Páscoa sem templo: a pandemia questiona o significado da fé

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13 Abril 2020

Celebrar no templo, mas sem o povo. Porque o povo não tem mais um templo para rezar. É a experiência religiosa em tempos de coronavírus. Há padres que celebram a eucaristia sozinhos, em igrejas vazias, gravados por uma webcam que transmite o rito ao vivo. E fiéis que assistem à missa na televisão ou na tela de um computador ou de um celular, como espectadores de um filme ou de uma série da Netflix.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada por Il Manifesto, 11-04-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma imagem tornou-se um ícone deste tempo: o Papa Francisco rezando sozinho, no centro de uma Praça São Pedro vazia. A inversão da natureza profunda da cristã, mas também de outras experiências religiosas e espirituais, fundadas sobre uma dimensão comunitária que agora está inevitavelmente ausente.

Em âmbito católico, o debate está aberto. Quem o começou foi o prior de Bose, Enzo Bianchi, com um tuíte do dia 29 de fevereiro, quando as medidas restritivas estavam em vigor apenas no norte da Itália: “Mas temos certeza de que a Igreja, ao adotar, contra o possível contágio, medidas que impedem liturgias, orações e até funerais participados pela comunidade, é solidária com quem sofre, tem medo e busca consolação? Um cristão não suspende a liturgia!”.

Alguns dias depois, 2 de março, o jesuíta Bartolomeo Sorge, ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, ecoou-o: “Por que vetar as missas se, sobre o altar, está aquele Jesus que curava aqueles que o tocavam?”.

Salvini pediu igrejas abertas na Páscoa; o partido Forza Nuova anunciou que violaria as proibições e marcharia de Parioli a São Pedro, porque “Roma não conhecerá uma Páscoa sem Cristo”.

Outros, por sua vez, convidaram a redescobrir o valor do “jejum litúrgico e eucarístico”, ou seja, a ausência ou a impossibilidade de celebrar comunitariamente os mistérios da fé. Ou recordam o cristianismo das origens, pobre e sem estruturas organizacionais e de poder, antes da virada constantiniana e teodosiana, quando os cristãos rezaram e “partiam o pão” nas casas.

“Deus não está presente apenas dentro de uma igreja, está sobretudo fora do templo, quando nos colocamos a serviço dos outros”, explica Alberto Maggi, padre da ordem dos Servos de Maria, diretor do Centro de Estudos Bíblicos Giovanni Vannucci de Montefano, encruzilhada de encontros entre católicos e leigos que querem se defrontar com a Sagrada Escrita “interpretada a serviço da justiça, nunca do poder”.

O Centro de Estudos tem um canal no Youtube muito visitado, através do qual o Pe. Maggi lê e explica a Bíblia e os Evangelhos. “Mas a missa em streaming não, eu não a entendo. A eucaristia é o momento central da vida da comunidade cristã, deve ser celebrada comunitariamente, com os fiéis presentes, não conectados. Além disso – continua –, em muitas regiões do planeta, eu penso na Amazônia, algumas comunidades veem o padre e celebram missas uma vez por ano, se tudo correr bem. Talvez por isso eles são menos cristãos? O tempo que estamos vivendo pode dar aos fiéis a possibilidade de redescobrir a presença de Deus também na Escritura. Porque, para os cristãos, Deus se faz pão e se torna alimento não apenas na eucaristia, mas também na Palavra. Então, é melhor esse tipo de celebração, talvez nas casas, lendo e meditando o Evangelho, partindo o pão juntos.”

“Tentemos não transformar a tela em um sacrário”, disse o sociólogo Luca Diotallevi ao jornal Il Foglio. É uma imagem que convence Maggi também. “O problema são os padres – acrescenta – que cresceram, foram educados e habituados ao rito, portanto, sem o rito, sentem-se perdidos, desorientados. Mas agora, sem ritos, pode vir à tona outro significado da Páscoa. O verbo recorrente na liturgia pascal é ‘ir’, o anúncio de Jesus ressuscitado é ‘ide’. Então, apesar das restrições, pode-se tornar uma Páscoa dinâmica, que não se esgota nos ritos, uma Páscoa de ir ao encontro dos outros.”

A celebração sem povo é “uma oração individual do celebrante, que, de acordo com a teologia católica, pode se tornar um grande momento de intercessão por aqueles que gostariam de participar, mas não podem”, explica Vito Mancuso, teólogo e filósofo livre, autor de inúmeros livros (o último é “La forza di essere migliori”, Ed. Garzanti), nem sempre apreciados pelas hierarquias eclesiásticas.

“Certamente é algo diferente dos banquetes rituais em torno dos quais a comunidade cristã nasceu: os fiéis se reuniam, comiam juntos e faziam memória de Cristo morto e ressuscitado. Desaparece a dimensão comunitária, mas, para um padre, faz sentido celebrar mesmo sem povo: uma presença solitária diante do mistério, como, no fundo, foi a missa tridentina durante séculos.”

Uma dimensão individual que, neste tempo, cada fiel poderia redescobrir. “Não existe nenhuma religião que não tenha a dimensão comunitária no próprio código genético”, acrescenta Mancuso. “Mas não há religião que não tenha também uma dimensão individual. Às celebrações comunitárias e aos ritos, também se somam os ensinamentos de tipo oposto, como o evangélico de Jesus: ‘Reze ao teu Pai em segredo’. Esse segredo, essa cripta, é a nossa interioridade. A conexão com Deus é o espírito, e isso diz respeito à solidão. Fazer silêncio diante do céu, de uma planta, de uma pedra, de uma nuvem torna-se uma forma de celebração do existir. Na realidade, essa também deveria ser a finalidade do rito: não encher as igrejas e organizar procissões, isso é ritualismo; mas sim transformar a alma do indivíduo, a consciência, a interioridade, que entra em comunhão com o divino. Um divino que pode ser pensado como Senhor Jesus, como Espírito, mas também de outros modos e de outras formas.”

E as celebrações nas casas? “Muitos já fazem isso: recolhem-se, leem uma página do Evangelho, partem o pão de verdade. A Igreja deveria encorajá-los, mas o monopólio clerical, quando ouve essas coisas, reage de forma agressiva e, muitas vezes, as reprime pela raiz, porque desaparece o monopólio. No entanto, essa foi a experiência dos cristãos nos regimes comunistas onde não se podia celebrar a eucaristia e é a dimensão cotidiana de tantas comunidades em muitas partes do mundo onde não há padres nem missas. Estamos passando por um tempo que, se bem interpretado, pode se tornar propício para descobrir essas novas dimensões e formas".

 

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