Depois de Santa Sofia, o sultão também quer Jerusalém

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14 Julho 2020

"Os dois mil fanáticos que após o anúncio de Erdogan oravam e gritavam contra os gregos e os cristãos em frente a Santa Sofia (ou Ayasofya, se quiserem) felizmente não representam toda a sociedade civil turca. O processo de secularização que até havia introduzido o alfabeto latino é brutalmente parado, a liberdade de expressão é tolhida, muitos intelectuais e opositores são presos", escreve Gad Lerner, jornalista, no Fatto Quotidiano,12-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quem brinca com a história acaba se queimando, como explicou ontem nestas páginas Filippo Maria Pontani a respeito de Santa Sofia, a catedral cristã construída mil anos antes da basílica de  São Pedro, reconsagrada mesquita para alimentar os sonhos de grandeza do novo sultão Erdogan.

Bizâncio, que se tornou Constantinopla, que se tornou Istambul, continua sendo desde sempre a mais importante metrópole do Mediterrâneo. E, por mais que se queira negar, continuará ligando a Europa e a Ásia em um destino comum.

O passo para trás na história com o que se revoga a secularização daquele lugar sagrado transformado em museu em 1934 pelo laico Atatürk é revogada, provavelmente decreta "o fim da Turquia como nação laica". Palavras amargas proferidas ontem pelo vencedor do Prêmio Nobel Orhan Pamuk. Ainda mais porque Erdogan, enquanto em inglês garantia que as portas de Ayasofya permaneceriam abertas a todos, na mensagem espalhada em árabe usava um tom bem diferente: "Este é um passo em direção à libertação de alAqsa", ou seja, a grande mesquita em Jerusalém. Naturalmente, foi imediatamente saudado pelo Hamas.

Como já havia apontado Pontani, a iniciativa do aspirante a sultão se apresenta como resposta islâmica a Trump que, em dezembro de 2017, anunciou a mudança da embaixada dos EUA em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Quando a diplomacia provoca a história, determina repercussões imprevisíveis. Os protestos internacionais colidem com o espírito de revanche dos muçulmanos.

A memória desse conflito é muito longa. Vai até 1236, quando a reconquista cristã da Península Ibérica foi selada pela transformação da Mesquita Islâmica de Córdoba em Catedral da Imaculada Conceição. Apenas alguns anos antes, em 1208, o doge veneziano Enrico Dandolo, à frente da quarta cruzada, havia colocado uma prostituta no trono do imperador bizantino, chefe da Igreja Ortodoxa.

Uma desfeita que os cristãos do Oriente retribuíram em 1453, preferindo com o apoio do povo o turbante do sultão Maomé II à tiara papal, quando Santa Sofia foi transformada em mesquita.

Istambul se tornou por quase cinco séculos a capital indiscutível do mundo islâmico, permanecendo Meca apenas um lugar de peregrinação.

Hoje, quando as lacerações do Islã dão origem a potências regionais contrapostas, a ideologia imperial neo-otomana volta a se propor em contraposição às petromonarquias wahabitas do Golfo, à ortodoxia sunita de Al Azhar no Cairo, ao jihadismo do Isis e do Islã xiita de Teerã. Uma desestabilização que cobre de sangue o Oriente Médio há mais de uma década, com seu epicentro na tão martirizada Síria. Mas que em ondas sucessivas ameaça todas as nações vizinhas, da costa setentrional do Mediterrâneo à Rússia. Além disso, isola ainda mais o Estado de Israel. Não foi por acaso que Erdogan, após a transferência para Jerusalém da embaixada dos EUA, decidiu expulsar o embaixador de Israel de Ancara, não antes de submetê-lo na frente das câmeras a um humilhante questionamento.

Agora que sua esfera de hegemonia se expande até a Líbia de Serraj, a Itália e a Europa são obrigadas a entrar em acordos. A princípio, pagaram pela miopia com que fecharam as portas na cara de uma Turquia ainda laica que estava negociando a entrada na UE. E então, depois de promover o despertar do fundamentalismo neo-otomano, o cinismo dos acordos econômicos com os quais entregaram a chave dos fluxos migratórios nas mãos de Erdogan.

Outra ocasião perfeita para os irresponsáveis ​​fomentadores do conflito de civilizações, populistas similares ao sultão, prontos para responder olho por olho, tirando o pó da parafernália das cruzadas e de Lepanto. Com a complicação de que a Turquia faz parte da OTAN e sua saída desarticularia os sistemas de defesa ocidentais, enquanto Ancara não hesita em fazer jogo duplo com Putin.

Os dois mil fanáticos que após o anúncio de Erdogan oravam e gritavam contra os gregos e os cristãos em frente a Santa Sofia (ou Ayasofya, se quiserem) felizmente não representam toda a sociedade civil turca.

O processo de secularização que até havia introduzido o alfabeto latino é brutalmente parado, a liberdade de expressão é tolhida, muitos intelectuais e opositores são presos.

Ontem, apenas o partido pró-curdo ousou expressar sua condenação ao decreto do Conselho de Estado de Ancara. Os outros, mesmo à esquerda, calam-se intimidados. Mas ainda existe uma "outra Turquia" na qual apostar, com sabedoria, para evitar uma fratura anti-histórica que seria irreparável.

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