A dimensão pastoral da teologia - Declaração de Bogotá

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12 Junho 2018

Nos dias 4 e 5 de abril de 2018 realizou-se na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá, Colômbia, o Congresso Internacional “Medellín: 50 anos depois”. Dando mais um passo na concretização do Projeto Ibero-americano de Teologia, iniciado no encontro de 06 a 10 de fevereiro de 2017 no Boston College, nos Estados Unidos, este congresso reuniu teólogas e teólogos católicos de diversos contextos do continente americano e da península ibérica com o objetivo de refletir sobre a dimensão pastoral ou evangelizadora da teologia

O Congresso culminou num comunicado dirigido à opinião pública e à comunidade eclesial em geral, o qual segue abaixo na íntegra, assinado por todos e todas os/as participantes.

Comunicado de Bogotá
Projeto Ibero-americano de Teologia

Aprofundando o caminho iniciado no Primeiro Encontro Ibero-americano de Teologia, realizado na Escola de Teologia e Ministério do Boston College, nos Estados Unidos, de 06 a 10 de fevereiro de 2017, teólogas e teólogos católicos, provenientes de diversos contextos do continente americano e da península ibérica, nos reunimos na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá, na Colômbia, de 03 a 5 de abril de 2018, com a finalidade de continuar o diálogo teológico-pastoral entre América Latina, Espanha e a comunidade latina dos Estados Unidos. Refletimos sobre a dimensão pastoral ou evangelizadora da teologia.

Por meio deste comunicado, dirigido à opinião pública e à comunidade eclesial em geral, reafirmamos a importância de continuar com a recepção criativa do Concílio Vaticano II, aprofundando o princípio da pastoralidade, proposto por São João XXIII, para que ilumine nosso labor teológico, mantendo a atitude e o olhar promovidos pela II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, celebrada em Medellín, há 50 anos. Neste sentido:

1. Advertimos com clareza que a teologia católica no continente latino-americano e na península ibérica enfrenta hoje uma nova fase de seu desenvolvimento científico e eclesial, a partir de uma continuidade criativa com as opções de Medellín, que representam o aprofundamento conciliar, com claras repercussões eclesiológicas para a identidade e missão da Igreja universal, e para o modo como se faz teologia. Nesta fase, a teologia, como pensar crente, deve redescobrir, novamente, a pergunta que lhe orientará e deve dar identidade específica a sua relação com a filosofia e as outras ciências. Para este fim, as comunidades teológicas, inseridas nesta região da casa comum, estão chamadas a reconhecer e a promover a primazia da unidade da história humana onde acontece o Reinado de Deus iniciado por Jesus de Nazaré e sustentado por seu Espírito, que foi derramado sobre toda carne. A partir deste rumo teológico claro, a teologia elabora a recém-mencionada interpretação dos sinais dos tempos, nos contextos e cenários novos da globalização, onde as vítimas de diversas índoles são a nova expressão da exclusão global.

2. A teologia, como reflexão e desde a fé, é ato, visto que procede da práxis teologal e histórica do Reinado de Deus. Desde este horizonte, não podemos deixar de denunciar as condições indignas de vida a que estão submetidas, hoje, boa parte da humanidade. Estas realidades estão ligadas à impunidade, à corrupção, ao tráfico de pessoas, órgãos, armas e drogas, fenômenos atravessados pela violência étnica e de gênero, na qual se impõem estruturas de poder que favorecem um mundo global injusto. O estudo da desigualdade socioeconômica tão evidente demanda uma ressignificação da categoria do pobre, em cada país e em cada situação, porque esse descompasso entre pobreza e riqueza vem instalando a violência como fenômeno social transversal, cujas formas denunciamos na Declaração de Boston. Pode-se afirmar que o mundo, neste momento, é um paciente crônico que requer toda atenção.

3. Daí que uma pergunta teológica fundamental que dota de identidade e sentido próprios este fazer teológico seja o discernimento do passo salvífico de Deus, hoje, isto é, como experimentar, pensar e anunciar o Deus da vida, nesses processos e cenários de morte, onde a libertação se traduz como busca da reconciliação por meio da prática da justiça. Tarefa esta que somente se pode conseguir no interior da vida do Povo de Deus e em referência intrínseca à práxis histórica dos povos, desde uma eclesiologia de comunidades do seguimento de Cristo, que se expressam na partilha dos bens civilizatórios, na sempre nova escuta dos sinais dos tempos, em diálogo com os atores plurais no espaço público de hoje. Isso é fundamental para a elaboração de uma teologia da práxis, surgida da capilaridade da ação humana, em diálogo com a presença vivificante de Deus na única história humana, que reconhece as práticas de dignidade, resiliência e esperança das quais brotam experiências, linguagens e símbolos da Igreja-comunidade e de donde se vive e celebra antecipadamente a autocomunicação de Deus e de seu desígnio salvífico.

4. Ao refletir sobre a natureza mesma da teologia, sua especificidade e seu lugar, reafirmamos que seu fazer, como parte do seguimento de Jesus, sob o impulso do Espírito e como um serviço eclesial e social, brota da cotidianidade do povo e necessita do diálogo permanente com diversas formas de sabedoria popular e de saberes disciplinares. Dessas características da teologia, deduzem-se múltiplas considerações sobre a forma de vida, o lugar de exercício, o estilo de reflexão, a atenção aos destinatários preferenciais. O Deus de Jesus se dedica ante tudo aos que não têm possibilidade de ter possibilidades, os “deixados de fora”. Por isso, requer-se, hoje, uma teologia de olhos abertos, que perceba a realidade olhando desde as periferias e as margens. Sem essa lucidez situada, a teologia cristã perde seu caráter encarnado e profético. Porém, reconhecemos, com tristeza, que em muitos contextos não se concretiza essa conexão com a realidade, quando o(a) teólogo(a) se desvincula do trato pessoal e cotidiano com seus destinatários preferenciais. A carência desse vínculo compromete a mesma natureza “científica” do ministério teológico e converte o destinatário em objeto de estudo, em vez de sujeito e protagonista de seu próprio processo de libertação integral.

5. Neste encontro, consideramos a dimensão pastoral da teologia, em suas diversas figuras conceituais ao longo da história, a importância da comunicação como uma operação que consuma o método teológico e o chamado a uma integração entre a espiritualidade, a pastoral e a teologia. Por isso, partimos do chamado, princípio de pastoralidade, uma expressão não isenta de possíveis limitações, mas que o Papa Francisco empregou, em 2017, ao dizer que “a Exortação Evangellii gaudium brinda o marco da pastoralidade” que ele quer dar à Igreja atual. À luz da intenção pastoral que São João XXIII quis para o Concílio, aquela expressão pode designar a “nova maneira de proceder”, empregada pela Constituição Pastoral Gaudium et spes. Esta se caracteriza, entre outras coisas, como um discernimento sinodal dos Sinais dos Tempos sobre a autoridade da Palavra de Deus, recebida e vivida na fé da Igreja. Não é possível escutar a voz de Deus sem escutar “as múltiplas vozes de nosso tempo” (GS 44), por meio das quais o mesmo Deus se autocomunica à humanidade presente. Essas duas práticas – interpretação da Bíblia e da tradição cristã (DV) e a interpretação do momento presente (GS), não se podem separar. Nesse sentido, se somos fiéis a esse princípio conciliar, hoje, não é possível seguir falando de uma separação entre uma teologia acadêmica e profissional e outra pastoral e prática, senão de uma interação fecunda de diversas formas de fazer teologia a serviço da inteligência da fé e da missão evangelizadora na história.

6. Consideramos que Medellín representou, entre outros valores eclesiais, um “salto qualitativo”, ao assumir essa metodologia de reflexão como fio condutor não somente de seus textos, mas de toda a dinâmica de trabalho dessa Conferência. Nas décadas seguintes, com limitações em sua compreensão e com repetidas resistências, essa forma de racionalidade teológica, história e indutiva foi a base de várias das mais típicas expressões do catolicismo pós-conciliar latino-americano, caribenho e latino dos Estados Unidos, como: a opção pelos pobres, o acompanhamento à piedade popular, as comunidades de base, a leitura popular da Bíblia, o surgimento das teologias contextuais, o compromisso social a partir da fé, a missão paradigmática permanente. Essas expressões eclesiais ajudam a compreender o processo de conversão pastoral posto em marcha pelo atual pontificado.

7. Cremos, por isso, oportuno tomar uma renovada consciência, pois a contribuição insubstituível que essa forma de proceder conciliar, aprofundada e avançada em Medellín, brinda a configuração da identidade diversa e plural da Igreja Universal. O pontificado de Francisco representa um elo nessa grande corrente de uma igreja que deixou de ser mero reflexo para ser uma fonte. Por isso, o potencial eclesiogenético, que entende a identidade eclesial a partir de sua missão de colaboração com a construção de comunidades humanas, mostra-se como um instrumento apropriado para uma renovação atual, frente a um modelo eclesial que não está respondendo à erosão do aspecto comunitário em nossas sociedades. A construção de novos espaços onde se possa fazer essa experiência real e cristã de comunidade é fundamental para o futuro e a credibilidade da Igreja, assim como para a identidade católica do fazer teológico.

8. Não podemos ocultar as muitas limitações, e inclusive os fatores de involução, que houve nos processos de recepção conciliar nestas décadas. Precisamente, a releitura atual de Medellín, rito irreversível no processo eclesial latino-americano, desmascara a gravidade de nossos erros, a resistência para concretizar as necessárias reformas pessoais e estruturais da Igreja já advertida então, a negligência para remover os “pecados estruturais” que obscurecem o Evangelho, escandalizam os crentes e prejudicam os pobres e vítimas de nossas sociedades. Assim, a agenda de trabalho pensada, e retomada por acontecimentos posteriores, até a Conferência de Aparecida em 2007, é bem conhecida. Vale aqui a advertência formulada na introdução aos documentos de Medellín: “Não deixou de ser esta a hora da palavra, mas se tornou, com dramática urgência, a hora da ação”.

9. Uma das principais experiências destas décadas, que nos ilumina e compromete a novos aprofundamentos dessa forma de proceder do Concílio e de Medellín, é a irrupção dos pobres na vida da Igreja. Quando ela se deu, conseguiu-se suscitar, na comunidade eclesial, um redescobrimento do caráter libertador da Boa Nova de Jesus, o Cristo, uma inédita apropriação da Palavra de Deus – a Bíblia nas mãos das pessoas – uma nova criatividade na construção de comunidades cristãs a serviço da libertação de todas as formas de escravidão. Também se deu uma verdadeira eclesiogênese, que leva a um compromisso responsável da instituição eclesial com as mudanças necessárias de nossas sociedades, o que, por sua vez, impulsiona processos de evolução na doutrina.

Por tudo isso, comprometemo-nos, pessoal e institucionalmente, e estimulamos os colegas da comunidade teológica ibero-americana a caminhar juntos pelas sendas de uma teologia com sustento teologal e histórico, orante e libertadora, sapiencial e científica, sistemática e pastoral, contemplativa e profética, sinodal e serviçal, situada e universal, a serviço da humanidade e da criação inteira.

Coordenadores do Projeto Ibero-americano de Teologia:

Rafael Luciani (Venezuela, Boston College); Carlos María Galli (Argentina, Pontificia Universidad Católica Argentina); Luis Guillermo Sarasa, SJ (Colômbia, Pontificia Universidad Javeriana); Félix Palazzi (Venezuela, Boston College).

Membros Participantes deste Encontro:

Agenor Brighenti (Brasil, Pontifícia Universidad Católica do Paraná); Raúl González Fabre, SJ (España, Pontificia Universidad Comillas); Gustavo Gutiérrez, OP (Perú, Universidad de Notre Dame); Mary Jo Iozzio (Estados Unidos, Boston College); José de Jesús Legorreta (México, Universidad Iberoamericana); Carmen Márquez Beunza (Espanha, Universidad Pontificia Comillas); Carlos Mendoza, OP (México, Universidad Iberoamericana); Damián Nannini (Argentina, CELAM); Hosffman Ospino (Colômbia, Boston College); Rubén Pérez (México, CELAM); Ahída Pilarski (Peru, Saint Anselm College); Juan Carlos Scannone, SJ (Argentina, San Miguel); Carlos Schickendantz (Chile, Universidad Alberto Hurtado); Ángela María Sierra (Colômbia, Pontificia Universidad Javeriana); Alzirinha Souza (Brasil, Universidade Católica de Pernambuco UNICAP); Pedro Trigo, SJ (Venezuela, Universidad Católica Andrés Bello); O. Ernesto Valiente (El Salvador, Boston College).

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