Chile. O trio “manchado” para suceder a Ezzati na Arquidiocese de Santiago

Revista ihu on-line

China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país

Edição: 528

Leia mais

Ore Ywy – A necessidade de construir uma outra relação com a nossa terra

Edição: 527

Leia mais

Sistema público e universal de saúde – Aos 30 anos, o desafio de combater o desmonte do SUS

Edição: 526

Leia mais

Mais Lidos

  • "Pela Democracia, pelo Brasil". Manifesto contra candidatura de Jair Bolsonaro

    LER MAIS
  • Papa readmite os bispos chineses “ilegítimos” e cria uma diocese na China

    LER MAIS
  • Apelo de Francisco: ''Que o Senhor nos ajude a reconhecer a tempo as sementes de ideologias totalitárias"

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

19 Julho 2018

Os nomes mais seguros para a sucessão, hoje, caem no vazio: Fernando Chomalí recebe críticas pelo modo como lidou com as denúncias de abuso. A René Rebolledo se acrescenta o modo de enfrentar o caso Barros e a Santiago Silva o de ter sido bispo auxiliar de Valparaíso quando surgiram denúncias de ex-seminaristas. Por isso, o nome de Jordi Bertomeu começa a se tornar a aposta mais provável como administrador apostólico de Santiago.

A reportagem é de Alejandra Carmona López, publicada por El Mostrador, 18-06-2018. A tradução é do Cepat.

No sábado, 15 de junho, uma carta chegou até o correio de informações do jornal digital Sabes.cl. Após checar a veracidade da denúncia, o jornal publicou o texto de um pai – que manteve seu nome no anonimato – que escreveu um duro relato: quando seu filho tinha 14 anos, e após viver uma infância marcada pela Igreja católica, decidiu entrar no Seminário Menor em Concepción. Ali, passaria a dormir ao lado do quarto do reitor Hernán Enríquez. No entanto, não ficou muito tempo nesse lugar, porque em um dia de 2002 telefonou para seus pais, alterado, para que o fossem buscar.

O menino não disse nenhuma palavra. Ainda que tenham lhe perguntado até a exaustão sobre o que se passava, só rompeu o silêncio sete anos depois: em um domingo, 1º de março, quando lhes revelou o que tinha vivido. “Chorando, nosso filho nos contou: “Me estupraram no seminário! O padre Hernán me estuprou!’ Sim, de fato, nosso filho revelou o segredo que o fez sofrer a partir daquele momento. O reitor do Seminário Menor de Concepción, o sacerdote Hernán Enríquez Rozas, abusou e estuprou sexualmente de nosso pequeno filho e seminarista”, relatava a carta que não só apontava Enríquez, como também um infortúnio maior: em 2009, foram até o arcebispo de Santiago, Ricardo Ezzati, para fazer a denúncia e, em 2011, colocaram a par do caso o recém-assumido bispo da diocese de Concepción, Fernando Chomalí.

Contudo, o pai do menor sentiu que ninguém o apoiava e viu em ações posteriores uma espécie de escárnio: “O pior de tudo é que, no ano de 2012, o arcebispo Ricardo Ezzati, presidente da Conferência Episcopal, participa das palavras introdutórias do livro Persona, educación e democracia, do sacerdote Hernán Enríquez. Além disso, no lançamento do livro, aparece o autor com o arcebispo Chomalí. A verdade é que com isto me senti traído... muito traído; mas se meu filho estava aos cuidados da Igreja católica, da Igreja católica de Concepción, no Seminário Menor..., por que não se colocaram ao lado de meu filho? Como é possível tanta maldade!”.

O nome de Chomalí fazia parte do trio – do qual também fazia parte Santiago Silva e René Rebolledo – para suceder a Ezzati na condução da Arquidiocese de Santiago. No entanto, com este episódio – dizem fontes no interior da Igreja –, o bispo de Concepción se torna uma carta sem sustentação.

Até algumas semanas atrás, muitos viam nele um nome certo para suceder ao questionado arcebispo de Santiago, sobretudo por um detalhe: viajou até Roma e conversou com o Papa para lhe advertir a respeito do equívoco de se nomear Juan Barros, em Osorno, quando muitos olhavam em direção ao teto. “Seria uma nomeação como uma espécie de agradecimento”, diziam. No entanto, essa teoria foi se evaporando, porque o maior filtro para nomear bispos titulares – e sobretudo ao arcebispo de Santiago – é a total transparência das dioceses em investigações associadas a casos de abusos sexuais e, nesse ponto, a figura de Chomalí não é considerada coerente.

Apesar de seu papel diante do Papa, um dos primeiros marcos nas críticas contra Chomalí veio de um dos denunciantes de Fernando Karadima, Juan Carlos Cruz. Em 2011, o jornalista ressaltou em uma rádio que embora o atual bispo de Concepción tenha lhe pedido desculpas, estas chegaram tarde: “Ainda é difícil para mim perdoar pessoas a quem gritei, pedi ajuda e não fizeram nada. Agora, todos querem se fazerem bons e, no entanto, nunca teve a decência de me responder. E agora, na semana passada, enviou-me um e-mail pedindo perdão. O e-mail chegou quando o citei na rádio”, disse, então, tornando essa denúncia um dos obstáculos mais difíceis de se desvencilhar para suceder a Ezzati.

“Concepción não tem uma estratégia aberta de casos de denúncia de abusos”, destaca uma fonte da diocese que critica o fato, assim como a de Temuco, não é transparente nas denúncias que recebeu, nem nas investigações que realiza. Atualmente, em Concepción se mantém vigentes outras investigações e foram recebidas mais de uma denúncia, mas são mantidas em sigilo em “respeito às vítimas”, um argumento que resulta falaz para uma parte importante da igreja.

Carol Crisosto, leiga dos Sagrados Corações de Concepción, disse que com o caso do sacerdote Enríquez, o bispo Chomalí “não soube atuar. Embora o tribunal eclesiástico tenha sentenciado que não havia provas suficientes, esse tribunal não foi além, ficou nisso e não foi capaz de fazer uma denúncia à PDI. Porque se é dito a você que há um acusado de estupro, você não pode ficar de braços cruzados, seria necessário agir de acordo com o que Jesus faria, então, eu fico decepcionada”.

Embora após a carta se tornar conhecida, Chomalí tenha dado uma coletiva de imprensa para destacar que quando conheceu a denúncia convidou esse pai para se aproximar da igreja e dos tribunais e agora reiterou esse convite, o bispo de Concepción afirma que há um espaço que não se deve ultrapassar: “Quando as pessoas pedem confidencialidade”, esse desejo deve ser respeitado”, destaca. Por outro lado, acredita que “todo cidadão, independente da responsabilidade que tenha, deve responder diante da justiça civil. Lá se decide sua culpa ou inocência. A igreja deve recomendar fortemente a denúncia dos crimes à justiça”, disse o bispo, apesar de a igreja ainda não ter fixado uma posição clara a respeito deste ponto.

Enquanto algumas dioceses optaram por receber as denúncias e, por sua vez, denunciá-las ao Ministério Público, há outras em que ainda as guardam como segredo. De fato, em uma entrevista publicada no final de semana, a Defensora da Infância, Patricia Muñoz, destacou que a igreja “não cumpriu com o dever de apresentar as denúncias aos tribunais civis, ao contrário, o que fez, e apenas em alguns casos, foi utilizar canais de investigação em nível eclesiástico, processo que de maneira alguma consegue satisfazer as garantias que as vítimas devem ter na justiça civil, que é a que deve investigar e perseguir eficientemente os crimes que sofreram”.

As outras baixas

Outra das cartas que, há semanas, era dada como certa era a de Santiago Silva, presidente da Conferência Episcopal, bispo castrense e um dos homens do círculo de Alejandro Goic, que após ser respingado com o caso de A Família, em Rancagua, precisou dar um passo ao lado e se retirar.

Desde que chegou à Conferência Episcopal do Chile, Silva tentou deixar para trás o selo amargo da gestão Ezzati ou o fantasma dos ilustres cardeais perseguindo a sacerdotes chascones. A primeira coisa que fez foi enviar uma mensagem ao sacerdote Felipe Berríos: “Te saúdo como amigo. Li algumas coisas que disse. Com algumas eu concordo e com outras não. Gostaria que nos juntássemos”, concluía o e-mail, com uma mensagem estranha para uma autoridade eclesiástica, ao menos com Berríos.

Esta soltura fez com que, nos primeiros anos à cabeça da Conferência Episcopal do Chile, fosse comum que o bispo Silva despontasse como natural substituto de Ezzati, mas as últimas denúncias de abusos sexuais também o fizeram cair. Apesar de que já se sabia da denúncia contra o sacerdote de San Felipe, Humberto Enríquez, por abusos sexuais, a relevância que adquiriu o depoimento dos denunciantes nas últimas semanas e o golpe recebido pelo bispo de Valparaíso, Gonzalo Duarte – acusado de acobertamento –, também se tornou uma mancha sobre ele. Silva era bispo auxiliar de Valparaíso quando as denúncias foram feitas, sobretudo as do ex-seminarista Mauricio Pulgar, que o acusou não somente de deixar de tomar providências, como também de proferir expressões contra ele.

“Com o caso dos seminaristas, Silva não pode ser o próximo arcebispo de Santiago, seria um conflito enorme”, comenta uma fonte no interior da igreja.

O mesmo conflito recai sobre René Rebolledo, bispo de La Serena e que é considerado pertencente ao seleto grupo próximo ao atual núncio no Chile, Ivo Scapolo.

Rebolledo passou de bispo de Osorno a rapidamente bispo de La Serena, e quando deixou a diocese da X Região muitos pensaram que não só poderia, como também aspirava ser algo mais. Nesse dia, em 2013, chegou inclusive com casula e mitra novas e sua despedida foi marcada pela visita de vários outros bispos. “Mais parecia a despedida de um cardeal”, destaca um dos fiéis de Osorno, que recorda esse momento e também a proximidade que Rebolledo sempre teve com os núncios.

Há aqueles que qualificam Rebolledo como um bispo “carreirista”; prefere estar bem instalado em matéria de amizades do que com os seus pés na rua. “Nos 10 anos em que foi bispo, recebeu a visita de todos os núncios. Para a última visita de Scapolo, voltou a pintar a grade de sua casa para que tudo estivesse perfeito”, comenta uma fonte que conheceu os bastidores prévios ao encontro.

Para muitos dos fiéis, a estadia de Rebolledo em Osorno foi marcada por uma preocupação extrema com a liturgia, mais que pelo discurso em si mesmo. No entanto, o que mina qualquer possibilidade de que finalmente substitua Ezzati é o lado que assumiu no momento em que ocorreu o conflito em torno a Juan Barros.

“No dia 21 de março de 2015, na posse de Barros, Rebolledo ignorou a todos. Antes, ia em nossas casas, no entanto, disse não saber quem eram os que protestavam contra Barros. Essa proximidade e a decisão que tomou naquele momento, fazem com que não seja possível que chegue à Arquidiocese de Santiago”, conclui um dos fiéis de Osorno.

Todas as cartas que o clero tinha para poder suceder a Ricardo Ezzati foram caindo uma a uma. E é também por isso que, em meio à seca, ouve-se com maior força o nome de Jordi Bertomeu – o sacerdote espanhol que veio em duas oportunidades com Charles Scicluna para remover as águas já inquietas da igreja chilena – para chegar como administrador apostólico em Santiago. Segundo informações da imprensa, Bertomeu se encontra, nesse momento, realizando um mês de exercícios espirituais em Cantábria. O paradoxal – ou talvez a chave – é que esses exercícios seriam oferecidos por Germán Arana, o questionado sacerdote jesuíta com quem Juan Barros se preparou antes de assumir em Osorno.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Chile. O trio “manchado” para suceder a Ezzati na Arquidiocese de Santiago - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV