Enquanto bispos do Chile chegam a Roma, relembramos as 48 horas que abalaram a Igreja

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14 Maio 2018

Em uma de nossas primeiras conversas ao longo dos anos, o falecido cardeal de Chicago Francis George deu um conselho valioso a um jovem repórter precoce: "Tenha cuidado ao usar a palavra 'sem precedentes'", observou. "Na Igreja Católica, tudo já aconteceu pelo menos uma vez".

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 13-05-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Assim, a chegada dos bispos do Chile em Roma neste fim de semana para reuniões com o Papa Francisco de terça a quinta-feira sobre a crise de abusos sexuais clericais do país, pode certamente ser considerada "extraordinária", mas não totalmente nova. Na verdade, já vimos algo parecido: em 23-24 de abril de 2002, todos os cardeais residenciais dos Estados Unidos, juntamente com os dois principais superiores da Conferência dos Bispos dos EUA, foram convocados a irem a Roma para discutir os escândalos de casos de abuso que estava explodindo no país.

Relembrando, esse encontro acabou sendo um divisor de águas.

Pode ser difícil lembrar agora o quanto a atmosfera de crise abrangia todo mundo naquele momento. No início de 2002, os escândalos de abusos sexuais católicos, inicialmente centrados em Boston e depois em todo o país, apareceram na primeira página do New York Times por quarenta e um dias consecutivos, superando o recorde do auge dos escândalos de Watergate, em 1974, que derrubaram o governo de Nixon.

Durante as 48 horas da reunião, caminhões de satélite contratados por redes de TV americanas e estações locais tomaram conta da Piazza Pio XII, nos arredores da Praça de São Pedro onde se encontram vários escritórios do Vaticano. Foi preciso instalar uma plataforma de observação para acomodar todos os pedidos, e tendo em conta a diferença de fuso horário entre Roma e os Estados Unidos, operava praticamente o tempo inteiro.

Beth Shuster, do Los Angeles Times, percebeu que cerca de 200 jornalistas estavam por ali e comparou a cena ao "Caso O.J. Simpson", que surgiu durante a cobertura da saga de Simpson em 1994.

Foi um choque para grande parte da equipe do Vaticano, representando seu primeiro encontro real com a cultura agressiva e abusiva da imprensa estadunidense, que pela primeira vez não estava comentando de longe, mas no próprio recinto do Vaticano.

Houve cenas surreais pelo caminho, como o sítio do famoso colunista estadunidense Jimmy Breslin na parte de trás da sala de imprensa do Vaticano, rabiscando notas num saco de papel, claramente projetando um ar de incredulidade. Depois, Breslin iria produzir um livro sobre os escândalos, uma visão geral, como diz o título: The Church that Forgot Christ (A Igreja que se esqueceu de Cristo, tradução livre).

No dia 15 de abril de 2002, o Vaticano anunciou que os cardeais tinham sido chamados a Roma para se encontrar com o Papa João Paulo II e altos funcionários do Vaticano. As oito pessoas que participaram foram:

No final do ano, Bernard Law renunciaria. O candidato mais óbvio para seu lugar no caso chileno é o cardeal Francisco Javier Errázuriz, que também foi acusado de fazer vista grossa a casos de abuso, embora seja uma comparação desigual, já que Errázuriz tem hoje 84 anos e está aposentado. No início, Errázuriz disse que não iria, mas acabou embarcando em um voo para Roma na última hora. (A explicação no aeroporto? "Mudei de ideia".).

Os cardeais estadunidenses que moram em Roma e também participaram: Francis Stafford, na época presidente do Conselho Pontifício para os Leigos; Edmund Szoka, presidente do governo da cidade do Vaticano, e William Baum, aposentado.
Juntaram-se aos cardeais também Wilton Gregory, então bispo de Belleville, Illinois (hoje arcebispo de Atlanta), e William Skylstad, bispo de Spokane, Washington, respectivamente presidente e vice-presidente da Conferência Episcopal.

Do lado do Vaticano, participou um grupo de primeira:

Basicamente, era todo o conjunto de peso do papado de João Paulo de uma vez só, como o Vaticano jamais havia visto. À exceção de Ratzinger, a maioria das outras autoridades do Vaticano da época era associada com o ceticismo sobre o real alcance dos escândalos, tendendo a vê-los como um “problema americano” criado pela imprensa - e por advogados.

João Paulo recebeu o grupo numa audiência no primeiro dia e almoçou com eles no segundo dia. Para o resto, deixou seus assistentes lidarem com a questão. No entanto, na audiência de 23 de abril, as palavras de João Paulo tornaram-se emblemáticas para os reformadores: "As pessoas precisam saber que não há lugar no sacerdócio e na vida religiosa para quem faz mal aos jovens".

Os bispos dos EUA consideraram isso como um sinal verde do papa para uma posição mais agressiva, de "tolerância zero" a casos de abuso.

No final, a reunião produziu dois documentos: uma carta dos bispos aos sacerdotes dos EUA, pedindo desculpas pela "incapacidade da supervisão episcopal de preservar a Igreja deste escândalo" e um comunicado final, estruturando áreas de acordo entre os prelados estadunidenses e os funcionários da Cúria Romana.

A comissão de quatro pessoas para a elaboração do comunicado era composta por Castrillón e Bertone do lado do Vaticano e os estadunidenses Skylstad e McCarrick. Castrillón e Bertone produziram um projeto em italiano, enquanto Skylstad e McCarrick produziram um texto em inglês. A ideia era juntar os dois.

A primeira versão a circular entre os demais participantes era em italiano, descrita como um "rascunho" em que faltavam alguns pontos da discussão e havia outras ideias que não faziam parte do núcleo central da reunião de dois dias.
O resto dos participantes começou a reagir ao projeto italiano ao mesmo tempo em que a versão em inglês era preparada. No fim, os cardeais estavam trabalhando com um texto em italiano e três textos em inglês, sendo que nenhum era muito preciso.

Com o passar do tempo e uma série de repórteres na assessoria de imprensa do Vaticano, os cardeais apressaram-se para entregar uma versão do comunicado, cujo conteúdo parecia surpreendente até mesmo para eles.
A conferência de imprensa de 24 de abril acabou sendo uma espécie de farsa. Marcada para as 19:30, foi adiada para as 22h devido a atrasos na edição, bem como um pequeno drama sobre quais cardeais iriam participar.

Parecia claro que Law não podia aparecer, pois sua presença teria impedido muita coisa. Portanto, coube a Gregory, McCarrick e Stafford apresentar o lado estadunidense - e deram uma desculpa esfarrapada de que Law tinha outros compromissos naquele dia e que ele só poderia comparecer no horário previamente marcado.

A conferência de imprensa foi realizada ao vivo em quase todas as emissoras de TV dos EUA e provavelmente não vai ser lembrada como o ápice das comunicações da Igreja.

Em primeiro lugar, apesar das repetidas afirmações dos bispos estadunidenses antes da reunião de que capacitar os leigos era uma chave para a recuperação, isso não era mencionado nenhuma vez no documento final. Quando eu pressionei o grupo para saber o porquê, McCarrick respondeu: "Não foi mencionado?" e depois indicou que era um erro de edição - levantando a questão óbvia de por que algo supostamente tão importante foi deixado de lado na edição.

O documento também incluiu uma frase controversa pedindo uma abordagem mais dura contra "os indivíduos que espalham a dissidência e grupos que têm abordagens ambíguas ao cuidado pastoral". A maioria dos estadunidenses disse que o trecho vinha do Vaticano e distanciou-se antes de a tinta secar.

Na época, um participante estadunidense disse: "Esqueça isso". "Todos nós achamos que isso tinha saído do comunicado final, mas, com todo o caos, acabou ficando".

A conferência teve ainda outro momento embaraçoso, quando McCarrick disse que João Paulo ficava "animado com crianças". Ele queria dizer, claro, que o Papa amava os jovens, mas naquele contexto essas não eram exatamente as melhores palavras para dizer isso.

"Devíamos ter ficado mais um dia", disse outro participante. "Com uma boa noite de sono, poderíamos ter acabado com algo mais claro. Mas todos tiveram viagens e acabamos com uma versão que não refletia totalmente nossas discussões e as propostas estadunidenses”.

(O Vaticano parece ter aprendido essa lição, prevendo três dias, e não dois, para a reunião do Chile.)

No final, a maioria dos participantes estadunidenses voltou para casa com uma percepção clara de que embora fossem amigos de Ratzinger, que depois viria a ser o Papa Bento XVI, eles não podiam contar com o Vaticano para assumir a liderança no combate à crise de abusos. Isso ajudou a consolidar o impulso por políticas fortes de "tolerância zero" que seriam adotadas na reunião de Dallas, em junho de 2002.

Alguns dias depois, Herranz faria um discurso em Milão criticando um clima de "exagero, exploração financeira e nervosismo" nos Estados Unidos, ilustrando o que os estadunidenses eram contra.

Ao que parece, uma delegação de prelados estadunidenses logo retornaria a Roma no final de outubro de 2002, depois de funcionários do Vaticano inicialmente sugerirem que as políticas de Dallas não sobreviveriam ao alarde canônico. (Por envolverem alterações à lei da Igreja, os estadunidenses não tinham a aprovação do Vaticano). Ratzinger demonstraria ser crítico quanto a salvar o coração da política americana.

Em retrospecto, essa reunião de abril de 2002 pode ter marcado o início do fim da “negação” do Vaticano a respeito dos casos de abuso. Depois da eleição de Bento XVI em abril de 2005, a maioria dessas figuras foi substituída, e seus sucessores, parcialmente influenciados pelo choque dos escândalos estadunidenses, seria mais sensível à necessidade de mudança.

Hoje, o problema do Vaticano não é a negação, mas algumas pessoas que consideram que o problema, por mais real e trágico que seja, já está basicamente resolvido e que é hora de seguir adiante. O Chile é um lembrete de por que isso é uma concepção falsa, e provavelmente não vai ser a última crise como esta que a Igreja terá de enfrentar.

Ainda não se sabe se a reunião desta semana vai ter consequências profundas, para o Chile ou para o Vaticano. Por enquanto, basta lembrar outra situação em que a liderança católica de um país é chamada a Roma em meio a escândalos de abuso sexual - porque, na verdade, foram 48 horas que abalaram a Igreja.

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