Francisco e a ira de Deus. Artigo de Raniero La Valle

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27 Fevereiro 2019

“É difícil encontrar entre os antecessores de Francisco um papa corajoso como ele. De fato, ele teve a coragem de repensar a fundo a Igreja e de mostrá-la com palavras e gestos simples como uma Igreja possível. E talvez aqui esteja uma chave para entrever um futuro que hoje ainda nos parece tão velado e coberto.”

A opinião é de Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado em Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 29-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

“O papa imóvel”, como os seus críticos “de esquerda” o qualificam, demonstrou uma extraordinária coragem ao construir o evento que se desenvolveu nesses dias em Roma sobre “A proteção dos menores na Igreja”. Deixando Pedro em paz, que, como se sabe, era um medroso, é difícil encontrar entre os antecessores de Francisco um papa corajoso como ele, senão talvez Gregório Magno e poucos outros. De fato, ele teve a coragem de repensar a fundo a Igreja e de mostrá-la com palavras e gestos simples como uma Igreja possível. E talvez aqui esteja uma chave para entrever um futuro que hoje ainda nos parece tão velado e coberto.

Enquanto isso, foi preciso uma grande coragem evangélica (“in sacris”, ela se chama parrésia) para reunir patriarcas, cardeais, bispos e religiosos de toda a terra em uma liturgia penitencial para acusarem a si mesmos “como pessoas e como instituição” e induzi-los a passar de uma “atitude defensivo-reativa em salvaguarda da Instituição” a uma busca sincera e decidida pelo bem da comunidade “dando prioridade às vítimas de abuso em todos os sentidos”.

Assim, vimos os confessores se confessando, os perdoadores pedindo perdão, os ministros impetrando a si mesmos antes que aos fiéis que lhes foram confiados: algo “bastante incomum” nos Palácios do “poder” terreno e celeste do Vaticano, diz Rosanna Virgili com muito tato; digamos, também, que se trata de algo que nunca aconteceu antes.

Foi preciso coragem para convocar não um Concílio nem mesmo um Sínodo, que são coisas reservadas ao clero, mas um inédito encontro mundial que, “de maneira sinodal”, envolveu os leigos e, entre eles, as mulheres, quase antecipando um Igreja do futuro sem mais “clericalismo”, ou seja, sem mais o domínio reservado de uma classe de ministros ordenados do sexo masculino e celibatários, o que, segundo o papa, não é o melhor rosto da Igreja.

De fato, “o melhor rosto da Igreja”, disse Francisco no discurso conclusivo, “é o santo e paciente povo de Deus; e será justamente esse povo santo de Deus que nos libertará da chaga do clericalismo, que é o terreno fértil para todas essas abominações”; as abominações são os abusos contra as crianças, que não são apenas abusos sexuais, mas também, como o papa insiste, especialmente se cometidos pelo clero, abusos de consciência e de poder.

Assim, precisamente nesse drama que a Igreja está vivendo, assoma-se, como o Concílio Vaticano II pressentiu, não uma Igreja na qual o laicato é um personagem em busca de um autor, necessitado de uma teologia que o justifique, mas sim uma Igreja não clerical, na qual também cai o pressuposto da discriminação contra as mulheres.

E aqui também foi preciso coragem para explicar, como o papa fez depois de ouvir o relato de uma mulher, a Dra. Ghisoni, que ela não havia sido convidada para falar em virtude de um improvável “feminismo eclesiástico” (contra a proibição de fazer as mulheres falarem nas Igrejas transmitido por Paulo aos Coríntios), mas porque convidar uma mulher para falar sobre as feridas da Igreja é convidar a Igreja a falar sobre si mesma, sobre as feridas que tem.

“E esse é o passo que nós devemos dar com muita força”, disse o papa; reconhecer que “a mulher é a imagem da Igreja que é mulher, é esposa, é mãe”, e ela traz o seu estilo. “Sem esse estilo, falaríamos do povo de Deus, mas como organização, força sindical, não como família nascida da mãe Igreja.”

É claro que é preciso dar mais funções à mulher na Igreja, mas assim não se resolve o problema, pensa o papa: “Trata-se de integrar a mulher como figura da Igreja no nosso pensamento, pensar a Igreja com as categorias de uma mulher”. É a sugestão que, em perspectiva mais geral, já era dada pelo filósofo e teólogo Italo Mancini, quando, diante dos problemas do mundo, propunha o contramovimento do “princípio feminino”, o direito de Antígona, o direito do mais humilde, do mais elementar, daquilo que está mais ligado aos nutrimentos terrestres do que à piedade, contra aquilo que é faraônico, “zêusico” e ligado aos esplendores do céu, àquele domínio do alto que é tão próximo do trono dos poderosos: piedade contra majestade. Mas, neste ponto, como poderíamos continuar excluindo as mulheres dos ministérios eclesiais com o argumento de que Jesus era homem?

E foi preciso coragem para mudar o objeto do encontro, que, no início, devia se referir não só à proteção dos menores, mas também dos “adultos vulneráveis”, isto é, a homossexualidade, mas depois se concentrou nas crianças. Os polemistas se aproveitaram disso para acusar Francisco de subestimar o impacto da homossexualidade no clero, mas a separação dos dois temas permitiu que a “cúpula” não reduzisse a violência contra as crianças a um problema interno à Igreja, quase corporativo, banalmente explicado com o vínculo à castidade dos padres, como diz o vulgo, mas de torná-lo um grande tema de tomada de consciência mundial, de levantar o problema da proteção dos menores na própria humanidade, não só na Igreja, porque há quase 85 milhões de crianças, esquecidas por todos, que são vítimas de toda espécie de abuso: as crianças-soldado, os menores prostituídos, as crianças desnutridas, as crianças sequestradas e muitas vezes vítimas do monstruoso comércio de órgãos humanos, ou transformadas em escravas, as crianças vítimas das guerras, as crianças refugiadas, as crianças abortadas e assim por diante.

O encontro promovido pelo Papa Francisco, assim, alcançou a extensão e a profundidade da análise e da denúncia que, ainda em 1995, haviam sido levantadas em três sessões do Tribunal Permanente dos Povos, em Trento, Macerata e Nápoles; já naquela época, haviam sido reveladas as monstruosas violações da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, e a dor das crianças tinha sido assumida como indicador da dor do mundo e advertência contra a precipitada degradação do estado do mundo que, depois, se manifestaria cada vez mais até hoje.

Mas a assunção do problema no âmbito eclesial permitiu ir além das explicações e dos prognósticos de ordem sociológica ou política; permitiu lembrar as ideologias sacrificiais que, em religiões antigas, chegavam à oferta de seres humanos, muitas vezes de crianças, e reconhecer também hoje, em tal crueldade, “um sacrifício ao deus poder, dinheiro, orgulho, soberba”, que, portanto, deve ser abolido assim como os sacrifícios antigos; e permitiu captar aquela que Francisco chamou de “significação existencial”, ulterior a esse fenômeno criminoso, que está na irrupção do mistério do mal e na sua pretensão de domínio do mundo. “A mão do mal que não poupa sequer a inocência dos pequenos” (como fez em Herodes) e encontra reação e resposta também na ordem dos meios espirituais, das medidas sugeridas pela fé, na salvação que vem de Deus.

E isso permitiu à Igreja desenhada pelo papa recuperar também aquele rosto severo de Deus e aquele “santo temor de Deus” que podiam parecer se dissolver na grande pregação da misericórdia; só que a ira de Deus não é mais apresentada como a do Dies irae de Mozart e Tomás de Celano que queima “o século em faíscas” e que prelados tardo-fariseus ainda identificam nos terremotos, nos tsunamis e em outras calamidades naturais, mas é vista refletida “na raiva, justificada, das pessoas”, “no grito silencioso dos pequenos”, assim como Paulo VI a identificara na “ira dos pobres”.

Acaba, assim, hoje, a Igreja incapaz de ouvir esse grito, e, se ela mesma se fizer esse grito no mundo, uma história nova poderá começar.

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