Transparência, remédio para superar a crise dos abusos sexuais. Artigo de Thomas Reese

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28 Fevereiro 2019

“O verdadeiro trabalho de reconciliação deve começar quando os bispos voltarem para casa. Eles devem convencer seus irmãos bispos de que essa crise é séria, que eles devem proteger as crianças e remover todos os padres abusivos do ministério, e que devem ouvir os sobreviventes do abuso e fazer todo o possível para ajudá-los na sua cura. Eles devem responsabilizar-se mutuamente e ser transparentes sobre o que aconteceu e sobre o que estão fazendo para proteger as crianças.”

O comentário é do jesuíta estadunidense Thomas J. Reese, ex-editor-chefe da revista America, dos jesuítas dos Estados Unidos, de 1998 a 2005, e autor de “O Vaticano por dentro” (Ed. Edusc, 1998). O artigo foi publicado em Religion News Service, 26-02-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No último dia do encontro em Roma sobre os abusos sexuais do clero, um cardeal alemão e uma freira nigeriana, cada um a seu modo, explicaram que a transparência é o único caminho para que a Igreja Católica enfrente a crise. Eles falaram com uma franqueza incomum em reuniões de bispos, praticando a transparência que pregavam.

Em sua apresentação, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique, Alemanha, reconheceu que arquivos foram destruídos, que o silêncio foi imposto às vítimas e que os procedimentos para o julgamento dos crimes fossem intencionalmente não cumpridos.

“Os direitos das vítimas foram efetivamente pisoteados e deixados aos caprichos dos indivíduos”, reclamou o cardeal.

O que é necessário é transparência, disse ele, em que “ações, decisões, processos, procedimentos etc. sejam compreensíveis e rastreáveis”. Ele observou que uma transparência semelhante também é importante nas finanças, outra área em que ocorreram escândalos.

Embora reconhecendo o amor alemão pelas regras e procedimentos administrativos, ele disse que, na Igreja, “a administração deve ocorrer de tal modo que as pessoas se sintam aceitas em procedimentos administrativos, que se sintam apreciadas, que possam confiar no sistema, que se sintam seguras e tratadas com justiça, que sejam ouvidas e que suas críticas legítimas sejam aceitas”.

A transparência é especialmente importante para que as pessoas “possam descobrir erros e equívocos nas ações administrativas e se defender de tais ações”.

Ele argumentou que “os princípios da presunção de inocência e da proteção dos direitos pessoais e a necessidade de transparência não são mutuamente exclusivos”.

Marx chegou até a criticar a prática do sigilo no Vaticano, que impõe sanções eclesiais por revelar coisas que o Vaticano não quer expor. Ele não via nenhuma razão “por que o sigilo pontifício deva se aplicar ao julgamento de ofensas criminais relativas ao abuso de menores”.

O cardeal também pediu a publicação dos processos judiciais e a divulgação de estatísticas sobre o número de casos de abuso.

O foco de Marx nas estruturas administrativas contrasta com a ênfase do Papa Francisco na conversão e no compromisso: Francisco se concentra em mudar a cultura da Igreja, enquanto Marx se concentra em garantir que as coisas sejam feitas de modo apropriado.

Essas abordagens não são conflitantes; elas são complementares. Todas as estruturas do mundo não funcionam a menos que as pessoas estejam motivadas a fazer a coisa certa. Da mesma forma, todas as boas intenções do mundo não são suficientes se você não sabe o que fazer.

A oradora antes de Marx, sim, se concentrou na cultura da Igreja, mas fez um apelo semelhante, pedindo aos bispos que rompam com a cultura do silêncio e do sigilo que buscou proteger os abusadores e evitar o escândalo.

“Muitas vezes queremos ficar em silêncio até que a tempestade tenha passado. Essa tempestade não passará”, afirmou a Ir. Veronica Openibo, da Sociedade do Santo Menino Jesus. “É possível passarmos do medo do escândalo à verdade?”

Ela pediu não apenas a publicação dos nomes dos ofensores, mas também “um conjunto completo de informações referentes a essas situações”.

Openibo, que estudou nos Estados Unidos por três anos, contou que assistiu “Spotlight”, o filme de 2015 sobre os repórteres do Boston Globe, que expuseram o abuso de clérigos em sua cidade. Lágrimas de tristeza escorreram no fim do filme, disse ela, quando uma longa lista de casos e de dioceses foi exibida, mostrando o número de crianças atingidas.

“Como a Igreja clerical pôde ter se mantido em silêncio, encobrindo essas atrocidades?”, perguntou ela à assembleia. “A nossa mediocridade, hipocrisia e complacência nos trouxeram a este lugar vergonhoso e escandaloso em que nos encontramos como Igreja.”

Ela instou os presentes a manterem uma “tolerância zero” ao abuso sexual, sem exceções para os idosos ou para os que ocupam altos cargos.

Outras questões relativas à sexualidade que não foram abordadas de forma suficiente, segundo ela, incluem o “abuso de poder, dinheiro, clericalismo, discriminação de gênero, o papel das mulheres e dos leigos em geral”.

Ela discordou dos africanos e asiáticos que dizem que “esse não é um problema nosso em países da África e da Ásia; é um problema da Europa, das Américas, do Canadá e da Austrália”.

Tendo trabalhado por nove anos com educação sexual na Nigéria, ela ouviu muitas histórias de abuso, algumas das quais ela compartilhou. Ela falou de abusos em conventos e em casas de formação, assim como de uma menina de 13 anos atacada por um padre.

“O fato de que há enormes problemas de pobreza, doença, guerra e violência em alguns países do Sul global – disse – não significa que a área do abuso sexual deva ser minimizada ou ignorada.”

Assim como Francisco, ela vê o clericalismo no cerne da crise dos abusos. “O processo normal para o clero – no passado e ainda no presente em algumas áreas”, reclamou, “era e é dar apoio a ‘um de nós’, para evitar expor um escândalo e trazer descrédito à Igreja.”

Ela disse que se preocupa quando vê, em Roma e em outros lugares, “os seminaristas mais jovens sendo tratados como se fossem mais especiais do que todos os outros, encorajando-os a assumir, desde o início de sua formação, ideias exaltadas sobre seu status”.

Ela também desafiou o papel dos seminários menores, dizendo que o estudo do desenvolvimento humano levantou sérias questões sobre a existência de internatos para seminaristas.

Ela se dirigiu ao papa como “Irmão Francisco” e agradeceu-o “por ter tomado tempo, como verdadeiro jesuíta, para discernir e por ser humilde o suficiente para mudar de ideia, por se desculpar e agir”. Ele deve ser um exemplo para todos nós, disse ela.

A oradora conclusiva no sábado foi Valentina Alazraki, uma jornalista que cobre o Vaticano, que insistiu que uma “comunicação transparente é indispensável para combater o abuso sexual de menores por homens da Igreja”. Em sua apresentação, ela disse que os jornalistas devem ser vistos não como inimigos, mas como aliados cuja “missão é exercer o direito, o direito a uma informação baseada na verdade para fazer justiça”.

Por outro lado, “se vocês não se decidirem de maneira radical a estar do lado das crianças, das mães, das famílias, da sociedade civil”, disse ela, “vocês têm razão em ter medo de nós, porque nós, jornalistas, que queremos o bem comum, seremos os seus piores inimigos.”

Ela indicou histórias recentes no jornal semioficial do Vaticano, o L’Osservatore Romano, sobre o abuso de freiras por padres e bispos. Ela instou os bispos a jogarem na ofensiva, não na defensiva, a lidarem com esses abusos, “que não são apenas sexuais, mas também abusos de poder”.

Em conclusão, ela disse esperar que bispos e jornalistas possam “unir nossas forças contra os verdadeiros lobos”.

O sábado foi encerrado com um rito penitencial para todos os cardeais, bispos e superiores religiosos presentes no encontro. O Papa Francisco sentiu que era importante reconhecer liturgicamente os pecados contra as vítimas.

Após uma leitura da parábola de Lucas sobre o filho pródigo e uma homilia do arcebispo Philip Naameh, de Tamale, Gana, eles ouviram uma vítima de abuso que também tocou um solo impressionante e triste ao violino. Seguiu-se um exame de consciência que, com uma série de questões pontuais, perguntou aos participantes como a Igreja do seu país e como eles próprios respondiam ao abuso de crianças por padres.

O rito culminou com uma confissão de falhas, lidas pelo cardeal neozelandês John Dew, às quais a assembleia respondia: “Kyrie, eleison” – “Senhor, tende piedade”.

- “Confessamos que bispos, padres, diáconos e religiosos na Igreja praticaram violência contra crianças e jovens, e que não conseguimos proteger aqueles que mais precisavam dos nossos cuidados. (...)

- “Confessamos que protegemos os culpados e silenciamos aqueles que foram feridos. (...)

- “Confessamos que não reconhecemos o sofrimento de muitas vítimas nem oferecemos ajuda quando era necessário. (...)

- “Confessamos que muitas vezes nós, bispos, não cumprimos as nossas responsabilidades. (...)

- “Confessamos que pecamos em pensamentos, palavras e ações, naquilo que fizemos e deixamos de fazer.”

O rito penitencial foi uma conclusão comovente da conferência sobre os abusos sexuais, mas teve uma nota falsa. Os presentes, como é habitual nos ritos penitenciais, fizeram o sinal de paz e de reconciliação. Isso pareceu fora de lugar, já que aqueles com quem os bispos precisam se reconciliar, em grande parte, não estavam na sala.

O verdadeiro trabalho de reconciliação deve começar quando os bispos voltarem para casa. Eles devem convencer seus irmãos bispos de que essa crise é séria, que eles devem proteger as crianças e remover todos os padres abusivos do ministério, e que devem ouvir os sobreviventes do abuso e fazer todo o possível para ajudá-los na sua cura. Eles devem responsabilizar-se mutuamente e ser transparentes sobre o que aconteceu e sobre o que estão fazendo para proteger as crianças.

Se apenas isso acontecer, o encontro terá sido um sucesso.

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