“Fariseus e herodianos já estão se unindo para planejar como acabar com o Papa”, afirma González Faus

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Por: Jonas | 12 Dezembro 2013

Hoje temos o prazer de conversar outra vez com nosso amigo José Ignacio González Faus (foto). Teólogo jesuíta com numerosas obras, que também é “uma das parteiras” da nova primavera da Igreja, que tornou possível que Faus comemore que “determinadas reivindicações e valores, que antes pareciam heréticos, agora sejam palavras do Papa”.

 
Fonte: http://goo.gl/XwSvsC  

Preocupado sempre pela situação social, o teólogo denuncia que “o fato de que 30.000 pessoas morram de fome, diariamente, não é uma notícia, é uma acusação”, e reclama a obrigação da Igreja em realizar medidas concretas: “Uma encíclica de João Paulo II diz que, em tempos de crise, todos os objetos de culto valiosos que a Igreja possui devem estar a serviço das vítimas”, recorda.

Faus acredita que a Teologia da Libertação, “que tem o grande mérito de ter suportado o maltrato assim como Jesus suportou”, já não pode ser desautorizada, mas, por outro lado, teme que o papa Francisco corra sérios perigos: “Neste momento, fariseus e herodianos já estão se unindo para planejar como acabar com o Papa”, lamenta, fazendo uma comparação evangélica.

Contudo, termina chamando à esperança: “Temos que ter fé, mas não a de recitar o credo, mas a de saber que as coisas podem mudar”.

A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 08-12-2013. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Você é uma das pessoas que alimentaram, ao longo dos anos, o espírito do Vaticano II, promovendo e provocando.

Bom, como você diz, em todos estes anos tentei promover o espírito do Vaticano II, que é o do Evangelho. Atualizá-lo ao máximo possível, colocá-lo em dia, torná-lo visível no mundo e na Igreja... Entretanto, eu também estava decidido que terminava meus dias com uma sensação de fracasso. Até que, rapidamente, acendeu-se uma luz, que tomara que vigore.

Algo que eu disse bastante a respeito deste momento, é que tomara não nos passe aconteça o mesmo que aos apóstolos no momento da ascensão. Porque todos nós temos certa tendência ao messianismo, a esperar um Messias que nos resolva a vida. Isto é muito compreensível, porque há muitas coisas para arrumar, mas desde quando fiz minha cristologia, disse que o fato de Jesus ser o Messias significa que nos fez messiânicos. Portanto, a nomeação do papa Francisco, embora seja uma alegria, não quer dizer que agora tudo será fácil. E também requer uma responsabilidade de nossa parte: a de fazer as coisas com rigor e com sentido de diálogo. O cristianismo deve voltar a se ocupar do mundo e, como disse o último documento escrito pelo Papa, que nossa estrutura econômica e a política mundial não sejam uma estrutura assassina.

A abertura de horizonte na Igreja foi um milagre inesperado?

Sim. Uma das coisas que a história me ensinou é que seus grandes momentos vêm inesperadamente. O medo que eu tinha é que, de imediato, viesse o milagre e nos pegasse sem estarmos preparados. E outra coisa que a história ensina é a paciência: A confiança de que aquilo que se faz pelo Reino com amor, os talentos que são investidos não se perdem. Na economia são perdidos muitos investimentos, mas isso é diferente.

E você não acredita que é necessário reabilitar as pessoas que foram pacientes durante todo este tempo (tanto na hierarquia como nas bases), sofrendo muito, porque havia a imposição de um modelo único?

Sim, mas, isso já passou. Eu não quero exigir nada agora, porque me condenaram antes, nem muito menos dizer “agora vamos incomodar, porque nós tínhamos razão”. O que eu desejo é que dialoguemos, que entre todos, sem espírito de vitória, nem de vergonha, façamos o que Deus quer, que é trabalhar por um mundo melhor. Já Pio XII, no ano de 1952, disse que era preciso refazer o mundo “a partir dos alicerces”. No entanto, ao invés de refazê-lo, nós o temos deteriorado ainda mais.

Você enxerga uma clara mudança de tendência na nova dinâmica eclesial?

Sim, claramente. E, além disso, conseguiu-se alguns pontos que não tem mais volta. É que determinadas reivindicações e determinados valores, que antes pareciam heréticos ou “de pouco amor à Igreja”, agora são ditos pelo Papa. São palavras do Papa. E, sendo assim, são totalmente legítimas e ortodoxas. Ou seja, determinadas reivindicações da Teologia da Libertação ou daqueles que pediam outra Igreja já não poderão ser desautorizadas, como se fossem heterodoxas. Agora, possuem um perfeito direito.

Contudo, o problema da Igreja não está apenas nas autoridades. Está no fato de que existe uma boa parte da base (que talvez seja a maioria) que é de um catolicismo fundamentalista que acredita em um Deus do medo e em uma instituição brilhante, e que embora não tenha poder, no momento de votar, vota. Por conseguinte, é muito importante que nos permitam que nos expressemos e nos expliquemos e que procurem nos entender assim como nós queremos agir com eles.

Ou seja, não há vergonha alguma, mas, sim, uma reivindicação por pluralidade?

Isso mesmo. Uma mudança de tendência, como nós dizíamos antes.

E essa mudança está influindo nas igrejas locais? Chegou à Espanha?

Acredito que está chegando mais fora da Igreja. Há uma infinidade de pessoas não crentes que, nesta situação de mundo desesperançado, de repente ouviu por aí um senhor que é uma autoridade e que, além disso, possui essa proximidade e simpatia, e que mesmo sendo um homem religioso não caminha pelas nuvens, mas diz verdades fundamentais... e ainda que isto não lhes vão converter, despertou uma esperança nessas pessoas não crentes. E a coisa mais bonita que a Igreja pode fazer é despertar a esperança.

É fundamental do ponto de vista litúrgico, pastoral e da evangelização, que todos encontrem na Igreja uma razão para continuar esperando. Porque, ainda que as esperanças não se cumpram logo, colocam em marcha muitas coisas.

O que eu percebo é que influiu mais nos não crentes do que nos crentes. Entre aqueles que estão dentro, acredito que irá influindo... O setor eclesial que estava pisoteado ou adormecido, nesse momento, está contentíssimo. Depois, parece-me que a opinião se divide. Existem pessoas que se deixam impactar pela bondade das palavras deste homem, e há outras pessoas que não enxerga nada mais a não ser populismo e demagogia. E há um grupo que oscila. No entanto, apesar de tudo, é um momento bonito de se ver.

A Igreja foi a única instituição social que conseguiu ressuscitar? Pode servir como exemplo para outras instituições (financeiras, políticas, democráticas...)?

Sim. As instituições de nossas democracias necessitam de muita regeneração!

A exortação apostólica Evangelii Gaudium é uma espécie de programa concreto do pontificado de Francisco? Deixa claro o que quer com este roteiro?

Sim. A primeira coisa no texto que me chamou atenção foi o seu estilo muito simples, tão pouco “encíclica” e tão pouco “pontifício”. É o estilo de um irmão que se dirige a outros irmãos, e isso é a primeira coisa que se destaca. E penso que apenas por essa razão será mais lida que qualquer outra encíclica, porque está ao alcance de qualquer pessoa.

Depois, é claro que há um programa, e o que toca a todos nós, diante dele, é frear a nossa própria reivindicação (não pedir cada um o seu), e colaborar naquilo que podemos. Cada um perceberá em seu campo o que pode fazer. Tomara, por exemplo, que alguns economistas (uns porque são católicos e outros porque são de esquerda) repensem a economia. Porque há economistas que não comungam com o sistema, mas dizem que a única coisa que podem fazer é “administrar este sistema”, embora seja injusto. Assim, é necessário ver se agora, em vez de nos conformarmos em administrar um sistema injusto, pensemos em como mudá-lo. Porque se estamos convencidos de que o sistema é injusto, não podemos permanecer com ele.

Por outro lado, a reforma da Cúria e da Igreja é também um caminho muito importante. Faz muita falta, também, uma revisão do Direito Canônico (porque se Deus estabelece muito poucas coisas... a Igreja não teria razão para estabelecer muitas). No entanto, pessoalmente, acredito que isso não ocorrerá.

No livro “Um Concílio entre primaveras”, que acabamos de publicar com a editora Herder, seu capítulo, “Apologia de um Concílio modesto”, é a conclusão final...

Sim. Realmente, foi um Concílio modesto, que não deu excomunhões, que não impôs, mas, propôs... Foi um Concílio humilde, apesar de ter feito denúncias muito sérias.

No entanto, depois você acrescenta um título provocativo (“A Igreja católico-romana não é a verdadeira Igreja de Cristo”) para dizer que a Igreja deve ser servidora dos pobres, sacramento de Salvação, etc. Este o seu roteiro?

Sim, mas isso é o Vaticano II, a Igreja da Fé (frente à Igreja da segurança que os conservadores querem).

Pode-se dizer que o Vaticano II ficou congelado durante um longo período de tempo?

Sim, sim, totalmente... O Vaticano II ficou muito tempo dentro de um congelador. Eu me perguntava quando o tiraríamos daí e o colocaríamos ao banho Maria. Todos os concílios, sobretudo os grandes, precisaram de uns 50 anos para começar a influir na Igreja. Trento, mesmo tendo sido muito conversador na dogmática, na prática foi muito avançado, demorou muito para se impor. É como uma chuva mansa que pouco a pouco vai nos molhando, sendo assim, ainda é necessário lhe dar um tempo.

Eu admiro muito a Rahner, mas acredito que se equivocou quando disse que não perdêssemos tempo fazendo exegese do Concílio. Foi muito otimista ao pensar que o caminho já estava aberto. Sim, é necessário fazer exegese. É preciso retornar ao Vaticano II e resgatar a intenção fundamental que o texto completo possui. Também a Bíblia.

Na época de Paulo VI, eram acrescentadas pequenas frases aos textos, para que todo mundo estive contente, sendo assim, é necessário retornar a eles, para verificar que coisas são acidentais e quais são essenciais. É preciso discernir qual é a flecha disparada pelo texto do Vaticano II, e fazer isso em uma análise da sociedade atual, pois já se passaram 50 anos e muitas coisas podem ser diferentes.

Uma das reformas que o programa do Papa parece enfatizar é a descentralização da Igreja: a reforma do Papado e das conferências episcopais. Você mesmo pediu muitas vezes, mas, é possível essa colegialidade?

Possível é, desde logo. Eu acredito que o Papa tem clareza disso. Outra coisa é o que o deixarão fazer e o que poderá mudar. João Paulo II disse que o Papa é “o servo dos servos de Deus”. Porém, estamos muito distantes daquilo. No entanto, o fato de que Francisco, quando foi eleito e apareceu na sacada, não se chamou Papa, mas bispo de Roma, é enormemente importante. Porque se o Papa é o bispo de Roma, é um bispo que tem a missão de criar unidade entre todas as igrejas. Ao contrário, a expressão “Papa”, que significa “pai dos pais” é uma expressão totalmente vertical, que tira das igrejas locais a autonomia que tinham no Novo Testamento.

O Papa não é o bispo de todas as partes, mas o que deve fomentar a comunhão entre todas as igrejas. Não há igrejas independentes, mas como disse um dominicano, “a Igreja universal é uma Igreja de igrejas”. Isto tem algumas implicações e algumas consequências imediatas, que vem da melhor tradição cristã, e que eu reivindico muito. A primeira é que a nomeação dos bispos deve recair, em parte, nas Igrejas locais.

“Nenhum bispo imposto”, como dizia o seu livro?

Isso. E há um princípio que também é aplicável à Igreja, que é aquele que diz “se não vivo como penso, acabarei pensando como vivo”. É isso que aconteceu com a Igreja: não podia pensar como o Evangelho porque não vivia evangelicamente.

Caminhamos para um Papa “primus inter pares”, ou é muito dizer isso?

Acredito que nos aproximaremos bastante, mas não é algo estranho: durante o primeiro milênio, o Papado foi assim. São Gregório Magno enviou uma carta a um patriarca de Alexandria lhe dizendo: “não me chamem de Papa, que o título de pastor universal é blasfemo”. Ou seja, isso já era reivindicado.

A colegialidade nos aproximaria do diálogo ecumênico?

Claro. Há um teólogo ortodoxo que tem um livro que se chama “Roma de outra maneira”. Isto nos recorda a importância de escutar aos observadores que veem Roma a partir de fora.

E também levaria à recuperação da sinodalidade?

Sim, melhor recuperada, porque o Sínodo dos Bispos até agora foi enfraquecido. Tomara que receba um papel que não seja meramente consultivo, mas deliberativo (com poder de decisão). Isso seria colocar a colegialidade em ato.

O que você pensa sobre a pesquisa para preparar o Sínodo, que está chegando com mais ou menos dificuldades às bases? É um passo a mais neste sentido?

Sim, é um passo muito importante. O fato de Roma consultar as bases é super cristão. Os bispos americanos lançaram um documento muito bom chamado “Justiça econômica para todos”. Demoraram dois anos para fazer isso, porque foram lançando perguntas às bases e recolhendo o que pensavam. No entanto, a autoridade de então disse que esse não era um procedimento correto. Que era competência episcopal... E, ao contrário, hoje, esta iniciativa veio do Papa.

Todos os organismos que existiam apenas de nome nas igrejas locais, mas que não funcionavam (como os conselhos pastorais), devem ser reativados, agora?

Sim, e é responsabilidade nossa. É muito bonito falar da colegialidade, mas se você é convidado para uma reunião e não comparece porque perderá duas horas... os organismos se enfraquecem, e nem sempre por causa dos de cima, mas também por nossa própria culpa. É bom que todos os cristãos, que agora queiram colaborar e se envolver, percebam que há certas instâncias de sinodalidade que já existem, mas que devem se tornar vivas e não apenas teóricas.

Pode ser que seja esse o desafio mais difícil deste Papa?

Um dos mais difíceis, claro, porque implica em todos nós mudarmos. Não basta que um senhor o presenteie, todos nós precisamos nos converter.

No livro de Susan Georg, “Outro mundo é possível se...”, vão sendo enumeradas várias condições (por exemplo, se cuidamos da terra), mas a última delas é “se cada um de nós as quer”. Porque, caso contrário, por mais que destaquemos caminhos, terminaria em nada. Por isso, não me cansarei de dizer aos cristãos que querem o Evangelho e que querem uma Igreja transformada que não desanimem. Porque embora nossa possibilidade de mudar as coisas seja mínima, por pequena que seja pode ir criando comunidades crentes e redes cristãs, para que a responsabilidade de cada um aumente pela de todos.

Como ressuscitar o espírito do sonho pós-concílio, quando a Igreja estava na atitude missionária que agora Francisco pede?

Na história tudo fracassa, o que ocorre é que depois os fracassos frutificam de outra maneira. Temos de estar muito conscientes de que aquilo que fazemos não deve ser feito para triunfar, mas por estarmos convencidos de que essa é a vontade de Deus. Porque Jesus merece uma Igreja melhor. E, depois, devemos ser também o suficientemente contemplativos para poder encontrar a Deus nesse trabalho.

Em seguida, se neste caminhar não conseguimos o que queríamos, saibamos que também Jesus não conseguiu e, no entanto, Deus lhe deu volta ao assunto, e começou todo o rebuliço.

O Papa disse que a Igreja tem que ser casa e não aduana. Ele utiliza muito essas formas de imagens?

Sim. Também disse aos padres que nas homilias devem usar imagens. Vivemos em uma cultura da imagem, seja visível ou lingüística, porque as imagens chegam muitíssimo mais.

Qual a sua opinião a respeito de suas denúncias do sistema capitalista como sistema que mata e que produz escravos?

São denúncias muito fortes para estar na boca de um Papa. Isso de dizer “matar é um pecado e este sistema mata” é algo direto e fortíssimo. E o Papa fez isso. Disse que nossa forma de capitalismo neoliberal é um sistema assassino. E, mesmo que seja enormemente eficaz, o fim não justifica os meios na economia.

Jean Ziegler, um economista suíço que foi secretário das Nações Unidas, disse exatamente que se hoje uma criança morre de fome não é uma desgraça, mas um crime. O grande pecado do mundo de hoje não é a injustiça, nem o ódio, mas a indiferença.

O silêncio dos bons?

Ou dos indiferentes, ou daqueles que se interessam mais em saber se o Barça ou o Atlético de Madri venceram. Não é possível que a notícia de que alguém morreu de fome ou de frio (e isso o Papa também diz) tenha o mesmo nível que uma notícia esportiva de Fernando Alonso ou de quem quer que seja. Os meios de comunicação deveriam pensar seriamente nisso. Há notícias que não são informações, mas chamados para um diagnóstico. Diante de um diagnóstico médico não se queixa impassível, mas se busca o tratamento que deve ser tomado. No entanto, há alguns meios de comunicação que dão diagnósticos como meras informações neutras. Que 30.000 pessoas morram de fome diariamente não é uma notícia, é uma acusação.

É plausível o pedido de regeneração de um sistema que é corrupto, feito pelo Papa?

É possível, como dizia antes, se a maioria estiver consciente de que o sistema precisa ser regenerado. Eu gostaria de saber quantos de nossos políticos de esquerda estão contentes com nossa democracia. Porque nossa democracia, de democracia tem apenas as duas primeiras letras. A lei de disciplina de partido e a lei eleitoral não tem nada de poder do povo. O 15M tinha toda a razão quando pedia uma democracia verdadeira. Porém, quando se está no sistema, nota-se que não se dá conta de que coisas não funcionam do sistema.

Não sei aonde chegaremos, mas está claro que se caminhamos na boa direção, ao menos algo avançaremos. Se nós caminhamos em direção contrária ou ficamos quietos, então tudo se arruinará mais.

É preciso deixar claro que a corrupção é inadmissível?

É claro. Diante disso, ganha grande relevância a frase de Jesus de que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. E, ainda que nosso mundo idealizou um sistema no qual parece ser possível adorar aos dois, não é assim. Ou um ou o outro. Caso contrário, o Deus ao qual se invoca sempre será um Deus falso, um ídolo. E isso nos fez chegar até o absurdo de que um presidente que é um assassino material, que fiz uma guerra no Iraque, por assuntos de armas e de petróleo, rezasse antes dos Conselhos de Ministros. Estavam rezando para um ídolo! E isso é muito grosso.

Que saídas abertas você enxerga?

Vejo frestas abertas, e acredito que seria preciso pensar nos gestos que podem ter mais força. Porque não é a mesma coisa abrir uma porta na direção que corre o ar, do que apenas abrir uma fenda. Neste sentido, tenho uma reivindicação pessoal pela qual gostaria que todos nós começássemos a levantar a voz. Há uma encíclica de João Paulo II que diz que, em tempos de crise, todos os objetos de culto valiosos que a Igreja possui devem estar a serviço das vítimas. E disse isso como uma obrigação.

Em questões de culto, a Igreja espanhola tem a Custódia de Toledo, a Sagrada Família e muitas outras riquezas. Imagine (postos a sonhar como Luther King) se a Conferência Episcopal Espanhola reconhecer que para Deus isso não produz nenhum culto, por mais bonito que seja ou por mais pérolas que tenham. Ao contrário, que isso fosse colocado a serviço dos pobres, repercutindo naqueles que passam o dia sem comer. Sim, seria um grande ato de culto a Deus, além de um grande gesto. Uma fresta por onde entraria um ar que poderia fazer revoar muitas coisas.

Outra reabilitação necessária é a da Teologia da Libertação?

Sim. A Teologia da Libertação tem o grande mérito de ter suportado o maltrato, assim como Jesus suportou. Sem negar que, inicialmente, pudesse ter seus limites ou suas incoerências, como tudo o que nasce. No entanto, o que está claro é que a Teologia da Libertação teve uma voz tão evangélica, que ainda não voltou a se ouvir.

E há muitos teólogos que sem saber concordaram com a Teologia da Libertação, porque a Teologia da Libertação é o Evangelho próprio. Deus é o Deus dos pobres. A Teologia da Libertação, sim, mereceria um reconhecimento agora. Uma reabilitação.

Uma vez que na Igreja se inicia uma nova tendência, como está ocorrendo agora com Francisco, existe a possibilidade de que se emperre por completo, quando terminar o seu pontificado, ou permanecerá assim?

Não sei, porque na história se mutilam muitas coisas. Contudo, tenho uma fé última de que o local onde se semeou amor, acaba fecundando. Ainda que pareça que fracassa. Quando dou exercícios, sempre digo isso: a morte de Jesus nos apresenta a pergunta a respeito de se uma vida entregue frente a tantos obstáculos, ao serviço do homem e contra sua opressão, tem sentido em nome de Deus. Jesus disse que sim, e eu acredito nele e sigo-lhe. Agora, a forma como a história funciona é outra coisa, porque a história é o resultado de movimentos de liberdades e as liberdades nós não as podemos manobrar como peões.

Também quero dizer que acredito que esse Papa irá correr sérios perigos. No Evangelho de Marcos, no capítulo 3, após narrar o êxito inicial de Jesus, diz-se que quando Jesus saiu de uma cura, uniram-se fariseus e herodianos para ver como acabar com ele. Fariseus e herodianos eram os máximos inimigos entre si, mas Jesus lhes incomodou tanto que se uniram para ver como acabavam com ele. E eu acredito que neste momento já estão se unindo fariseus e herodianos. Não sei quem são. Não sei se é a CIA, Al-Qaeda, a KGB, a máfia, a cúria romana... Contudo, neste momento, já devem estar pensando como acabar com ele (embora não seja matando-lhe, porque há outras maneiras). De fato, não acredito que o matem, porque ganhou tanto ao povo que, neste momento, não podem matar-lhe.

Você acredita que ele possui inimigos tanto fora como dentro?

Claro, e todos podem estar pensando mal desse Papa. Não se deve apenas se perguntar o que os bispos estarão pensando sobre esse Papa, mas o que estarão pensando em Wall Street sobre esse Papa. Porque está atacando diretamente o sistema financeiro mundial.

Como jesuíta, você se sente especialmente orgulhoso do Papa?

Sentir-me-ia igualmente orgulhosos se fosse franciscano ou se tivesse saído dos claretianos. Alegro-me por ele ser um Papa bom. O fato de ser jesuíta é curioso, porque Santo Inácio dizia que os jesuítas não deviam ser bispos (eu tenho um voto feito de não aceitar bispados), mas o Papa tem a última palavra. E pode ser que a partir desse Papa os bispados mudem de tal forma que os jesuítas possam aceitar serem bispos, porque de verdade será um serviço e não um poder. Porém, no momento, acredito que Santo Inácio teve uma grande intuição ao dizer que não fôssemos por aí, porque nos destruiríamos.

Você acredita que ocorrerão passos para isso, como, por exemplo, suprimindo os núncios?

O primeiro passo deveria ser o fim dos cardeais, e que não se chamem príncipes da Igreja, porque isso é quase blasfemo. Além disso, são um exemplo de como as coisas degeneram, porque os cardeais apareceram por nomeação do Papa para evitar que as famílias de poder interviessem na eleição do bispo de Roma. No entanto, se a Igreja é efetivamente colegial, os cardeais sobram. O Papa deveria ser eleito por um conclave que contemplasse os presidentes das diferentes conferências episcopais, alguns gerais de ordens religiosas, alguns leigos...

“I have a dream”?

Sim, que nos deixem sonhar. E que nos conservem ao menos o que conquistamos. Temos que ter fé, mas não a de recitar o credo, mas a de saber que as coisas podem mudar.

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