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27 Março 2020

"Nosso pensamento e nossas ações pastorais sempre buscaram reafirmar a importância das relações presenciais, pois elas nos desinstalam de nossa zona de conforto e nos mantêm abertos à alteridade e seus desafios inerentes. Cremos que essa certeza permanecerá entre nós. Esse modo caloroso de romper nosso egoísmo e valorizar os espaços de encontro com as pessoas nos grupos e coletivos sairá dessa crise fortalecido", escrevem Helder de Souza Silva Pinto, pastoralista da PUC Minas Betim, mestre em Filosofia e especialista em Educação Afetivo-sexual e Temas de filosofia, e Vinícius Borges Gomes, doutorando em Comunicação e Política, mestre em Comunicação e Jornalista, militante da Pastoral da Juventude e atua na Pastoral da Comunicação.

Eis o artigo.

Diante de todas as facilidades das quais o mundo dispõe hoje e com a velocidade das informações que nos chegam, temos muitas e diferentes leituras sobre a realidade atual compartilhadas coletivamente. Desde informações sérias e aprofundadas até informações falsas num tempo conhecido como o da pós-verdade - crenças pessoais se sobrepõem aos fatos ou dados objetivos. No entanto, ninguém se tornará um especialista em epidemiologia somente lendo as coisas de sua própria bolha de informações. Não sejamos ingênuos, mas críticos com o que nos chega, até através de pessoas conhecidas. Uma vez conscientes da delimitação de nossa observação podemos olhar para esse momento sob diferentes aspectos e dimensões do ser humano.

Expressando nosso cuidado pastoral, também nós desejamos contribuir com a riqueza de partilhas apresentando nossos sentimentos e nossa razão crítica a serviço da vida e da práxis. Neste ano, seguimos iluminados por muitos temas importantes, dentre eles o apelo da Campanha da Fraternidade 2020 pela busca da vida: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). Assim, olhamos para a realidade ao nosso redor e nos perguntamos: Como nos afeta o mundo atual ao se ver necessariamente alarmado diante de uma pandemia? Que valores e gestos pastorais, à luz da fé em Jesus, podem nos inspirar na perspectiva do cuidado uns com os outros e com o mundo ao nosso redor?

Reafirmamos a força e a esperança da fé que nos abre para agirmos melhor em nossa vida. Nesse tempo de quaresma, desejamos fazer melhores opções éticas e, assim, continuarmos no caminho humano e cristão de converter nossos corações a serviço da vida. Cada pessoa e cada grupo em sua realidade humana e eclesial encontrará formas criativas de lidar com esse sofrimento.

A realidade hoje nos convoca à reflexão

Quando conseguimos olhar ao nosso redor, percebemos que existem muitas realidades que nos desafiam e, por vezes, nos parecem de soluções impossíveis. Isso se considerarmos apenas nossos próprios méritos. Existem realidades que experimentamos e elas nos escapam. Cheios de confiança, levantamos os olhos para Deus e Ele abraça nossa realidade pela graça, dom absolutamente gratuito. Como nos escreve São Paulo em sua carta aos Romanos, Deus apresenta uma gratuidade da salvação pela fé que nos move a caminharmos com Jesus Cristo. Diante da fragilidade da vida humana precisamos de uma luz que nos aqueça o coração e nos mantenha reunidos em comunidades que nos ajudem nas escolhas certas.

Como seres humanos, atualmente vivemos muitas situações de morte que poderíamos nomear como “pandemias”. Basta um breve olhar e percebemos que, constantemente, lidamos com as chagas da fome que assola nossos irmãos e irmãs. Nos flagela a violência doméstica praticada muitas vezes por pessoas que se dizem cristãs. Apesar de esforços e campanhas, ainda não conseguimos mitigar a dengue que continua um terror entre nós.

Vislumbramos a luta pela vida, que é ceifada pela violência, homicídios e feminicídios que acontecem ao nosso redor. Continuamente nos envolvemos e causamos os acidentes de trânsito que em muito poderiam ser evitados pelas práticas da educação responsável. Sabemos hoje que estamos a destruir nossa casa comum como se dela não dependêssemos todos. Convivemos no mundo ao lado de uma indústria da guerra que transforma pessoas desconhecidas em inimigos mortais. Compramos e consumimos produtos com agrotóxicos que sabemos fazer mal para todas as pessoas que amamos. Vivemos subjugados pela epidemia do capital financeiro especulativo que só consegue se alimentar do lucro e despreza o ser humano que trabalha. Esse cenário revela sempre a importância da saúde pública para todos. A luta contra cada uma delas se soma, neste momento, à mobilização real e urgente para evitarmos, ao máximo, os picos de contaminação da COVID-19.

Só o Estado tem capacidade e interesse em mobilizar uma população para o cuidado de todas as pessoas. Sabemos que, aos poucos estamos negligenciando nosso sistema único de saúde, nossa educação e pesquisa. Agora, ironicamente, foi preciso um vírus invisível para vermos essas bandeiras serem retomadas por muitas pessoas que se conformaram com o malfeito.

Olhando para nossas doenças, nos colocamos diante dessa pandemia da COVID-19. Estagnados diante de um noticiário com pauta quase única, que pouco consegue romper as grades das repetições de informação. A doença - e não o ser humano - prevalece no centro das preocupações. As pessoas se tornam números e devem ser treinadas para executarem procedimentos sanitários necessários. Essa situação de afastamento social muito nos lembra a descrição que Michael Foucault faz no “Vigiar e Punir”, em seu terceiro capítulo, sobre o modelo de controle pela técnica da quarentena, também nomeada como gestão da peste. No século XVII, esse modo de agir permitia quadricular a cidade e regular a circulação com estratégias de vigilância, regido pelo sistema da disciplina. A nossa sensação de vulnerabilidade nos aponta que esse ainda seria um dos nossos únicos recursos atualmente, visto que não podemos esperar grandes ações e estratégias de quem transita com o poder do Estado.

Os jovens e adultos brasileiros ainda não se sentiram vulneráveis a essa doença, logo sua educação para a cidadania e para a solidariedade social será mais lenta. E ainda, as fantasias e o pensamento mágico podem vir a blindar a compreensão da gravidade e a retardar a mobilização desse grupo e de outras pessoas. Nessas situações, sempre a parte da população mais empobrecida sofre mais e, por isso, merece nossa atenção e amparo social. Essa função deveria ser do Estado, mas muitas vezes é suprida pela atuação das Igrejas. As medidas de proteção e higiene que agora adotamos ostensivamente poderiam compor um aprendizado que deveria permanecer em nossos hábitos posteriormente.

Até pouco tempo as medidas anunciadas pelos órgãos do governo brasileiro surgiam com maior preocupação em salvar o mercado financeiro do que em serem assertivamente humanitárias. Uma crise humanitária mereceria uma gestão para além da técnica e do pensamento liberal. Parece que o Encontro da Economia de Francisco (e Clara), embora tenha sido adiado, já veio para produzir seus frutos, nos lembrando que neste sistema do capitalismo financeiro o ser humano nunca aparece em primeiro lugar. Pelo contrário, a ganância de um sistema financeiro especulativo, insaciável e desumano deve ser combatida agora. “A Economia de Mercado, com suas bolsas e outros mecanismos, sem compromisso algum com povo e com a Casa Comum, é a matriz da morte! Escolhe a Vida!” (Dom Mauro Moreli).

Exemplos da voracidade do mercado marcam os gestos insensíveis de quem estoca alimentos sem pensar no semelhante - o espírito do capital está introjetado no jeito de ver o mundo e agir nele. Igualmente, a lei do lucro incide sobre itens básicos à prevenção, vemos o preço absurdo de itens considerados necessários, como o álcool em gel. Na contramão disso, grupos e associações buscam formas criativas de prevenção, com a didática no ensino da higienização ou a criatividade nas formas de informação feitas nas redes sociais. Os canais do Estado ainda não se mostraram confiáveis até este momento.

Tendo em vista o cenário em que teremos que restringir nossas compras, seria ideal para o planeta se conseguíssemos repensar nossa relação com os resíduos do que consumimos. Ao percebermos o quanto somos capazes de desperdiçar quando temos a certeza do provimento rápido e instantâneo, podemos aprender a transformar nosso consumo, fazendo-o de modo mais consciente. O cuidado com o que descartamos e jogamos no lixo pode nos levar a repensar o risco no qual vivem nossos irmãos e irmãs que trabalham na coleta seletiva e na coleta do resíduo comum e especial. Esta atitude de consumo consciente favorece em nós um olhar positivo sobre a reciclagem e o reaproveitamento, diminuindo, assim, a produção de resíduos.

Se os gestos solidários convivem com atitudes egoístas individuais, também as atitudes de alguns líderes de governos mostram um descompasso diante do que deveria ser a prioridade neste momento: a defesa da vida. A preservação dela e de seu ecossistema é o dever maior de qualquer cristão/ã, como inspira a própria Campanha da Fraternidade de 2020. Os cristãos católicos, que neste momento estão vivendo os exercícios da quaresma, como um retiro, têm, portanto, uma rica oportunidade de se valer dos compromissos espirituais e sociais para oferecer sua práxis pastoral mais voltada para o cuidado com os irmãos e irmãs.

O iluminar nos leva ao agir: Uma mística da caridade cura nossas mazelas e os gestos práticos promovem a vida plena para todas e todos

A ação pastoral não se limita a um conjunto de recursos didáticos, pedagógicos ou formativos utilizados para aplicar o que já temos em diferentes formas de regulamentação e de orientação. A atividade e a inserção da pastoral é exatamente o lugar da práxis cristã que, ao mesmo tempo, se reconcilia e desafia o conhecimento científico. Desde os ares no contexto do Concílio Vaticano II a pastoral passou a se justificar também como uma forma de reflexão crítica da realidade: uma nova teologia pastoral. Essa ação pastoral, na qual estamos engajados de diferentes maneiras, está atenta à revelação de Deus que se expressa de modo permanente em nossa realidade sempre atual. Olhamos para a realidade e ali encontramos Deus que se revela. Olhamos para a realidade e percebemos os espaços onde devemos refazer a opção pelos excluídos. Olhamos para a realidade e desejamos construir entre nós o Reino de Deus.

Diante dos vários processos de fragmentação das relações humanas, um dos desafios da pastoral, também em tempos de epidemia, é reconstruir e ressignificar, sem cessar, esse tecido social. A ação pastoral está traçada na direção de aprofundar o compromisso com essa opção social pelo empobrecido. A mercantilização das relações humanas e institucionais operadas pelo sistema liberal capitalista, marcadamente voltada para o mercado financeiro de especulação, tendem novamente a fragmentar e a enfraquecer as comunidades e os coletivos que lutam por seus direitos básicos e pela vida para todas e todos.

As oportunidades da ação pastoral poderiam surgir de várias iniciativas isoladas ou de grupos que ainda mantêm sua capacidade de convocação e de mobilização. Com a ausência do Estado, sabemos que cada pessoa, ao se sentir desamparada, inventará para si um roteiro para lidar com a crise e, também, as pessoas se ajudarão umas às outras, por afinidade. Não somos ingênuos e sabemos que, como pessoas humanas, sofreremos com as várias formas de egoísmo presentes entre nós. A proposta pastoral aparece como algo que pode nos ajudar, assim como na metáfora de habitarmos nossa própria casa (oikos). Nossa casa pode ser vista como o espaço físico, passando pelas relações humanas e pelo mundo psíquico pessoal e coletivo. Se estamos em quarentena, então podemos aproveitar o tempo e o espaço para melhorarmos estas nossas casas. De várias maneiras, deixaremos o lugar onde habitamos muito mais acolhedor e um pouco menos agressivo e inóspito.

Nesse momento, buscamos uma cura sanitária, uma forma de santidade e de salvação. Buscamos resgatar o equilíbrio orgânico dinâmico que foi abalado desde nossas estruturas psíquicas pessoais até as estruturas sociais e, também, eclesiais. Olhamos para “Jesus que cura em todos os lugares”, como afirma Santo Ambrósio (séc. IV), em seu sermão sobre as leituras do sétimo domingo do tempo comum. Jesus cura dentro das casas, pelos caminhos e no deserto. Segundo Ambrósio, a imagem das doenças está sempre associada ao entardecer e ao entardecer da vida e quem busca a Jesus o faz em plena luz do dia, em plena vida. Essa busca pela luz pode iluminar as pessoas que se preparam para se aproximarem das celebrações pascais. Nessa hora de sofrimento social nos chega uma questão frente às nossas próprias opções pela vida. Olhamos para esse momento no tempo da quaresma e rezamos como no salmo 137: Estendeis, Senhor, o vosso braço em nosso auxílio e havereis de nos salvar com vossa destra. Completai em nós a obra começada, Senhor.

Conforme descreve a sabedoria de Jó, todos nós somos de frágil condição. Abrimo-nos como uma flor e logo somos cortados, nossa vida foge por entre nossas mãos como sombra que passa. Em meio a essa condição, levantamos o nosso olhar para Deus. Nossa ação pastoral deseja fundar entre nós a justiça que torne impossível aceitar relações e realidades que incentivem a morte e que não lutem a favor da vida, quando esta se vê ameaçada. Apesar de frágeis, podemos caminhar em comunidade tendo a esperança no Reino como força.

Nossas práticas devem superar os limites das religiões e aprofundar a dimensão da espiritualidade presente em cada pessoa. O caminho da espiritualidade, ao invés de nos tirar no mundo em uma fuga constante e cheia de medos, pode ser ricamente revisitada e aprofundada para nos ajudar a enfrentar este momento de angústia e de doença. São diversos os chamados para amadurecermos em nossa jornada espiritual enquanto somos colocados diante de situações que ameaçam as vidas que amamos. Nossa espiritualidade nos ajuda a nos reconectarmos conosco mesmo, evitar o que nos faz mal para o nosso mundo interior e buscar o que nos ajuda nessa caminhada da vida.

Esta pandemia lança um convite compulsório a reduzirmos a velocidade frenética que imprimimos em nossa rotina. Agora paramos um pouco e podemos valorizar bem mais o caminho que percorremos do que as metas temporárias que desejamos alcançar. Paramos para valorizar quem caminha ao nosso lado sempre nos incentivando os passos lentos. Esse é um chamado importante nesse momento de afastamento social: vamos saborear o caminho que fazemos em nossa vida. Paramos para deixar as águas voltarem a serem límpidas entre os canais de Veneza. Paramos para reduzir a poluição do ar nas grandes cidades. Paramos para nos perguntarmos sobre o que realmente é essencial em meio a todas as nossas ocupações.

Nesse tempo da quaresma e também após as celebrações pascais, é para nós um tempo de oração. Uma prática espiritual que nos ajuda a olharmos para dentro de nós mesmos e para dentro de nossas comunidades eclesiais. Na oração buscamos e encontramos as forças, o discernimento e a esperança necessárias para agirmos novamente ao sentir os apelos da conversão constante. Uma vez discernidos os caminhos que devemos seguir, retomamos a direção que nos leva a cultivar os valores que elegemos importantes em nossas vidas. Ali, empreenderemos nossa energia e nossos recursos. Nesse momento é urgente sermos solidários uns com os outros: não adianta eu conseguir viver se eu não puder evitar o egoísmo que prejudicará meu irmão.

Nossas instituições eclesiais, pastorais, grupos religiosos agindo com consciência cidadã podem somar forças e aproveitar sua capilaridade no território brasileiro. Se não percebemos um compromisso humanitário de nossas instituições representativas, continuaremos cobrando e ao mesmo tempo traçando vários planos criativos de atuação em meio à crise. Cremos que cada região e cada cidade encontrarão meios distintos e próprios para lidar com essa pandemia. Podemos abrir nossas comunidades para as parcerias com as ações da saúde pública. Nossa salvação virá dessa abertura de coração e de práticas saudáveis e holísticas em favor da vida. Quem sabe, as pessoas das comunidades possam ajudar a organizar os agentes de saúde, para que as gripes leves possam ser tratadas em casa, sem necessidade de deslocamento. Possamos ampliar nossa pastoral da acolhida para atuar sem sair das casas. Ofereceremos ao longo desse tempo a hipótese de outras experiências nas ekklesia das famílias. Quem sabe daí sairão novos aprendizados para as estruturas paroquiais. A proclamação e a partilha da Palavra podem ser celebradas de forma reconfortante nesses pequenos espaços de amor.

Temos a oportunidade de buscarmos novos hábitos que ajudem a difundir um estilo de vida mais natural, cuidando da higiene, da alimentação e da prática de exercícios físicos. Certamente, teremos outros olhares diante das urgência que aparecerão nas propostas da Economia de Francisco (e Clara) e no Pacto Global pela Educação. O seguimento a Jesus permeia nossas experiências de vida, assim como o sol que nos ilumina e aquece, que ele nos dê sua energia e nos revigore. A Boa Nova continuará a chegar até cada um de nós em um processo inculturado de evangelização, a ser bem acolhido em nossas vidas. Uma atenção redobrada devemos ter com as pessoas mais frágeis que mais precisam de nós. Que nós lhes dediquemos mais tempo e atenção, cozinhando para elas, cuidando de sua saúde física e psíquica. Que os cuidados mais intensos, quando necessários, sejam buscados e oferecidos por uma rede a qual todos tenham acesso. Não vamos nos perder em julgamentos cheios de preconceito contra pessoas doentes ou estrangeiras, elas merecem o cuidado e a acolhida. A COVID-19 passará, o preconceito, se cultivado, permanecerá em outras manifestações desumanas. Manteremos os corações abertos para as pessoas que mais sofrerão com essa doença. James Martin, S.J. escreveu: “Da mesma forma, as pessoas que são infectadas não têm culpa. Lembre-se, de que Jesus foi perguntado sobre um homem cego: “Quem pecou, para que este homem nascesse cego?”. A resposta de Jesus: “Ninguém” (Jo 9,2). A doença não é uma punição. Então não demonize e não odeie.”

Cada cristão e pessoa de boa vontade pode buscar a alegria das rodas de conversa dentro de casa. Contar as histórias e os descaminhos que nos trouxeram até aqui. Relatar os fatos que deram sentido às nossas vidas. Ouvir os mais velhos, rir com os mais jovens, brincar com as crianças em um tempo de ócio criativo. Deixar o tempo do qual desfrutamos mais leve e agradável. Ligar para as pessoas que amamos, fazer uma “live” coletiva, contar sobre as aventuras comuns de cada dia. Construir crônicas de sentido para nossas vidas comuns. Compartilhar esperanças.

Agora podemos recomeçar a nos ocuparmos de algumas das atividades que deixamos para depois (elas sempre ficam para depois): ler um livro que já está separado, estudar um instrumento musical de nosso desejo e que nos eleva a alma humana, investir em algum tipo de arte (a arte em nós é sempre transgressora de nós mesmos), organizar nosso espaço da casa que há muito necessita de atenção, separar coisas das quais nem precisamos mais, acabar aquele trabalho da faculdade que merece nosso tempo, escrever para as pessoas amigas, que agora estão fisicamente distanciadas de nós, e deixá-las saber de sua importância em nossas vidas.

Nosso pensamento e nossas ações pastorais sempre buscaram reafirmar a importância das relações presenciais, pois elas nos desinstalam de nossa zona de conforto e nos mantêm abertos à alteridade e seus desafios inerentes. Cremos que essa certeza permanecerá entre nós. Esse modo caloroso de romper nosso egoísmo e valorizar os espaços de encontro com as pessoas nos grupos e coletivos sairá dessa crise fortalecido. Agora, no entanto, até certo ponto, nos valeremos muito dos recursos virtuais. Que estes sejam usados para promover o bem em nossas comunidades e coletivos. Após esse tempo retomaremos o calor humano, os abraços, as músicas, as celebrações em festas. Amar as pessoas, conforme nos lembra a primeira carta de São João: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama, nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Amados, se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro. Se alguém diz: ‘Eu amo a Deus’, e, no entanto, odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é justamente o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1 Jo 4,7-21)

Cultivar a Espiritualidade do “Bem-viver”. Uma espiritualidade arejada que busque nas relações a construção do “Bem-viver”. Uma simplicidade de quem precisa de poucas coisas para ser feliz. De quem não busca sua felicidade em coisas que tem somente preços, mas em coisas que guardam valor humano. Cultivar e perseguir a utopia de garantir a todas as pessoas o atendimento de suas necessidades básicas. E mantermos nossos sonhos de nos aperfeiçoarmos nas relações fraternas e soroternas de respeito e iluminação do nosso caminho.

Todos e todas nós sabemos que estamos diante de um grande sofrimento e vamos aprender com ele. Ao mesmo tempo, temos uma janela de oportunidade para nossa humanização. O olhar pastoral para o agora implica a esperança de que tudo passe rápido e com o menor impacto possível sobre nossas vidas. Que as ciências nos ajudem nas possibilidades de cura e de vacina preventiva. Que nossa ação pastoral nos prepare para o caminho que virá a seguir e que a Virgem Salus Populi Romani, à qual o Papa Francisco tem dedicado suas orações, nos ajude neste momento em que buscamos restaurar nossa saúde coletiva, física e mental. Tudo está interligado, como se fôssemos um. 

 

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