Historiadores analisam a crise dos abusos sexuais católicos

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15 Janeiro 2019

Enquanto os bispos dos Estados Unidos estavam em retiro no Seminário Mundelein, ao norte de Chicago, um grupo de historiadores católicos se reunia no centro da cidade para o seu congresso acadêmico anual. Em ambos os lugares, a crise dos abusos sexuais estava na mente das pessoas.

A reportagem é de Heidi Schlumpf, publicada em National Catholic Reporter, 10-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Embora a reunião da American Catholic Historical Association (ACHA) incluísse apresentações sobre várias coisas, como o grande Chicago Fire de 1871 e o Papa Pio IX, os participantes – que por definição geralmente se focam no passado – estavam pensando e falando muito sobre a atual crise e o que o futuro pode trazer para a Igreja.

“Eu acho que isso domina a mente de muitos historiadores católicos hoje em dia”, disse Brian Clites, diretor associado do Centro de Ciências Humanas Baker-Nord, da Case Western Reserve University, em Cleveland, onde ele também leciona Estudos Religiosos.

Clites, que está escrevendo um livro sobre a história dos movimentos de sobreviventes de abuso sexual do clero, faz parte de um número crescente de historiadores que estão estudando a questão abertamente. Mas outros – especialmente aqueles que se concentram nos séculos XIX e XX – acreditam que seu trabalho pode oferecer intuições sobre a crise atual, bem como um corretivo necessário para histórias imprecisas apresentadas por não especialistas.

“Os historiadores estão equipados profissionalmente para lidar com uma visão de longo prazo”, disse William Cossen, professor da Escola Gwinnett de Matemática, Ciência e Tecnologia, em Lawrenceville, na Geórgia.

O abuso sexual clerical “não é um fenômeno totalmente novo; ele não surge do nada”, disse Cossen, que organizou um painel sobre "Uma Igreja em crise: abusos sexuais católicos em contexto histórico”, na convenção da American Historical Association, que se reuniu em conjunto com o grupo de historiadores católicos, entre os dias 3 e 5 de janeiro.

O painel explorou como os historiadores podem ajudar a Igreja a usar mais eficazmente as lições do passado, especialmente em torno de questões de poder e autoridade na Igreja, para buscar justiça e reforma no presente. Também encorajou outros estudiosos da história a ajudar a pôr a crise da Igreja em um contexto mais amplo.

“Não precisamos apresentar soluções totalmente novas para essas questões. Já temos ferramentas para lidar com isso”, disse Cossen, que tem escrito sobre a necessidade de uma supervisão por parte dos leigos na Igreja. “Não foi a nossa teologia ou sistema de crenças que levou aos abusos sexuais, mas sim a cultura fortemente institucional que ‘ficou na defensiva’.”

Um sistema de seminários que separa os padres do restante da comunidade também contribuiu para a cultura que encorajou o acobertamento, disse a painelista Catherine Osborne, que estuda arquitetura e outras questões históricas de “espaço e lugar”.

Tal separação levou a ver os interesses dos colegas padres e da instituição como mais “fundamentais” do que os das vítimas, disse Osborne ao NCR. “Assim que você ‘aliena’ uma pessoa, o que você faz com ela se torna menos importante.”

Uma necessária precisão histórica

Osborne e outros historiadores alertaram sobre a falta de precisão ou de profundidade histórica em grande parte da discussão contemporânea sobre a crise, e alguns comentaristas culparam a adoção oficial por parte da Igreja do celibato para o sacerdócio no século XII, e outros situavam a raiz do problema nos costumes sexuais permissivos dos anos 1960. Nenhuma dessas explicações – que muitas vezes fluem a partir de crenças ideológicas – se sustenta pelas evidências históricas, disseram os estudiosos ao NCR.

Os historiadores podem dar uma perspectiva histórica sólida, disse Massimo Faggioli, professor de Teologia e Estudos Religiosos da Villanova University, na Filadélfia. “Precisamos saber mais sobre como a instituição funciona, não sobre como ela deveria funcionar, mas sim como ela é e como funciona na história.”

Para fazer isso, os historiadores podem olhar para outras grandes crises na história da Igreja, especialmente aquelas que incluíam a corrupção do clero, disse Faggioli, que está dando um curso de graduação sobre a história da crise dos abusos sexuais neste semestre.

Mas os comentaristas não deveriam ter a pressa de chamar a crise de “a próxima Reforma”, disse Clites. “Não ouvimos isso de muitos historiadores da Reforma.”

Os historiadores também podem oferecer uma visão mais profunda sobre o modo como a cultura católica e as estruturas sociais às vezes permitiram o abuso, disse Sandra Yocum, professora associada de Estudos Religiosos da Universidade de Dayton. “Não tenho certeza se nós, historiadores católicos, já fizemos isso o suficiente”, disse.

Os historiadores católicos estão divididos – e as evidências não são claras – sobre até onde a crise irá. Todos concordam que os abusos sexuais são muito antigos, mas é discutível se ele foi endêmico na Igreja Católica.

Uma falta de evidências escritas da história anterior da Igreja – em parte, devido a prováveis negação, supressão e autocensura – impediu uma análise precisa, embora Osborne pense que se poderia fazer mais para “minar” os registros dos tribunais, a correspondência dos bispos e outras fontes. Testemunhos orais de sobreviventes e os relatórios que emergem de grandes júris estão fornecendo evidências contemporâneas aos estudiosos.

Repensar a história

Um dos efeitos colaterais da crise de hoje é a necessidade de repensar as crenças anteriormente aceitas sobre a história católica, particularmente a história do “triunfo institucional” no catolicismo estadunidense.

“As coisas parecem ser diferentes”, disse Osborne, que gosta da imagem do holofote [spotlight] do Boston Globe: “Ele ilumina uma coisa específica, mas também ilumina outras coisas nas proximidades”, disse. “Vai demorar um pouco para recontar pelo menos a história do século XX de um modo que leve em conta as coisas que sabemos sobre os abusos sexuais.”

Os historiadores devem “desmantelar” algumas dessas narrativas anteriores, enquanto se esforçam para pensar nas “ferramentas críticas” certas para usar em seu trabalho, disse Kathleen Holscher, professora associada de Estudos Americanos e Estudos Religiosos na Universidade do Novo México, em Albuquerque.

A discussão sobre a crise como uma história predominantemente urbana da Costa Leste dos Estados Unidos, centrada no trauma das vítimas brancas, não se sustenta pela evidência histórica, disse Holscher, que analisou as taxas per capita de abusos publicamente denunciados nas dioceses dos Estados Unidos.

Boston e Filadélfia não estão no topo da lista, afirmou ela. Ao contrário, dioceses rurais do Oeste, como Fairbanks, no Alasca, Helena, em Montana, e Spokane, em Washington, têm as taxas per capita mais altas, disse. Todas as três incluem reservas indígenas ou escolas missionárias.

“Você não pode entender a crise nos lugares deste país onde ela foi sem dúvida pior sem pensar em questões de raça e de colonialismo”, disse Holscher, que é a nova presidente da ACHA.

O que também precisa ser revisada é a compreensão dos historiadores sobre o Concílio Vaticano II como um tempo de “abertura” na Igreja. O número mais alto de incidentes de abuso ocorreu logo após o encontro do Concílio por parte de padres formados nos anos 1940 e 1950, de acordo com o estudo do Instituto John Jay sobre a natureza e o escopo dos abusos, que foi encomendado pelos bispos dos Estados Unidos no início dos anos 2000.

“Precisamos reconhecer que alguns bispos que estão entre os mais celebrados como reformadores do Vaticano II também fizeram parte, como sabemos agora, da hierarquia que ocultou [os abusos] ou que ficaram propositadamente em silêncio”, disse Holscher.

Cossen também disse que ele e outros estudiosos estão reavaliando se os chamados “contos conventuais” sobre o abuso de religiosas no século XIX – anteriormente vistos como boatos anticatólicos – podem conter algumas alegações confiáveis.

Sem tais questões, os historiadores poderiam ser vistos, daqui a 100 anos, como “ajudantes e incentivadores” dos abusos, disse.

Mas, geralmente, levam décadas ou séculos até que os historiadores cheguem a um consenso. Poucos historiadores no congresso estavam dispostos a fazer previsões sobre o futuro, mas vários ecoaram a necessidade de buscar a verdade.

“Ainda estamos no meio do caminho (...) de uma espécie de avaliação”, disse Holscher, acrescentando que o trabalho dos historiadores exige “algumas negociações cuidadosas do passado e do presente”.

O trabalho histórico não pode apressar o julgamento, disse Faggioli. “Isso pode ser frustrante, mas eu não acho que haja atalhos”, disse, reconhecendo que as forças da ordem e outros precisam agir rapidamente.

“Mas, se quisermos a verdade profunda, intelectualmente, como Igreja, devemos estar prontos para um longo período”, afirmou, “embora, em alguns casos, isso possa nos trazer algumas surpresas”.

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