A teologia desenrola os Rolos. Artigo de Gianfranco Ravasi

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10 Setembro 2019

"Os registros podem ser múltiplos: turístico, de peregrinação, arqueológico, temático, histórico, devocional. Na gama das publicações disponíveis, destacamos agora, uma terceira edição renovada, de um guia de sucesso, editado por Mario Russo Cirillo, que - sob o título teológico La Terra dell'Alleanza (A Terra da Aliança, em tradução livre) - busca agregar todos os componentes necessários: "Bíblia, história, arqueologia, oração", como afirma o subtítulo."

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 08-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o comentário.

Manuscritos de Qumran. A leitura teológica de todo o vocabulário dos textos encontrados em uma caverna do Mar Morto em 1947. E um novo guia para os sítios e vestígios da Terra Santa. Muitas vezes foi narrado o que aconteceu em uma manhã de primavera de 1947 na íngreme costa oeste do Mar Morto: o pastor beduíno Mohammed ed-Dib, em busca de uma cabra perdida entre as cavernas que se abriam entre as rochas de uma localidade chamada Qumran, havia descoberto alguns potes de barro contendo sete rolos com textos escritos. A partir de então, iniciava-se uma aventura complexa com reviravoltas e manobras veladas, marcadas também pela presença de serviços secretos, comerciantes levantinos, clérigos, acadêmicos e personalidades várias. As investigações subsequentes e a pesquisa paleográfica desses materiais preciosos (que já foi até considerada a descoberta arqueológica mais importante do século), classificáveis em torno de cinquenta mil peças – e, não raramente, simples fragmentos grudados a um torrão de terra, com uma única letra ou palavra - produziram uma bibliografia impressionante e debates intermináveis, nem sempre rigorosos, aliás muitas vezes marcados por hipotéticos furos jornalísticas.

A identificação de um verdadeiro complexo de moradia, embaixo dessas cavernas, com piscinas rituais, scriptoria, salas de aula e até cemitérios, sugeria que fosse uma espécie de "mosteiro" de uma comunidade de estrita observância, em polêmica com o judaísmo oficial hierosolimitano. Seriam os chamados essênios, "devotos", já conhecidos por outras fontes, mas não faltam reservas a respeito. Uma interpretação curiosa é sugestiva, dada por alguns exegetas a uma passagem do Evangelho de Marcos. Quando Jesus envia dois de seus discípulos para um bairro em Jerusalém, a fim de preparar o salão para a última ceia, ele lhes diz: "E enviou dois dos seus discípulos, e disse-lhes: Ide à cidade, e um homem, que leva um cântaro de água, vos encontrará; segui-o. E, onde quer que entrar, dizei ao senhor da casa: O Mestre diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos? E ele vos mostrará um grande cenáculo mobilado e preparado; preparai-a ali."(14,13-15). Naquela época, eram apenas as mulheres que buscavam água nos jarros. Os Essênios praticavam o celibato e, portanto, eram membros do sexo masculinos que cuidavam dessa tarefa, e em Jerusalém havia um setor ocupado por eles. Existiria, assim, alusivamente um contato entre Jesus e essa comunidade, da qual, no entanto, o separavam algumas concepções puritanas emergentes de seus escritos (não por acaso no Novo Testamento eles nunca são explicitamente evocados), embora mais provável fosse uma conexão de Batista com eles. Mas, voltando aos textos descobertos nas cavernas do Mar Morto, queremos agora apontar duas empreitadas científicas relevantes que finalmente foram disponibilizadas em italiano.

A primeira, já relatada por nós nestas páginas e intitulada A Biblioteca de Qumran, ofereceu até agora em três volumes toda a coleção bilíngue hebraico-italiana dos manuscritos contendo passagens da Torá, ou seja, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento (ed. Dehoniane, 2013-2016). O original da coleção era francês, enquanto o curador italiano era Giovanni Ibba. É importante ressaltar que pelo menos novecentos rolos com textos bíblicos hebraicos descobertos em Qumran, datáveis entre o século III. A.C. e I d.C, são mais antigos cerca de um milênio que o primeiro código completo que até então era usado para as edições críticas da Bíblia Hebraica, ou seja, o chamado "Códice de Leningrado". Agora, estamos testemunhando uma segunda empreitada: desta vez a partir do alemão, o estudioso Francesco Zanella, da Universidade de Bonn, realiza a versão italiana de um Dicionário Teológico dos escritos de Qumran, editado por uma pequena legião de pesquisadores de várias instituições acadêmicas. Como pode ser percebido pelo título, é apresentado todo o vocabulário daqueles manuscritos segundo uma chave hermenêutica fundamental, a teológica. É claro que, com essa abordagem, também é possível delinear a evolução linguística do hebraico e do aramaico, mas, acima de tudo, pode ser reconstruída a visão implícita dessa comunidade, se descobrem por comparação as diferentes correntes teológicas do judaísmo da época, se isolam os eventuais pontes de contato com o cristianismo em gestação, se recompõe a incidência das prescrições bíblicas na prática do judaísmo da época.

Essa corajosa aventura científica - apoiada por uma editora conhecida como a Paideia, agora sob a marca Claudiana de Turim – abre-se com um primeiro volume que inclui apenas os vocábulos das duas primeiras letras do alfabeto hebraico, o alef e o bet (pode-se imaginar o quão imponente será a obra final). Impressiona a precisão com que cada lema é articulado, atento a registrar cada nuance semântica: apenas para exemplificar, o verbete bô ', um verbo de movimento (vir, entrar), é examinado ao longo de trinta páginas; ou podem se seguir as categorias que giram em torno do termo ben (em aramaico bar), "filho", que curiosamente é o vocábulo mais usado no Antigo Testamento após o nome sagrado divino Jhwh e que também em Qumran ressoa quase 850 vezes nas duas formas linguísticas. Partimos das acidentadas solidões ao redor do Mar Morto, que, com seus 400 metros abaixo do nível do mar, é a fissura mais profunda da crosta terrestre. Concluímos agora com um gênero particularmente prolífico (até mesmo eu contribuí para incrementá-lo com três livros diferentes): trata-se dos chamados “guias da Terra Santa”. Os registros podem ser múltiplos: turístico, de peregrinação, arqueológico, temático, histórico, devocional. Na gama das publicações disponíveis, destacamos agora, uma terceira edição renovada, de um guia de sucesso, editado por Mario Russo Cirillo, que - sob o título teológico La Terra dell'Alleanza (A Terra da Aliança, em tradução livre) - busca agregar todos os componentes necessários: "Bíblia, história, arqueologia, oração", como afirma o subtítulo.

É claro, portanto, que o destinatário é prioritariamente o peregrino. No entanto, até mesmo a atenção aos dados histórico-ambientais é muito séria e a atualização é sólida, como mostrado - apenas para ficar no tema central desta revisão - nas páginas reservadas a Qumran, onde estão listadas também as várias hipóteses atuais que giram em torno desse sítio e de sua história histórico-religiosa. Ainda na linha de atualização, o visitante é levado à sinagoga de Magdala, na Galileia, que só veio à luz após 2009, bem como se reserva uma análise da restauração conservadora do templo central da Basílica do Santo Sepulcro, local do túmulo de Cristo, restauração realizada entre 2016 e 2017, por Antonia Moropoulou, da Universidade Politécnica de Atenas (também nosso suplemento divulgou a notícia na época). Da mesma forma, Cirillo relata que, para outro local do cristianismo, a Basílica da Natividade em Belém, está em andamento desde 2013 uma série de restaurações, com mais de duzentos especialistas envolvidos e várias empresas, incluindo italianas. Obviamente, toda a documentação que acompanha cada sítio é vasta e a visita pode começar idealmente já nas próprias páginas do "guia", através de uma sequência fotográfica densa e fascinante. Na final, também poderíamos compartilhar com nossos leitores a típica saudação judaica: "No próximo ano em Jerusalém!"

Heinz-Josef Fabry e Ulrich Dahmen (curadores), Dizionario Teologico degli scritti di Qumran, edizione italiana a cura di Francesco Zanella, vol. I 'ab – binj?mîn, Paideia – Claudiana, Torino, pagg. 529, € 74

Mario Russo Cirillo, La Terra dell’Alleanza, Elledici, Torino, p. 759, 39 €

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