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23 Janeiro 2013

Nascido no ano de 1937 em Jerusalém, onde vive, o rabino Adin Steinsaltz é uma rara mistura de intelectual, religioso e homem de ação. Seu pai não era religioso, mas propiciou o estudo do judaísmo ao filho ainda criança, um menino prodígio que lia Freud. Na juventude, Steinsaltz entrou para o movimento hassídico Habad, ativo em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil. Teve um papel importante na implantação de estudos judaicos na extinta União Soviética, fundando a Universidade Judaica em Moscou e em São Petersburgo. Além disso, escreveu 60 livros de divulgação do judaísmo e ensaios sobre questões da religião, incluindo sua relação com a literatura.

Sua grande obra, no entanto, é a tradução comentada do Talmude Babilônico do aramaico para o hebraico, concluída em 2010, num total de 45 volumes (esse número varia conforme o critério editorial). Numa edição tradicional, a obra tem quase seis mil páginas (fólio). O livro, cuja origem remonta a dois mil anos, com a codificação da Lei Oral judaica (Mishná: repetição, estudo), no hebraico de início do primeiro milênio da era comum. Esse texto, um tanto lacunar, deu margem a muita discussão e interpretação na língua da época, o aramaico, e esses debates foram registrados e editados, formando a Guemará (complemento) que, com a Mishná, forma o Talmude (Estudo).

Além do Talmude Babilônico existe o Talmude de Jerusalém, um pouco mais antigo. A tarefa do rabino foi aproximar o falante do hebraico ao Talmude Babilônico, um monumento literário único por sua forma dialógica e modo de organizar o pensamento, com uso do método associativo. Um desafio ao estudo e à análise - tarefa cuja execução se recomenda que não seja feita individualmente.

Além de traduzir o livro, o rabino esclareceu os trechos obscuros, que são muitos, e os termos dúbios, comparou edições, identificou trechos censurados pela Igreja, etc.

Como o Talmude não segue uma organização temporal, rabinos que viveram em diferentes épocas podem aparecer na mesma página, fazendo com o que o leitor viaje no tempo, rumo a uma contemporaneidade tão remota quanto atual.

Existe outra tradução do livro para o inglês, mas a versão de Steinsaltz vem repercutindo graças ao renome do rabino como divulgador da obra entre judeus e não judeus. Ele também é fundador da Shefa, centro de investigação intelectual internacional sobre questões da atualidade, judaicas e gerais. Steinsaltz supervisionou uma tradução em equipe para o inglês do Talmude, já publicada. Existem traduções para o russo e o francês e existem planos para versões em castelhano e português.

Apesar de milenar, o livro segue despertando interesse em diversos países e culturas. Existe, por exemplo, uma recente tradução para o árabe - que vem suscitando polêmica. No Brasil, foi publicado um volume completo do Talmude, Sucá (Cabana), com tradução de David Azulay (Sêfer).

Em visita a São Paulo, Adin Steinsaltz fez várias palestras sobre sua obra em geral, filosofia e religião.

A entrevista é de Moacir Amâncio, professor de Literatura Hebraica na USP, autor de Yona, O, Andrógino - Notas sobre poesia, Cabala (NANKIN/EDUSP), Ata (Record), e publicada no jornal O Estado de S.Paulo, 19-01-2013.

Eis a entrevista.

As origens do Talmude remontam a dois mil anos. Ele fala, então, de coisas antigas - ao menos na aparência. Como o senhor explicaria o interesse pelo livro fora do âmbito da religião judaica?

O livro era novo há quase dois mil anos e assim continua. A linguagem é, logicamente, um tanto antiga, as anedotas também. Há questões sobre dois cavalos, três camelos. As pessoas usavam a própria linguagem e a realidade delas, mas os problemas são atuais. Dois mil anos, não fazem diferença; por quê? Porque o Talmude é um livro muito original. Não há nada similar. Imagine uma mesa à qual se sentam todos os que estudam: assim opera o Talmude. Num dos lados senta-se Moisés, nos outros lados as pessoas mais próximas a ele; eu fico no último lugar, mas o ponto aqui é que todos falam uns com os outros, inclusive os rabinos do texto. Nós, todo o tempo, temos um tipo de conversa entre muitas pessoas juntas. Nós não mudamos nesse tempo, continuamos a fazer as mesmas perguntas sobre os mesmos problemas; nós amamos, odiamos, tentamos ser melhores, fazemos guerras, às vezes também fazemos a paz. Todas essas coisas existem no Talmude, todas as questões humanas estão lá. Muitos milhões de pessoas acreditam na Bíblia. Há, por exemplo, uma pessoa que vive em Belo Horizonte. Para ela, Davi, Salomão, Moisés, não importa, às vezes eles são mais reais do que... eu não estou certo de que essa pessoa saiba ou precise saber quem é o presidente do Brasil, mas Davi ela precisa saber quem é. No final das contas, parte dos bilhões de pessoas que habitam o mundo se interessa pela religião, o que Jesus fez, disse, a quem ele escreveu... As conversas daquele jovem judeu são as nossas conversas. O Talmude é um livro que trata da vida. Desse ponto de vista, as pessoas na Espanha ou Arábia Saudita podem se interessar.

Mas ao mesmo tempo o Talmude é também famoso por sua complexidade. O senhor poderia explicar como é essa complexidade?

Esse é o problema. Trata-se de um livro escrito de maneira original. É um livro de diálogos, mas não o diálogo de Platão. É como se colocassem um pouco de Platão, de Kant, de Descartes, todos juntos. Também para um judeu não é um livro fácil. Por quê? Parte dele é escrita num estilo muito especial. Imagine um livro sobre matemática escrito no estilo de James Joyce. O Talmude está escrito como James Joyce fez: fluxo de consciência. É a mesma coisa.

E um fluxo de consciência coletivo, em que narradores e personagens se fundem, não?

Pois está escrito assim. Ulisses, de James Joyce, também é difícil de se ler. Mas é um grande livro e as pessoas o leem em todas as partes do mundo. O Talmude é um livro evidentemente maior, mais importante. Os livros de Joyce se ocupam de um pouco dos problemas humanos; o Talmude ocupa-se de todos os problemas. É difícil encontrar uma questão que falte por completo no Talmude. Por que os gatos têm memória tão boa? Não é uma pergunta que se refira à nossa existência, mas é uma pergunta. Por quê?

Seria possível resumir o sentido básico do Talmude?

Num certo sentido, a base da existência judaica encontra-se nesse livro. Agora, por causa disso, em todos os lugares tentaram queimá-lo. Eu estive em Roma para uma pequena comemoração quando terminei meu trabalho com o Talmude. Havia jornalistas, a televisão. O bonito da história é que fizeram o evento no lugar onde há seis séculos queimaram o Talmude, no mesmo lugar, na mesma praça onde queimaram Giordano Bruno. Fizeram algo novo nessa praça, sinal de que o Talmude ainda vive.

Quais são os sinais de interesse pelo Talmude fora do mundo judaico?

Há alguns meses recebi a visita de um homem que me deu um livro que escrevi sobre o Talmude, traduzido para o farsi, publicado por uma universidade de Teerã (no Brasil: 'O Talmud Essencial', editora Koogan, 1990). Há judeus lá, mas o livro saiu por uma universidade oficial. Certo, o Irã não fica muito distante de Israel, mas há anos escrevi um comentário sobre os Pirqei Avot (Capítulos dos Patriarcas, breve tratado da parte hebraica do Talmude, a Mishná), em hebraico, para os chineses, que o traduziram. Foi publicado pela Academia de Ciências da China e me convidaram para a apresentação da obra. Os chineses acham que são o centro do mundo. Eles acham que todos os europeus são bárbaros e os temem. Agora, ouvi dos chineses que eles nos aceitam, não nos temem, eles nos respeitam porque nós somos um povo de cultura, milhares de anos de cultura - e isso interessa a eles. Na Coreia do Sul, o Talmude é um livro popular. Os sul-coreanos estudam o Talmude nas escolas. Por quê? Eles dizem que é porque se trata de um livro muito importante, então não podem deixar de conhecê-lo.

Nisso tudo não está presente apenas a questão do saber, mas também da religião. Qual seria o significado dela hoje?

O significado da religião em nosso tempo é o mesmo que ela sempre teve. Como já disse, o ser humano não mudou. O ser humano tem religião desde que ele existe, desde os primeiros registros. O ser humano, por mais primitivo que seja, tem religião. Aqueles que chamam de índios, na Terra do Fogo, não é só que eles creem, eles são monoteístas. Como eu digo sempre, o politeísmo é um tipo de decadência dessa fé. Querem tornar a fé mais racional, então dizem que não é provável que exista um Deus capaz de proporcionar e de tirar a vida, a construção e a destruição. É preciso que existam, então, divisões: este deus constrói, este outro, destrói... Esta deusa cuida das mulheres... Um tipo de repartição como no funcionalismo público. Há pessoas que escreveram sobre isso, em termos de ficção científica: o que acontecerá se o robô se tornar mais e mais sábio? Existe a possibilidade de que ele também rezará.

Fora de Israel muitas pessoas têm a ideia de que a religião domina a política no país. Como o senhor vê isso?

Vamos começar pela questão do idioma. Um jornalista brasileiro que não sabe francês seria enviado à França? Não. A maioria dos jornalistas estrangeiros em Israel não conhece o idioma. Conversam com três professores e aceitam a impressão deles. Se você quer saber como as pessoas vivem, vá ao mercado, às lojas. Há jornalistas que vão a Israel sem a menor noção. A ortodoxia é minoria em Israel. Não é maioria. Ela não determina a política israelense. O problema é a quantidade de ignorância. Uma vez escrevi um livro com um amigo, Sociologia da Ignorância, para explicar que a ignorância é uma estrutura cultural feita para que as pessoas não entendam. Antes de mais nada, a parte religiosa e nacional sempre foi unida entre os judeus. O que não é correto em relação a outros povos. Não é milagre que os franceses passaram de uma religião a outra. Nós sempre estivemos voltados para o nosso país. A poesia medieval hebraica fala na volta a Sion e não havia sionismo naquela época. Dizem por aí: "Mas há os ortodoxos". A maioria dos judeus ortodoxos é contra o Estado de Israel. Eles não são nacionalistas e sim antinacionalistas. O que há é a religião misturada com o Estado; há pessoas que fazem negócios, mas vamos separar as coisas.

O senhor, conhecido como um grande leitor, mencionou Joyce. Qual a sua opinião sobre a literatura israelense atual?

Na literatura hebraica atual não vejo escritores muito grandes; há escritores mais famosos e menos famosos. Na maioria, os escritores israelenses, sinto dizer, - eu os conheço pessoalmente, Amós Oz, por exemplo, A.B. Yehoshua também, nós crescemos no mesmo lugar - são bons escritores, isto é, medianos. No entanto, eu também não vejo grandes escritores na Rússia nem nos Estados Unidos. Na América do Sul há nomes, aqui e ali. Eu não estou seguro quanto à grandeza deles. Gabriel García Márquez é interessante, talvez seja grande literatura, mas não estou seguro. Borges... eu leio na maioria os livros antigos, eu não consigo ler livros novos. Shmuel Yosef Agnon (Nobel de Literatura de 1966, prêmio dividido com Nelly Sachs), sim. Os atuais não têm a mesma estatura.

 

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