''A crise dos abusos sexuais ainda não foi vencida''. Entrevista com Seán O'Malley

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10 Janeiro 2012

Embora você não encontre nada a respeito em nenhum calendário litúrgico, o dia 6 de janeiro é um marco monumental para a Igreja Católica dos Estados Unidos. Foi exatamente há uma década, no dia 6 de janeiro de 2002, que apareceu a primeira notícia do jornal Boston Globe sobre um predador em série e ex-padre chamado John Geoghan, desencadeando o que hoje conhecemos como a "crise dos abusos sexuais".

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 06-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em um ano, o cardeal Bernard Law, de Boston, renunciou em desgraça, com seu legado permanentemente manchado pela percepção de ter presidido o caso Watergate católico. O homem indicado para limpar a sujeira deixada para trás por Law – um humilde e modesto capuchinho franciscano chamado Seán O'Malley – já era um veterano retirado das linhas de frente da crise, muito antes de o termo sequer existir.

Ainda em 1992, O'Malley estava servindo discretamente como bispo missionário nas Ilhas Virgens, quando foi enviado para a diocese de Fall River, em Massachusetts, onde ele foi forçado a lidar com um escândalo crescente de abusos sexuais envolvendo o ex-padre James Porter. Dentre outras coisas, essa experiência provocou os primeiros encontros de O'Malley com vítimas de abuso. Uma década depois, O'Malley foi transferido para Palm Beach, na Flórida, onde uma outra diocese estava em desordem depois de dois bispos consecutivos terem renunciado após revelações de abuso.

Tudo isso, no entanto, parecia ser uma chuva suave em comparação com o tsunami que esperava por O'Malley em Boston.

Como resultado do seu currículo, O'Malley, agora com 67 anos, tornou-se uma referência da Igreja norte-americana em torno da crise dos abusos. Quando o Papa Bento XVI foi aos Estados Unidos em 2008, foi O'Malley que organizou o primeiro encontro do pontífice com as vítimas de abuso sexual. Quando a Igreja na Irlanda estava em crise, Bento XVI enviou O'Malley para Dublin para conduzir uma revisão oficial.

Em meados de dezembro, O'Malley se sentou em seu escritório no Centro de Pastoral de Boston para uma extensa entrevista com o NCR sobre a crise. A conversa foi dividida em quatro áreas: 1) Boston, 2) o cenário nacional, 3) o cenário internacional e 4) o custo que a experiência teve sobre O'Malley pessoalmente.

Confira a seguir trechos da entrevista.

A situação de Boston

Dez anos depois da explosão da crise, Boston se recuperou?

"Recuperar" não é a palavra que eu usaria. Acho que estamos em um lugar melhor, mas o trauma, o sofrimento é algo que vai nos marcar por um longo tempo, talvez para sempre. Dizer que nos recuperamos, ou que isso ficou atrás de nós, é errado. É algo com que temos que conviver.

Por que você acha que estão em um lugar melhor?

Quando eu cheguei, havia muita raiva, muita dor por parte das vítimas nas paróquias e entre os sacerdotes. Em alguns bairros, havia quase desespero. As pessoas queriam saber como a Igreja iria reagir. Acima de tudo, nós também estávamos em uma queda livre financeira. O seminário tinha esvaziado. Havia apenas uma grande, grande dor, uma grande raiva.

Você acredita que isso diminuiu?

Eu sinto que há uma paz muito maior nas nossas paróquias e entre o nosso povo. Inúmeras pessoas se uniram para nos ajudar a responder à crise e para tentar reconstruir a confiança e trazer a cura, para ir ao encontro daqueles que foram mais afetados... as vítimas, suas famílias e as paróquias onde elas viviam. Como comunidade, tentamos assegurar às pessoas que estávamos levando isso a sério e faríamos tudo o que pudéssemos para ter certeza de que não aconteceria novamente. Houve um enorme programa de educação. Literalmente milhares de pessoas se voluntariaram para nos ajudar nas paróquias e nas escolas. Ocorreram investigações. O trabalho dos conselhos de revisão foi inestimável, por termos uma voz leiga independente aconselhando o bispo sobre esses assuntos. Eu acho que muita coisa que aconteceu ajudou a nos levar para além da fase inicial da crise.

Há coisas inacabadas em Boston?

Tentar fazer com que as vítimas se sintam acolhidas e compreendidas sempre vai ser um desafio. Nós tentamos ajudar os nossos padres a serem capazes de aconselhar as famílias e os indivíduos que mais foram afetados, mas, como o passar do tempo, você descobre mais pessoas das quais você não estava ciente antes. Um dos nossos compromissos atuais é oferecer serviços de aconselhamento para as vítimas de abuso. Temos algumas pessoas maravilhosas que fizeram o trabalho de escreventes, que foram o rosto misericordioso da Igreja para com as pessoas em seu sofrimento. Elas foram instrumentais para trazer as pessoas para retiros, missas e outros eventos espirituais em suas vidas, para ajudá-las no processo de cura. Esse é um desafio permanente, e jamais podemos pensar que está acabado ou resolvido.

Como vocês continuam indo ao encontro das vítimas?

Neste sábado, eu vou ter uma missa – como eu faço em todos os Adventos – com um grupo de vítimas e famílias. Em um momento, tivemos uma novena entre a festa da Ascensão e Pentecostes, que se estendeu por nove dias, quando fomos àquelas que foram determinadas como as nove paróquias mais afetadas pela crise dos abusos. Foi uma cerimônia muito comovente. As vítimas deram testemunho. Tivemos leituras, orações, cantos, orações de cura. Eu convidei os padres a virem comigo, e muitos, muitos padres vieram. Em certo ponto da celebração, todos nos prostramos no chão do santuário. Tivemos literalmente milhares de pessoas que vieram ao longo dessa novena. Muitas pessoas me disseram que havia sido a primeira vez que tinham voltado à Igreja, e esse realmente foi um momento de reviravolta em suas vidas. Obviamente, ainda existem pessoas que estão com raiva e afastadas, mas há outros que queriam encontrar um caminho de volta. Um dos aspectos muito trágico de toda a crise dos abusos é que muitas das crianças que foram abusadas vinham de famílias que estavam muito ligadas às suas paróquias e à Igreja. O sentimento de traição era muito grande porque essas pessoas tinham um grande afeto e lealdade pela Igreja. Seu caminho de volta foi o mais difícil, porque a ruptura foi muito dramática.

A crise prejudicou a participação na missa?

Ao menos de acordo com os nossos estudos, a secularização desta área já estava corroendo a participação na massa. Não parece haver um golpe dramático como resultado da crise. Minha teoria é que aqueles que estavam envolvidos em suas paróquias, que conheciam o seu pároco, por exemplo, estavam tristes e desapontados [pela crise], mas a maioria dessas pessoas sobreviveram espiritualmente na Igreja. Os católicos mais "culturais", pessoas que vêm à igreja algumas vezes por ano e estavam como que fora do alcance da Igreja, estão agora ainda mais fora do alcance. Esses são aqueles que estão muito fartos das denúncias e da atenção da mídia, sem ter uma relação com a paróquia que lhes permita ver o outro lado da Igreja. Para as pessoas que estão ligadas às suas paróquias, de certa forma, eu acho que se tornaram mais fortes em sua fé. A situação do seminário pode ser outro exemplo. No início, os padres estavam me incentivando a fechar o seminário. Hoje, estamos com problemas, porque não temos espaço suficiente, e os jovens que estão vindo fazem isso com um sentimento de que querem fazer algo para ajudar a Igreja. Eles sabem que a Igreja precisa deles.

Quais são os números?

Para a arquidiocese, temos mais de 70 [seminaristas], e o St. John's Seminary tem mais de 100 no total. Quando eu cheguei aqui, a arquidiocese tinha 15 ou 20 talvez. Eu acho que a crise fez com que muitos católicos olhassem em seus corações para ver o que eles poderiam fazer para ajudar a Igreja, para se tornarem mais disponíveis.

E com relação ao dinheiro?

Como eu disse, quando eu cheguei, estávamos em uma queda livre financeira. Tínhamos um déficit anual operacional de 15 milhões de dólares. Devíamos 35 milhões de dólares aos Cavaleiros de Colombo. Os hospitais estavam perdendo 40 milhões de dólares por ano. O fundo de pensão dos leigos estava minguando, o fundo de pensão dos padres estava se extinguindo, e havia milhares de ações judiciais contra nós. Hoje, as dívidas estão pagas, e estamos no azul. Este prédio [o centro pastoral em Braintree] foi uma doação de um imigrante irlandês. As pessoas têm contribuído muito para melhorar as escolas católicas. Temos recebido muitas doações muito generosas de católicos e de pessoas de fora da Igreja Católica, da comunidade judaica e de outros que têm nos apoiado muito.

Não podemos ir embora de Boston sem falar sobre o cardeal Bernard Law. Até que ponto a visibilidade de Law em Roma foi um obstáculo para a recuperação?

Isso é muito difícil para que eu possa medir. Eu acho que grande parte da atenção dada ao cardeal Law é dolorosa para nós aqui, e prejudicial. Objetivamente, eu penso que a sua renúncia em Boston foi um passo muito dramático. Sendo o arcipreste de uma basílica em Roma, é uma espécie de sinecura. Ontem à noite [dia 13 de dezembro], eu tive uma experiência muito interessante. A comunidade judaica de Boston sempre teve uma relação muito próxima com a Igreja Católica desde os tempos do cardeal Cushing, e eu estava em um jantar da Liga Antidifamação (ADL). Um cavalheiro estava sendo homenageado, mas ele doou o prêmio para um projeto relativo à nomeação de uma nova ponte. A ponte devia se chamar "Bunker Hill Bridge", em Charlestown, que é um bairro tradicionalmente de classe operária muito católico e irlandês. Houve um movimento para nomear a ponte a um ativista judeu que foi uma espécie de líder da comunidade chamado Lenny Zakim. Isso causou muita tensão, mas a tensão foi resolvida, as comunidades católica e judaica se uniram, e a ponte foi nomeada como "Lenny Zakim Bunker Hill Memorial Bridge". No filme, a ADL mostrou isso, e eles destacaram o papel do cardeal Law.

Isso provavelmente não poderia acontecer em um ambiente católico.


Foi exatamente isso que eu disse. Eu disse a eles que isso não teria acontecido em um local católico. Eu achei que isso foi muito esclarecedor. Obviamente, qualquer publicidade em Boston em torno das atividades do cardeal Law cria um monte de desgostos.

Você entende por que as pessoas acham que a visibilidade de Law em Roma era frustrante?

Eu entendo. Por outro lado, olhando para isso de um ponto de vista romano, eu tenho certeza que eles sentem que o fato de ele ter renunciado é um sinal da seriedade com a qual isso foi levado em consideração. A renúncia de um bispo é algo na Igreja que vemos como algo de outro mundo.

Você teve muita comunicação com o cardeal Law?

Quando eu vou a Roma, eu geralmente o vejo lá. Eu conheço o cardeal Law há 40 anos. Quando eu estava nas Ilhas Virgens, eu vinha para cá para ajudá-lo com as Confirmações em Boston. Eu estive em uma diocese vizinha por 10 anos. Ele é como que um velho amigo, alguém com quem eu tive um contínuo relacionamento durante anos.

É doloroso para você que ele tenha se tornado o "garoto-propaganda" da crise?

Muito doloroso, e não apenas para mim, mas também para os padres sacerdotes e o povo daqui também, eu acho.

O cenário nacional

Onde você acha que a Igreja dos EUA se encontra perante a crise?

Mais uma vez, acho que estamos em um lugar muito melhor. A liderança que Wilton Gregory [atual arcebispo de Atlanta, ex-presidente da Conferência dos Bispos em 2002] deu uma resposta rapidamente, promovendo políticas que eram claras e muito, muito úteis.

Que trabalho ainda precisa ser feito?

Obviamente, a implementação das políticas é muito importante. Tivemos problema quando elas estes foram seguidas. Eu acho que as auditorias são muito importantes. Se as auditorias tivessem trabalhado melhor, eu acho que alguns dos problemas – como na Filadélfia – poderiam ter sido evitados.

[Nota: Em fevereiro, um Grande Júri concluiu que 37 padre da arquidiocese de Filadélfia continuavam ativos apesar de enfrentar acusações de abuso.]

Parece que aqueles bispos que mais trabalharam para implementar as políticas são aqueles que ficaram mais incomodados com a Filadélfia, porque isso enfraquece a credibilidade dos seus esforços. Concorda?

Exatamente. Eu acho que, em todo o país, houve uma espécie de suspiro. Mais uma vez, acho que, se tivéssemos tido um melhor processo de auditoria, teria havido advertências anteriores. Isso vai ser muito importante daqui para frente, para sermos capazes de assegurar às pessoas que não estamos nos desviando disso ou que estamos nos tornando complacentes. A cada ano, temos que voltar e olhar para o que uma Igreja local está fazendo. Onde eles estão caindo? Onde eles precisam melhorar? Certamente, a denúncia [de acusações à polícia e ao Ministério Público] é uma obviedade.

A outra revolta ocorreu em Kansas City, e é um divisor de águas – é a primeira acusação criminal de um bispo norte-americano empossado. Que lições você tira desse episódio?

Os bispos precisam estar muito atentos e se certificar de que as pessoas que trabalham com o bispo são pessoas em quem ele realmente pode confiar, que têm um compromisso com a segurança das crianças e que vai trabalhar diligentemente para se certificar de que as políticas são seguidas escrupulosamente. O bispo precisa estar acima disso.

As pessoas vão perguntar: por que Dom Robert Finn renunciou?


Eu não estou muito familiarizado com o que aconteceu lá exatamente. Obviamente, pode haver momentos em que a renúncia é a melhor resposta, como vimos em Boston.

Em alguns ambientes, diz-se que a Igreja agora tem a responsabilidade pelos padres que abusam, mas não pelos bispos que os encobriram. Você acha que há qualquer mérito para essa crítica?

Isso é algo para o qual a Igreja precisa continuar olhando. Eu acho que a maioria das pessoas vê que há uma diferença entre as falhas antes da carta e os fracassos depois da carta. Houve muitos mal-entendidos e até mesmo ignorância, [uma falta de] conscientização dos danos causados às vítimas, que eu acho que foi a mudança de tática em tudo isso, não apenas para a Igreja, mas também para a sociedade em geral. Muitas organizações no passado não lidaram com denúncias de abuso com a seriedade que elas exigem, porque não havia a mesma conscientização. Certamente, no período pós-carta, a Igreja precisa encontrar alguma forma para responsabilizar os bispos.

O que poderia ser isso?


Isso vai depender da Santa Sé. Na Igreja, por causa do que um bispo é teologicamente, [a renúncia] só pode ser uma decisão do Santo Padre em conversa com o próprio bispo. No entanto, eu acho que as Conferências Episcopais podem discutir mais [a responsabilização].

Você conhece os tipos de comparações que surgem. Na Penn State University, poucos dias depois das revelações de abuso sexual, um querido treinador e o reitor da universidade foram demitidos. No entanto, com uma década de crise católica, muitos bispos nunca sofreram as mesmas consequências. Você tem alguma opinião sobre um novo sistema de responsabilização que poderia convencer o mundo de que a Igreja está levando isso a sério?

Essa é uma pergunta difícil. Eu não sei. Em Boston, o arcebispo renunciou, e houve bispos em outros lugares [que renunciaram]. Tudo o que posso dizer é que os bispos deveriam ser responsabilizados, e temos que continuar trabalhando nisso.

Tende a haver duas escolas de pensamento sobre as raízes da crise. Uma delas é que há algo único na Igreja, ou na sua cultura clerical, que produziu essa bagunça. A outra é que ela é mais um produto da dinâmica institucional padrão – a tendência de uma classe profissional proteger seus próprios membros, de gestores evitarem levantar seus problemas em público, e assim por diante. Qual delas você acha mais persuasiva?

A situação da Penn State e de outros lugares nos mostra que muitas instituições, historicamente, não lideram com o problema da forma como deveriam. É mais fácil escondê-lo ou negá-lo. Eu acho que a incidência de abusos sexuais na Igreja não é maior do que em outras instituições – e provavelmente é menor. Desde que começamos a enfrentar o problema, colocando políticas em prática e tentando ser transparentes, a incidência de abusos se reduziu drasticamente. Para mim, o mais decepcionante sobre o relatório John Jay é que eles entraram em muitas coisas especulativas. Eu gostaria que eles tivessem apenas salientado como o estudo pôde indicar que, uma vez que a Igreja começou a levar isso a sério, a incidência [de abusos] caiu muito, muito dramaticamente.

Ao contrário das manchetes de que os bispos culpam a década de 1960 pelos seus problemas?

Exatamente, ou entrando no debate sobre a homossexualidade, por exemplo. Isso obscureceu as boas notícias. Em Boston, tivemos um caso [de abuso sexual clerical] nos últimos 10 anos.

Aqui está outro elemento de coisas inacabadas que algumas pessoas levantam: falsas denúncias. Há uma opinião entre alguns observadores que, no início da crise, as falsas denúncias eram extremamente raras, mas hoje a porcentagem está em ascensão. Essa é a sua impressão?

Acho que isso é verdade, mas também acho que as falsas acusações ainda são poucas e distantes entre si. Eu acho que há mais perigo [de falsas acusações] agora, porque há muitos padres falecidos que estão sendo acusados, e muitas vezes é muito difícil definir se essas alegações têm mérito.

Alguns bispos se sentem pegos de surpresa porque há um conjunto de políticas que, a seu ver, não protegem adequadamente as reputações e os direitos ao devido processo do acusado. Você sente essa frustração?

Aí é onde eu acho que a importância do conselho de revisão independente é muito grande. Um bom conselho inclui vítimas, parentes das vítimas, juízes, assistentes sociais, e assim por diante. Quando um grupo como esse olha para um caso e diz: "Essa não é uma acusação séria", ele tem credibilidade.

Nesse ponto, um padre já foi publicamente identificado como abusador acusado e removido do ministério.

Mas, quando alguém é restaurado ao ministério, esse é o selo de qualidade e de aprovação.

Isso é suficiente para desfazer o dano?

Eu não acho que isso desfaz o dano ou o trauma que o padre sofreu. Eu acho, no entanto, que, quando alguém foi exonerado e voltou ao ministério, a nossa experiência é que ele é aceito, e foram muito poucas as vezes quando houve algum retrocesso.

O cenário global

Você fez parte da visitação promovida pelo Vaticano à Irlanda. Qual a sua impressão de como as coisas estão lá?

Ainda é muito, muito sério. Tenho esperanças no novo núncio [o arcebispo Charles Brown]. Ele é alguém que trabalhou com o Santo Padre, e obviamente essa foi escolha pessoal do Santo Padre. Ela mostra o tipo de interesse que ele está tendo pela situação, para estar pessoalmente mais perto da Igreja irlandesa e talvez também para construir algumas pontes com o governo.

A Irlanda de hoje lhe lembra onde Boston se encontrava em 2003?


De um lado, sim, mas de outro, não. Quando eu fui lá, as semelhanças eram surpreendentes. É claro, algumas pessoas diriam que Boston é uma colônia da Irlanda. A cultura irlandesa é muito forte. Este é o Estado com o maior percentual de irlandeses-americanos, e temos uma grande comunidade de imigrantes irlandeses aqui. Nossa proximidade também é um fator, porque estamos somos muito próximos da Irlanda. Assim, há muitas semelhanças, mas também algumas coisas que são diferentes. Se a Igreja dos Estados Unidos gerisse praticamente todo o sistema escolar e fosse responsável por todos os casos de abuso sexual [em escolas, orfanatos etc.] nos últimos 50 anos, a nossa crise seria ainda mais dramática, e essa é a situação irlandesa.

No ano passado, vimos a explosão da crise em toda a Europa, que rapidamente levou a história à porta do papa. Houve muitos comentários críticos sobre o papel do papa, incluindo o seu tempo como arcebispo de Munique, depois como autoridade do Vaticano com João Paulo II e como o próprio papa. Qual é a sua própria percepção sobre o papel que ele desempenhou na crise?


Acho que o Santo Padre, particularmente dada a sua experiência na Congregação para a Doutrina da Fé, tornou-se dolorosamente consciente da seriedade da crise. Ele tentou enfrentá-la continuamente. Na Irlanda, por exemplo, ele pediu a visitação e enviou uma carta pastoral. Sei que, em alguns ambientes, [a carta] não foi recebida com entusiasmo, mas foi um gesto de sua parte.

Você esteve nas linhas de frente do combate à crise por um longo tempo. Você sentia o cardeal Ratzinger, agora Papa Bento XVI, como um aliado?

Sim. Mesmo mais recentemente, o fato de ele ter convocado as Conferências Episcopais de todo o mundo a preparar um plano e submetê-lo à Santa Sé para a sua revisão é muito, muito importante. Acho que ele está levando isso muito a sério.

A dimensão pessoal

Alguma vez você já somou quantas horas você gastou em encontros com as vítimas?

Não, mas eu me encontrava com as vítimas 10 anos antes de eu vir para Boston. No início dos anos 1990, nos meus primeiros anos em Fall River, uma quantidade enorme do meu tempo foi gasta com as vítimas e as suas famílias. Em Palm Beach, era mais questão de lidar com as paróquias. Desde que cheguei aqui, eu passei muitas e muitas horas de reunião com centenas de indivíduos.

Ao longo da sua carreira, estamos falando de milhares de horas?

Possivelmente, quando você calcula com as outras dioceses e as horas na Irlanda.

Qual é a chave para reconciliar as vítimas com a Igreja?

Muito frequentemente, as vítimas que querem ver o bispo são aquelas que estão em busca de um caminho para se reconectar com Deus e com a sua fé. Nem todas elas, mas muitas delas estão em busca de um encerramento. Em muitos casos, quando uma vítima pede para ver o bispo, é porque ela está em busca de um caminho para casa.

O fato de o debate público ser dominada pelas vítimas que ainda estão afastadas, enquanto raramente ouvimos aquelas que se reconciliaram, lhe frustra?

Não, porque eu acho que isso é muito compreensível. Muitas pessoas que se reconciliaram não estão ansiosas pelo brilho das atenções. Seria maravilhoso se as pessoas tivessem mais consciência, eu suponho, mas eu não fico surpreso nem mesmo desapontado, porque eu acho que há uma certa lógica interior nessa situação.

Que custos pessoais a crise teve sobre você?

Acho que ela faz com que você dependa mais de Deus do que dos seus próprios dispositivos, porque ela é muito esmagadora. As horas com as vítimas, compartilhando seu sofrimento, são obviamente difíceis, mas é uma forma privilegiada de ministério. No sacerdócio, eu acredito que, quando somos capazes de ministrar àqueles que estão sofrendo, somos capazes de refletir a presença do Bom Pastor mais do que nunca. Eu não tive contato com tantas pessoas – além das famílias das pessoas que cometeram suicídio, talvez – que sofreram mais do que as famílias atingidas pelo abuso sexual por parte do clero.

Ver todo esse sofrimento já lhe provocou um momento de dúvida?

Dúvida, não. Isso me dá mais certeza da misericórdia de Deus. Quanto mais experimentamos o mal, maior é a capacidade de experimentar o bem. O que o sofrimento fez, eu acho, foi me ajudar a me concentrar em coisas que são mais essenciais. Quando você está em contato com tanta dor e sofrimento, isso lhe ajuda a pôr as coisas em perspectiva. Os problemas financeiros e outros tipos de coisas que estavam pesando sobre mim quando eu cheguei aqui não parecem tão importantes. Eu acho que isso dilata o seu coração.

Essas experiências nunca lhe tentaram a pensar que há algo de errado com a Igreja e que nós simplesmente não podemos corrigir?

Bem, a Igreja é muito humana, e em cada geração há diferentes manifestações disso. Eu estive perto da Igreja por toda a minha vida. Eu vi essa humanidade. Mesmo quando criança, eu me lembro de que havia um padre na paróquia que era alcoólatra e tinha terríveis problemas com a bebida. O pároco trancava a porta da casa paroquial às 20 horas, e quando o outro padre chegava em casa bêbado, meu pai e outros homens da paróquia cuidavam dele. Eu acho que isso me ajudou a compreender que os padres são humanos.

Você nunca pensou, nem por um momento, que há uma falha fatal na Igreja revelada pela crise?

Eu não acho que o Senhor vai abandonar a sua Igreja. Nós certamente estamos fatigados pela nossa pecaminosidade, pelas nossas fraquezas e pela nossa humanidade, mas a Igreja ainda é o sacramento de Cristo.

Em vários momento durante a sua temporada em Boston, alguns dos seus amigos se preocuparam com você – com o preço que tudo isso tinha sobre você, tanto física quanto espiritualmente. Essas preocupações eram exageradas?

No início, eu acho que não. Minha família estava muito preocupada. Foi assustador.

Qual foi a chave para superar tudo isso?

Oração, amigos, família... todas essas coisas.

Você se sente melhor hoje?

Sim.

Você teve que se tornar mais "durão" para fazer esse trabalho?


Eu não tinha pensado nisso, mas eu suponho que isso provavelmente seja verdade. Para dizer a verdade, eu ainda não tive uma atribuição que tenha sido fácil. Na minha primeira diocese, tivemos um terrível furacão, e a diocese ficou destruída. Depois eu fui para Fall River e todos os problemas de lá, e depois para Palm Beach, onde eu substituí dois bispos que haviam sido removidos. Houve muitas decisões muito difíceis que foi preciso tomar ao longo dos anos. Certamente, Boston foi um novo desafio, por causa do tamanho e dos holofotes aqui – como eu disse às pessoas quando eu cheguei, ser o arcebispo de Boston é como viver em um aquário feito com lentes de aumento. Quando eles mandaram os meus livros de Palm Beach em um caminhão, eu descobri que eles estavam aqui porque a foto estava no jornal no dia seguinte. Eu fiquei com uma pele mais espessa por causa de tudo isso? Eu acho que você cresce com a idade – senão mais forte, talvez um pouco mais filosófico.

Você tem 67 anos. Você espera estar em Boston até os 75 anos?

Se eu viver tanto tempo! Eu tive quatro dioceses, então eu acho que eles não vão me dar mais nenhuma. Eu não tenho nenhuma razão para pensar que vou ser transferido.

Essa é uma forma educada para dizer que você não tem nenhum interesse em um cargo vaticano – por exemplo, presidir a Congregação para os Religiosos?

Nenhum interesse! Na verdade, eu fiquei feliz quando tornaram um americano no número 2 [o arcebispo Joseph Tobin], porque eu sabia que eles não iriam nomear dois norte-americanos no mesmo escritório. Isso significava que eu estava livre.

A sua espiritualidade capuchinha lhe ajudou a enfrentar a tempestade?


Ah, sim. Se eu não tivesse a minha comunidade religiosa e a minha família, teria sido muito mais difícil. Como capuchinho, sempre nos ensinaram no seminário que os capuchinhos eram os Marines [fuzileiros navais] da Igreja, ou seja, que devemos estar prontos para ir para as tarefas mais difíceis. Lembro-me disso em certos momentos. Os capuchinhos que estão aqui em Boston não são a minha província, mas foram muito bons para mim. Os homens do Capuchin College, meus ex-provinciais, o arcebispo Charles [Chaput, da Filadélfia, também capuchinho]... muitos outros têm me apoiado muito.