Os tabus sobre judeus e cristãos, cruz e deicídio: o ponto de vista do judaísmo

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15 Março 2011

Personagens fascinantes sempre povoaram o panorama das relações judaico-católicas, mas, mesmo nesse ambiente, é difícil encontrar uma personalidade mais intrigante nos dias de hoje do que Joseph Weiler (foto). Jurista nascido na África do Sul e filho de um rabino letão, Weiler é considerado um dos maiores especialistas em direito constitucional europeu. De sua alta posição na New York University School of Law, ele edita o ultraprestigioso European Journal of International Law, e seria mais fácil listar as universidades europeias de elite das quais ele não possui doutorados honorários.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 21-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Weiler é a prova viva de que um sentido sólido da identidade própria pode alimentar uma capacidade notável de desafiar as expectativas alheias.

Estamos falando sobre um judeu ortodoxo profundamente fiel, pai de uma grande família judaica do Bronx, em Nova York, que mantém a dieta kosher e observa estritamente o sábado. Ainda em 2003, Weiler publicou o best-seller A Christian Europe [Uma Europa Cristã], pedindo que a União Europeia abraçasse a sua herança cristã. Vestindo um kipá, Weiler recentemente se apresentou também diante da Grande Câmara do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos para defender o direito da Itália de expôr o crucifixo em salas de aula da escola pública. Ele assumiu o caso em nome do bem público – argumentando que forçar a Itália a retirar a cruz seria um golpe não contra a cristandade, mas sim contra o pluralismo.

Enquanto alguns judeus receberam isso como uma ofensa, o Vaticano sorriu. Em 2003, o Papa João Paulo II recebeu Weiler e sua família para agradecer-lhe pelo livro, e, recentemente, o L`Osservatore Romano fez uma longa entrevista com Weiler sobre o caso dos crucifixos.

Em pouco tempo, tudo isso pode parecer apenas um ato prévio de "aquecimento". Weiler está agora disposto a enfrentar o último tabu nas relações judaico-católicas – o julgamento de Jesus e a acusação de que "os Judeus mataram Cristo". Entre outras notícias bombásticas em um futuro livro sobre o julgamento, ele vai tentar convencer os companheiros judeus de que seus esforços em mais de 2.000 anos para rejeitar a acusação de deicídio foram inapropriados. No sentido que Weiler revela cuidadosamente, ele diz que "os Judeus" levaram, de fato, Jesus à morte, e estavam fazendo exatamente o que o Senhor esperava. (Seu objetivo é oferecer uma leitura do julgamento que torne as respostas judaica e cristã coerentes com as Escrituras – um projeto, ele mesmo admite, destinado a provocar reações intensas em ambos os lados.)

Você ainda não se convenceu? Considere que os amigos católicos de Weiler tendem a vir de círculos conservadores, como o jurista Robert George, de Princeton. Weiler é uma célebre atração na reunião anual Comunhão e Libertação, em Rimini, na Itália, e, em meados de janeiro, ele organizou um jantar em honra ao padre italiano Julián Carrón, seu antigo amigo e líder do movimento.

No entanto, Weiler é também o autor de um plano de ação influente pelos direitos dos homossexuais na União Europeia, que, em 2005, em Rimini, insistiu, irritado, que ele não é um "neocon", já que, ainda em 1982, pediu a criação de um Estado palestino e afirma não ter interesse pela religiosidade agressiva da política norte-americana.

Justamente quando você pensa saber quem é Joseph Weiler, em outras palavras, ele vai surpreendê-lo – um sinal claro de uma mente viva e original.

Eis a entrevista.

Em novembro de 2009, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos definiu que a exposição de crucifixos nas salas de aula italianas viola a liberdade religiosa, em um caso conhecido como "Lautsi", por causa da mãe italiana que o apresentou. Como você se tornou o advogado das nações, incluindo a Itália, recorrendo dessa decisão perante a Grande Câmara do tribunal?

Quando surgiu a decisão original, fiquei chocado com a fragilidade e a natureza perfunctória do raciocínio. Eu escrevi um editorial no European Journal of International Law, dizendo que, independentemente da posição que for tomada no final, é uma decisão constrangedora. Eu também desprezei a forma como o governo italiano argumentou sobre o caso. Eles alegaram que a cruz não é um símbolo religioso, é um símbolo nacional. Além de ser algo desonesto, isso era uma má estratégia, pois era muito fácil para a Câmara dizer que ela é obviamente um símbolo religioso. Meu editorial circulou. Quando a Itália decidiu ir para a Grande Câmara, um grupo de outros Estados decidiram juntar-se ao caso. Fui convidado para uma reunião em Estrasburgo, onde eles discutiram a estratégia. Eles perguntaram se eu iria representá-los, e, para a sua surpresa, eu disse que iria, mas em prol do bem comum. Eu não queria que ninguém dissesse que este judeu iria defender a cruz, que faria qualquer coisa apenas por dinheiro.

Qual foi a sua aposta?

Eu disse que devemos partir para o ataque, argumentando que remover a cruz é algo realmente iliberal. Permitir a cruz é a posição liberal, a posição pluralista, porque a Europa tem tanto uma França quanto uma Grã-Bretanha. A França é um Estado oficialmente laico, mas, na Inglaterra, o hino nacional é "God Save the Queen", e a Rainha é a chefe da Igreja da Inglaterra. Toda imagem da Rainha em uma sala de aula britânica é tanto um símbolo nacional quanto religioso. Você poderia dizer que essa é uma grande tradição, que é a Europa autêntica. A posição esclarecida é aceitar uma Europa tanto com a França, quanto com uma Grã-Bretanha, e não afirmar que, como a Câmara fez, que todos têm que ser como a França – ou, neste caso, como os EUA. O que é preciso fazer é capacitar uma potencial maioria a se sentir que está fazendo a coisa certa, que deveriam se orgulhar por isso. Isso não é, de nenhuma forma, antieuropeu, antiliberal ou reacionário. Lembre-se, eles estão vivendo na cidadela da cultura dos direitos humanos. O caso Lautsi é um caso formidável, um único indivíduo que se levanta diante do Estado.

Você fez alguma consulta com a Santa Sé?

Se eu tivesse feito, eu não teria o direito de dizer, mas, neste caso, eu posso dizer claramente que eu não fiz. Acho que eles são muito cautelosos, e com razão, em não querer parecer que estão interferindo. Por outro lado, acho que eles não ficaram tristes pelo fato de eu ter assumido o caso.

Que reação você recebeu do mundo judaico?

Eu recebi uma enorme quantidade de mensagens de ódio. Eu recebi reações muito duras, especialmente da comunidade judaica europeia da Itália, França, Alemanha e de outros países. Como pode o filho de um "rabino lituano" fazer isso? Frequentemente eles diziam: "Você não sabe como é a Igreja verdadeira, deixe-me contar-lhe esta história e esta outra". No fundo, a pergunta era: "Como um judeu observante pode defender a cruz?". Essa reação visceral e compreensível se mistura com uma posição política. Você deve saber que a laicidade é a posição de muitos judeus, sobretudo na Europa, porque, para eles, o secularismo significa emancipação. Há um livro maravilhoso do ex-presidente da Corte Constitucional Francesa, ele próprio judeu, e de coautoria de sua esposa, intitulado Libres et Egaux [Livres e Iguais]. É sobre como os judeus alcançaram a sua emancipação como cidadãos de pleno direito na França com a laicização do Estado francês. Costumo responder dizendo e explicando isto para mim: em cada escola israelense, há um sinal da Menorá, que é o símbolo oficial do Estado de Israel. Você gostaria de removê-lo? Em cada porta, há uma mezuzá. Você gostaria de retirá-la? É aí que alguns judeus me dizem: "Você está certo, temos que repensar essa reação visceral contra a defesa da cruz".

"Pluralista praticante"

Você desafia a noção de que o fato de colocar uma cruz ou uma menorá está endossando a religião, enquanto retirá-la é algo neutro.

Em uma sociedade em que a maior divisão não é entre judeus e cristãos, ou entre católicos e protestantes, mas sim entre pessoas religiosas e pessoas sem religião, não há o luxo da neutralidade. Retirar a cruz não é mais neutro do que colocá-la. O laicismo não é uma posição neutra. Claro, deve haver liberdade para a religião e liberdade de religião. Por outro lado, um país com uma total democracia parlamentar e o respeito pela liberdade pessoal também pode ter uma identidade religiosa. A Constituição da Irlanda, por exemplo, no seu preâmbulo, fala sobre o divino Senhor Jesus Cristo e a Santíssima Trindade como a fonte de toda a justiça, beleza e verdade, e ninguém jamais afirmou que a Irlanda não é democrática.

Você não se vê defendendo o cristianismo, mas sim o pluralismo.

É isso. Em meu livro A Christian Europe, eu disse que, se o preâmbulo da Constituição Europeia só fizesse referência às raízes cristãs da Europa, e não às tradições de Atenas e da Revolução Francesa, eu escreveria em defesa destas últimas. As pessoas me perguntam um milhão de vezes como um judeu praticante pode defender uma referência às raízes cristãs na Constituição Europeia, e eu digo que, nesse contexto, não sou um judeu praticante. Eu sou um constitucionalista praticante. Sou um pluralista praticante.

Para quando você espera uma decisão?

Não sei. Eu pensava que, se eles fossem se decidir a favor, seria antes do Natal. Se fossem regulamentar contra, seria depois do Natal, para não estragar a festa dos fiéis. Deve ser muito em breve. Não se esqueça, provavelmente vai ser uma decisão por maioria, e eles provavelmente estão negociando um texto, de uma forma ou de outra.

[Nota: Um porta-voz do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos disse ao NCR que nenhuma data foi ainda fixada para a decisão, que será anunciada com uma semana de antecedência.]

Se a decisão for contra você, a Itália provavelmente não vai implementar a decisão.

Não, eles não vão. Eles vão só continuar pagando a multa todas as vezes que alguém apresentar um caso.

[Nota: Em 2009, o Tribunal Constitucional italiano emitiu uma resolução afirmando a supremacia da lei e do direito italianos sobre as ordens de um tribunal europeu.]

O "gueto" cristão

Em Rimini, em 2003, você alertou contra um "gueto cristão" cultural que impede que os cristãos tragam a sua fé para os debates europeus. Você chamou isso de uma forma internalizada de "jacobinismo espiritual". Você ainda vê essa reticência entre os cristãos na Europa?

Sim, eu vejo. Está um pouco melhor, mas, no geral, a maioria dos cristãos da minha geração e da minha classe social, médicos, advogados e acadêmicos, tendem a refletir uma mentalidade de "gueto". É um "gueto" que eles construíram para si mesmos. Claro, eu sei que isso não é exatamente como o gueto real em que os judeus foram obrigados a viver. Em muitos casos, eu nem sequer saberia que eles eram cristãos, até que houvesse algum momento de revelação. Quando eles vão para o espaço público, eles internalizam o sentimento laico de que a religião é um assunto privado. Isso é muito mais importante do que expôr ou não a cruz em sala de aula. Sendo claro, eu sou contra a militância. Não estou pedindo que os cristãos marchem nas ruas. Eu sempre cito a famosa referência de Miqueias: "Caminha humildemente com o teu Deus". Minha mensagem é: "Caminha humildemente, mas não O escondas".

Você acha que essa mentalidade de "gueto" existe mais na Europa do que nos Estados Unidos?

Sim. Nos Estados Unidos, eu acho, na verdade, que é bem o contrário. Há muita estridência com relação à religiosidade das pessoas. Eu não gosto da política norte-americana, em que os políticos acham que têm que fazer um espetáculo do fato de ir à igreja. Nos Estados Unidos, é quase o síndrome oposto ao da Europa.

Sobre o seu ponto de vista acerca da divisão social real que existe hoje entre os religiosos e os irreligiosos: isso fornece uma nova base para as relações católico-judaicas? Nessa divisão, nós estamos do mesmo lado.

Sim, muito. É difícil, entretanto, porque há o fardo do passado. Os judeus cultivam o passado... a memória é a nossa compreensão da civilização. Há um reflexo sobre o cristianismo, que é mais profundo, até mesmo entre pessoas que, de outra forma, seriam muito tolerantes e decentes.

O julgamento de Jesus

Falando do fardo do passado, seu novo livro é sobre o julgamento de Jesus. O que você gostaria de dizer a respeito?

Quero destacar três pontos. Minha primeira tese é que o julgamento de Jesus não foi suficientemente apreciado como o alicerce das sensibilidades ocidentais com relação à justiça. Na história bíblica, Jesus é definido como o inimigo mais abjeto da sociedade. Ele é o Osama Bin Laden, o inimigo que ameaça a nação inteira. No entanto, ao mesmo tempo, ele é o Filho de Deus, ele é a divindade. Ele é levado a julgamento, e, em nossa consciência coletiva, está escrito no imperativo: "Ninguém é tão abjeto que não mereça um julgamento, e ninguém é tão exaltado que possa dispensar um julgamento". É por isso que, mesmo para os terroristas em Guantánamo, nos sentimos obrigados a levá-los a julgamento, e é por isso que Clinton teve que responder a um julgamento de impeachment. Há um segundo elemento. Durante gerações, as pessoas protestaram contra a injustiça do julgamento. A regra número dois, portanto, é que o julgamento tem que ser justo. Não aceitamos julgamentos arbitrários, não aceitamos perjúrio e não aceitamos a adulteração de testemunhas. É claro que é um cânone que, muitas vezes, não é respeitado, mas, todas as vezes que a nossa civilização faz isso, há uma pequena voz ao lado do ouvido que diz: "É isso que eles fizeram com Jesus".

Qual é a segunda tese?

Em minha pesquisa, descobri que realmente não há nenhuma teologia do julgamento, e esse é o cerne da questão. Para que a narrativa cristã funcione, Jesus tem que morrer sem culpa, inocente, o cordeiro pascal. Se estivéssemos escrevendo a história de nós mesmos, em oposição a algo que recebemos de Deus, realmente teria sido muito melhor se Caifás tivesse apenas enviado alguém no meio da noite para enfiar uma lança em Jesus. Ele ainda poderia ser sepultado, ressuscitado etc., mas não haveria qualquer dúvida sobre a sua inocência e inculpabilidade. Ele seria o mártir perfeito. Então, você realmente tem que perguntar: por que um julgamento?

Essa é uma pergunta fascinante.

Eu li sem parar. Preparei-me durante dois anos para um seminário que eu dei sobre o julgamento de Jesus na NYU e tenho ensinado esse assunto há quatro anos. Eu realmente sou um especialista. A pergunta "por que um julgamento?" não é feita, mesmo que a vida seria muito mais fácil teologicamente se tivesse sido apenas uma "noite das facas longas" [expurgo nazista]. Eu acredito que Deuteronômio 13, 1-5 é a chave. É uma coisa extremamente estranha. O primeiro versículo diz: "Esta é a minha lei. Não acrescentarás nem te afastarás dela, para sempre". Em seguida, diz que, se um dia, um profeta ou um visionário vier e lhe anunciar "sinais e prodígios", esse é o código na escritura para alguém que é enviado por Deus. Então, se um profeta que anuncia sinais e prodígios vem e diz para se desviar de Deus, para seguir a sua lei, você deve saber que Eu estou testando você. Esta é a parte teológica desconcertante: Eu estou colocando você em teste, e você deve resistir. Mesmo que seja um profeta, mesmo que sejam sinais e prodígios que signifiquem que ele vem de Deus, você deve levar esse homem à morte. Do ponto de vista legal, é algo notável. Deus amarra suas mãos ao mastro. Ele diz que essa é uma lei para sempre e coloca em prática um dispositivo que vai impedir até mesmo Ele de mudar a lei. (Isso não compromete a sua onipotência, porque, senão, ele não seria capaz de fazer uma promessa eterna). Minha tese é de que Jesus é a pessoa referida no Deuteronômio.

Ele é o enviado de Deus que opera sinais e prodígios, que os judeus deviam matar?

Esse é o núcleo do meu livro, e eu acredito que o julgamento faz sentido nessa leitura. Há um profundo desafio teológico que o cristianismo realmente não enfrentou. Se Jesus tem que morrer inocentemente, alguém tem que matá-lo injustamente. Isso é muito perturbador se você levar a Bíblia a sério. Isso deve ofender o leitor, porque significa que, para que Deus realize o seu projeto, ele depende de alguém que vá contra a vontade de Deus. Na minha opinião, a teologia que estou propondo faz com que todos obedeçam a Deus. Se estou certo que o julgamento é o desdobramento de Deuteronômio 13, 1-5, Jesus morre totalmente inocente, pois ele é o profeta enviado por Deus. No entanto, os judeus também estavam fazendo exatamente o que Deus lhes disse para fazer. Ele disse que, se um dia, alguém viesse com sinais e prodígios e lhe convidasse a mudar a Lei de Moisés (o que está no centro da acusação de acordo com Lucas, em Atos), você deveria resistir, e Ele diz explicitamente para levá-lo à morte. No julgamento, Deus realiza duas coisas em um só golpe. É um julgamento dos judeus, para lembrá-los que eles têm a sua aliança, e a sua salvação repousa sobre ela. É também um julgamento de Jesus, em que ele morre inocentemente, pois, dessa forma, ele expia os pecados de todo os demais. Sua morte é o caminho da redenção para o mundo. No fim das contas, de acordo com essa visão, todo mundo está seguindo o caminho de Deus. Para os cristãos, a difícil posição teológica é esta: eles têm que aceitar que a aliança com os judeus perdura até o fim dos tempos. João Paulo II disse uma vez, impetuosamente, que Deus não faz alianças em vão. Isso significa aceitar que os judeus têm a sua aliança, além da mensagem de Cristo.

Qual é a terceira tese?

Eu tento responder a pergunta: por que houve a mudança da responsabilidade da cruz para o julgamento? Isso foi o que a cultura fez. Ela transferiu a responsabilidade pela morte de Jesus de uma execução por parte dos romanos para uma verificação de culpa por parte dos judeus. A razão, na minha opinião, não é diretamente o deicídio. É a firme rejeição de Cristo pelos judeus, antes e depois da Crucificação. Não é fácil condenar um povo que se agarra fielmente uma aliança que Deus mesmo proclamou como eterna, por isso o deicídio vem a calhar. Eu estudei a Nostra Aetate [o documento do Vaticano II sobre as relações com o judaísmo] muito, muito cuidadosamente. Basicamente, ela diz que nem todos na época de Jesus, e certamente ninguém depois, foram cúmplices com o que os líderes judeus fizeram. Portanto, porque não acreditamos em punição coletiva e culpa colectiva, "os Judeus" não devem ser responsabilizados. O surpreendente é que, absolvendo os judeus, [os bispos] também estavam se absolvendo. Eles também dizem, na mesma declaração, que, apesar do fato de termos responsabilizado os judeus por 2.000 anos, e, por causa disso, tantos judeus terem sido colocados na fogueira, "ei, pessoal", não há nenhuma culpa coletiva, nenhuma responsabilidade coletiva; então, não nos culpem tampouco. Essa é uma das razões pelas quais eu acredito que João Paulo II foi uma das pessoas morais mais impressionantes da nossa época. Ele nunca tomou essa posição. Ele disse: "Eu tenho algo a dizer pela qual eu estou arrependido". Não pessoalmente, é claro... Ele salvou judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Há histórias muito, muito comoventes. Mas, representando a Igreja, ele disse: "Não vou simplesmente confiar que não há `nenhuma responsabilidade coletiva` Há algo aqui para se desculpar". No livro, eu digo que, como judeu, eu também não quero ser "absolvido". Temos que diferenciar entre culpa e responsabilidade. Eu quero ser capaz de dizer: "Sim, os judeus levaram Cristo à morte, porque é isso que o Senhor nos ordenou a fazer". Claro, pessoalmente, eu não sou responsável, eu não sou Caifás. Mas, como judeu, eu quero ser capaz de dizer que, quando alguém veio como profeta que operava sinais e prodígios e tentou mudar a lei, nós fizemos o que Deus nos pediu para fazer.

Eu posso imaginar um judeu dizendo: "Passamos 2.000 anos tentando escapar da acusação de deicídio, e aqui está você abraçando-a novamente".

Um bom diálogo cristão-judaico não deve envolver um lado que tenta negar sua identidade central, que para os judeus é a aliança eterna – Chukat Olam. Se você simplesmente abrir o Talmud no tratado do Sanhedrin, está claro. Jesus veio, e nós o levamos à morte, assim como éramos obrigados a fazer. Os romanos sequer são mencionados. A única diferença entre mim e o Talmud é que ele diz que Jesus foi culpado por incitação, o que é uma referência a Deuteronômio 13, versículo 6 em diante. Esse tratado foi escrito em um tempo em que o Talmud era o inimigo da Igreja, e ele não queria dar a Jesus a dignidade de ser um profeta enviado por Deus. De minha parte, seguindo o grande comentarista judeu Baal Haturim, não vejo nenhuma razão para não fazer isso.

Você espera receber mais críticas dos cristãos ou dos judeus?

Eu vou receber mais daquele segmento da comunidade judaica observante, em que qualquer coisa positiva que você diga sobre o cristianismo é um anátema, de alguma forma. Não se engane: eu não sou um "judeu para Cristo". Eu abomino isso. Mas, mesmo como um judeu observante, não cabe a mim excluir qualquer possível plano que o Santo, Bendito Seja, possa ter tido para o resto das nações. Eu acho que os cristãos vão ou desconsiderar ou levar isso muito, muito a sério. As pessoas de boa vontade deverão gostar, porque é uma forma de reconciliar teologicamente algo que tem marcado as relações entre cristãos e judeus. O que é bom sobre o livro, espero, é que ele não é uma fantasia. Ele é bem argumentado e é extremamente respeitoso para com os textos e outras fontes. Peço ao leitor desta entrevista que espere pelo texto integral – é sutil, cuidadoso e respeitoso.

Quando o livro será publicado?

Eu vou terminar de escrevê-lo em junho e espero que ele seja publicado no final do ano. Eu penso nesse livro há três ou quatro anos, por isso ele não é como uma nuvem de verão.

Comunhão e Libertação

Mudando de tema, como nasceu a sua amizade com o Comunhão e Libertação?

Por acidente. Fui convidado para ir ao seu encontro anual em Rimini, em 2002 ou 2003. Eu não tinha ideia do que era. Eu pensei que seria apenas uma espécie de conferência acadêmica, mas foi uma experiência de cair o queixo. Disseram-me que eles eram pessoas horríveis, intolerantes e assim por diante, mas eu nunca vi um ambiente mais aberto. Em cada reunião que eu estive, eu ficava impressionado com a gama de vozes: judeus, muçulmanos, comunistas, ateus, reis e pobres, primeiros-ministros, escritores, cientistas. Eu brinco que os meus melhores amigos da Itália me disseram duas coisas sobre o fato de ir a Rimini: "Como vocês pode concordar em fazer parte `dessa coisa`?" e "Como eu posso conseguir um convite?". É como a velha piada judaica... a comida é terrível e ainda por cima vem em pequenas porções!

O que você acha cativante no Pe. Luigi Giussani, fundador do Comunhão e Libertação?

Ele rejeitou a posição de muitos jovens do ensino médio e superior do seu tempo, isto é, que o fato de eu ser um crente católico é uma questão de fé, mas a razão fica em outro lugar. Ainda na década de 50, Giussani dizia: "Não, minha gente, se vocês não podem justificar isso com as suas melhores faculdades da razão, vocês devem esquecê-lo". Isso é totalmente admirável. Isso é Maimônides. Eu também admiro a sua insistência de que a vida religiosa não tem a ver apenas com a moral, mas também com a presença, o que para os católicos está particularmente expresso na Eucaristia. Seu livro, O Sentido Religioso, é um grande tratado teológico. Fico preocupado com um mundo com uma Igreja em declínio, o que eu acho alarmante.

Por quê?

O cristianismo – na verdade, a tradição judaico-cristã – é um dos fundamentos da civilização ocidental, e vale a pena preservar o melhor dessa civilização. Além disso, pense no século em que eu cresci, o século XX. Houve três movimentos que rebaixaram todo o resto em uma escala de maldade. A Inquisição foi terrível, mas nem se compara com Hitler, Stalin e Mao. Eles representam um mundo em que o homem se fez Deus, em que o homem pensou que a sua liberdade é absoluta para fazer o que quiser. Hitchens e Dawkins podem até dizer algo importante aqui e ali, mas a realidade de Hitler, Mao e Stalin é esmagadora.

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