Abusos sexuais: cinco razões pelas quais o encontro com o papa será um fracasso. Artigo de Thomas Reese

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21 Janeiro 2019

Francisco pode ter sucesso, mas temo que, quando o encontro terminar, ele seja visto apenas como um pequeno passo em um esforço que vai levar anos.”

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de O Vaticano por dentro (Ed. Edusc, 1998), em artigo publicado por Religion News Service, 18-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A reunião do mês que vem em Roma, convocada pelo Papa Francisco para lidar com a crise dos abusos sexuais na Igreja Católica, pode muito bem ser um fracasso antes mesmo de começar.

As apostas sobre a reunião foram aumentadas, pelo menos para a Igreja dos Estados Unidos, já que o relatório do Grande Júri da Pensilvânia sobre os abusos sexuais do clero evocou novos escrutínios sobre a resposta da Igreja, seja a partir dos bancos das igrejas, seja das autoridades do governo.

Na época, em novembro, o Vaticano reprimiu uma votação na reunião dos bispos dos Estados Unidos sobre medidas destinadas a responsabilizar a hierarquia por não lidar com os abusos.

Agora, mais de 100 presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, mais uma dezena de outros participantes, estão prestes a ir a Roma para um congresso de quatro dias, com início no dia 21 de fevereiro. Segundo o Vaticano, o encontro se concentrará em três temas principais: responsabilidade, prestação de contas e transparência.

Há cinco razões pelas quais esse encontro irá fracassar.

Em primeiro lugar, quatro dias é um tempo curto demais para lidar com uma questão tão importante e complicada. O Vaticano diz que o encontro incluirá “sessões plenárias, grupos de trabalho, momentos de oração comum e escuta de testemunhos, uma liturgia penitencial e uma celebração eucarística final”.

Se cada participante falasse apenas uma vez por cinco minutos durante as sessões plenárias, isso consumiria mais de 12 horas – quase metade do tempo do encontro. Acrescentem-se a isso os discursos do papa, das vítimas e dos especialistas, assim como o tempo para as discussões em pequenos grupos e para a oração, e o tempo esgotou.

A maioria dos principais encontros de bispos em Roma, como o Sínodo dos bispos de outubro passado sobre os jovens, dura um mês. Mesmo assim, os sínodos sempre foram sentidos como encontros apressados, com pouco tempo no fim para preparar e aprovar um relatório. Pensar que o encontro de fevereiro pode realizar seja o que for em tão pouco tempo não se sustenta na experiência.

Em segundo lugar, as expectativas para esse encontro são tão altas que será impossível avaliá-las.

Qualquer reunião convocada pelo papa gera expectativas, mas esta abordará uma questão de alto nível que tem perseguido a Igreja há décadas. É o primeiro encontro desse tipo no Vaticano, e a mídia tem antecipado isso em inúmeras histórias.

Além disso, tendo posto de lado os esforços dos bispos dos Estados Unidos em novembro, o encontro deve apresentar uma maneira de responsabilizar os bispos ou fará com que a desculpa pareça injustificada e falsa.

Em terceiro lugar, a força desse encontro é que ele incluirá os presidentes de Conferências Episcopais de todo o mundo. Trata-se de alguns dos bispos mais importantes dos seus países. Mas as culturas e os sistemas legais dos participantes variam enormemente, o que dificultará o acordo sobre políticas e procedimentos.

Muitos bispos do Sul global não acreditam que o abuso sexual de menores seja um problema nos seus países. Eles o veem como um problema do Primeiro Mundo.

Isso porque, em parte, muitos bispos do Sul global não têm ideia de quão ruim é o problema. Em suas culturas tradicionais, as vítimas de abuso são muito relutantes em se apresentar para denunciar o abuso à Igreja ou às autoridades civis.

Como resultado, muitos bispos ao redor do mundo estão cometendo os mesmos erros que os bispos dos Estados Unidos cometeram antes de 2002, quando a cobertura midiática dos abusos em Boston encorajou milhares de vítimas a se manifestarem.

Os bispos negam o problema; tratam-no como um pecado, não como um crime; não ouvem as vítimas; acreditam no padre quando ele diz que nunca mais fará isso; mantêm-no no ministério; encobrem o fato.

É muito importante que esses bispos se convençam de que o problema é real e de que devem evitar repetir os erros dos bispos estadunidenses.

Em quarto lugar, até onde se pode ver neste momento, a reunião não está sendo bem preparada.

Quando o papa convoca um sínodo dos bispos, há um longo e complicado processo de preparação que pode durar alguns anos. As Conferências Episcopais são consultadas; questões para discussão são distribuídas; e a contribuição dessas consultas é resumida em um documento preparatório que circula entre os participantes. Há também um escritório em Roma responsável pela organização do sínodo.

Este encontro, por outro lado, foi apenas anunciado pelo papa em setembro, e a comissão criada para organizá-lo só foi nomeada no fim de novembro. A primeira comunicação da comissão com os participantes da reunião foi em meados de dezembro, dando aos bispos o prazo do dia 15 de janeiro para enviarem suas respostas a um questionário anexado à carta.

No lado positivo, a carta pedia que os participantes se encontrassem com sobreviventes de abuso antes de irem a Roma. A comissão se dá conta de como é importante ouvir diretamente as vítimas, tanto para a cura delas quanto para uma melhor compreensão do abuso por parte daqueles que escutam.

A comissão preparatória tem um elenco estelar: o cardeal Blase J. Cupich, de Chicago; o cardeal Oswald Gracias, de Mumbai; o arcebispo Charles Scicluna, de Malta; e o padre jesuíta Hans Zollner, presidente do Centro de Proteção de Menores da Universidade Gregoriana.

Scicluna e Zollner são especialistas reconhecidos na crise dos abusos, que têm credibilidade junto à mídia e aos sobreviventes.

No entanto, o encontro também fracassará porque, para ter sucesso, Francisco terá que definir a lei e simplesmente dizer aos bispos o que fazer, em vez de consultá-los. Ele terá que apresentar uma solução para a crise e dizer-lhes para voltarem para casa e implementá-la.

Francisco não fará isso. Ele não se vê como o CEO da Igreja Católica. Ele tem um grande respeito pela colegialidade, a crença de que o papa não deveria agir como um monarca absoluto. Em seu primeiro sínodo dos bispos, ele encorajou os bispos a falarem ousadamente e a não terem medo de discordar dele.

Eu apoio o compromisso do papa com a colegialidade, mas a discussão e a construção de consenso levam muito tempo. As pessoas, especialmente os sobreviventes e a mídia, estão impacientes, com razão. Eles não estão à procura de outra discussão e debate piedosos, mas sim de políticas e procedimentos concretos que protejam as crianças e responsabilizem os bispos.

Além disso, o Papa Francisco pensa mais como um pastor do que como um advogado. Ele chama as pessoas à conversão em vez de criar novas políticas e estruturas.

De acordo com Alessandro Gisotti, diretor interino da Sala de Imprensa do Vaticano, “é fundamental para o Santo Padre, quando os bispos que virão a Roma retornarem aos seus países e às suas dioceses, que eles compreendam as leis a serem aplicadas e que tomem as medidas necessárias para evitar os abusos, para cuidar das vítimas e para garantir que nenhum caso seja encoberto ou enterrado”.

Francisco parece acreditar que as leis atuais são suficientes, mas precisam ser aplicadas. Seu objetivo, então, será trazer os bispos a bordo, e não propor novas soluções. Isso é importante, mas não satisfará aqueles que querem estruturas de responsabilização para punir os bispos que não fazem o seu trabalho direito.

Eu espero estar errado em ser pessimista – como cientista social, sou sempre pessimista quando olho para a Igreja e para o mundo. Como cristão, tenho que ter esperança. Afinal, minha fé se baseia em alguém que ressuscitou dos mortos.

Francisco pode ter sucesso, mas temo que, quando o encontro terminar, ele seja visto apenas como um pequeno passo em um esforço que vai levar anos.

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