Duzentos anos para reescrever a Bíblia

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29 Agosto 2011

Estudiosos da Hebrew University devem publicar o quarto volume do projeto que pretende reescrever o Antigo Testamento.

A reportagem é de Francesco Battistini, publicada no jornal Corriere della Sera, 26-08-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

E Moisés disse: que o Altíssimo disperse o gênero humano "segundo o número dos filhos de Deus". Disse precisamente isso no Deuteronômio. O número dos filhos de Deus. Ou seja, muitas divindades, não uma só. Um elemento de politeísmo. É isso que nos parecem contar hoje os Pergaminhos do Mar Morto, os manuscritos mais antigos da Bíblia.

Mas não foi isso que nos transmitiram os massoretas, os escribas que, no final do primeiro milênio, releram, rediscutiram, corrigiram o Antigo Testamento. Entende-se: o politeísmo era um conceito incompatível, inaceitável, insustentável no canto de Moisés. E, então, zás: em vez de interpretar, de dar uma leitura teológica a essa passagem, melhor cortar, apagar com um pouco de monoteísmo. E recopiar de outro modo: "Segundo o número dos filhos de Israel", 70 como as nações do mundo, tornou-se a versão que chegou até nos.

Um retoquezinho: "E muitos mais foram feitos", diz o biblista Rafael Zer, da Hebrew University de Jerusalém. "Para os crentes, a fonte da Bíblia é a profecia. E a sua sacralidade permanece intacta. Mas nós, estudiosos, não podemos ignorar uma coisa: que essas palavras foram confiadas aos seres humanos, ainda que por iniciativa e com o acordo de Deus. E, de passagem em passagem, houve erros e se multiplicaram...".

Uma palavra, a Palavra. Sobre a Bíblia, se jura e se reza, na Bíblia se espera e se crê. Mas qual Bíblia? O Pentateuco Samaritano, a Septuaginta, a Vulgata, a Bíblia do Rei James? Sobre uma das mais altas colinas de Jerusalém, em uma das maiores bibliotecas do mundo, na Hebrew University fundada por Einstein e Freud, no silêncio das oliveiras e protegido de toda curiosidade, há uma equipe de biblistas que, há 53 anos, tem a ambição de publicar a última, definitiva, incontestável escritura do Antigo Testamento.

"The Bible Project", a Academia da Bíblia. Dezenas de exegetas, em grande parte judeus, mas em consulta constante com os colegas das universidades pontifícias e de Friburgo. Reuniões mensais. Boletins internos e totalmente reservados. A recomendação de não falar muito a respeito por aí. De acordo com um projeto tão ambicioso quanto lento: em meio século, só foram publicados três livros dos 24 livros da Bíblia hebraica (39 para os cristãos, que os contam de modo diferente), um quarto e um quinto são iminentes. O último componente do originário comitê científico morreu há ponto tempo, aos 90 anos. E toda a obra, se prevê, não irá terminar antes de dois séculos: por volta de 2200, ou mais do que isso.

"É um trabalho enorme", diz o Pe. Matteo Crimella, estudioso milanês da Ecole Biblique, próxima da Porta de Damasco, que conhece o projeto: "Começa-se do Códice de Alepo, o mais antigo manuscrito massorético, para oferecer um texto crítico com todas as variantes possíveis. A novidade é que se leva em conta os manuscritos do Qumran, fazendo um salto de mil anos com relação ao Códice de Leningrado, que sempre foi a base de todos os estudos. É se avalia, se compara o material disponível em todas as partes do mundo". A evolução da Palavra através dos milênios.

Compulsando manuscritos hebraicos, anotações meticulosas, traduções gregas, siríacas, latinas, coptas, etíopes, papiros egípcios, edições venezianas do século XVI, textos de Pisa, amanuenses samaritanos, pergaminhos em aramaico, até citações do Alcorão...

Derrubando as certezas dos ultraortodoxos que acreditam em uma única Palavra divina, inalterada e inalterável. Cada página tem uma linha de texto e uma série de aparatos: a tradução alexandrina mais antiga, as lições baseadas nos textos do Mar Morto, as citações rabínicas e do Talmude, as diferenças de vocalização, o comentário. Destacando evoluções, correções, censuras. Algumas desejadas, outras casuais.

"Sabe-se que todo texto bíblico transmitido à mão ou por ditado nunca é igual", explica o professor Alexander Rofe, israelense nascido em Pisa, professor durante 40 anos professor da Hebrew University. "Os textos de 400 a.C. eram como um funil invertido: para uma palavra que entrava, saíam muitas mais. Mas, dois séculos e meio depois, ocorre o inverso. O funil se inverteu para o outro lado. E, no Templo, alguém disse: esse é o texto oficial. A partir disso, todos os livros foram corrigidos. E se um livro era muito divergente, não o podendo destruir, era enterrado. Foi deste modo que se começou a refletir sobre a Sagrada Escritura, mas sem preservá-la".

Uma palingênese de séculos. Assim se tornou a Bíblia. Onde a uma correção se acrescentava outra correção. Onde alguma seita acrescentava a sua contribuição. Onde os tardo-bizantinos assinalaram as precisões ortográficas. Tanto que, uma verdade já consolidada, o Antigo Testamento que lemos hoje não é o que era lido originalmente.

No Livro dos Provérbios, por exemplo, quando uma versão diz que o justo "anda na sua integridade", uma outra fala da "sua morte", introduzindo um conceito do além muito caro aos fariseus: os dois termos, muito semelhantes, também são igualmente ilustrados pelo "The Bible Project" com todas as possíveis interpretações.

Outros casos? O Livro de Jeremias, concluíram os biblistas da Hebrew University, recuperando fragmentos aqui e ali, é mais longo em pelo menos uma sétima parte do que a versão geralmente aceita. Com diferenças não muito notáveis, mas com diferenças: alguns versículos, que se referem a uma profecia sobre o cativeiro babilônico do Templo, mais do que uma profecia, parece ser um acréscimo posterior, com os fatos consumados.

A Academia da Bíblia de Jerusalém não está sozinha. Projetos paralelos, e igualmente notáveis, ocorrem na Alemanha e em Oxford. Mas ninguém parece ter a mesma pretensão de completude e de monumentalidade. "Certamente, estamos diante da mais extensa edição crítica do Antigo Testamento jamais tentada na história", certifica o professor David Marcus, do Seminário Teológico Judaico de Nova York, defensor do projeto.

Em 1958, quando Michael Segal reuniu pela primeira vez o comitê de estudos sobre a colina da cidade sagrada às três religiões, ele anunciou que "aquilo que estamos fazendo deve ser do interesse de qualquer um que tenha interesse na Bíblia". Ele também não profetizou tantas dificuldades e lentidões, mesmo que pudesse imaginá-lo: não seria nada fácil recuperar os antigos documentos.

Enquanto ele falava, de Alepo, chegou a Israel o famoso Códice sobre o qual seria possível começar os estudos. Por milagre, ele havia sido salvo do incêndio de uma sinagoga da Síria. E, de contrabando, escondido dentro de um eletrodoméstico e sob uma camada de laticínios, quem o havia levado ao mundo dos biblistas havia sido um mensageiro que nenhum Malaquias ou Isaías jamais teria profetizado: um comerciante de queijos.

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