Abusos na Igreja: “O Papa tem sido errático”. Entrevista com Jorge Costadoat

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18 Janeiro 2019

O padre jesuíta, que há quatro anos foi suspenso como professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica pelo arcebispo Ricardo Ezzati, relembra seus dias de punição, analisa a situação atual da Igreja, abalada por escândalos de abusos sexuais, e acusa perseguição histórica contra os padres mais progressistas.

A entrevista é de Paula Palacios, publicada por Caras, 16-01-2019. A tradução é de André Langer.

O padre jesuíta Jorge Costadoat (60 anos) passou por dificuldades. Em junho, renovaram-lhe pelo quarto ano consecutivo a punição imposta pelo arcebispo de Santiago Ricardo Ezzati, que, na qualidade de chanceler da Universidade Católica, decidiu em 2014 não renovar a missão canônica para continuar sendo professor adjunto na Faculdade de Teologia, depois de 20 anos como acadêmico. Ele o excluiu do plantel de professores, mas o deixou como pesquisador adjunto. “Você tem a sua liberdade e eu tenho a minha”, foi a explicação que lhe deu o arcebispo de Santiago na hora de demiti-lo.

Mais tarde, Costadoat ficaria sabendo por declarações do próprio Ezzati veiculadas em diversos meios de comunicação que sua saída se deu “por falar com mais liberdade do que deveria, confundir o magistério e que na sala de aula não passava toda a matéria”. Foram quatro anos de frustração, “de tratamento desumano para com um professor neste momento da sua carreira. Na universidade, deveria prevalecer o respeito pela autonomia das faculdades e pela liberdade dos acadêmicos. Na teologia da Católica, no entanto, não há suficiente liberdade acadêmica, porque não temos autonomia, uma vez que os estatutos permitem que o grão-chanceler faça e desfaça. Tanto é assim que, quando me expulsou, nem o decano ficou  sabendo da decisão do bispo”, garante este ex-aluno do Colégio Santo Inácio, doutorado em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, fundador e ex-diretor do Centro Teológico Manuel Larraín (das Universidades Católica e Alberto Hurtado), que costuma incomodar as elites com suas colunas de opinião no El Mostrador, na Rádio Cooperativa e na revista Reflexión y Liberación.

Devido às dificuldades da Arquidiocese de Santiago no momento em que se investiga uma série de casos de abusos sexuais por parte de religiosos e pelos quais Ezzati se recusou a depor como réu por acobertamento, este último delegou seu cargo como chanceler da Universidade Católica ao religioso Tomás Scherz, o que motivou muitos acadêmicos e sacerdotes – entre eles Felipe Berríos – a pedir o retorno de Costadoat às salas de Teologia da Universidade Católica.

Costadoat, no entanto, entende que este não é o momento propício: “Enquanto não houver um novo bispo de Santiago ou um novo administrador apostólico, o melhor é esperar. Venho tendo dificuldades desde 1998, quando o decano da época me pediu para que me apresentasse para professor adjunto do corpo de professores. Eu apresentei os papéis. Foi um ir e vir de requerimentos que durou anos. Mais tarde soube que quem não queria minha promoção para adjunto era o próprio cardeal Francisco Javier Errázuriz; tudo dependia dele. Eu nunca fui promovido ou tive respostas claras; a mesma obscuridade!”

Eis a entrevista.

Você disse que a estrutura da Igreja se presta para uma instituição abusiva, o que se repetiria na Teologia da Universidade Católica.

Mas é claro! Basta ver a carta que o atual decano Joaquín Silva e o Conselho da Faculdade escreveram ao Papa Francisco, onde assinalam coisas muito graves, tais como: que no Chile se espera que a Faculdade de Teologia seja uma simples caixa de ressonância do magistério e que sejamos porta-vozes do episcopado. Nós, teólogos, também sofremos abusos de poder na nossa Igreja. Temos colegas que têm sua promoção acadêmica negada ou retardada. Um professor recebeu a informação de que enquanto não se afastar de um determinado tema não será promovido. Aos que somos “progressistas” nos fizeram sentir medo. “Cuide-se”, essa é a recomendação.

Tem a ver com uma questão política?

Sim, dentro da Igreja também há uma direita e uma esquerda que tem a ver com setores progressistas ou conservadores. Com essas censuras, procura-se evitar mudanças.

Você fala da obscuridade com que o cardeal Francisco Javier Errázuriz age. Por que acha que ele está fora do círculo de conselheiros do Papa?

Eu penso – e o digo sem ironia – que o próprio cardeal Errázuriz pediu ao Papa para que o retirasse. Com a grande quantidade de questionamentos à sua pessoa em matéria de acobertamentos, quis dar um passo para o lado. Teria sido triste se Francisco tivesse que tê-lo afastado e que Errázuriz não lhe tivesse favorecido as coisas motu proprio.

Os sinais que a Igreja envia seguem sendo equívocos, enquanto anuncia a saída de Errazuriz. Por outro lado, reconhece décadas de acobertamento de Marcial Maciel, onde João Paulo II aparece como seu principal acobertador.

Aqui há duas possibilidades: ou o cardeal Ratzinger (prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé) ocultou a João Paulo II o dossiê com as graves acusações contra Maciel, ou então João Paulo II lhe deu guarida. Consta que este documento estava na mesa de Ratzinger antes que João Paulo morresse. Depois que ele morreu, a primeira coisa que Bento XVI (Ratzinger) fez foi sancionar Maciel. Conclusão?

José Andrés Murillo disse que esses reconhecimentos não têm efeito se não forem acompanhados de medidas concretas. Que medidas você sugere?

Diante dos abusos e acobertamentos, há medidas de diversos tipos a serem tomadas. Algumas têm a ver com fazer justiça às vítimas e outras com a prevenção. O ideal seria que as pessoas abusadas apresentassem seus casos aos tribunais de justiça penal. Assim, em princípio, se garantiria a independência. Mas é compreensível que prefiram fazê-lo perante as próprias instituições eclesiásticas por uma razão de confidencialidade. Em qualquer caso, os direitos das vítimas e dos acusados devem ser garantidos. O devido processo é um princípio básico do Direito; o outro é a barbárie. Quanto à prevenção, há muito a ser feito. É necessário colocar a vara alta. É preciso gerar uma cultura de cuidado e ir ao concreto: criar mecanismos de proteção das pessoas, principalmente das crianças e dos adolescentes.

Os críticos censuraram o manejo do Papa Francisco nos casos de abuso, assegurando que ele só responde com demagogia.

No caso chileno, o Papa tem sido errático em abordar o problema. Vimos isso em 2018. A renúncia dos bispos chilenos e o convite a Roma das vítimas de Karadima tiveram algo de espetacular, mas também dificuldades em nível internacional. Marie Collins deixou a comissão criada para assessorá-lo sobre o assunto, porque houve bispos que queriam boicotar as investigações. O cardeal Pell, seu “ministro das finanças”, foi condenado na Austrália por abusos contra menores. A mencionada saída do cardeal Errázuriz... Acho que o Papa teve dificuldades para enfrentar este problema em profundidade, e também colocaram obstáculos em seu caminho, mentiram para ele. Por outro lado, teve que fazer o processo psicológico de cair na conta do horror dos abusos de uma pessoa e como a instituição eclesiástica tende a se defender a qualquer custo, culpando até mesmo os inocentes.

Na questão de dar sinais, não se entende que o Papa ainda mantém o cardeal Ezzati no seu cargo.

O problema é encontrar alguém para o seu lugar.

Quem seria apto?

Alguém de fora do Chile. Fala-se do padre espanhol Jordi Bertomeu, que fez um bom trabalho quando veio. É preciso uma pessoa com experiência e que seja irrepreensível, capaz de reduzir o profundo isolamento da hierarquia com os batizados comuns. Por trás da crise dos abusos existe uma crise estrutural e cultural. O modo de apresentar hoje o Evangelho é anacrônico. Em matéria de moral sexual, a Igreja propõe ensinamentos que não vêm ao caso.

O que você espera da investigação contra os membros da Igreja, onde Ezzati é acusado por acobertamento?

Não gostaria de estar no seu lugar. Ele está em um cargo de responsabilidades herdadas. Qual é a sua? Veremos. Especialistas dizem que os abusos podem ser reduzidos a zero se nos empenharmos com afinco. Foi preciso aprender. Até agora tem havido uma cultura de acobertamento. Tomar consciência de que não se pode permitir isso é um notável progresso cultural.

Aparentemente, a cultura do acobertamento prossegue com a decisão de Ezzati de não declarar há alguns meses perante a Procuradoria.

Não conheço suas razões para recusar-se a fazer isso. As pessoas estão perplexas, não entendem que, por um lado, as autoridades da Igreja digam que querem cooperar com a justiça e, quando chega a hora, se calem. Acredita-se que haja um gato trancado. Quase todo mundo acredita que o bispo encobre alguém ou que ele próprio é culpado de alguma coisa.

Marie Collins, ativista irlandesa contra os abusos, também exigiu não mais perdões, mas ações.

Com toda razão! E a reparação das vítimas, insisto, deve ser a prioridade. Em Santiago já existe uma central que acolhe pessoas que chegam com denúncias e as canaliza, e em diversas instituições estão sendo criados protocolos de prevenção. Mesmo assim, devemos nos perguntar: o que mais pode ser feito pelas vítimas? São pessoas que passaram por psicólogos, psiquiatras, que fizeram enormes despesas. A instituição eclesiástica poderia antecipar-se a reparar as vítimas inclusive financeiramente, em vez de ser obrigada a fazê-lo pelos tribunais. Seria lamentável se tudo isso terminasse em processos judiciais por dinheiro.

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