Por uma teologia pastoral no mundo pós-moderno. A "realidade vivida" é o coração da teologia pastoral de Francisco, segundo bispo americano

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28 Junho 2018

A “realidade vivida por homens e mulheres, crianças e famílias” e seus "sofrimentos, desafios e alegrias" estão no centro de "um momento de renovação teológica explícita que contribuirá enormemente para a propagação do Evangelho neste novo milênio", disse o bispo de San Diego Robert McElroy, em discurso na assembleia anual da Associação de Padres Católicos dos Estados Unidos (AUSCP) realizada 25-27 de junho em Albuquerque, Novo México.

A reportagem é de Dan Morris-Young, publicada por National Catholic Reporter, 27-06-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

A compreensão da "teologia pastoral emergente" delineada e promovida pelo Papa Francisco "nos chama à ação pastoral e ao ethos do próprio Senhor", e é "altamente sintonizada com os desafios e a cultura do século XXI", disse McElroy aos participantes da Assembleia.

McElroy declarou que "a metodologia ver-julgar-agir" que sustenta esse entendimento da teologia pastoral "está enraizada no mundo como ele é, ao invés do mundo como se imagina ser."

"A teologia pastoral do Papa Francisco" disse ele, "rejeita uma noção de direito que pode ser cego à singularidade de situações humanas concretas, de sofrimento e limitação humana".

A exposição foi intitulada "Pastoral Theology for a Post-Modern World” (Teologia Pastoral para um mundo pós-moderno, em português). McElroy exortou os católicos a:

  • Banir "'julgamentalismo' da vida da Igreja, e o substituir pelo amor constantemente afirmado de Jesus Cristo";
  • Abraçar o princípio de que a "experiência vivida da situação de pecado e a conversão humana são vitais para a compreensão do atributo central na relação de Deus para conosco, que é a misericórdia";
  • Perceber que "a teologia pastoral do Papa Francisco exige que a vida litúrgica e sacramental da Igreja seja formada em relação compassiva com os desafios de vida que muitas vezes impedem homens e mulheres a viverem em conformidade adequada com os desafios do Evangelho durante certos períodos de suas vidas."

O bispo fez a plateia de mais de 200 participantes da AUSCP reagir quando disse que os opositores de certos "pontos da missão pastoral do Papa Francisco" muitas vezes argumentam que a "doutrina não pode ser substituída pela pastoral", contudo "é igualmente importante reconhecer que a pastoral não pode ser eclipsada pela doutrina."

De "maneira extremamente importante, a visão da teologia pastoral abraçada pelo Papa Francisco é uma rejeição da tradição que vê a teologia pastoral como um mero derivado", disse McElroy.

Participante ativo nas discussões em encontros nacionais dos bispos americanos, McElroy foi aplaudido como "um verdadeiro padre do Vaticano II e bispo de Francisco."

Durante o encontro da Conferência Episcopal americana no meio de junho em Fort Lauderdale, McElroy estava entre os bispos que pressionaram no sentido de mudar radicalmente ou substituir o Guia quadrienal da conferência destinado aos católicos sobre como abordar questões relativas à eleição, chamado “Forming Consciences for Faithful Citizenship” (Formando Consciências para uma Cidadania Fiel, em português).

Ele e outros argumentaram que o documento como está não incorpora adequadamente os ensinamentos de justiça social de Francisco nem faz referência aos atuais eventos "que nos traumatizaram como país".

"Teologia pastoral para um mundo pós-moderno"

(Leia todo o texto do discurso do bispo de San Diego Robert McElroy em inglês aqui)

Após observações introdutórias, McElroy começou sua apresentação formal, dizendo: "Estamos vivendo um momento maravilhoso na vida da Igreja."

"A autêntica renovação do Concílio Vaticano II continua a ser a base e o desafio para aqueles que procuram aprofundar a teologia da Igreja e a trazer a vida no mundo", explicou.

"O apelo do Papa João Paulo II para a Igreja testemunhar constantemente a Cristo e o desafio do Papa Bento XVI para confirmar a verdade em uma época de relativismo, guia a comunidade católica em seu discernimento e em sua ação. O chamado ao discipulado missionário emoldura a vocação para cada mulher e o homem cristão."

Segundo McElroy, o "surgimento desta teologia pastoral no presente pontificado carrega uma semelhança impressionante em relação à renovação teológica nos anos que antecederam o Vaticano II."

Como exemplos, ele citou os movimentos pós-Segunda Guerra Mundial "de intensa riqueza teológica", incluindo os avanços nos estudos das Escrituras, recuperação do "histórico da vida litúrgica da Igreja" e "a reflexão sustentada sobre a natureza da Igreja como uma fonte para o aprofundamento das celebrações sacramentais contemporâneas."

Estes elementos eram parte de "uma ampla investigação teológica que permitiu aos bispos do Concílio refletir sobre os desafios da Igreja no mundo moderno, munidos com insights robustos para a proclamação do Evangelho no século XX."

O crescimento hoje “de uma teologia pastoral abrangente” paralelo "ao florescimento da teologia moral e ecumênica no período pós-conciliar", argumentou, "e a contínua expansão da doutrina social da Igreja, forma uma Igreja verdadeiramente global".

No entanto, disse o bispo, "de forma muito real, o momento pastoral que estamos testemunhando hoje ... é diferente destas renovações teológicas prévias, pois cada uma delas ocorreu dentro de um campo reconhecido de reflexão especificamente teológico."

"O desafio da teologia pastoral não é apenas delinear a substância de suas ideias ... mas também de demonstrar que este é um ramo realmente significativo da teologia."

Para McElroy, a teologia pastoral "chama a ação pastoral a reivindicar seu lugar legítimo no enquadramento da vida e da crença da Igreja Universal, em arranjo com os tradicionais empreendimentos teológicos de dogma, estudos bíblicos, teologia moral, eclesiologia, teologia litúrgica e espiritual."

Historicamente, apontou, a teologia pastoral "que surgiu como um importante elemento da reforma do sacerdócio e da vida eclesial" na sequência da Reforma, era vista como "um ramo derivado da teologia" e "foi concebida primordialmente como um trabalho dos padres".

Francisco alterou radicalmente essa compreensão, ressaltou McElroy.

As perspectivas do Papa sobre a teologia pastoral "exigem que todos os outros ramos da teologia levem em consideração a realidade concreta da vida humana e os seus sofrimentos de uma forma muito mais substancial na formação de doutrina", disse ele.

Isso "exige que a teologia moral proceda da real ação pastoral de Jesus Cristo", continuou, "que não exige uma mudança de vida, mas começa com a incorporação do amor divino, prossegue à ação de cura e só então a uma conversão da ação em consciência responsável."

Para Francisco, explicou ele, "os dados da teologia pastoral são as vivências dos fiéis."

Essa realidade é encontrada dentro daquilo que McElroy chamou de as "três bases fundamentais" para essa compreensão da teologia pastoral.

Esses fundamentos, disse ele, são:

  • A "certeza de que não apenas a atividade, mas de que a própria natureza da Igreja envolve a ação pastoral para curar os corações de homens e mulheres que sofrem";
  • Reconhecimento de "que a Igreja deve espelhar a ação pastoral do próprio Senhor";
  • O princípio de "que a identidade pastoral e a ação da Igreja devem ser enraizadas nas situações de vida que homens e mulheres realmente experimentam no mundo de hoje."

"É impossível construir uma Igreja pastoral sem explicitamente investigar os sinais dos tempos e em seguida integrar os resultados ... no âmago da missão atual da Igreja", afirmou McElroy.

O bispo salientou a comparação de Francisco “da Igreja como um hospital de campanha".

"Nós temos a imagem da Igreja como um hospital de campanha, que foca precisamente nas feridas específicas que oprimem os homens e mulheres da nossa idade, bem como a nós mesmos”, disse ele à sua audiência.

McElroy citou o Papa ao dizer: "Eu vejo claramente que aquilo que a Igreja mais precisa hoje, é a capacidade de curar as feridas e enternecer os corações dos fiéis. Para isso, é preciso estar próximo. Eu vejo a Igreja como um hospital de campanha após a batalha”.

"É inútil perguntar a uma pessoa seriamente ferida se ela tem colesterol alto e sobre o nível de açúcar no seu sangue. Você tem que curar suas feridas. Depois falamos sobre o resto."

"A imagem da Igreja como um hospital de campanha aponta para a realidade de que a Igreja nunca é remota da experiência humana, nunca autorreferencial se for fiel à sua missão", disse McElroy. "A Igreja deve sempre estar implicada nas vidas reais, sofrimentos, desafios e alegrias do povo de Deus e de toda a humanidade."

O bispo descreveu o hospital de campanha metafórico como "terreno, rústico, muito parecido com o estábulo em Belém onde nosso Senhor se revelou ao mundo."

Nas observações preliminares, McElroy também usou a imagem da Sagrada Família, dizendo que as ações restritivas na fronteira dos EUA poderiam muito bem ter levado o menino Jesus, tê-lo "arrancado dos braços da nossa Mãe Santíssima".

A Diocese de San Diego faz fronteira com o México. McElroy foi franco em sua crítica da política migratória dos EUA e já tomou parte em protestos e manifestações na fronteira.

De acordo com Paul Leingang, porta-voz do AUSCP, a fala de McElroy bem como a da irmã franciscana Katarina Schuth e o padre franciscano Richard Rohr, também conferencistas na assembleia, estarão disponíveis no site da organização.

Fundada em 2011 e com base em Tiffin, Ohio, o AUSCP conta com cerca de 1.200 padres membros além de cerca de 120 apoiadores associados.

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