Depois da reunião em Baltimore, como está a situação da crise de abusos sexuais

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19 Novembro 2018

Agora que baixou a poeira da reunião dos bispos dos EUA em Baltimore - que foi muito aguardada, mas acabou sendo uma grande decepção -, é hora de fazer um balanço preliminar sobre a situação atual da tentativa de responder à crise de abusos sexuais do clero.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicado por Crux, 16-11-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A pauta para a reunião atrasou-se até o final da tarde de domingo, quando o cardeal Daniel DiNardo, de Galveston-Houston, presidente da Conferência dos Bispos dos EUA (USCCB) recebeu uma carta do cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos do Vaticano, dizendo que os bispos teriam de adiar as votações relacionadas à crise de abusos sexuais até os dias 21 e 24 de fevereiro, para quando Francisco convocou os presidentes de todas as conferências dos bispos do mundo para uma cúpula sobre a proteção das crianças.

Alguns bispos sugeriram fazer uma votação não oficial sobre as propostas, sendo o foco a criação de uma comissão independente para investigar os bispos acusados de violar normas antiabuso e de um novo código de conduta. Mas isso acabou não acontecendo.

Embora pouco se saiba sobre o que aconteceu e qual é a situação a partir de agora, há algumas coisas de que estamos razoavelmente cientes.

Primeiro, aparentemente vários aspectos das medidas tinham sérios problemas no âmbito do direito canônico, o conjunto de leis da Igreja Católica. Os críticos estavam preocupados que a comissão proposta, por exemplo, concederia uma autoridade questionável aos seis leigos e três membros do clero, uma espécie de poder conjunto de supervisão com o Papa. Outros estavam preocupados que seria difícil criar mecanismos de responsabilização para a comissão, que seria uma organização sem fins lucrativos e isenta de impostos separada, financiada diretamente por dioceses, e não pela conferência.

Outros bispos ainda sentiam que o código de conduta proposto poderia ser excessivamente genérico, não deixando claro precisamente por que ações ou inações os bispos seriam responsabilizados.

Por isso, ficou óbvio para muitos observadores que se a votação tivesse acontecido, mesmo informalmente, as propostas poderiam não gerar o apoio de dois terços necessário para serem adotadas.

As propostas surgiram a partir de discussões no Comitê Administrativo da USCCB (sigla, em inglês, da Conferência dos Bispos dos EUA), entre setembro e outubro, e fontes disseram que vários dos mesmos problemas que surgiram nas discussões em Baltimore também surgiram no Comitê. A versão final das propostas só foi enviada a Roma no dia 30 de outubro, e os bispos não as viram até o início de novembro, deixando pouco tempo para uma revisão completa.

Além disso, nenhuma novidade surgiu em Baltimore sobre uma investigação do Vaticano sobre o caso do ex-cardeal Theodore McCarrick, solicitada pelo Papa Francisco no dia 6 de outubro. Segundo um anúncio de Roma na ocasião, as conclusões serão anunciadas "no momento oportuno". Essas conclusões são muito aguardadas, pelo amplo consenso de que só o Vaticano possui as respostas necessárias sobre quem proporcionou sua ascensão ao poder e quem sabia do quê e quando em relação às alegações de má conduta.

"Não se pode mais tolerar o abuso e o acobertamento. Tratar de forma diferente os bispos que tenham cometido ou acobertado casos de abuso representa uma forma de clericalismo que já não é aceitável", disse a declaração do Vaticano do dia 6 de outubro.

A discussão em Baltimore também fez emergir uma diferença geracional entre os bispos: os mais jovens muitas vezes demonstram mais vontade de ver as medidas em ação imediatamente. Muitos tornaram-se padres depois de 2002, nos termos das normas e da Carta de Dallas, e, segundo observadores, isso torna ainda mais irritante que não tenham seguido as regras e não estejam tão inclinados a aceitar o ritmo tradicional de Roma como uma explicação de por que não conseguem dar respostas sobre o caso McCarrick imediatamente.

Por fim, até agora não houve nenhum anúncio do Vaticano sobre quem vai organizar a reunião de fevereiro ou qual será a pauta. No entanto, um possível passo do Vaticano é fortalecer o papel dos Arcebispos Metropolitanos na supervisão dos bispos das dioceses menores em suas regiões - ou, se o próprio metropolitano for acusado de violar as normas, ao sufragâneo superior.

DiNardo apontou um painel ad hoc de antigos presidentes para estudar as duas opções: criar uma comissão especial ou delegar aos metropolitanos as acusações contra os bispos. Ele também pediu para o grupo considerar as diretrizes dos EUA para a publicação dos nomes dos clérigos acusados.

Com tudo isso, como fica a situação?

Para começar, os bispos dos Estados Unidos têm trabalho a fazer para modificar suas propostas antes da reunião de fevereiro, a fim de garantir que haja uma possibilidade realista de estarem à altura das exigências. Vale observar que os bispos devem se reunir novamente antes da reunião, nos dias 2 a 8 de janeiro, para um retiro de oração sugerido por Francisco. Certamente, não será uma reunião de negócios, mas será possível medir a temperatura informalmente.

Desde o início, Francisco tem pressionado os bispos a uma "conversão pastoral". Ainda deve haver um longo caminho para que o pontífice fique à vontade ao ver que os bispos levam o retiro a sério - comparecendo, para começar, e entrando no espírito de reflexão do padre capuchinho Rainero Cantalamessa sobre a missão dos apóstolos e seus sucessores.

Além disso, ainda faltam três meses para a liderança dos bispos dos EUA, em conjunto com seus aliados mais próximos, em Roma, ter de convencer os serviços competentes do Vaticano e o próprio Papa da urgência pastoral de parecerem sérios, a começar por investigar o caso McCarrick a fundo. A raiva generalizada dos Estados Unidos a respeito do que aconteceu nos últimos seis meses, juntamente com as percepções de demora na resposta, é real.

Ou seja, esperava-se que novembro fosse um mês decisivo em relação a como a Igreja dos EUA lidaria com a vergonha dos últimos meses. Mas acabou sendo mais uma parada rumo a fevereiro, então é melhor a futura reunião mostrar resultados.

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