"Falta controle sobre os bispos. É o fundamental". Entrevista com Lucetta Scaraffia

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27 Fevereiro 2019

O caderno feminino que publica o jornal L’Osservatore Romano foi impresso há um mês com uma brutal reportagem sobre os históricos abusos que sofreram as freiras por parte dos sacerdotes e bispos. Violações, abusos de poder, relação de escravidão... A história foi reproduzida por dezenas de meios de comunicação, abriu um debate fechado a cal e concreto durante anos na Igreja e obrigou o Papa a se pronunciar e a reconhecer o problema em pleno voo de volta da sua viagem a Abu Dhabi. Aquela aposta periodística, como tantas outras, foi ideia de Lucetta Scaraffia (Torino, 1948), jornalista, historiadora e diretora de Mulheres, Igreja e Mundo, o valente caderno que dirige e que iniciou o responsável anterior no L’Osservatore, Giovanni Maria Vian. Flagelo do machismo rampante na Igreja, Scaraffia está convencida de que a instituição deve feminizar-se para afrontar pragas como as dos abusos.

A entrevista é de Daniel Verdú, publicada por El País, 26-02-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis a entrevista.

Você é a grande voz do feminismo dentro do Vaticano. Melhor, a única. O que pensou ao escutar quando o papa disse que qualquer feminismo é um machismo de saias?

A verdade é que não estou muito contente. Todas as vezes que as mulheres são equiparadas metaforicamente a outra entidade simbólica significa também que vem negada sua real importância. Quer diz, que ainda não se aceita dar uma resposta positiva a sua presença. A essa frase teria respondido que como mulher quero ser escutada com respeito e atenção, não quero ser uma metáfora de nada. Somente ser escutada como um padre ou um bispo. O feminismo, ademais, não é equiparável ao machismo. É uma rebelião a um rol de opressão que vem do machismo. São coisas opostas.

O Papa e a Igreja são machistas?

Eles têm uma tradição patriarcal da qual não saem. Não estão acostumados a escutar e respeitar às mulheres.

Alguma coisa mudou ultimamente?

Algo sim... porém cada comissão ou nova instituição deveria estar composta por uma metade de mulheres. Nessa cúpula eram pouquíssimas e falaram somente três. É uma pena, porque as mulheres vivem o problema dos abusos como vítimas, mas também como observadoras e protetoras dos menores com outro olhar.

Com os abusos da sensação que sucede o mesmo com o feminismo. Não se entende ao fundo da questão. Não percebem como um problema até que é demasiadamente tarde.

Não se encara com sinceridade e coragem. Por que se dá tão pouco espaço às mulheres? Não há razão. A única é uma tradição que deve superar-se. Com os abusos lamentavelmente creio que é muito difícil para a Igreja ter um olhar crítico sobre sua própria organização.

Em que sentido?

Hoje escutei o padre Zollner (organizador da cúpula sobre abusos) dizer nas conclusões que criariam diretrizes para que os bispos saibam como se comportar. Eles não sabiam? Eu sou cristã, e pensar que um bispo não sabia o que fazer diante de um sacerdote que abusava de uma criança me faz um dano terrível. Claro que sabia! Tinha que saber. Um cristão está sempre ao lado das vítimas, não necessitava linha-guia nenhuma. Como é possível que um padre como Zollner diga isso com essa tranquilidade. O bispo tinha que buscar a verdade e castigar o culpado. Nada mais.

E se sabem, por que não fazem?

Há uma tradição muito forte de ocultamento da verdade para salvar a instituição. É o contrário ao espírito cristão. A misericórdia obriga a se colocar ao lado das vítimas, porém eles se colocavam ao lado dos carrascos. E isso não foi confrontado. Faz falta fazer um giro copernicano para mudar o ponto de vista. Não são diretrizes, é o Evangelho!

A cúpula lhe decepcionou?

Foi positiva porque vieram conferências episcopais que até agora não confrontaram o problema. A italiana em primeiro, que até então não queria escutar as vítimas. Mas agora estão obrigados a confrontar.

O que faltou?

Mais clareza. Uma autocrítica maior, que toque as raízes do Evangelho e não somente de diretrizes. E depois me choca muito o problema dos bispos. Seguem sendo os controladores, como se fossem sempre inocentes. O bispo, segundo essa visão, por definição é bom e o mal é o padre. Mas tem muitos que não são. Quem lhes julga? A quem se pode denunciá-los? Se um cristão denuncia um padre pedófilo e o bispo o cobre, quem o denuncia? E se o abusador é o bispo, como acontece com muitas mulheres? Falta controle sobre os bispos, e esse assunto não está contemplado na previsão de intervenção. Deveria ser prioritário, é o problema fundamental nessa questão. Os bons propósitos sem isso, não servem.

Entende a frustração das vítimas?

Sim

Uma igreja mais feminina se protegeria melhor dos abusos?

Estou segura de que sim. Em todas as comissões de comportamento do clero deveria haver mulheres. Também para romper uma certa solidariedade masculina.

Você imagina mulheres chefes de dicastérios no Vaticano?

Sim, inclusive como secretária de Estado. Não há nenhuma lei que diga o contrário. Porém antes deveriam estar nas comissões de controle.

Acredita que o tema dos abusos históricos e massivos às freiras que você publicou no caderno do L’Osservatore Romano deveria ter sido tratado na reunião?

Bem, a reunião era sobre menores. E o Papa o citou no seu discurso final. Esperamos que tenha seguimento. Ademais, houve um testemunho de uma freira abusada. Agora nunca mais se poderá negar o abuso sobre as religiosas.

Que dimensão tem esse problema e em que ponto estamos?

É um fenômeno vastíssimo, mais que o dos abusos a menores. E está somente emergindo agora.

Você publica histórias que não eram imagináveis em um meio de comunicação do Vaticano. Como responde a hierarquia da Santa Sé?

Respondem com silêncio. Não sei se estão imaginando outra coisa... Mas somente notei silêncio.

Nunca algum comentário positivo?

Não, muitíssimas felicitações e cartas de agradecimento das religiosas. Me fizeram compreender que fazia falta dar voz a essa dor. Porém da parte masculina, quase nada.

Sabe se o Papa lê o caderno, o que ele acha?

Suponho que leia, mas não diz o que acha.

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