível inferior das condições materiais objetivas das classes trabalhadoras.

Para mais informações:

SOROS, George. A crise do capitalismo global. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

TOUSSAINT, Eric. A bolsa ou a vida. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

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