Cúpula vaticana sobre abusos foi o ''início do fim'' do clericalismo?

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27 Fevereiro 2019

A cúpula vaticana sobre a Proteção dos Menores na Igreja terminou, e a sua eficácia está sendo debatida amplamente na imprensa. Ela obteve sucesso em fazer progressos na prevenção e no tratamento do abuso sexual do clero? Os sobreviventes de abuso sexual estão satisfeitos com os resultados ou não? Há esperança de que a Igreja Católica será diferente por causa do que aconteceu ao longo de três dias de encontro em Roma?

O comentário é de Francis DeBernardo, publicado em Bondings 2.0, 26-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Essas são todas questões importantes, e eu peço que vocês leiam o extenso debate sobre elas na imprensa. Como o foco do Bondings 2.0 é nas questões LGBTQ, vou abordar aqui, neste post final da nossa cobertura em Roma, apenas sobre como a cúpula pode afetar esses tópicos. Para outras opiniões e discussões sobre os assuntos muito importantes mencionados acima, por favor, consultem os seus meios de comunicação católicos e seculares favoritos.

O único tópico abertamente LGBTQ ligado à cúpula foi o bode expiatório dos padres gays em relação à crise. Eu cobri essa questão em dois posts anteriores (aqui [em inglês] e aqui [em português]), então hoje quero me focar em outro tópico da cúpula que eu acredito que tem ramificações para os católicos LGBTQ.

Um tema central da cúpula foi como o problema do clericalismo tem dificultado a vida da Igreja e tem sido a principal causa da crise dos abusos sexuais. Embora o clericalismo tenha emergido como um tema importante antes da cúpula, foi impressionante ver quantos oradores o condenaram como um problema significativo que a hierarquia deve trabalhar para erradicar.

A crítica mais afiada ao clericalismo veio do cardeal Rubén Salazar Gómez, da Colômbia, quando ele se dirigiu à cúpula em seu primeiro dia. Vale a pena extrair esta longa passagem do início de seu discurso:

“Uma análise sumário do que aconteceu nos permite constatar que não se trata apenas de desvios ou de patologias sexuais nos abusadores, mas que também há uma raiz mais profunda, que é a tergiversação do sentido do ministério, convertido em meio para impor a força, para violar a consciência e os corpos dos mais fracos. Isso tem um nome: clericalismo.

“Também, ao analisar a forma como, em geral, se respondeu a essa crise, descobrimos que manejamos uma compreensão equivocada de como exercer o ministério que levou a cometer sérios erros de autoridade, que agigantaram a gravidade da crise. Isso tem um nome: clericalismo.

“É essa realidade que o Santo Padre Francisco descreve em sua carta ao povo de Deus em agosto do ano passado: ‘Isso se manifesta com clareza em uma maneira anômala de entender a autoridade na Igreja – tão comum em muitas comunidades nas quais ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência – como é o clericalismo (...) Dizer ‘não’ ao abuso é dizer energicamente ‘não’ a qualquer forma de clericalismo’.

“Palavras claras que nos urgem a ir à raiz do problema para poder enfrentá-lo. Mas não é fácil ‘dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo”, porque é uma mentalidade que calou fundo na nossa Igreja ao longo dos tempos e que, quase sempre, não somos conscientes de que subjaz à nossa maneira de conceber o ministério e de agir nos momentos decisivos. Essa constatação significa que se torna necessário desmascarar o clericalismo subjacente e alcançar uma mudança de mentalidade, o que, expressado em termos mais precisos, se chama conversão.

“A nossa responsabilidade se expressa fundamentalmente em uma coerência minuciosa entre as nossas palavras e as nossas ações. É preciso uma revisão de fundo da mentalidade que está por trás das nossas palavras, para que as nossas palavras e ações sejam aquelas que correspondam à vontade de Deus neste momento da Igreja.

“Este convite à conversão se dirige a toda a Igreja, mas, em primeiro lugar, a nós, que somos seus pastores.”

Salazar também lembrou aos bispos que eles precisam atualizar a sua consciência com novas informações e desdobramentos quando confrontados com novas realidades:

“A formação permanente do bispo tem sido uma preocupação constante da Igreja. Os tempos em mudança levantam desafios novos aos quais o bispo deve responder e, para isso, é necessária uma atualização permanente. Em nosso agir frente a essa crise, necessitamos também estar em processo permanente de atualização, formação e instrução, para que a nossa resposta seja sempre a indicada.”

Intimamente relacionado com a solução do problema do clericalismo está o chamado da Igreja a ser uma Igreja mais sinodal, isto é, uma Igreja em que todos os membros – bispos, leigos, clero, homens e mulheres religiosos –, todos participam na discussão da Igreja e todos ajudam com o discernimento de como seguir em frente.

O cardeal de Chicago, Blase Cupich, concentrou-se nesta sinodalidade em seu discurso à cúpula, no segundo dia, dizendo:

“Enquanto compartilhamos uma responsabilidade única a esse respeito como colégio de bispos, também é imperativo que consideremos o desafio que enfrentamos à luz da sinodalidade, especialmente ao explorarmos com toda a Igreja os aspectos estruturais, legais e institucionais da responsabilização. Pois a sinodalidade representa a participação de todos os batizados em todos os níveis – nas paróquias, dioceses, órgãos eclesiais nacionais e regionais – em um discernimento e reforma que penetre em toda a Igreja. É precisamente esse discernimento penetrante, tão vital para a Igreja neste momento, que dará origem aos elementos de verdade, penitência e renovação das culturas que são essenciais para cumprir o mandato de proteger os jovens dentro da Igreja e, por sua vez, dentro da sociedade em geral. Um processo que meramente mude as políticas, mesmo que seja fruto dos mais finos atos de colegialidade, não é suficiente. É a conversão de homens e mulheres em toda a Igreja – pais e padres, catequistas e religiosos, lideranças paroquiais e bispos – e a conversão das culturas eclesiais em todos os continentes que devemos buscar. Somente uma visão sinodal, enraizada no discernimento, na conversão e na reforma em todos os níveis, pode trazer à Igreja a ação abrangente em defesa dos mais vulneráveis em nosso meio, aos quais a graça de Deus nos chama.”

Na mesma linha, o arcebispo Mark Coleridge, de Brisbane, na Austrália, refletiu sobre como é difícil para um bispo ter tempo para ouvir, porque o bispo acaba “sendo um administrador, não um pastor. Todo o modo de funcionamento de um bispo precisa ser abordado”.

Cupich delineou quatro tarefas que podem ajudar a criar uma Igreja mais sinodal: escuta radical, envolvimento dos leigos, colegialidade e prestação de contas. Sobre a escuta, Cupich proferiu palavras fortes:

“A nossa escuta não pode ser passiva, à espera de que aqueles que foram abusados encontrem um caminho ao nosso encontro. Ao contrário, a nossa escuta deve ser ativa, em busca daqueles que foram feridos e em busca de ministrar a eles. A nossa escuta deve estar disposta a aceitar desafios, confrontos e até mesmo condenações pelos fracassos passados e presentes da Igreja em manter seguros os membros mais preciosos do rebanho do Senhor.”

Sobre o envolvimento dos leigos, ele observou:

“Esse testemunho de fé e justiça dos leigos representa não um desafio de confronto à Igreja, mas sim um testemunho de fé e ação contínuo e cheio de graça que é essencial para o povo peregrino de Deus cumprir a sua missão salvífica neste momento da história.”

Mais tarde naquele dia, em uma coletiva de imprensa, Cupich abordou o tema da transparência e definiu esse conceito como “garantir que todos tenham uma voz”.

Então, o que tudo isso significa e qual é o impacto disso nas questões LGBTQ na Igreja? Eu gostaria de colocar todas essas ideias no contexto daquilo que ouvimos dos bispos durante o Sínodo sobre a juventude em outubro de 2018.

Naquele momento, temas similares sobre a importância da escuta e de prestar atenção a diversas perspectivas também foram trazidos para a mesa de discussão. Eu acho que, a partir do Sínodo da juventude e desta cúpula sobre os abusos, estamos começando a ver uma nova consciência emergindo entre as lideranças da Igreja, pois eles estão, pelo menos, admitindo que não têm todas as respostas, que precisam estar em diálogo e discussão com os leigos e com o mundo.

Essa consciência emergente é crucial para evitar que futuros abusos ocorram e para lidar com isso justa e humanamente quando isso acontecer. Essa nova consciência também pode beneficiar muitas outras questões na Igreja, incluindo a discussão sobre temáticas LGBTQ.

O clericalismo também é uma grande barreira para a discussão LGBTQ. Quando os bispos não escutam, não buscam o conselho dos leigos e novas informações, quando exercem sua autoridade de maneira exagerada e quando veem a defesa da instituição-Igreja como mais importante do que a defesa das pessoas, tudo isso se combina para tornar a nossa Igreja uma fortaleza, e não uma porta aberta. Todas essas questões também são as mesmas que prejudicam seriamente a discussão sobre as questões LGBT na Igreja.

Os bispos adotarão essas medidas? Como as apostas estão tão altas na crise dos abusos do clero, eles colocarão a si mesmos e à Igreja em grande perigo se não o fizerem. O clericalismo deve acabar para que a cura e a reconciliação com os sobreviventes do abuso comecem. O clericalismo deve acabar para a efetiva prevenção de abusos futuros. É incerto se os bispos estão apenas usando palavras contra o clericalismo ou se as esperanças expressadas por eles se manifestarão em políticas e ações voltadas para o desmantelamento do clericalismo.

Os bispos precisam adotar novas maneiras de ser bispos, a fim de trabalharem para resolver a crise dos abusos sexuais do clero. Se o fizerem, eles também estarão, ao mesmo tempo, preparando o caminho para a reconciliação com seus membros LGBT e com muitas outras pessoas que foram afastadas da Igreja.

A Igreja inteira tem uma grande dívida para com os sobreviventes de abuso que tão bravamente se apresentaram para contar suas histórias, muitas vezes com grande dor para si mesmos ao reviver tais momentos traumáticos. Sua disposição a serem vulneráveis, a respeitarem a si mesmos, a falarem a verdade ao poder e a sofrerem todo tipo de insultos é um grande exemplo de coragem e resistência profética para todos nós. No mínimo, eles merecem justiça.

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