O Cristo do Apocalipse

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14 Julho 2020

Francesco Piazzolla. Il Cristo dell’Apocalisse
(Studi biblici 93). Bolonha: EDB, 2020, pp. 328.

Um grande e belo livro, digamos desde já. Compacto, sintético e claro. Lemo-lo com atenção e extremo prazer. Com quase 600 citações das passagens do Apocalipse (pp. 311-319), composto por 405 versículos, o livro de Francesco Piazzolla, 49 anos, doutor em Teologia Bíblica, professor em Matera e professor convidado no Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, intitulado “Il Cristo dell’Apocalisse” [O Cristo do Apocalipse], é um verdadeiro comentário em miniatura do último livro da Bíblia, fascinante, intrigante, mas nem sempre fácil de decifrar com exatidão.

O comentário é de Roberto Mela, professor da Faculdade Teológica da Sicília, em artigo publicado por Settimana News, 08-07-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O leitor é orientado a entrar com extrema facilidade no labirinto do Apocalipse graças às introduções e às sínteses teológicas que acompanham cada um dos 10 capítulos do livro. Através do estudo dos títulos histológicos, não por perícopes, mas por áreas temáticas, Piazzolla apresenta um guia essencial para a compreensão do Apocalipse.

 

Apocalipse do Cordeiro e do Filho do Homem

O autor do livro do Apocalipse – o “Vidente de Patmos”, ou seja, muito provavelmente João Zebedeu, como fundador da tradição da região de Éfeso a ele referida – apresenta o Cristo com uma profunda reformulação dos dados do Antigo Testamento, dos livros paratestamentários ou apócrifos, da literatura evangélica e da rabínica.

Na categoria do “Cordeiro”, o autor do Apocalipse coagula o aspecto pascal da morte e ressurreição, o da fraqueza do servo de YHWH e, por fim, o da vitória gloriosa e poderosa sobre seus adversários.

Jesus Cristo, no seu mistério pascal, constitui o sujeito e o conteúdo do apokalypsis, isto é, da revelação que João, como profeta assistido pelo Espírito, comunica às Igrejas da Ásia Menor, mas também a todos os povos da Terra e de todos os tempos. O Cristo é a testemunha fiel de Deus Pai, o “Primogênito dos mortos”, aquele que, na autoapresentação em cada uma das sete cartas de Ap 2-3, se manifesta como o Senhor da história e o guia seguro das comunidades eclesiais.

Piazzolla estuda inicialmente o título de “Filho do homem”, como é apresentado na visão inaugural (Ap 1,9-20; pp. 17-36), lembrando como essa figura, junto com o aspecto judiciário escatológico, também soma em si o aspecto totalmente novo do sofrimento.

 

O setenário epistolar

É muito rica a mensagem que Cristo revela no setenário epistolar de Ap 2-3 (pp. 37-108, o capítulo mais longo do livro).

Toda carta que o Cristo dirige às igrejas inclui: 1) o título cristológico; 2) a narratio ou exposição da mensagem dirigida à Igreja; 3) a dispositio ou ordem em que se anuncia de modo intimidatório o advento do Ressuscitado; 4) a sanctio ou corroboratio que indica a meta eclesial à qual as Igrejas são chamadas (chamada por muitos autores de “a promessa ao vencedor”); 5) a fórmula da proclamação ou Wekformel com a qual se convida o destinatário a prestar atenção àquilo que o Espírito está dizendo naquele momento para interpretar corretamente a vivência eclesial.

O Cristo se mostra à Igreja de Éfeso como Senhor e modelo da Igreja; à de Esmirna, como morto e ressuscitado e, portanto, modelo existencial a ser assimilado na vivência pessoal e comunitária; à de Pérgamo, é apresentada a espada de dois gumes da Palavra; à de Tiatira, o Cristo se apresenta como o Filho de Deus, que é a luz comunitária no fascínio mundano; à Igreja de Sárdes, ele se autodefine como doador do Espírito e autor da identidade eclesial; enquanto à da Filadélfia ele se revela como o plenipotenciário messias davídico; à comunidade de Laodiceia, por fim, o Cristo se apresenta como Príncipe da criação e cumprimento das promessas divinas.

O “diagnóstico” (“conheço/oida”) que o Cristo realiza sobre a situação em que estão as Igrejas revela qualidades e defeitos, convida fortemente à conversão, ameaça punições em vista do arrependimento, dá a entrever promessas de vitória sobre o ambiente hostil que as cerca, idólatra e de traços satânicos.

 

O Cordeiro, o juiz e o rei

Ap 5,1-14 oferece uma representação cristológica do Cordeiro (pp. 109-134), que une em si a imagem do leão-cordeiro, a do Cordeiro no seu mistério pascal de morte e ressurreição, a do Cordeiro guerreiro e, por fim, a do doador da plenitude do Espírito.

Ele se situa no centro de uma celebração cósmica, e a sua imolação está prevista desde a fundação do mundo (é assim que eu interpreto, enquanto Piazzolla fala de imolação desde a fundação do mundo).

Em várias passagens do Apocalipse, fala-se do juízo de Cristo entre presente e futuro (pp. 135-158). À fase inicial do seu julgamento, que já se exerce desde agora, de modo incoativo na história, corresponderá uma fase final e escatológica. A “ira” do Cordeiro é exódica e leva à conversão.

O cavaleiro que monta o cavalo branco já vence na história, mas a sua vitória será completa apenas na escatologia realizada. Então, haverá a colheita, metáfora positiva da coleta dos frutos da vida de fé dos fiéis ao longo da história, e também a vindima, metáfora negativa da destruição do mal que se acumulou nas vicissitudes humanas fechadas a Deus.

O cavaleiro será juiz escatológico inapelável (Ap 19,11-21 ). Piazzolla lembra oportunamente que o sangue que embebe o manto do cavaleiro que monta o cavalo branco é o dele, e não dos inimigos (19,13)! Cristo vencedor triunfa com o dom da própria vida (= sangue) no mistério pascal, não com o sangue dos inimigos.

No que diz respeito à literatura evangélica, o Apocalipse fala de um modo totalmente particular do reino de Deus e do Cristo (pp. 159-172). Uma criança está destinada a governar as nações (Ap 12,1-5a).

Cristo é descrito com inúmeros títulos reais: “Príncipe dos reis da terra”, “Senhor dos senhores” – título escrito no fêmur, onde normalmente se porta a espada –, é apresentado como o rei que combate contra as nações e tem muitos diademas na cabeça. Ele compartilha o trono com Deus, e a sua realeza é exercida de modo fatal e irresistível contra todo poder mundano fechado a Deus, idólatra, opressor da dignidade do ser humano.

 

Uma cristologia eclesiológica e esponsal

O Cristo do Apocalipse é o Cristo pascal, morto e ressuscitado, e é o Esposo da Igreja (pp. 173-194; o João do Apocalipse se conecta aqui ao do Evangelho). A cristologia do Apocalipse é inteiramente relativa à eclesiologia nela delineada.

Cristo ama a sua comunidade, e o Vidente de Patmos revela isso desde o início (Ap 1,5b). O amor do Esposo se demonstra na história, durante a qual ele acompanha a namorada oficial/noiva/esposa (gynē/nymphē) para se tornar progressivamente a sua esposa de modo definitivo (nymphē), como ocorre nos dois momentos do matrimônio israelita (Ap 19,1-9).

A esposa é adornada e “cosmetizada” por Deus e por Cristo (Ap 21,2), mas, ao mesmo tempo, ela se preparou pessoalmente na história (19,7). O autor do Apocalipse, porém, lembra que ela recebe como dom a veste de linho puro e resplandecente (byssinon lampron katharon), que é constituída pelas obras justas dos santos, martirizados, mas sempre orantes e fiéis ao Esposo (19,7, “foi-lhe dado/edothē”, passivum divinum). Note-se que Babilônia, a prostituta, também está descaradamente vestida de linho puro (18,16), mas não resplandecente!

A Igreja, portanto, se prepara e luta na história, mas, ao mesmo tempo, é preparada e adornada por um agente divino misterioso (Deus? Cristo no Espírito?). Ela caminha na história, mas, ao mesmo tempo, está conotada intrinsecamente por uma dimensão sobre-humana, celeste, divina, expressada através da imagem da esposa que desce do céu.

 

Cenas celestes. O canto dos remidos e das virgens

O autor do Apocalipse interrompe muitas vezes e de modo brusco o relato dos eventos dramáticos que envolvem a Igreja no seu caminho histórico, apresentando inúmeras cenas de vida celeste com o Cristo (Ap 7,1-17; 14,1-5; 15,2-4, 20,1-6; pp. 195-210). Elas pretendem iluminar o sentido do caminho da Igreja, fazendo-a entrever a sua natureza divina e celeste, sobre-humana, expressada também pelos dons divinos que já a corroboram na sua longa e árdua luta contra o poderoso inimigo satânico.

O Cordeiro confere desde agora à sua Igreja o dom da vida eterna (7,1-17). É perfeita – e talvez nova para muitos – a análise realizada por Piazzolla, que conclui afirmando que os 144.000 marcados na testa e a fileira inumerável da multidão imensa constituem a mesma realidade. Não são dois grupos distintos, “mas sim uma maneira dupla de falar de todos os remidos” (p. 196, citação de um livro de G. K. Beale). De fato, o termo “redimido” já está presente em 5,9b para falar dos salvos “de toda tribo, língua, povo e nação”.

Os 144.000 também são definidos em Ap 14,3-4 como “os redimidos/hoi orasgorasmenoi” (particípio perfeito passivo), resgatados no passado e que permanecem como tais no presente, porque “foram redimidos/ēgorasthēsan” em um ato (pascal) posto no passado pontual (aoristo passivo). São aqueles que constituem a Igreja celeste na sua relação com o povo eleito de Israel e na sua abertura universal a todos os povos. É a eclesiologia típica do Apocalipse.

O seguimento do Cordeiro o requer radicalidade e totalidade de intenções (ser “virgem”, 14,1-5). A ele sobe eternamente da terra o cântico de Moisés e o do Cordeiro (15,2-4), que constitui, de fato, um único cântico!

O misterioso reino milenar do Cordeiro (20,1-6) é contemporâneo à luta diuturna que a Igreja sustenta no seu árduo caminho histórico de luta contra o poder demoníaco, o dragão (13,2) que se serve de capangas constituídos pelas potências sócio-político-militares centrais e periféricas (a besta que sobe do abismo/mar, 13,1, e a besta que sobe da terra, 13,11). Esta última é mantida de pé por mensagens de propaganda. Um vasto grupo de yes men da propaganda homologadora são, de fato, o falso profeta ao qual é concedido (!) até mesmo “animar” a estátua da besta para que possa falar e fazer matar qualquer um que não a adore (13,15).

 

Rei e Esposo, vida, templo e luz

A Igreja é a Esposa de Cristo Esposo, mas também é retratada como a “cidade escatológica”, a Sião definitiva que desce do céu (Ap 21,1-22.5, pp. 211-228).

A cidade-esposa existe à medida do Cordeiro (incomensurável!), preciosíssima, ocupada no centro por Deus e pelo Cordeiro, que são juntos e ao mesmo tempo o templo e a luz da cidade celeste, de dia e de noite. É compacta, “cúbica”, de medidas mirabolantes (21,16-17), fundada sobre os 12 apóstolos e carregando nas portas os nomes das 12 tribos de Israel.

Nela corre o rio de água viva descrito pelo Gênesis e entrevisto em Ez 47, mas enriquecido nas suas margens pela árvore da vida multiplicada em sentido coletivo, cujas folhas são curativas para as nações (22,2). Na cidade celeste estão reunidos todos “os povos” de Deus e do Cordeiro (“os seus povos”, 21,3). Entra-se nela pela porta que é o Cordeiro, e nela há comunicação imediata com Deus e o Cordeiro, sem mais a necessidade de mediações templárias e sacerdotais.

 

Mistério pascal, paradigma existencial

A mensagem única e compacta do livro do Apocalipse é que o mistério pascal que conota o Cristo de modo totalizante se torna o paradigma existencial do fiel (pp. 229-256). Se Cristo é a testemunha/mártir/martys fiel de Deus (1,5), a tribulação e a prova marcarão continuamente também a vida da Igreja no seu itinerário terreno (1,9). A perseverança/constância/hypomonē que a sustenta, porém, será ao mesmo tempo dom de Cristo e compromisso eclesial.

As “duas testemunhas” misteriosas de Ap 11,1-13 são um exemplo impressionante disso. São o aspecto profético que conota a Igreja de todos os tempos. Eles são mortos pelo seu testemunho, mas já desfrutam da “primeira ressurreição”, antecipação da vida plena que aguarda todos os fiéis a Cristo Cordeiro (a “segunda ressurreição”). Os mortos no Senhor (14,13), pela fé em Jesus, já gozam do fruto das suas obras.

Há a prova disso na vida da Igreja. Mas são nada menos do que sete as bem-aventuranças a ela asseguradas que acompanham o seu caminho (as sete bem-aventuranças do Apocalipse foram o tema da tese de doutorado de Piazzolla, publicada em Assis em 2010). O “testemunho de Cristo” – testemunho que Cristo subjetivamente dá de si mesmo e o testemunho oferecido objetivamente a Cristo na fé pelos redimidos – é testemunho ao Evangelho, à Palavra, e se desenrola entre perseguição e martírio.

 

O testemunho de Cristo é o Espírito de profecia

O capítulo 10, o último do livro (pp. 257-268), se debruça precisamente sobre o significado do Apocalipse como “revelação” de Cristo e do seu testemunho.

O prólogo (1,1-3) e o epílogo do livro (22,6-21) demonstram o aspecto subjetivo e objetivo do sintagma “testemunho de Cristo”.

Ele é simultaneamente a revelação que Cristo faz de si mesmo e aquela que é transmitida no livro pelo profeta João, graças à ajuda do angelus interpres e à obra poderosa do Espírito, que está sempre presente em todo o livro. O Espírito onipresente (“os sete espíritos”, Ap 1,4; 4,5; 5,6) torna atuais e eficazes na história a palavra e a presença de Cristo Cordeiro pascal.

Nesse sentido, pode-se decodificar a enigmática expressão “O testemunho de Jesus é o Espírito de profecia” (19,10b). O testemunho tem origem em Jesus, é transmitido pelo profeta João – o Vidente de Patmos – graças à eficácia poderosa do Espírito que corrobora e atesta de modo irrefutável a sua profecia no curso do caminho histórico da Igreja.

O Apocalipse, de fato, é sim um livro “apocalíptico”, revelador, mas de conotações proféticas: “Palavras da profecia deste livro” (22,18; cf. 1,3). Não prediz tanto o futuro (nem mesmo aquele, evidentemente), mas revela a profundidade de sentido oferecido pelo mistério pascal de Cristo à história enigmática e sofrida da Igreja.

O Espírito assiste e potencializa o suspiro sincero da Igreja quando invoca o Esposo: “Vem” (22,17). E o Esposo diz à Igreja de todos os tempos: “Sim, venho muito em breve!” (22,20). A sua vinda está às portas, mas é conotada sobretudo pela subitaneidade. De fato, Piazzolla lembra que tachy é um advérbio modal e significa “de repente”; eutheōs, por sua vez, é um advérbio temporal, para indicar “logo, imediatamente”.

Piazzolla relata abundantemente os textos do Apocalipse comentados por ele, sempre em uma tradução pessoal muito correta e precisa filologicamente.

Em um livro riquíssimo em informações, em soluções exegéticas pontuais e claras, rico em notas de diálogo científico filológico e bíblico, é bastante inevitável a presença de erros de digitação e de lapsos, sobretudo na transliteração dos termos gregos e hebraicos.

Também seria útil indicar a indicação da sigla dos Estados estadunidenses aos quais pertencem as cidades de edição dos textos citados.

Em geral, lembramos a necessidade de indicar sempre com a letra inicial “h” todos os termos que trazem um acento áspero inicial (por exemplo, hyios, hypomonē, rhēma etc.).

O precioso volume de Piazzolla, a quem agradecemos por ter composto uma verdadeira pérola sobre o complicado mas fascinante livro do Apocalipse, termina com algumas páginas de Conclusões (pp. 269-274), a rica Bibliografia (pp. 275-296), os preciosíssimos Índices das citações bíblicas e extrabíblicas (pp. 297-320) e o dos nomes (pp. 321-324).

 

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