Vaticano encerra o caso Viganò, mas agora investiga os anos de Wojtyla

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08 Outubro 2018

Pouco mais de um mês após a publicação do dossiê Viganò com o pedido de renúncia do papa devido a uma gestão julgada como opaca em relação ao caso McCarrick – o cardeal estadunidense acusado de abusos sexuais de menores – Francisco confia à Sala de Imprensa vaticana uma primeira resposta oficial.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 06-10-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O papa recorda os últimos acontecimentos que levaram à renúncia de Theodore McCarrick do Colégio Cardinalício, depois que, em setembro de 2017, a Arquidiocese de Nova York “relatou à Santa Sé que um homem acusava o então cardeal de abusar dele” nos anos 1970, e anuncia a abertura de mais uma investigação.

No entanto, o texto divulgado nesse domingo, 7, não diz nada sobre o que ocorreu no passado, particularmente sobre como foi possível que o prelado estadunidense, cujas investidas sobre os seminaristas – para além dos abusos de menores – eram muito conhecidas por muitos, pode ter feito carreira tão impunemente.

Nas entrelinhas do comunicado divulgado, não por acaso, entende-se que aqui está o ponto mais delicado e embaraçoso de todo o caso: as acusações de Viganò que tinham a intenção de jogar uma sombra sobre o pontificado em curso, na realidade, estão abrindo abismos sobre a gestão anterior, particularmente sobre o pontificado de João Paulo II no qual a carreira de McCarrick começou e progrediu até o cardinalato.

Em poucos anos, McCarrick passou de padre a bispo, até cardeal, reverenciado e acolhido dentro da Cúria Romana, também em virtude das contínuas “doações” que ele era capaz de arrastar dos Estados Unidos para Roma.

A frase-chave do comunicado é a seguinte: “A Santa Sé está ciente de que, a partir do exame dos fatos e das circunstâncias, poderão surgir escolhas que não foram coerentes com a abordagem atual a tais questões”.

Substancialmente, a linha da tolerância zero aos abusos e aos acobertamentos, posta em prática por Bento XVI em diante, nem sempre foi buscada anteriormente. Na época, como bem se sabe, havia culpavelmente uma “abordagem” diferente.

E não é apenas o caso McCarrick que diz isso. Bastaria apenas lembrar o nome do predador Marcial Maciel Degollado, fundador dos Legionários de Cristo, muito protegido durante os anos wojtylianos por muitos, para abrir valas a partir das quais é difícil sair. Anos de sombras capazes de obscurecer a própria figura do papa polonês, às vezes incapaz de ver aquela podridão depois denunciada por Joseph Ratzinger na famosa Via Sacra no Coliseu em 2005, poucos dias depois da sua eleição ao sólio de Pedro.

A sensação é de que Francisco quer revelar toda a verdade, embora com tempos e modos que não seguem as lógicas do sensacionalismo e das campanhas baratas.

O papa sabe que os acobertamentos eram uma prática na Igreja de meados do fim do século XX. E que, em parte, continuaram também depois. Mas, ao mesmo tempo, está ciente de que cada caso deve ser estudado individualmente.

Outro dado significativo é o fato de que a Santa Sé, no comunicado desse sábado, nunca cita o nome de Viganò. Provavelmente, não se quer dar importância demais a ele, considerando-se até mesmo injusto que quem move acusações de omissão seja alguém que, como o próprio ex-núncio, embora conhecendo por primeiro a vida dupla de McCarrick nos tempos da nunciatura em Washington, não fez nada para denunciar.

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