“O celibato não leva ao abuso”. Entrevista com Hans Zollner

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28 Fevereiro 2019

A Igreja católica precisa de melhores mecanismos de controle para acabar com o abuso sexual cometido por clérigos. Assim afirmou à Deutsche Welle o padre Hans Zollner, SJ, presidente do Centro para a Proteção de Menores de Roma. O sacerdote jesuíta Hans Zollner ensina psicologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. É considerado um dos principais especialistas eclesiásticos no tema dos abusos sexuais no âmbito da Igreja católica. Desde 2014 é membro da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores e presidente do Centro de Proteção de Menores, com sede em Roma.

A entrevista é publicada por Deutsche Welle, 26-02-2019. A tradução é de Graziela Wolfart.

Eis a entrevista.

No domingo foi encerrada no Vaticano a conferência sobre a proteção de menores na Igreja. Qual é, na sua opinião, o principal resultado deste encontro do Papa com os presidentes das Conferências Episcopais e superiores de ordens religiosas do mundo todo?

O mais importante para mim é que toda a cúpula eclesiástica está decidida a levar a sério o tema do abuso sexual de crianças e jovens na Igreja, ao colocá-lo muito acima na lista de prioridades e a agir em consequência.

As vítimas, no entanto, mostram ceticismo quanto ao modo como isso será praticado em âmbito local.

Não estamos no começo de um processo, pois em muitos lugares já se aplicam medidas de prevenção: na Alemanha, em toda a Europa central. Na América do Norte o trabalho está muito avançado. Naturalmente, tudo isso pode ser muito melhor. Mas temos ali um padrão bastante bom. Em muitos outros lugares do mundo o tema também já está sendo abordado e as igrejas precisam de respaldo para pôr em prática efetivamente o que já está sendo praticado em outros locais.

O senhor falou publicamente da necessidade de examinar as "raízes sistêmicas” do abuso. O que deveria ser modificado?

Com “sistêmico” me refiro, neste caso, a questionar os tipos de mecanismos de segurança institucionais que existem para o controle. O que faz uma Conferência Episcopal quando já reelaborou suas diretrizes sobre prevenção? Como elas são colocadas em prática? Que tipo de sanção é aplicada quando as diretrizes não são respeitadas? O que ocorre quando se ignora o direito canônico? A possibilidade de um bispo de ordenar algo a outro ou de fazer que assuma suas responsabilidades, de fato, é nula. Por isso necessitamos esclarecer que estrutura opera em que nível quando se detecta que o disposto no direito canônico não é respeitado.

Não ajudaria, por exemplo, acabar com o celibato obrigatório? No relatório apresentado no ano passado pela Conferência Episcopal alemã se sustenta que o celibato obrigatório dos sacerdotes é um fator que pode favorecer o abuso.

Que a vida celibatária possa se converter, a longo prazo, em um fator de risco para o abuso, mas não só abuso de menores, como também de álcool ou outra coisa, é um assunto diferente. Para isso se necessita outra forma de proceder. Esperar que com a eliminação do celibato desaparecerá de uma vez por todas o abuso, seria muito errado. Sobretudo se olharmos o que ocorre na sociedade e em outras regiões. Há pouco vimos o relatório sobre a Igreja Batista nos Estados Unidos. Ali, nos últimos 20 anos, cerca de 700 crianças e jovens foram vítimas de abusos de pastores, todos eles casados.

Então o que é preciso fazer na Igreja para que estes crimes repugnantes não se repitam?

O mais importante é fazer o mesmo que em qualquer relação humana: que ao ter uma posição de poder, o sacerdote não se aproveite dela, ou de sua idade, diante de uma criança ou um jovem. O que deve ficar claro é que um sacerdote tem uma especial responsabilidade: a de proteger e respeitar a dignidade dos mais vulneráveis.

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