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03 Maio 2017

"Oitocentos anos atrás, o papa Honório III emitiu a bula de aprovação da Ordem dos Pregadores. Tentarei traçar um paralelo de maneira quase 'impressionista' sobre algumas cenas que têm um aspecto autobiográfico para mim, e creio que para muitos leitores também", escreve Gianfranco Ravasi, cardeal, arcebispo católico e biblista italiano, teólogo e estudioso do hebraico, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 30-04-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em pensamento, desloco-me para os bancos escolares de meu colégio, em um dos antigos seminários milaneses, na cidade de Seveso. Na igreja dedicada a São Pedro Mártir, está disponível para a veneração dos fiéis uma espécie de cutelo que é a relíquia comemorativa do assassinato, pelas mãos de um sicário, do dominicano Pedro de Verona, em 6 de abril de 1252. Ele era um membro da Inquisição que estava percorrendo por razões de ofício a estrada que levava de Milão a Como. E aqui o pensamento corre para a incumbência que gravou sobre os ombros dos Dominicanos - também chamados de Pregadores, em virtude de sua missão de anunciar a fé cristã além de protegê-la - a missão que os tornou tão famosos e temidos, a ponto de envolvê-los na cortina de fumaça, parte mito e parte realidade, que emanava das fogueiras crepitantes, ou seja, da Inquisição. Como não lembrar Tomás de Torquemada, o confessor da rainha Isabel de Castela e feroz opositor de judeus e muçulmanos, morto em 1498, que se tornou uma espécie de símbolo dos Inquisidores de todos os tempos? E, consequentemente, como não mencionar a emocionante Lenda do Grande Inquisidor de Dostoiévski, ou mesmo a vítima "interna" da Ordem, o dominicano Girolamo Savonarola, cuja palavra incendiária por fim alimentou a pira que, em 23 de maio de 1498, incinerou seu corpo enforcado?

E, novamente, para continuar nos bancos da escola, eis que vem ao nosso encontro Dante, que no canto XII do Paraíso coloca nos lábios do franciscano Boaventura uma exaltação apaixonada e emocionada de São Domingo (vers. 31-102), depois que no canto anterior fora um dominicano a louvar São Francisco (XI, 19-117).

Justamente este último Dominicano permaneceria durante séculos o emblema mais elevado e admirável da filosofia e da teologia ocidental, ou seja, São Tomás de Aquino, professor daquela escola de Paris, glória da educação universitária medieval, e autor da Summa Theologiae que serviria de base, mesmo no século XX, à minha própria formação teológica inicial e a de todo o clero (mas não só deste). Pode-se, portanto, imaginar com que emoção anos mais tarde, quando eu dirigia a Biblioteca Ambrosiana, segurei em minhas mãos uma página manuscrita por este "sol ardente", como o definiu Dante: era a sua Summa contra Gentiles (Livro II, c. 42-44), traçada com grafia impenetrável.

Estes livres paralelos expandem-se até atingir um grande evento da Igreja contemporânea, o Concílio Vaticano II, e minha memória de estudante de teologia em Roma naqueles anos vai para a grande comissão de teólogos e bispos dominicanos que contribuíram para o desenvolvimento dos documentos daquela reunião, paradoxalmente posicionando-se em duas frentes, a dos "aberturistas" (com os grandes nomes de Chenu, Congar, Schillebeeckx) e a mais "conservadora" (com os cardeais Browne e Ciappi). E a minha subsequente formação exegética bíblica se valeria do sustento decisivo da bibliografia de estudiosos de alto nível, os dominicanos Lagrange, Barthélemy, Benoit, Boismard, Puech e o historiador e arqueólogo Roland de Vaux, que me levou pessoalmente às incríveis ruínas de Qumran nas margens do Mar Morto, e aos segredos dos manuscritos daquelas cavernas.

Neste ponto, no entanto, é necessário revelar a trama que aglutina cenas tão diferentes. Oitocentos anos atrás, o papa Honório III, o romano Cencio Savelli, publicava a bula Religiosam vitam com que concedi a aprovação apostólica à comunidade, estabelecida com base na regra de Santo Agostinho por um espanhol, Domingo de Guzmán, nascido em torno de 1174, em Calaruega, uma aldeia na região de Castela. Foi em 22 de dezembro de 1216. Um mês depois, 21 de janeiro de 1217, o mesmo papa na bula Gratiarum omnium nomeava-os "pregadores" da verdadeira mensagem cristã no território francês de Toulouse, onde tinham se estabelecido. Delinear uma representação histórica do evento centenário, glorioso e dramático, desta Ordem - frequentemente simplificado como se não passasse da mão armada do papado com a Inquisição e que se tornou repertório de fantasiosas reelaborações (basta pensar no traiçoeiro dominicano Bernardo Gui do filme O nome da Rosa, de Annaud, falsificação tanto da realidade histórica, como do romance de Eco) - é uma empresa árdua, como evidencia a vasta bibliografia.


Massimo Carlo Giannini,
I domenicani (Os dominicanos, em tradução livre)
il Mulino, Bologna, p. 236, € 15.

Há, no entanto, um ensaio de síntese preciso, porém agradável, elaborado por um historiador que ensina na Universidade de Teramo, Massimo Carlo Giannini. Mesmo considerando o formidável legado de estudos críticos mencionados e que ele cuidadosamente seleciona e sugere para aprofundamento mais amplo, ele consegue traçar um perfil diacrônico convincente de uma experiência eclesial claramente complexa, mas decisiva. Ele separa em oito etapas, na prática cadenciando a história secular da ordem e evidentemente principiando com a sua criação, com a sua estruturação inicial e disseminação, passando a seguir por aquela encruzilhada abrasadora representada pela luta contra a heresia, uma operação possível somente através de uma formação intelectual qualificada. Esta permitiu que os dominicanos se afirmassem com autoridade no espaço sociocultural público e desatassem muitas vezes os nós dos conflitos, e nem sempre com a espada da Inquisição, como gostaria uma versão simplória esquemática dos fatos.

A articulação variada de sua presença é desvendada por Giannini de forma tão evidente e rigorosa, que quase nos permite participar presencialmente de eventos carregados de tensões e polêmicas, porém sempre os acompanhando com a reconstrução do contexto em que se inseriam e que os alimentava. O percurso também nos leva para lugares longínquos, porque a Ordem também escolheu o caminho missionário: só para exemplificar, nos últimos meses em que o filme Silêncio de Scorsese e o texto original de Shusako Endo chamaram a atenção sobre os mártires missionários jesuítas no Japão, é interessante acompanhar o capítulo dedicado aos Dominicanos “entre ritos chineses e perseguições” que acompanha os séculos XVII e XVIII. Outras vezes emergem as contradições internas à Ordem que, no entanto, também revelam sua vitalidade e contundência: basta ler, por exemplo, as páginas relacionadas ao "caso Ridolfi", o Mestre Geral da Ordem que, em 1642, foi suspenso e preso por ordem do Papa Urbano VIII, o florentino Maffeo Barberini.

Uma história grandiosa, portanto, que condensa em si o véu da poeira das estradas terrenas (entre as fileiras de Garibaldi que entraram em Nápoles, em 1860, marcharam no mínimo 7 dominicanos!), mas também o profético desafio espiritual de um Savonarola. Durante alguns anos, também Giordano Bruno (que não é citado por Giannini) vestiu o hábito dominicano, o mesmo que cobria seus coirmãos Inquisidores. Ainda hoje, ao lado de um Mestre geral de grande sensibilidade e diálogo como Timothy Radcliffe, que governou a Ordem entre 1992 e 2001, aparece aquele dominicano exagitado de Bolonha, o fundamentalista que recentemente relacionou a lei sobre as uniões civis com o terremoto de Amatrice ... Resta, portanto, uma parábola histórica – como escreve Giannini - "feita de muitas vozes diferentes, de atos de violência e de heroísmo, de eminências intelectuais e misérias humanas". Uma parábola que nós italianos podemos comemorar voltando na memória às suas raízes com uma visita à cidade de Bolonha, diante da Arca de São Domingos na basílica de mesmo nome, estupenda obra para a qual colaboraram ao longo dos séculos Nicola Pisano e Arnolfo di Cambio, o próprio Michelangelo e Jacopo Roseto para o precioso relicário que contém a cabeça do santo.

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