Carta aberta do cardeal Ouellet sobre as recentes acusações contra a Santa Sé

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08 Outubro 2018

O cardeal Marc Ouellet se dirige a Dom Carlo Maria Viganò afirmando que suas acusações são uma montagem política desprovida de uma base real. Tudo isso não pode vir do Espírito de Deus. Daí o apelo: saia da sua clandestinidade, arrependa-se da sua revolta e volte a ter sentimentos melhores em relação ao papa.

A Sala de Imprensa do Vaticano publicou nesse domingo, 07-10-2018, uma carta aberta do cardeal Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, sobre as recentes acusações contra a Santa Sé.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Caro coirmão Carlo Maria Viganò,

Na sua última mensagem à mídia, em que denuncia o Papa Francisco e a Cúria Romana, você me exorta a dizer a verdade sobre os fatos que interpreta como uma corrupção endêmica que invadiu a hierarquia da Igreja até o seu nível mais alto.

Com a devida permissão pontifícia, ofereço aqui o meu testemunho pessoal, como prefeito da Congregação para os Bispos, sobre os acontecimentos referentes ao arcebispo emérito de Washington, Theodore McCarrick, e sobre as suas supostas ligações com o Papa Francisco, que são o objeto da sua surpreendente denúncia pública, assim como da sua pretensão de que o Santo Padre renuncie.

Escrevo este meu testemunho com base nos meus contatos pessoais e nos documentos dos arquivos da mencionada Congregação, que atualmente são objeto de um estudo para esclarecer esse triste caso.

Permita-me dizer, acima de tudo, com toda a sinceridade, em virtude da boa relação de colaboração que existiu entre nós quando você era núncio em Washington, que a sua atual posição me parece incompreensível e extremamente reprovável, não apenas por causa da confusão que semeia no povo de Deus, mas porque as suas acusações públicas ferem gravemente a fama dos sucessores dos Apóstolos.

Recordo que antigamente gozei da sua estima e da sua confiança, mas constato que perderia, diante dos seus olhos, a dignidade que você me reconhecia, pelo simples fato de ter permanecido fiel às orientações do Santo Padre no serviço que ele me confiou na Igreja. A comunhão com o sucessor de Pedro não é, talvez, a expressão da nossa obediência a Cristo que o escolheu e o sustenta com a Sua graça?

A minha interpretação da Amoris laetitia, que o senhor lamenta, se inscreve nessa fidelidade à tradição viva, da qual Francisco nos deu um exemplo com a recente modificação do Catecismo da Igreja Católica sobre a questão da pena de morte.

Vamos aos fatos. Você diz ter informado o Papa Francisco no dia 23 de junho de 2013 sobre o caso McCarrick na audiência que ele lhe concedeu, assim como a muitos outros representantes pontifícios com os quais ele se encontrou pela primeira vez naquele dia. Imagino a enorme quantidade de informações verbais e escritas que ele teve que recolher naquela ocasião sobre muitas pessoas e situações. Duvido fortemente que McCarrick o tenha interessado até o ponto em que você quer que acreditemos, já que ele era um arcebispo emérito de 82 anos e sem cargo há sete anos. Além disso, as instruções escritas, preparadas para você pela Congregação para os Bispos, no início do seu serviço em 2011, não diziam nada sobre McCarrick, exceto aquilo que eu lhe disse pessoalmente sobre a sua situação como bispo emérito, que devia obedecer a certas condições e restrições por causa dos rumores em torno do seu comportamento no passado.

A partir do dia 30 de junho de 2010, desde que eu sou prefeito desta Congregação, eu nunca levei o caso McCarrick a uma audiência com o Papa Bento XVI ou o Papa Francisco, exceto nestes últimos dias, após a sua decadência do Colégio dos Cardeais. O ex-cardeal, tendo se aposentado em maio de 2006, tinha sido fortemente exortado a não viajar e a não aparecer em público, a fim de não provocar outros rumores a respeito dele. É falso apresentar as medidas tomadas contra ele como “sanções” decretadas pelo Papa Bento XVI e anuladas pelo Papa Francisco.

Após o reexame dos arquivos, constato que não há documentos a esse respeito assinados por nenhum dos dois papas, nem uma nota da audiência do meu antecessor, o cardeal Giovanni Battista Re, que desse o mandato da obrigação do arcebispo emérito McCarrick ao silêncio e à vida privada, com o rigor das penas canônicas. O motivo é que, naquela época, ao contrário de hoje, não se dispunha de provas suficientes sobre a sua suposta culpabilidade.

Daí a posição da Congregação inspirada na prudência e nas cartas do meu antecessor e minhas que reiteravam, através do núncio apostólico Pietro Sambi e depois também através de você, a exortação a um estilo de vida discreto de oração e penitência para o seu próprio bem e para o bem da Igreja.

O seu caso seria objeto de novas medidas disciplinares se a nunciatura em Washington ou qualquer outra fonte nos tivesse fornecido informações recentes e decisivas sobre o seu comportamento. Espero, como muitos, que, por respeito às vítimas e à exigência de justiça, a investigação em andamento nos Estados Unidos e na Cúria Romana nos ofereça, finalmente, uma visão crítica abrangente dos procedimentos e das circunstâncias desse caso doloroso, para que tais fatos não se repitam no futuro.

Como é possível que esse homem da Igreja, do qual se conhece hoje a incoerência, tenha sido promovido em várias ocasiões, até ser investido das mais altas funções como arcebispo de Washington e como cardeal? Eu mesmo estou muito impressionado com isso e reconheço defeitos no procedimento de seleção que foi realizado no seu caso. Mas, sem entrar em detalhes aqui, é preciso compreender que as decisões tomadas pelo Sumo Pontífice se apoiam em informações das quais se dispõe naquele preciso momento e que são objeto de um juízo prudencial que não é infalível.

Parece-me injusto concluir que as pessoas encarregadas pelo discernimento prévio são corruptas, mesmo que, no caso concreto, alguns indícios fornecidos por testemunhas deveriam ter sido mais examinados. O prelado em questão soube se defender com grande habilidade das dúvidas levantadas sobre ele.

Por outro lado, o fato de que pode haver no Vaticano pessoas que praticam e sustentem comportamentos contrários com os valores do Evangelho em matéria de sexualidade não nos autoriza a generalizar e a declarar como indigno e cúmplice este ou aquele, e até mesmo o próprio Santo Padre. Acima de tudo, não é preciso que os ministros da verdade se guardem da calúnia e da difamação?

Caro Representante Pontifício emérito, digo-lhe francamente que acusar o Papa Francisco de ter encoberto com pleno conhecimento de causa esse suposto predador sexual e de ser, portanto, cúmplice da corrupção que grassa na Igreja, a ponto de considerá-lo indigno de continuar a sua reforma como primeiro pastor da Igreja, me parece incrível e inverossímil, a partir de todos os pontos de vista.

Não consigo compreender como você pôde se deixar convencer dessa acusação monstruosa que não se sustenta de pé. Francisco não teve nada a ver com as promoções de McCarrick em Nova York, Metuchen, Newark e Washington. Ele o destituiu da sua dignidade como cardeal quando se tornou evidente uma acusação credível de abuso de menores.

Eu nunca ouvi o Papa Francisco fazer alusão a esse chamado grande conselheiro do seu pontificado para as nomeações nos Estados Unidos, embora ele não esconda a confiança que concede a alguns prelados. Intua que estes não são da sua preferência, nem da dos amigos que apoiam a sua interpretação dos fatos. Mas acho aberrante que você se aproveite do escândalo clamoroso dos abusos sexuais nos Estados Unidos para atacar a autoridade moral do seu superior, o Sumo Pontífice, um golpe inédito e imerecido.

Tenho o privilégio de me encontrar longamente com o Papa Francisco todas as semanas, para tratar das nomeações dos bispos e dos problemas que afetam o seu governo. Sei muito bem como ele trata as pessoas e os problemas: com muita caridade, misericórdia, atenção e seriedade, como você mesmo já experimentou.

Ler como você conclui a sua última mensagem, aparentemente muito espiritual, ironizando e lançando dúvidas sobre a fé dele, pareceu-me realmente sarcástico demais, até mesmo blasfemo! Isso não pode vir do Espírito de Deus.

Caro coirmão, gostaria realmente de ajudá-lo a redescobrir a comunhão com aquele que é o garante visível da comunhão da Igreja Católica. Entendo como as amarguras e as decepções marcaram o seu caminho a serviço da Santa Sé, mas você não pode concluir assim a sua vida sacerdotal, em uma rebelião aberta e escandalosa, que inflige uma ferida muito dolorosa na Esposa de Cristo, que você pretende servir melhor, agravando a divisão e a perplexidade no povo de Deus!

O que posso responder à sua pergunta, senão lhe dizer: saia da sua clandestinidade, arrependa-se da sua revolta e volte a ter os melhores sentimentos pelo Santo Padre, em vez de exacerbar a hostilidade contra ele. Como você pode celebrar a Santa Eucaristia e pronunciar o seu nome no cânone da missa? Como você pode rezar o santo Rosário, a São Miguel Arcanjo e à Mãe de Deus, condenando aquele que Ele protege e acompanha todos os dias no seu pesado e corajoso ministério?

Se o papa não fosse um homem de oração, se estivesse apegado ao dinheiro, se favorecesse os ricos às custas dos pobres, se não demonstrasse uma incansável energia para acolher todos os miseráveis e lhes dar o generoso conforto da sua palavra e dos seus gestos, se não multiplicasse todos os meios possíveis para anunciar e comunicar a alegria do Evangelho a todos e a todas na Igreja e para além das suas fronteiras visíveis, se não estendesse a mão às famílias, aos idosos abandonados, aos doentes na alma e no corpo, e, acima de tudo, aos jovens em busca de felicidade, se poderia, talvez, preferi-lo a outra pessoa, na sua opinião, com atitudes diplomáticas ou políticas diferentes, mas eu, que pude conhecê-lo bem, não posso questionar a sua integridade pessoal, a sua consagração à missão e, sobretudo, o carisma e a paz que o habitam pela graça de Deus e pelo poder do Ressuscitado.

Em resposta ao seu ataque injusto e injustificado nos fatos, caro Viganò, portanto, concluo que a acusação é uma montagem política desprovida de uma base real que possa incriminar o papa e reitero que ela fere profundamente a comunhão da Igreja.

Queira Deus que essa injustiça seja rapidamente reparada e que o Papa Francisco continue sendo reconhecido por aquilo que é: um pastor insigne, um pai compassivo e firme, um carisma profético para a Igreja e para o mundo. Que ele continue com alegria e plena confiança a sua reforma missionária, confortado pela oração do povo de Deus e pela solidariedade renovada de toda a Igreja junto com Maria, Rainha do Santo Rosário.

Marc Cardeal Ouellet
Prefeito da Congregação para os Bispos,
Festa de Nossa Senhora do Santo Rosário, 7 de outubro de 2018

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