A cultura clerical produz frutas podres

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15 Abril 2018

“Uma rede de relações autoritária e controladora deste tipo gera medo, timidez e um desengajamento que pode ser racionalizado como virtude”, escreve Andrew Hamilton, SJ, editor-consultor de Eureka Street, revista eletrônica dos jesuítas da Austrália, em artigo publicado por La Croix Internacional, 14-04-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Em um recente artigo no Eureka Street eu comentei que na Igreja Católica clericalismo é um termo pejorativo. Também tentei identificar algumas das atitudes e comportamentos associados com as pessoas consideradas clericalistas. O artigo provocou uma conversa animada.

Alguns dos colaboradores me criticaram por focalizar em indivíduos e não na capciosa cultura do clericalismo. As críticas foram justificadas, e neste artigo eu refletirei sobre essa cultura e seus subprodutos.

Como uma cultural, o clericalismo mostra uma visão em que a Igreja Católica é um mundo autossuficiente. Sua segurança, reputação e relações internas são o centro das atenções.

Dentro da Igreja as relações são hierárquicas. A diferença entre as classes é, na prática, vista como mais importante do que aquilo que católicos têm em comum.

As relações também são frequentemente autoritárias: bispos e padres têm medo de Roma; são formais uns com os outros; e, as relações com os leigos são prescritivas. Os clérigos não sentem necessidade de consultar os leigos em questões de liturgia, finanças e política.

As fronteiras entre a Igreja e o mundo exterior são fortemente marcadas, assim como as fronteiras entre católicos fiéis e infiéis. Em todos esses aspectos, o clericalismo é uma cultura de controle que privilegia o sigilo.

Como qualquer cultura, o clericalismo encontra expressão em uma rede de relações. Elas são relações de pessoas com o mundo material: através de distintos trajes cotidianos e litúrgicos, por exemplo, distintos arranjos de igreja e distintos artefatos litúrgicos.

A rede de relações também se manifesta entre as pessoas: entre indivíduos e, especialmente, aquelas mediados através de instituições. Estes últimos incluem formas de tratamento, de remuneração, de formação de crianças e adultos, da disposição do espaço, de processos de envolvimento de pessoas na tomada de decisões e governança, de costumes, de imaginar a história da paróquia, da diocese e da igreja nacional.

As relações institucionais são particularmente importantes porque muitas vezes são simplesmente tomadas como necessárias e inevitáveis. Elas moldam o que os participantes veem e como o veem.

Elas também criam padrões de expectativa de como clérigos e leigos vão falar e se comportar entre si, expressar ou ocultar discordância, responder à injustiça, aceitar a direção e ver o mundo exterior.

Em uma cultura clerical sólida todos os bispos seguirão automaticamente as instruções romanas e todos os padres serão formados para obedecer aos seus bispos sem questionar.

Eles também serão um canal confiável para comunicar aos leigos instruções do Papa e de oficiais romanos sobre liturgia, vestimenta e questões éticas. Padres e bispos vão progredir sendo confiáveis, não questionando, e defendendo resolutamente a Igreja e seus interesses.

Os leigos serão formados para obedecer aos seus párocos autoritários e para se calarem diante de preocupações que possam ter com seus comportamentos. Se confrontarem o clero, serão vistos como inconfiáveis; e, se deixarem a Igreja, sua desistência será a justificativa da cultura clerical.

Uma rede autoritária e controladora de relações deste tipo gera medo, timidez e um desengajamento que pode ser racionalizado como virtude. Para os bispos, padres e leigos agir de forma conflitante com as normas de sua cultura exige coragem e perseverança.

Na prática, muitos católicos, tanto clérigos como leigos, não aceitam essas expectativas. Eles questionam, confrontam, discordam. Qualquer rede de relações é cheia de buracos e de desconexões. Mesmo uma forte cultura clerical não controla o comportamento de todos.

Por essa razão, é difícil avaliar o papel desempenhado pelo clericalismo em comportamentos criminosos, incluindo o abuso sexual e seu encobrimento na Igreja Católica.

Muitos elementos estão envolvidos nessa rede. Não estou convencido de que haja uma forte correlação causal entre a cultura e a ofensa. Alguns abusadores parecem ter sido modelos desta cultura. Outros parecem ter rejeitado fortemente.

O que pode ser levado em consideração é que o clericalismo permite que crimes como o abuso sexual e o roubo sejam encobertos e que as ações criminosas sejam repetidas. A complacência e a timidez perante a autoridade tornam mais provável que os leigos ignorem sinais de comportamento criminoso por parte de padres ou de pessoas empregadas pela Igreja.

O desejo de proteger a imagem da Igreja também torna mais provável que um bispo coloque a reputação acima do bem-estar das pessoas afetadas pelo crime, e assim permita que os infratores se desloquem de uma paróquia para outra, onde eles podem reincidir.

Mesmo que o clericalismo não puder ser ligado causalmente ao crime clerical, tal cultura molda certamente uma rede de relações atrofiadas que são deficientes se julgadas por valores humanos ou cristãos. Inevitavelmente vai produzir frutas podres.

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