A autocracia vaticana e os bispos dos EUA. Artigo de George Weigel

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23 Novembro 2018

“O desafio dos bispos dos Estados Unidos é moderar a sua arraigada deferência a ‘Roma’ e continuar elaborando respostas para essa crise que estejam dentro da sua autoridade e que atendam às legítimas demandas por reforma do povo católico dos Estados Unidos.”

A opinião é de George Weigel, membro sênior do Centro de Ética e Políticas Públicas, em Washington, onde ocupa a cátedra William E. Simon em Estudos Católicos. O artigo foi publicado por First Things, 21-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Enquanto os bispos dos Estados Unidos se reuniam em Baltimore, no fim de semana de 10 e 11 de novembro, parecia certo que, após um dia de oração, penitência e reflexão sobre a crise dos abusos sexuais da Igreja, eles dariam dois passos importantes rumo à reforma. Seria adotado um código de conduta episcopal, responsabilizando os bispos de acordo com os padrões aplicados aos padres na Carta de Dallas de 2002. E os bispos autorizariam um mecanismo liderado pelos leigos para receber denúncias de mau comportamento, má conduta ou corrupção episcopais; denúncias consideradas críveis seriam enviadas às autoridades competentes, incluindo as de Roma.

Então, no último minuto, o cardeal Daniel DiNardo, presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos (USCCB), recebeu uma instrução de Roma afirmando que o Vaticano não queria que os bispos estadunidenses votassem essas duas medidas.

A frágil justificativa dada com a instrução era de que tais decisões deverão ser tomadas depois que os presidentes das conferências episcopais do mundo se reunirem em Roma em fevereiro, para discutir a crise dos abusos em suas dimensões globais.

O que aconteceu com a “sinodalidade” e a “colegialidade” que supostamente deveriam caracterizar a Igreja com o Papa Francisco? Que significado concebível de “sinodalidade” ou de “colegialidade” inclui uma intervenção romana autocrática nos assuntos de uma conferência episcopal nacional que conhece sua própria situação muito melhor do que as autoridades romanas?

E me poupem de mais desculpas sobre as preocupações romanas com o direito canônico. Se houvesse problemas canônicos nas propostas estadunidenses, eles poderiam ter sido resolvidos depois que os bispos tivessem feito o que tinham que fazer e que Roma efetivamente os impediu de fazer: demonstrar aos furiosos católicos estadunidenses que os bispos estão firmemente comprometidos em enfrentar as dimensões episcopais da crise dos abusos e do colapso da credibilidade episcopal que isso criou.

(E já que estamos no assunto da lei da Igreja: com que autoridade legal o cardeal Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, instruiu a USCCB a não votar em assuntos que os membros da conferência consideravam da mais grave importância? Uma parte da justificativa para essa intervenção pode ser extraída do cânone 455.1, sob a autoridade das conferências dos bispos. Mas, dada a despreocupação com o direito canônico demonstrada por Roma nos últimos anos, sem falar da série aparentemente interminável de censuras contra o “legalismo”, tais preocupações sobre o direito canônico soam falsas. Em todo o caso, e de acordo com o cânone 455.2, qualquer ajuste legal poderia ocorrer depois que os bispos dos Estados Unidos tivessem feito o que julgavam necessário para restaurar a confiança nesta situação crítica.)

Recentemente, eu passei quase cinco semanas em Roma, durante as quais eu encontrei uma atmosfera antiestadunidense pior do que eu já havia experimentado em 30 anos de trabalho dentro e ao redor do Vaticano. Uma imagem falsa da vida da Igreja nos Estados Unidos, na qual católicos ricos ligados a bispos de extrema-direita sequestraram a Igreja e estão liderando uma exasperada resistência ao atual pontificado, foi vendida com sucesso.

E, em outra ofensa contra a colegialidade, essa descrição grosseiramente distorcida do catolicismo estadunidense não foi efetivamente contestada ou corrigida pelos bispos estadunidenses que desfrutam do favor romano nestes dias.

Desentendimentos honestos – por exemplo sobre a Amoris laetitia e suas implicações para a doutrina e a prática pastoral – são uma coisa. Uma distorção sistemática da realidade, que atropela a presunção da boa vontade de um oponente que deveria guiar qualquer debate católico interno, é outra completamente diferente.

Os envolvidos nessa calúnia antiestadunidense dos bispos também podem refletir sobre sua perturbadora genealogia. Pois um dos que injetaram essa toxina na corrente sanguínea romana foi um predador sexual em série especializado no abuso de seminaristas sob sua autoridade – Theodore McCarrick, ex-arcebispo de Washington.

Os relatos da mídia sobre a recente reunião dos bispos em Baltimore geralmente acertaram: os bispos dos Estados Unidos tentaram fazer a coisa certa e foram atacados por Roma, que simplesmente não entende de abusos sexuais e de má-fé episcopal.

Mas não se pode permitir que a história termine por aqui. E a Igreja também não pode se dar ao luxo de “esperar até depois de fevereiro”.

O cardeal DiNardo e a maioria dos bispos estão determinados a acertar as contas com o horror que veio à tona, em prol do futuro evangélico da Igreja. O desafio dos bispos agora é moderar a sua arraigada deferência a “Roma” e continuar elaborando respostas para essa crise que estejam dentro da sua autoridade e que atendam às legítimas demandas por reforma do povo católico dos Estados Unidos.

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