Cardeal Cupich. Bispos deveriam ceder e permitir que leigos supervisionem acusações de abusos

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16 Outubro 2018

Bispos católicos de todo os Estados Unidos devem renunciar à autoridade suprema que possuem sobre suas dioceses para permitir a criação de um novo órgão nacional para investigar as alegações de má conduta, disse o cardeal Blase Cupich, de Chicago.

A reportagem é de Joshua J. McElwee e Heidi Schlumpf, publicada por National Catholic Reporter, 15-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Quando os bispos dos EUA se reunirem em novembro para falar da persistente crise dos abusos sexuais do clero, Cupich disse que os prelados "precisam ser muito claros sobre um procedimento de responsabilização".

"Os bispos devem dizer: 'Nós cedemos nossos direitos como bispos para que sejamos investigados'", disse o cardeal ao NCR.

"Todo bispo tem que estar disposto a dizer: 'Vou me permitir ser investigado por um grupo independente se houver uma acusação contra mim'", continuou.

Em uma entrevista exclusiva no dia 13 de outubro, Cupich falou sobre o que os bispos dos EUA deveriam fazer durante sua reunião anual - a ser realizada em Baltimore, de 12 a 14 de novembro - para abordar as preocupações levantadas após as revelações sobre o abuso de seminaristas do ex-cardeal Theodore McCarrick.

O cardeal de Chicago, que está participando do Sínodo 2018 entre 3 a 28 de outubro como nomeado papal, também falou sobre sua própria experiência de trabalho com sobreviventes de abuso, a mentalidade que os bispos precisam adotar para se responsabilizarem e o bode expiatório de padres com orientação homossexual.

Ele também abordou pela primeira vez a renúncia do cardeal Donald Wuerl, de Washington, que encerrou uma carreira de cinco décadas no dia 12 de outubro, na esteira das conclusões de um relatório do júri da Pensilvânia sobre sua forma de lidar com alguns casos de padres abusadores no início dos anos 1990.

"Eu não fiquei surpreso que ele tenha decidido se afastar para o bem da Igreja, porque ele sempre coloca isso à frente de tudo, principalmente quando diz 'eu cometi erros”, disse Cupich, referindo-se às várias desculpas de Wuerl por algumas de suas decisões como bispo de Pittsburgh - de 1988 a 2006.

"Esse é o homem que conheço", disse Cupich sobre Wuerl. "Ele é um homem honesto que sempre tentou fazer o seu melhor pela igreja, mesmo que isso signifique admitir os próprios erros", ressaltou.

Cupich, falando em uma entrevista de 40 minutos - sua primeira durante o sínodo -, disse que a renúncia de Wuerl é "um momento para as pessoas refletirem e também olharem para todas as coisas boas que ele fez pela Igreja".

“As contribuições de Wuerl são enormes", disse Cupich. "Se realmente vamos dizer a verdade, temos que ter certeza de que contamos tudo", acrescentou.

Sobre a questão dos padres gays, Cupich disse: "Temos que ter certeza de que todos na Igreja tenham uma vida autêntica e casta".

"A pesquisa mostrou que a crise dos abusos na verdade se deve a outros fatores além da homossexualidade. É um fato cada vez mais evidente e eu acredito nisso", disse Cupich.

"Acabamos desviando a atenção ao lidar com o privilégio, o poder e a proteção de uma cultura clerical. Esses três elementos têm que ser erradicados da vida da Igreja. Todo o resto é secundário", continuou.

Ao discutir as necessidades de prelados católicos cederem autoridade para permitir a criação de um novo órgão nacional de investigação, Cupich reconheceu que a conferência dos bispos nacionais não tem o poder de instituir tal órgão por conta própria.

"A conferência dos bispos não pode fazê-lo. Essa manifestação tem que vir de Roma ou do bispo sob investigação", disse Cupich.

Embora Cupich tenha dito que não tinha certeza de como seria a estrutura do novo órgão de investigação, ele especificou que "deve ser algum tipo de comitê de supervisão formado por leigos que seja encarregado de receber acusações e alegações sobre bispos com mau comportamento ou relacionado a abusos".

Segundo o cardeal, o novo órgão nacional é necessário para restabelecer a confiança entre leigos e bispos, além de "garantir que não haja nenhum tipo de favoritismo ao investigar uma alegação”.

"Nosso povo não quer o nosso mal, e sim que a igreja tenha sucesso. Eles querem que os bispos tenham sucesso", disse Cupich.

"Mas eles também querem ajudar e não devemos ter medo disso", acrescentou.

O Papa Francisco se reuniu com representantes da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA no Vaticano no dia 13 de setembro. Do lado esquerdo estão o arcebispo Jose Gomez de Los Angeles, vice-presidente da conferência, o cardeal Daniel DiNardo de Galveston-Houston, presidente da conferência, Cardeal Sean O'Malley, de Boston, presidente da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores, e Mons. J. Brian Bransfield, secretário geral da conferência (Foto: CNS / Vaticano Media)

As revelações deste verão sobre McCarrick, um dos líderes mais influentes da Igreja dos EUA nas últimas décadas, levaram muitos católicos a perguntar por que reclamações sobre ele não foram relatadas anteriormente e a pedir um processo independente para avaliar futuras acusações contra bispos.

McCarrick foi arcebispo de Washington de 2000 a 2006. O Vaticano o retirou do ministério em junho depois que uma acusação foi considerada credível. Outras acusações surgiram desde então, e em julho ele se tornou o primeiro cardeal dos EUA a renunciar ao seu lugar no Colégio Cardinalício.

O comitê administrativo dos bispos dos EUA anunciou em setembro que havia aprovado a criação de um "sistema de denúncia de terceiros" para alegações contra os bispos, mas não deu detalhes. Espera-se que o assunto seja o centro das atenções em novembro.

Cupich, que não atua na liderança da conferência dos bispos, disse que ainda não recebeu nenhum material preparatório para o encontro de novembro. "Tenho certeza de que eles estão trabalhando nisso, mas até o momento não recebemos nada", disse o cardeal.

"Isso não é uma ciência exata", disse ele, acrescentando que "Podemos ser transparentes. Podemos ter um método de prestação de contas. Isso não deve ser algo dar muito trabalho para nós", ressaltou Cupich.

Nomeando padres com acusações credíveis

Cupich disse que sua motivação para lidar com o abuso sexual do clero "da forma mais honesta possível, com transparência e responsabilidade", vem de seus encontros com as vítimas.

O cardeal compartilhou a lembrança de seu primeiro encontro com uma vítima, que ocorreu enquanto ainda era bispo de Rapid City, Dakota do Sul, onde ficou entre 1998 e 2010. Ele contou sobre um homem de 50 anos que havia sido abusado por um padre décadas antes.

"Quando ele falava, parecia que eu estava ouvindo um menino de nove anos", disse Cupich.

"Foi simplesmente tocante a forma como ele contou a história porque contou os detalhes de uma forma muito gráfica, de uma forma muito real", acrescentou.

"Devemos ´praticar cada vez mais este tipo de ação", disse o cardeal. "Nossas palavras de desculpas não significam nada a menos que estejamos em contato com isso e nos sentemos em frente às vítimas e realmente nos permitimos ser impactados pelo trauma e pela dor que eles sofreram", ressaltou.

Cupich disse que sua primeira reação a ouvir a história do homem foi "muita raiva". "Transformei essa raiva em uma decisão de que eu iria garantir que as vítimas sempre viessem primeiro, e que iria me certificar de que a Igreja cumpriria isso", afirmou o cardeal.

Essa experiência o motivou a atuar várias vezes no comitê de bispos dos EUA que lida com a proteção das crianças contra abusos, que ele presidiu no passado.

Cupich disse que depois de ouvir a história dessa vítima, foi à paróquia onde o padre havia atuava, tirou uma foto dele, enviou cartas a todas as paróquias onde havia trabalhado e fez um anúncio público sobre o assunto.

"Eu queria saturar essa história entre todas as paróquias, para que outras vítimas pudessem se apresentar", disse o cardeal, na esperança de que as vítimas denunciem seus abusos.

“A dor que a publicidade em relação aos abusos causa à Igreja é um pequeno preço a pagar. Libertar pessoas como esse homem é o principal objetivo", disse ele.

“Devemos ser transparentes e falar com as vítimas somente quando elas se sentirem à vontade. Devemos respeitar seu espaço e lhes dar o tempo necessário para aprofundar esses assuntos delicados”, afirmou o cardeal.

Além da questão de um órgão nacional para investigar as acusações contra os bispos, Cupich disse que acha que os bispos dos EUA também devem abordar em sua reunião de novembro as revelações de abuso contidas no relatório do Grande Júri da Pensilvânia.

Esse relatório, que foi divulgado em 14 de agosto e analisou como a Igreja lidou com o abuso em seis das dioceses do estado, identificou pelo menos mil crianças como vítimas num período de sete décadas.

Cupich disse que a Carta dos Bispos para a Proteção de Crianças e Jovens, adotada em 2002 após a série de reportagens sobre abusos em Boston, determinou que os bispos "devem ser transparentes com as pessoas e chegar às vítimas".

"Sabemos se todas as vítimas receberam cuidados pastorais e atenção?" Todos os sacerdotes envolvidos foram removidos? Eles foram relatados a Roma, como deveriam ter sido, mesmo que fossem casos mais antigos?"

Reconhecendo que a carta não ordena que os bispos devem listar publicamente os padres em sua diocese que foram acusados ​​de abuso, Cupich questiona: "Eles tem que ser deslocados para que outras vítimas possam se expor?"

"Devemos dizer que as pessoas com alegações credíveis deveriam ser listadas publicamente para outras vítimas se apresentarem", disse ele. "Eu sempre fiz isso, embora nem todas as dioceses o fizeram. Acho que temos que concordar que esse é o melhor caminho a seguir", acrescentou.

Perguntado se ele achava que a conferência dos bispos deveria dizer aos seus membros para listar todos os padres acusados, Cupich respondeu: "Acredito que apoiarmos uns aos outros é um ato responsável".

'Liderar exige pensar no futuro'

Em termos da mentalidade que os bispos devem adotar para se permitirem ser responsabilizados, Cupich disse que é importante para os prelados estarem constantemente em contato com as pessoas em sua diocese e aprender com os padres o que seus paroquianos estão vivendo.

"Você tem que ter certeza de que é uma pessoa responsável por seus padres, porque eles é que estão lidando com as pessoas. Eles dizem o que elas estão falando, antes mesmo que elas o façam", disse o cardeal.

Cupich disse que quando se encontra com grupos de padres diocesanos, sempre tenta disponibilizar pelo menos meia hora para uma sessão de perguntas e respostas.

"Eu digo a eles que nenhum assunto é tabu e não que vou me sentir insultado por nada. Acho que a comunicação é uma grande parte da responsabilidade", afirmou Cupich.

Cupich afirma que, mesmo quando alguém reclama da Igreja, eles o fazem por um desejo de melhorar.

"Por trás dessa raiva há também muita tristeza. A pessoas sabem que podemos melhorar. Devemos ser grandes o suficiente para não reagir à raiva, e sim nos sentirmos tocados com a tristeza", continuou.

"Você não pode ficar na defensiva. Isso não funciona. Você não chega a lugar nenhum. A liderança exige que a gente dê um passo à frente e esteja disposto a absorver a raiva das pessoas, e analisar o que de fato está acontecendo”, continuou.

Este sínodo, que se concentra nas necessidades dos jovens de hoje, é o segundo em que Cupich participou após o sínodo de 2015 sobre questões de vida familiar.

O cardeal disse que sua experiência no encontro, que levou 267 prelados e 72 auditores a Roma para suas discussões, foi "enriquecedora e perturbadora".

"Eu acho que estar em contato com o trauma, as dificuldades, as lutas, os desafios da juventude em todo o mundo é chocante para nós do mundo ocidental, especialmente nos Estados Unidos", disse Cupich, mencionando em particular o discurso de um jovem do Iraque que falou sobre viver a violência em seu país.

"Eu me vejo caindo na armadilha de viver na minha própria bolha sobre as questões e as preocupações que temos nos Estados Unidos", disse ele.

Questionado sobre como o Sínodo 2018 estava equilibrando as preocupações de ambas as áreas desenvolvidas e em desenvolvimento do mundo, Cupich disse que um ponto de convergência entre os jovens em todo o mundo é sua busca por autenticidade.

"Não é como se eles estivessem procurando por uma Igreja perfeita", disse ele. "Eles estão procurando por algo autêntico. Eles podem tolerar erros, mas eles não podem tolerar a falta de autenticidade ou a falta de honestidade sobre as questões delicadas", acrescentou o cardeal.

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