Crise de abusos. Dioceses suíças se manifestam contra bispo que coloca culpa em padres gays

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18 Setembro 2018

Após um bispo auxiliar culpar severamente os padres gays pela crise de abuso sexual do clero, um debate público ocorreu entre alguns líderes católicos da Suíça.

A reportagem é de Francis DeBernardo, publicada por New Ways Ministry, 17-09-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

O jornal suíço Tages Anzeiger, informou que Claudius Luterbacher, chanceler da diocese de St. Gallen, se manifestou contra o comentário anti-gay feito pelo Bispo Auxiliar, Marian Eleganti, da Diocese de Chur. Em um outro artigo, o mesmo jornal relatou uma entrevista que Eleganti concedeu à rede de televisão Eternal Word (EWTN) durante o Encontro Mundial das Famílias em Dublin, no qual disse que no relatório da Pensilvânia "90% [dos casos] estão diretamente relacionados à homossexualidade”.

A página do Facebook da Diocese de St. Gallen postou a seguinte declaração:

"Discordamos - e claramente nos distanciamos - da declaração do Bispo Auxiliar Marian Eleganti. É inadmissível que o assunto dessas acusações [do clero] esteja ligado ao tema da homossexualidade. Tal afirmação é o oposto de esforços tidos até aqui para prevenir acusações sexuais no futuro e processar a tragédia das vítimas. Isso machuca as pessoas homossexuais em sua dignidade, o que é inaceitável".

A página do Facebook da Diocese de Basel publicou a declaração de St. Gallen em apoio à sua posição.

Luterbacher deu uma entrevista a Tages Anzeiger, na qual ele explicou por que era importante contradizer publicamente Eleganti. Segundo ele, "quem faz essa conexão [entre homossexualidade e abuso sexual de clero] retira o foco do principal assunto, que é agressão sexual na Igreja Católica e abuso de poder. Devemos fazer o nosso melhor para evitar abusos e esclarecer os casos que estão se tornando públicos. Temos que avançar na prevenção, embora já tenhamos feito muito na diocese de St. Gallen".

Quando perguntado se as declarações de Eleganti eram prejudiciais, Luterbacher disse:

"Isso pode fazer os homossexuais se sentirem discriminados. Não cabe à Igreja julgar essas pessoas. E como eu disse, isso tira o foco de um tópico que já é bastante difícil e que temos que discutir com toda a intensidade. É aí que os católicos e a Igreja tem que fazerem o dever de casa".

Quando perguntado sobre a instrução do Vaticano para proibir homens gays de frequentar seminários e ordenações, Luterbacher disse:

"Quando as pessoas estão interessadas no culto da Igreja, ficamos de olho nela. Não por causa de sua educação, mas sim para ter certeza de que sua personalidade é adequada para alguém responsável por sua própria dimensão física e sexual. Isso é o correto tanto para os homossexuais quanto para os heterossexuais. É necessário um grande esforço por parte de quem está no poder, e isso não tem haver com sexualidade. Na pastoral, existem dependências [interpessoais], como no trabalho social, na escola ou no hospital".

O jornal Tages Anzeiger forneceu algumas informações para confirmar a alegação de Eleganti de que os casos na Pensilvânia eram de natureza homossexual. Por um lado, eles citaram uma organização católica conservadora que analisou o relatório e disse que 75% dos casos envolviam homens - a maioria adolescentes. Mas a evidência mais contundente do jornal veio do Relatório John Jay, encomendado pelos bispos dos Estados Unidos após a crise de abuso de 2002:

"O chamado 'Relatório John Jay' registrou alegações de abuso contra quase 4.400 padres católicos entre 1950 e 2002:

“A maioria das vítimas (81%) era do sexo masculino, em um contraste de gênero com vítimas de crimes sexuais nos Estados Unidos. Na verdade, apenas um pequeno número dos padres acusados ​​são pedófilos”, observa o estudo.

"No entanto, outras descobertas do estudo contradizem a visão de que isso está relacionado a atitudes homossexuais dos padres. Sacerdotes que tiveram experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo antes ou durante o seminário não seriam mais propensos a abuso de menores”, diz o estudo.

“Além disso, dados clínicos não apoiam a hipótese de que padres homossexuais ou aqueles que tiveram relações sexuais com adultos do mesmo sexo abusam sexualmente de crianças mais frequentemente do que aqueles com orientação ou comportamento heterossexual. Em termos de identidade sexual, o único fator de risco é uma identidade sexual ‘confusa’”, disseram os pesquisadores.

Mais recentemente, um painel do Encontro Mundial de Famílias com quatro especialistas que estudaram casos de abuso sexual clerical, derrubou por unanimidade a ideia de que os padres homossexuais eram a causa dos problemas.

Um dos especialistas, professor Gabriel Dy Laco, explicou que a orientação sexual não era um fator e que o abuso do clero "é um crime sexual que surge de um uso desordenado de poder e afeição". Dy Laco explica que, se as estatísticas mostram que um número desproporcional de vítimas era do sexo masculino, incluindo homens jovens, esses casos demonstram o abuso como "crime de oportunidade", significando que os padres geralmente têm mais interações com meninos e homens.

O fato de que os padres homossexuais culpados pela crise dos abusos sexuais voltaram a fazer parte da discussão pública é uma terrível tragédia de preconceito, ignorância e busca por respostas simples. Muitos analistas já desmascararam a ideia de que os padres gays são os culpados, citando muitas outras causas para essa calamidade eclesial, como clericalismo, abuso de poder, silêncio e sigilo.

É bom ver funcionários que ocupam altos cargos da Igreja, como Luterbacher, contradizer um outro líder da Igreja - quando esse age com falsidade. Precisamos de mais líderes, especialmente bispos dispostos a fazer o mesmo sempre que surgir a homofobia nessas discussões.

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